domingo, 15 de setembro de 2019

Declaração do Comitê Sul-Americano da UICN sobre a crise de incêndios em vários ecossistemas naturais da América do Sul


É isso que queremos perder com nossa ganância? Foto: Carlos Ramos.

A União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN) é uma União de membros composta exclusivamente por organizações governamentais e da sociedade civil. Ele fornece às organizações públicas, privadas e não-governamentais o conhecimento e as ferramentas que possibilitam o progresso humano, o desenvolvimento econômico e a conservação da natureza .
Criada em 1948, a IUCN evoluiu para a maior e mais diversificada rede ambiental do mundo. Aproveita a experiência, os recursos e o alcance de suas 1.300 organizações-membro e a participação de  15.000 especialistas.

Preocupada com as queimadas na Amazônia, a IUCN publicou no dia 6 de setembro de 2019 uma declaração aos países da América do Sul, que a seguir transcrevemos traduzido do espanhol para o português.




Declaração do Comitê Sul-Americano da UICN sobre a crise de incêndios em vários ecossistemas naturais da América do Sul

Do Comitê da América do Sul da IUCN, expressamos preocupação e alarme pelos incêndios extensos e agressivos nos ecossistemas naturais da Amazônia, florestas tropicais e subtropicais secas, o Cerrado, o Pantanal, o Chaco e o Páramo Andinos que devastam milhões de hectares de florestas e pastagens.

Diante dessa situação premente, pedimos:
- À comunidade internacional, governos, mercados e sociedade em geral, para assumir os limites biofísicos do planeta em face do crescimento e do modo de desenvolvimento predominante que promove a desigualdade social e o uso insustentável de recursos natural, colocando em risco a sobrevivência das sociedades humanas e do mundo como a conhecemos agora;
- Às comunidades e sociedade civil, para promover uma mudança urgente de paradigma que assumia o valor intrínseco da natureza e passe a considerá-lo o maior patrimônio para gerações atuais e futuras, garantindo serviços ecossistêmicos e capacidades de adaptação às mudanças climáticas;
- Aos Governos em todo o continente sul-americano, para priorizar a conservação do patrimônio natural dos países, respeitar seu povo, descartar atividades condições econômicas insustentáveis  ​​que impulsionam o desmatamento e a queima e para que promovam políticas e regulamentos para o uso sustentável do território, de acordo com sua capacidade, respeitando valores naturais, áreas protegidas e biodiversidade.

Declaramos que:

1. As conseqüências geradas pelos incêndios na região violam os direitos dos sociedade para um ambiente saudável, afetando a saúde e a qualidade de vida da população urbano e rural;
2. As partículas finas geradas pela fumaça dos incêndios impactam saúde da população e da vida selvagem, causando lesões nos olhos, coração e migrações respiratórias e animais podem expandir doenças e particularmente algumas zoonoses;
    3. A perda de vegetação natural em áreas protegidas e territórios indígenas leva à destruição e degradação da biodiversidade e perda de serviços ecossistêmicos, afeta fontes de água, impulsiona processos de erosão e desertificação e viola nossa capacidade de avançar em direção à adaptação baseada no ecossistema;
    4. Incêndios nas florestas amazônicas, áreas secas tropicais e subtropicais, savanas e Mouros andinos, estão contribuindo para a emissão de gases de efeito estufa responsável pelas mudanças climáticas com impacto global, regional e local; interrompem o ciclo de nutrientes e o ciclo hidrológico; afetam a fertilidade do solo e condições climáticas, como chuvas, vitais para a produção agricultura e segurança alimentar;
   5. Comunidades indígenas e locais, comunidade científica e organizações ambientalistas são aliados-chave nos processos participativos de gerenciamento de riscos baseados em ecossistemas, tanto na prevenção, análise de danos e perdas quanto recuperação da biodiversidade (ecossistemas, espécies) e comunidades afetado.
  6. Aderimos e apoiamos os manifestos e declarações das comunidades científicas, ambientais e sociais que fazem apelos à ação urgente neste estado de emergência e promovem a recuperação de ecossistemas danificados e comunidades afetadas.

