sexta-feira, 15 de maio de 2026

Mais natureza e menos tecnologia é o que a Amazônia precisa



Por Manoel Tourinho e Roberta Coutinho.

15 de maio de 2026.


Um livro polêmico, mas um bom livro. Está no mercado. O livro se chama: “Amazônia. Ocupação, problemas socioambientais e desenvolvimento sustentável”. Editado pela Editora Vozes, em 2025. A “Vozes” merece respeito, e o autor idem. Francisco Benedito da Costa Barbosa, Barbosinha, como é chamado por seus colegas, inclusive por Tourinho, seu colega de turma. Barbosinha é Agrônomo, formado por aqui mesmo. Conhece o que escreve e defende o que escreveu. Pois bem, a obra tem 690 páginas, que acomodam 15 capítulos encapsulados em três partes. Uma extensa bibliografia de apoio, que dá ao autor a capacidade de cotejar números e interpretações que vão desde a economia da Hevea ao extrativismo madeireiro, atividade com impacto ambiental encoberto (sic), atrelada à pecuária ultraextensiva. Aborda as ações ambientalistas, como o zoneamento ecológico e econômico da BR-163, e faz loas à chegada da produção agropecuária e florestal sustentável, baseada nas ciências agrárias e suas diferenciações disciplinares.

Alfredo Homma, um notável da EMBRAPA – Amazônia Oriental, refere-se ao livro como uma “minienciclopédia sobre 15 temas sensíveis sobre a Amazônia, atualmente com desinformação e preconceitos, e sem antíteses”. A bem da observação muito pertinente do agrônomo cientista da EMBRAPA, é urgente convocar um livre debate sobre as antíteses.  Mas um debate que permita aos tesistas não serem desconsiderados porque trazem teses que desagradam um dos lados, ou que deixe o tesista falar e depois simplesmente se fazer de rogado diante das suas observações e propostas. Essa postura ficou muito visível e acentuada nos debates encetados na COP-30, quando rentistas e invasores da natureza amazônica se enfiaram em “bunkers” de proteção às ideias contrárias vindas dos movimentos sociais das minorias, como, por exemplo, a tese das tecnologias pesadas e inadequadas à natureza amazônica.

Um capítulo relevante nesse tipo de debate é o capítulo 9, que tem como título: “A crescente perda do capital natural”. Essa parte do livro tem a ver com a natureza amazônica e tecnologias. Daí o título desse artigo: “Mais Natureza e menos Tecnologia”, porque são as tecnologias brindadas nos sistemas de produção dos novos “modus economicus”, as responsáveis pelo desastroso manejo da natureza amazônica, conforme a leitura permite avaliar e verificar a inexistência de uma ética – ou éticas - orientadora de relações amorosas entre o homem, a natureza e o amor divino. Na nossa região, as paixões governam as ações, tanto aquelas vindas da economia privada quanto aquelas vindas do setor público governamental, conduzindo a erros grosseiros que agridem a natureza.

No que tange essa chamada, dois comentários são pertinentes, ambos abordados no livro de Francisco Barbosa, acima mencionado: o primeiro diz respeito ao zoneamento ecológico-econômico da BR-163. O governo propõe um ordenamento do território sob influência do eixo rodoviário. O setor privado, movido por suas paixões e sem nenhuma ética com a natureza, muda aquilo que foi planejado. A própria EMBRAPA foi muito envolvida com a proposta. A UFRA criou um campus em Santarém, iniciando as suas atividades de extensão, pesquisa e ensino com a engenharia florestal, com o propósito de trazer alternativa à expansão da soja que descia do Planalto Matogrossense em direção às terras baixas da Amazônia, às margens do rio Amazonas. Então, em seu livro, o autor Barbosa assim se expressa sobre o assunto: “Observa-se que as tentativas com o Plano de Desenvolvimento Regional Sustentável para a área de influência da Rodovia BR-163 (DES-BR 163), o Zoneamento Ecológico-Econômico da BR-163 e a extensa legislação ambiental não conseguiram, até o presente, seu objetivo maior que é a preservação e a produção sustentável nessa área e, ampliando-se o foco, pode-se dizer que muito menos tem sido conseguido em toda a Amazônia Legal”, como vem acontecendo com o uso da terra na região da rodovia Transamazônica (BR-230), cuja concepção simbolizou a conquista da Amazônia pelo poder militar. Dos 4.260 Km dessa rodovia, apenas um trecho foi colonizado, de Altamira à Itaituba, ou seja, 12% deram certo em virtude dos solos de alta fertilidade, da opção pelo cultivo do cacau e da condução sociotécnica pela CEPLAC, possibilitando um manejo imitativo da natureza, sem significativas alterações nas relações sistêmicas e próprias ao uso da terra na Amazônia.

Após a intencional e maléfica desidratação da CEPLAC na região e a privatização completa dos destinos da cacauicultura, acentuam-se três fenômenos de ampla reverberação tecnológica: a “chacarização”, o remembramento das parcelas originais de 100 ha e a eliminação do manejo sombreado do cacau, com ampla exposição da planta ao sol, acentuando-se a dependência de ‘pacotes tecnológicos’ densos em capital, inclusive irrigação. Tais eventos, num futuro à vista, protocolam insucessos da colonização, além de ativar conflitos pela posse da terra. Anterior à abertura da rodovia Belém-Brasília, em 1959, a Amazônia tinha 87% dos seus ecossistemas inalterados, e as atividades de uso da terra ocupavam apenas 1,8% do território amazônico, segundo Barbosa. 

Não se trata de usar tais números e comentários com o propósito de defender a Amazônia como santuário intocável. Não, não é isso. Mas usar tecnologias inadequadas é uma questão de má fé. Isso vem acontecendo com a justificativa das necessidades de atender aos mercados, os quais vivem de costas para a natureza, para a cultura local. Essas tecnologias são responsáveis pela perda das capacidades substantivas da natureza amazônica, levando-a às fronteiras do “ponto de não retorno” das essencialidades qualitativas e quantitativas. Até mesmo ecossistemas com história biogeoquímica de retorno estão ameaçados. Refiro-me às várzeas, cuja dinâmica pedológica e florestal se vê ameaçada pela composição físico-química dos seus sedimentos, formadores dos solos de várzea. As más tecnologias aplicadas nas terras altas para a produção agropecuária são indutoras da perda do capital natural: as taxas de erosão e deposição na bacia dos rios amazônicos são bem próximas, e na medida em que os atuais padrões de uso da terra forem permanecendo, ocorrerá a correspondente alteração do material depositado. Nesse sentido, infelizmente, a perda do capital natural será cada vez mais crescente e volumosa. 



Manoel Tourinho é agrônomo, professor aposentado da Universidade Federal Rural da Amazônia – Belém/PA, ex-militante da CEPLAC/ Bahia.

Roberta Coutinho é agrônoma, mestre em Solos da Amazônia e pesquisadora do GPGESA da UFRA, Belém.



domingo, 10 de maio de 2026

Crônica para lembrar de bons homens

Era uma segunda-feira de maio. Ajeitei-me para seguir para a universidade. Nesse dia eu participaria do sorteio do tema da prova didática em um concurso para professor substituto, cuja aula do tema sorteado seria ministrada no dia seguinte. Pedi o serviço de carro por aplicativo. Deivid o motorista do carro chamado. Viagem normal até chegar próximo ao Parque do Utinga. Nosso carro bateu na traseira de um outro veículo. Um susto com a freada brusca. O que estava engarrafado, ficou pior com nosso acidente. A condutora do outro carro saiu para ver o pequeno estrago. Não sou muito entendedor de automóveis, mas tive a impressão de pouco impacto no veículo. Deivid também saiu pra dialogar. Fiquei observando a conversa deles no meio da pista. Ela estava nervosa perto de um homem desconhecido, que envolvia uma batida de carros, com um monte de gente buzinando e num tempo em que pipocavam nas redes sociais as monstruosidades masculinas em várias regiões do país, não que não houvesse antes, mas as telas explodiam de casos. Ela segurando o celular com as mãos trêmulas. Deivid foi solícito:  

- Estou sem razão dona, o que for para ser pago, vou pagar. Não se preocupe.