Apelamos aos Estados:
1. Sobre incêndios em ecossistemas naturais.
- Priorizar a atenção ao combate a incêndios e suas conseqüências, solicitando e aceitar ajuda internacional para alcançá-lo no menor prazo possível.
- Não adote uma postura partidária na análise das causas e consequências desta crise de incêndio. As reações e medidas para resolver este problema. Eles devem ser baseados nas melhores evidências científicas disponíveis.

2. Sobre a gestão de áreas devastadas por incêndios.
- Interromper a venda e a alocação do uso da terra nas regiões afetadas pela incêndios, a fim de avaliar o impacto de maneira objetiva, técnica e legal produzido.
- Garantir que nessas regiões a alteração do uso original não seja ativada, permitindo a recuperação e convidando a comunidade ambiental e acadêmica a acompanhar sua restauração com objetivos claros e verificáveis, com diretrizes que evitem uso da terra afetada por incêndios na agricultura, pecuária e colonização e envolvendo as comunidades locais.
- Estabelecer um programa internacional e interinstitucional que envolva a comunidades locais e contemplar a geração de conhecimento e avaliação de danos e perdas resultantes de incêndios, bem como recuperação e restauração nas áreas afetadas com base nas espécies nativas da fauna e flora de cada ecossistema.
- Garantir a qualidade de vida da população afetada, cuidando dos impactos sobre a saúde e favorecendo o desenvolvimento de práticas sustentáveis ​​e resilientes em nível local.

3. Sobre políticas públicas.
- Revisar as políticas e regulamentos públicos de cada um dos países que contradizem os acordos internacionais, como a Convenção sobre Diversidade Biológica, Mudança Clima, Desertificação e Secas, entre outros, e retardam a consecução dos Objetivos da Desenvolvimento sustentável; é preciso modificar o modelo extrativista  atual contrários ao patrimônio natural e produção e consumo responsáveis.
- Fortalecer as medidas de proteção, para garantir a proteção das áreas que não foram afetadas por esses incêndios graves.
- Garantir a conformidade com os regulamentos existentes que buscam manter a gestão sistemas de produção sustentáveis, respeitando a proteção das florestas e desencorajando práticas insustentáveis.
- Garantir as condições de vida da população, levando em consideração os impactos na saúde e seu bem-estar geral.
- Parar os ataques contra defensores de direitos humanos e ambientais, bem como fazer cumprir as leis que os protegem no desenvolvimento de suas atividades pela bem comum.

Do Comitê Sul-Americano da IUCN, rejeitamos as acusações, sem evidências ou fundamentos que alguns governos fizeram às organizações ambientais, ligando-os à provocação de incêndios. Nossos laços como organizações da sociedade civil estão mais fortes do que nunca para apoiar-se nesta emergência.

Várias organizações membros da IUCN na América do Sul já estão em ação, com um impacto efetivo no campo, demonstrando outra abordagem à gestão territorial, onde a valorização e conservação da natureza é possível e necessária para o desenvolvimento sustentável.

Da mesma forma, reiteramos a disposição do Comitê Sul-Americano da IUCN e de suas organizações a continuar contribuindo com suas capacidades técnicas e a favor de uma maior articulação entre organizações da sociedade civil, cientistas, organizações indígenas e camponesas, comunidades e governos locais, pela implementação das medidas aqui estabelecidas.


Comitê Sul-Americano da IUCN
Contato nos países afetados:
Comitê Brasileiro da IUCN
Comitê Boliviano da IUCN
Comitê Paraguaio da IUCN
Comitê peruano da IUCN


sábado, 14 de setembro de 2019

A Feira de Ciências do Rio Acuti-pereira




A Feira de Ciências do Rio Acuti-pereira, Portel-PA, nasceu de um debate entre Carlos Ramos, Teofro Lacerda, Odivan Correa, Nilson Correa, Claudinha Santos, Gracionice Costa e Milton Costa, no ano de 2016. Foi uma provocação feita àquelas lideranças de que era preciso avançar em áreas do conhecimento humano além do ofertado pelas instituições de ensino na região, reconhecendo os avanços na área da educação e dos educadores em sua luta para dar dignidade aos jovens. Percebia-se que alguma coisa faltava encaixar para o olhar de um futuro inter, multi e transdisciplinar. Mas o que seria?