- Estou falando com meu namorado, pois ele entende de carro melhor que eu. O prejuízo é de 500 reais.

- Tranquilo. Me diga qual o seu pix?

Transação feita. Ela seguiu. Nós seguimos.

Deivid comentou comigo:

- Ela tava muito nervosa. Acho que ela pensava que eu iria tratar mal, gritar, intimidar. Sou desse tipo de homem não. Sei que tem muito cara escroto por aí... Mas seu Carlos, que horas o senhor tem que chegar?

- Antes das 8 horas.

- Rapá, bora então.

Chegamos na universidade. Adentrei a sala onde se realizaria o sorteio às 7h59min. Uma moça chegou 8h02min e não conseguiu participar. Foi por pouco. O tema sorteado para a prova didática foi Governança e Manejo dos Recursos Naturais.

Passei o dia fazendo plano de aula. Pedi para minha filha imprimir. Preparei a aula de noite após a dormida do meu filho. Terminei de preparar minha aula por volta de meia-noite. Botei o despertador para tocar às 5h30min.

  Acordei, fiz o café, adiantei algumas coisas para a ida de Neri e Vicente para a terapia, tudo ajeitado, tudo certo. Pedi o serviço de carro por aplicativo novamente para a universidade. Eram 6h25min. O prazo máximo para estar na sala de realização das apresentações para os participantes da seleção era 7h30min.

Deu 6h30min. Nenhum carro aceitou corrida. 6h35min, 6h40min. Comecei a ficar preocupado. Às 6h45min um carro aceitou. José era o motorista. Digitei nas mensagens.

“Bom dia. Não desista de mim rsrsrs”.

Saímos às 6h50min.

- Mestre, temos que tentar a rota mais rápida possível.

- Pode deixar, seu Carlos.

E logo nos deparamos com um engarrafamento digno de assim ser chamado. Nem saída para um lado, nem para outro. Uma terça-feira. Tudo parado. Seu José fez as contas, me deu esperança, traça um plano aqui, outro acolá e em certo momento concluímos que o melhor era achar uma moto por aplicativo. Ficamos na espreita.

- Você tá fazendo corrida? – Seu José perguntou ao motoqueiro que passava com um capacete preso ao braço.

- Tô não, tô indo buscar minha mãe.

E fomos procurando, procurando, até que eu decidi:

- Seu José, olha, eu vou descer pra procurar uma moto. Tá tudo bem, tá? É que eu preciso tentar outro meio.

- Tranquilo, seu Carlos, entendo sim. Pode ir... Mas estamos na pista do meio. Deixa eu só ver se tá limpo para o senhor abrir a porta... vai.

Segui na busca por alguma moto, já naquele sentimento de um time que precisa fazer um gol aos 48 minutos do segundo tempo e que a tática já foi pro espaço. Olhei para o relógio. 7h15min. Estou no cruzamento da Avenida Júlio César com a Almirante Barroso. Concluí que não chegaria a tempo. Só se voasse (cadê o skate voador que nos prometeram nos anos 1980??). Pronto. O jogo acabou, fiquei por uns minutos andando sem pensar pela calçada, sem saber pra onde iria. Voltei pra casa.