Com os resultados do Fundo Solidário Açaí da comunidade Santo Ezequiel Moreno gerando capital socioeconômico, pensou-se que outros capitais deveriam ser desenvolvidos, outros capitais de conhecimento, capitais humanos. Sim, porque Capital do Mundo pode ser uma comunidade no seu ápice de empoderamento e aí vemos Bacurau. Capital Humano pode ser ápice do potencial daquela ou daquelas pessoas, dominado individualismo para dialogar com a coletividade, neste equilíbrio entre correntes: Capitalismo e Socialismo.

A Feira de Ciências do Acuti-pereira, realizada em seus primeiros anos na comunidade Santo Ezequiel Moreno, é, portanto, o pé-de-vento que coloca sob nossos pés descalços outras variáveis, outras ciências, juntas, misturadas e harmônicas com a vida para nos aprimorar, para que a gente evolua.

Não havia pauta em 2016. Não havia recursos financeiros em 2016. 

Havia recursos humanos, recursos naturais, vontade para o bom amanhã e muitos quitutes à base de açaí, macaxeira, mandioca e de frutas da época. 

E havia uma pergunta no ar, no éter: o que é a Ciência?

Ciência é antes de tudo uma pergunta...O que é Ciência? Ciência é uma pergunta...O que é Ciência? Ciência é uma pergunta...O que é Ciência?
Ciência é antes de tudo uma pergunta...O que é Ciência? Ciência é uma pergunta...O que é Ciência? Ciência é uma pergunta...O que é Ciência?

Redundante indagação para fazer girar o super-imã do conhecimento.

Que não tem fim.



sábado, 31 de agosto de 2019

Prosopopéia Rebelde do Dia do Fogo

Depois da floresta tristemente queimada e silenciada, nasceu uma mudinha de embaúba no meio do carvão. 

Um urubu que voava por ali comendo os cadáveres das vítimas do fogo a interpelou:

- Vejam só, também te aproveitas da morte alheia para se dar bem, oportunista do incêndio!

- Com todo respeito à sua função na natureza, seu urubu, mas não sou igual a ti que te alimenta de restos dos que viveram! Eu sou a primeira a lutar nesta terra queimada onde ninguém mais acredita que a vida pode e vai recomeçar!

- Uau! Até uma figura sinistra como eu se encheu de esperança agora. Vai lá mana, cresça por nós...

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

Lamberto, o Traumatizado: teu ato Chernobyl

Lamberto, o Traumatizado e seu filho Simone (outro traumatizado) conversavam:

"Você assistiu Chernobyl?"
"Assisti, pai".
"Reparaste que o desastre foi causado por um erro após outro erro, após outra burrada técnica, tudo regado pela arrogância do supervisor e políticos que não queriam mostrar que o Estado estava arcaico e que não admitia ser questionado mesmo se tratando de uma provável tragédia?".
"Reparei. Lembrou-me o Brasil de certa forma".
"Por que?".
"Tava na cara que quem estava para ser eleito ia atiçar 'o fogo' nas pessoas, o fogo na Amazônia, o fogo nos direitos, só que regado à estupidez de sua turma. Era uma tragédia anunciada em forma de voto".
"Então temos que evitar que se atice algo mais grave ainda!".
"O que, pai?"
"Que atice a ideia (que nem Chernobil) que a tragédia matou oficialmente apenas 3 pessoas enquanto cientistas estimam o número de vítimas da radiação entre 4 e 90 mil pessoas ao longo dos anos!".
"Caramba! É mesmo... mutuns, tatus, tamanduás, castanheiras, borboletas, igarapés, o casal que morreu abraçado, negros, mulheres, ativistas, indígenas, pessoas com deficiência, idosos, LGBTs... quantos milhares tem sido mortos por este incendiário?".
"Não sei, filho, é uma radiação que ainda se espalha...".



Sem Trauma?




terça-feira, 27 de agosto de 2019

Resistência Versus Colônia

Eu nasci em um município colonizado para fins madeireiros. Sua indústria (de capital internacional) que não pensara no futuro, faliu. 