Chateado. Mordido. Me xingando. Mea culpa, mea culpa. Um dia todo remoendo, querendo dormir e só dormir pra passar a raiva. Mas não passava. Veio a tristeza. Veio a conclusão: o único culpado por perder a prova fui eu. Essa mania que tenho de tentar controlar o tempo. Mas quem controla? Sempre raspando, sempre nas últimas, pra pegar avião, pra pegar barco, para chegar nos compromissos familiares, nas agendas profissionais. Não era assim, fui ficando assim. Mas até barco já voltou pra me buscar, aí não fui punido. Deveria. Agora não teve jeito. Aceita e evolua, Carlos! Eu já disse que fiquei muito triste com o ocorrido? Já né?

Na sexta-feira da mesma semana, fui ao Incra. Fui de ônibus. Caminhando em uma rua em que não costumo seguir, indo para um órgão que não costumo estar, num horário fora de minha rotina, em uma cidade de milhões de habitantes como Belém, ao passar por uma borracharia, uma voz me chamou.

- O senhor conseguiu chegar a tempo? Carlos, né?

- ??

- Lembra de mim?

- Simmm. Da corrida na terça... Ahhhh, Seu... – maldita memória que tenho para nome de pessoas.

- José.

- Seu José! – E lhe dei um abraço.

- O senhor chegou a tempo pro concurso?

- Não cheguei, Seu José. Não cheguei.

- Poxa. Sinto muito. Cara, eu fiquei com a consciência muito pesada. Fiquei pensando “cara, ele precisava chegar”. Fiquei pensando nisso.

- Ô, Seu José. A culpa foi minha. Só minha.

E José começou a lagrimar. Sentiu que eu tinha perdido algo muito importante. Se colocou no meu lugar. Eu fiquei sem jeito, mas admirado de uma pessoa que só me viu uma vez na vida ter tido empatia pelo que perdi. Não sabia nem o que fazer... Ele lagrimando... rude, mas sentimental e o mais importante: humano. Pensei em soltar uma frase dessas pomposas em cerimônias de premiação: “por sua empatia para comigo, eu te lembrarei nesse momento solene que és um homem trabalhador, digno, pessoa de boas atitudes que a Humanidade precisa e deveras confiável”. Mas só pensei, porque a única coisa que pude fazer foi colocar a mão no seu ombro e dizer:

- Mano, tu és um bom homem.

 José soltou um sorriso. Ergueu a cabeça. Nos despedimos e seguimos em nossas pelejas e aprendizados.


E assim a semana terminou... em paz.

 

Pantoja Ramos.



terça-feira, 14 de abril de 2026

Carta em apoio à Dom José Ionilton Lisboa de Oliveira



Portel - Pará, 12 de abril de 2026

Ao Excelentíssimo Reverendíssimo

Dom José Ionilton Lisboa de Oliveira

Nós, da Comunidade Santo Ezequiel Moreno, localizada no PEAEX Acutipereira, município de Portel, no Marajó – Pará, representados por Teofro Lacerda Gomes e acompanhados por mais de 150 comunitários que subscrevem esta carta, manifestamos publicamente nossa firme e irrestrita solidariedade a Vossa Excelência diante dos ataques que vêm sendo direcionados à sua pessoa desde o dia 10 de abril de 2026.

Repudiamos, com veemência, toda e qualquer forma de ataque, desrespeito ou tentativa de intimidação contra sua missão pastoral. Tais atitudes não apenas ferem a dignidade de Vossa Excelência, mas também atingem toda a Igreja comprometida com os valores do Evangelho, da justiça social e da defesa dos mais pobres e vulneráveis.

Reconhecemos e valorizamos profundamente sua atuação no Marajó, marcada pela coragem, pelo compromisso com a verdade e pela incansável defesa da vida, dos direitos humanos e das populações tradicionais da nossa região. Sua presença é sinal concreto de esperança e resistência para nossas comunidades.

Reafirmamos nosso apoio total ao seu trabalho e nos colocamos ao seu lado diante de qualquer tentativa de silenciamento ou deslegitimação de sua missão. Não aceitaremos que vozes comprometidas com a justiça sejam caladas.

Nos unimos em oração, pedindo a Deus que continue lhe concedendo força, sabedoria e proteção para seguir firme em sua caminhada pastoral.

Receba nosso abraço fraterno, nossa gratidão e nossa admiração.

Atenciosamente,



Associação dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais do Rio Acuti-pereira - Ataa

Cooperativa Agroextrativista da Comunidade de Santo Ezequiel Moreno - Coopiaçá



sábado, 28 de março de 2026

Seu Codó, um mestre intuitivo

 


Manoel Codosvaldo Chaves de Souza, conhecido amplamente nas paragens do município de Gurupá como Codó, foi um dos muitos mestres e mestras que tive ao longo de minha caminhada. Homem bom, gentil, esperançoso, Codó deixou na minha mente a marca de ser uma pessoa intuitiva, palavra esta tão na moda e tecnológica em aplicativos, mas que precisa ser sempre recuperada, na qualidade filosófica do intuitivo ter uma compreensão de forma direta e quase instantânea, que antecede o uso de deduções ou conceitos trabalhados[1]. Nessa pequena homenagem que faço, minúscula diante de todo o legado de Codó, trago três passagens sobre a sua intuição e pensamento aberto à troca de ideias que testemunhei.


No primeiro exemplo que apresento, recordo do episódio de um convite que recebi de Codó para explicar uma situação envolvendo a extração de madeira em sua comunidade, São João do Rio Jaburu[2]. Durante muitos anos a espécie ucuúba (também chamada de virola) foi objeto de transação comercial entre a comunidade e uma empresa japonesa sediada no município de Breves. Codó perguntou-me: “Carlos, o que é o volume Francão??”, referindo-se ao Volume Francon, fórmula utilizada para cubar a conversão entre o volume real de uma tora de madeira para a grande peça, digamos, "retangular" a ser cortada nas serrarias. Codó continuou: “É porque a firma que compra madeira da gente só paga desse jeito, no Francão”. Na tentativa besta de ser o mais didático que pudesse ser, expliquei: “imagine uma tora de madeira, roliça. Quando medido seu volume, digo que é volume real de uma tora, considerando o que de fato ela é”. Codó concordou com a lógica e assim continuei: “imagine agora que esta tora de madeira seja cortada onde se aproveitasse a grande parte digamos ‘quadrada’, retirando as costaneiras, assim ó...”.


“Esse é o Volume Francon”.

Codó passou a mão na barba branca e pediu que eu repetisse tal explicação após o culto de domingo da comunidade. No dia combinado, repeti o raciocínio com as famílias, e na expressão de seus olhares, captei um incômodo geral. Decidi seguir um raciocínio, que Codó já tinha “pescado”:

“Vocês vendem virola pra quem?”.

“Para a firma japonesa que vem lá de Breves”, responderam.

“Pra quê ela precisa de virola??”.

“Pra fazer compensado, né?!!”.

“Como a máquina que faz compensado trabalha??”.

“Laminando!”.

“A Máquina corta??”.

“Não, a máquina desfia!”.

“Como a máquina desfia a tora de madeira?”.

Codó fez um desenho no ar numa espiral rodando para o centro.

“Como a firma paga vocês??”. 

Outra liderança desenhou um retângulo no ar.

“Égua! Tão roubando a gente faz tempo!!!!”.

 

A partir de então exigiram que o representante da firma japonesa de Breves que frequentemente visitava a comunidade passasse a pagar pelo volume real da tora e não mais pelo tal volume “Francão”, pra surpresa do comprador após tantos anos de missão na região. Codó e sua comunidade passaram a calcular volume de toras assim:

Volume real da tora em metros cúbicos = circunferência (metros) x circunferência (metros) x comprimento (metros) ÷ 12,56 (12,56 é resultado da multiplicação de 4 x p).