Eu cresci em uma cidade colonizada para fins de celulose. Sua fábrica (de capital gringo) que mascarara o real interesse nos minérios, vive esticando a falência.


Eu ando por aí vendo regiões na Amazônia sendo exploradas, sem a real participação das pessoas no tecer do bem-estar das próximas gerações.


Colônia? Colônia? Aqui, ali, acolá, às vezes tenta vir de drone com GPS ou simplesmente taca fogo na mata nesta relação doentia entre sequestrador e sequestrado.


Só que felizmente eu conheci a Resistência.


E ela é tuíra, peconhada, de frutas diversas, de peixes diversos.


Marés que molham meus pés descalços.




quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Carta de uma jovem de Curralinho, Marajó, preocupada com a Amazônia

A seguir a carta de Alessandra Castro, jovem de Curralinho, Marajó, demonstrando sua preocupação com o desmatamento na Amazônia:



domingo, 18 de agosto de 2019

Andra Lúcia Chaves Ataíde: Afuá, Cidade das Bicicletas


Foto: Gilbson Campos.


Andra Lúcia Chaves Ataíde[1]

Afuá é uma cidade situada ao Norte do Brasil, na Contra Costa do Arquipélago do Marajó. Sua infraestrutura endógena é caracterizada por construções suspensas de palafitas típicas da região amazônica, arquitetura vernacular de influência ribeirinha e traços indígenas. É uma cidade viva com cores fortes e marcantes que encanta arquitetos, fotógrafos, pesquisadores e estudiosos de diversas áreas.


As bicicletas chegaram na cidade de Afuá por volta da década de 1980, quando os moradores sentiram a necessidade de se locomover com um meio de transporte mais rápido, que se enquadrasse a realidade física estrutural da cidade.

As ruas são suspensas, com 3 (três) metros largura, cerca de 1 (um) metro de distância do chão e em certos trechos a distância pode chegar a 1,5 (um metro e meio). Este aspecto está em função da área de várzea onde a cidade fora construída, sujeita a inundações temporárias, no período da maré lançante, principalmente no mês de março.

Sua extensão viária, de aproximadamente 36.000 m² de ruas ou de ciclovias, faz com que a cidade pedale dia e noite. As pessoas transitam diariamente a pé, de bicicleta, de triciclos e no mais belo veículo ecologicamente correto, “o bicitaxi” (veículo construído da junção de duas bicicletas, com capotas, volante, assentos para quatro pessoas, sendo que duas pedalam e duas vão nos bancos do carona). Existem modelos de bicitaxis inusitados que deixam turistas e visitantes vislumbrados como a “Viúva-Negra”, o “Hulk”, o “Batman”, o “Jipe”, o de “Madeira”, entre outros modelos mais simples que são confeccionados de acordo com as necessidades e características do proprietário.

A cidade das bicicletas é cheia de encantos do nascer ao pôr do sol, um passeio de bicicleta ou de bicitaxi pela cidade das palafitas. São cores marcantes como o amarelo, o vermelho, o verde, suspensas, apreciando as estilosas casas coloridas, que nos proporcionam indagações e questionamentos: como eles criam essas casas? Quando a maré sobe e inunda a cidade eles não ficam com medo? Aqui todo mundo anda de bicicleta?

Estima-se que no município existam 9.567 (nove mil quinhentos e cinquenta e sete) bicicletas na zona urbana. Segundo Rocha, (2017), 75,86% dos indivíduos que residem na sede do município andam de bicicleta e 24,14% se locomovem de bicitaxi ou triciclos.

Foto: Gilbson Campos.





REFERÊNCIAS

PREFEITURA DE AFUÁ. Plano Diretor do Município de Afuá. Secretaria Municipal de Infra-estrutura (SEMINF) Departamento Técnico, Afuá-Pa, 2006;

ROCHA; Marlysse Carla da Silva. Quando a cidade convida: lições de urbanidade e configuração em assentamentos limitados. Dissertação de Mestrado. UNB.  Brasília, 2017.




[1]Bacharel em Turismo, Esp. Em Docência do Ensino Superior, Funcionária Pública da Secretaria Municipal de Turismo Esporte, Lazer e Cultura de Afuá-PA. E-mail: (andrataide@hotmail.com )