 

Em outro exemplo de sua força de análise, Codó ideou com João Gama e outros companheiros que a espécie andiroba precisava ser protegida do excesso de extração madeireira. A comunidade e a equipe da Fase fizeram então um levantamento florestal por meio de amostras específico para as andirobeiras, cujas informações subsidiaram o Plano de Manejo Florestal Comunitário de Andiroba da Associação dos Produtores Rurais do Rio Jaburu (Aproja)[3]. E a intuição mais uma vez estava certa: as árvores maiores estavam sumindo diante da atividade madeireira, o que levou a comunidade a mudar o rumo de uso das andirobeiras para a extração de óleo de suas sementes organizadas pelas mulheres locais. No Livro Frutíferas e Plantas Úteis na Vida Amazônica, de Patrícia Shanley[4], foi feito um desenho da situação encontrada pelo inventário:

 


Esse exercício feito com a andiroba levou a parcerias muito importantes, como a feita com a pesquisadora Marina Londres para aprofundar o estudo sobre a ecologia não somente da andiroba, mas da floresta de várzea da região[5], que juntamente com os diagnósticos socioeconômicos elaborados pela ONG FASE em parceria com o STTR de Gurupá, construíram uma consistente base documental e cientifica para a futura Reserva de Desenvolvimento Sustentável Itatupã-Baquiá, unidade de conservação administrada pelo ICMBio[6]. Codó, João Gama, Maria Lúcia, Graço, Benedito, os jovens da comunidade, mas também Valdir, Sheila, Nilza, Marina, Almir, Carlos, Sérgio, Selminha, Girolamo, Bira, Pedro Alves e Jorge são algumas das inúmeras pessoas que estiveram em um verdadeiro mutirão ambiental para a defesa dos territórios comunitários do rio Jaburu, refletido também no seu plano de uso comunitário da natureza.

Fonte: IIEB (2006)[7].

 

Em meu último exemplo da capacidade intuitiva do amigo Codó, relembro da última conversa que tivemos, na cidade de Gurupá, em 2022, agora eu também de barba embranquecida, num abraço de bons camaradas que há muito tempo não se viam. Como de costume, pediu sorrindo:

“Carlos, me explica esse tal de mercado de carbono. Quero entender o máximo porque só se fala nisso”.

E ali, na mesa da cozinha do STTR de Gurupá trocamos ideias e preocupações.

“Parece ser um negócio muito complicado mesmo. Até parece que é de propósito”.

Mais uma vez, meu amigo intuitivo acertou.

É, mano Codó... mais do que intuição, tenho fé mesmo, que tu estarás para sempre no Livro da Vida por tanta luta que travaste por todos os seres vivos.

Siga em luz pelos rios da eternidade.

 


 

 

 

 Pantoja Ramos.

 

 

 

 



[2] Relatei esse caso na série Crônicas do corte - matemática ribeira/ parte 1, disponível em https://meioambienteacaiefarinha.blogspot.com/2015/09/matematica-ribeira-parte-1.html .

[4] SHANLEY, PATRICIA. Frutíferas e Plantas Úteis na Vida Amazônica. Patricia Shanley, Gabriel Medina; ilustrado por Silvia Cordeiro, Antônio Valente, Bee Gunn, Miguel Imbiriba, Fábio Strympl. Belém: CIFOR, Imazon, 2005. 300 p. il.

[5] LONDRES, MARINA; SCHULZE, MARK; STAUDHAMMER, CHRISTINA L.; KAINER, KAREN A.

Population Structure and Fruit Production of Carapa guianensis (Andiroba) in Amazonian Floodplain Forests: Implications for Community-Based Management (Estrutura populacional e produção de frutos de Carapa guianensis (Andiroba) em florestas aluviais da Amazônia: implicações para o manejo comunitário). Disponível em https://journals.sagepub.com/doi/full/10.1177/1940082917718835 .

[7] INSTITUTO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO DO BRASIL - IIEB. Regularização fundiária e manejo florestal comunitário na Amazônia: sistematização de uma experiência inovadora em Gurupá-PA / Instituto Internacional de Educação do Brasil, Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional. – Brasília : IEB, 2006. 70 p. : il ; 28 cm. – (Projeto Comunidades e Florestas).

sábado, 21 de março de 2026

Esperançar é ter fé e não deixar a liça


 

Início este texto respondendo a uma pergunta que me fazem com frequência: por que militante da CEPLAC?  Respondo: - porque nessa Organização me fiz adepto do pensamento social contrário ao conservadorismo assentado na classe capitalista agrária-rural e no rentismo exagerado da economia cacaueira, condições caminhantes na contramão de uma vida digna para todos; persisto nesse pensamento, sem perspectiva de mudar de lado.

Aproprio-me do verbo Esperançar, que é movimentar-se, é sair do lugar, é exercitar um ativismo social e político buscando minimizar as contradições que permeiam a vida cristã, advindas do sistema capitalista de produção que, ao lado do reconhecido bem-estar, não abre mão em favorecer todo tipo de sortilégio de mal estar social e político, como guerras territoriais, tragédias ambientais, violência urbana e rural desmedidas, desigualdades do poder econômico e financeiro, a homogeneidade político-partidária impregnada de ismos (neonazismo, fascismo, militarismo), dentre outros, com seus males.

Embora não tenham o mesmo sentido, esperançar e esperança andam juntas; são irmãs siamesas. Nas tragédias diluvianas do mundo do ‘dinheiro pelo dinheiro’ a exaltação financeira da vida brada mais alto que a própria vida. As tragédias advindas, quando temperadas com Fé, é o que resta ao cristão desejoso da paz e da distribuição da riqueza e do bem estar.

O Papa Francisco I enfatizou a importância da esperança como uma virtude teologal fundamental. E várias cartas encíclicas da igreja católica abordaram a questão. Paulo VI, quando escreveu a sua carta “Populorum Progressio (Progresso dos Povos), nos fez refletir, à luz da esperança, sobre as nossas aspirações como seres humanos, sobre os desequilíbrios crescentes impulsionados pelos autos mecanismos de exclusão, arrastando o mundo para muito mais agravos do que atenuação das disparidades sociais.

Assim, esperançar é “cultivar a esperança como prática ativa e transformadora, não apenas aguardar passivamente por mudanças”. Paulo Freire, notável educador brasileiro, mundialmente reconhecido e agraciado, um cristão de nomeado olhar humano, nos ensina sobre essas expressões gêmeas: é preciso ter esperança, ele diz, “mas ter esperança do verbo esperançar, porque tem gente que tem esperança do verbo esperar. E esperança do verbo esperar não é esperançar, é espera”.

Esperançar é se levantar, é não desistir! É juntar-se com outros para fazer de outro modo. Esperançar é coletivizar-se para encontrar a unidade desejada da Laudato Sí, de Francisco.  Nessa Carta, Francisco lança um convite para um debate que nos una em torno das políticas nacionais, que favoreçam transparência nos processos decisórios; um debate que junte a filosofia, a religião e a ciência, mas sem as espetacularidades da última ou os dogmas religiosos. Conversas dialógicas mobilizando a filosofia que nos retire das cavernas onde ainda vivemos, com os mitos que nos enganam. Conversas que retornem às éticas dos filósofos construtores do pensamento moderno, a exemplo de Baruch Spinoza, cujas ideias mostram a realidade do Deus sive Natura (Deus isto é Natureza), e coloca o Homo sapiens como parte da natureza, arrepiando o clero e a ciência mecanicista das domesticações fordistas, dos pacotes tecnológicos, e das hibridações.

Nenhum ecossistema mundial precisa tanto dessa reflexão como a Amazônia continental e planetária, como uma manifestação dessa substancia única e infinita contida na expressão Spinozina. A Amazônia é um mundo multiétnico, multicultural e multirreligioso, visível nas práticas religiosas e sociais, sem as afetações do mercado financeiro e político.  A COP 30 recém realizada no Brasil, não conseguiu dar conta de todos os temas propostos e mesmo necessários para discussão ou encaminhamentos de soluções; mas todos os que conseguiram dialogar com as minorias excluídas do processo do desenvolvimento daquele território, e até mesmo da organização do Evento, alcançaram algum sucesso

Atitudes nessa direção imprimem sentido ao Esperançar, desde que se esteja na liça com olhos para ver e ouvidos para ouvir.

Sou grato à Raimunda D’Alencar, Professora da UESC-Ilhéus, pela assistência ao texto.



Manoel M. Tourinho (86a). Agrônomo e Sociólogo. Professor Aposentado da UFRA, Belém do Pará e ex-Militante da CEPLAC, na Bahia.



sábado, 21 de fevereiro de 2026

Às Vias da Vida💧



Belém, 20 de fevereiro de 2026.


O rio Madeira não é uma hidrovia.

O rio Tocantins não é uma hidrovia.

O rio Tapajós não é uma hidrovia.


Não esqueçamos que são vias da vida, que viabilizam a existência.

São corredores de água rebeldes por natureza a se esticar além do medíocre pensamento ocidental.

São calhas que recebem as chuvas, na sagrada misturas dos rios que voam, dos que correm e dos que escorregam por debaixo da Terra, carreando comida para os seres vivos.

São as ofertas de água para matar a sede de quem só quer viver e deixar viver, ao contrário das sedes de dinheiro que fazem os estúpidos babarem a morte pelo canto da boca maldita que possuem.

O rio Tapajós não é hidrovia, nem o Tocantins, nem o Madeira.

São rios da memória de nossa infância, maiores rios do mundo aos nossos olhos maravilhados que mesmo que nos distanciemos de suas águas em espaço ou no tempo, viajam nossos sonhos em igarapés de recordações sorridentes, como esse que você acabou de lançar agora ao lembrar de um mergulho.

O rio Madeira não é um transportador de soja.

O rio Tocantins não é uma rua de balsas.

O rio Tapajós não é um serviçal dos novos feudos.


São leitos de rios de gente, de histórias, lutas, espiritualidades, açaí, mapará, araras, onças, tipitis, canoas, piracaias, danças e tambaquis.

Que apesar do mercúrio, que apesar do cheiro podre do acúmulo de grãos na roda da pickup, que apesar do poder do agro e seus capachos midiáticos em nosso país; em que pese todo veneno lançado no ar como tentativa de assassinato, em que pese a ameaça dos pistoleiros, teimam os rios e seus povos em perseverar no distinto trabalho pela dignidade das vidas em ter o que comer, onde morar e onde brincar.

Porque antes de tudo, água é fonte da vida e por isso justifica-se a nossa peleja, de enveredar no debate político pelo bem do que é justo e correto para nossa amada Amazônia, de uma batalha pela proteção dos rios de nossas vidas ancestrais, presentes e vindouras.


O rio Madeira é uma via da vida.

O rio Tapajós é uma via da vida.

O rio Tocantins é uma via da vida.


Pantoja Ramos.

(Publicado no Recanto das Letras).


terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Tempos de tensão amazônica

Dia 12 de fevereiro de 2005, irmã Dorothy Stang foi assassinada em Anapu.

Eram tempos de medo entre as pessoas que lutavam por direitos na Amazônia.

Lembro que no mês de maio estava em Breves, fazendo uma palestra sobre manejo florestal e estava sem comunicação. Trabalhava na ONG Fase.

Não fazia ideia que muita gente estava me procurando por não saber onde eu estava.

Até que alguém me achou via chamada telefônica.

- Cara, onde você tá??

- Em Breves, aqui em uma reunião com o STTR de Breves. Lembram que tava agendado?

- Que susto, mano... Tá todo mundo te procurando aqui, principalmente a sua família.

- Puxa, desculpa, é que meu celular deu problema.


Assim estavam aqueles tempos.