quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

No soy un minero de oro



Pizarro, Colômbia, 2019, na sacada do hotelzinho da cidade:

- Hola, ¿eres brasileño?

- Sí, yo soy. 

- Sou brasileira, rapaz.

- Que bacana!

- Onde estás garimpando??

- Não sou garimpeiro.

- Ah tá.

(mudou a expressão).

- Tchau.

- Tchau.

Confesso, senti uma estranha vergonha.




*Fotos da cidade de Quibdó, capital do Departamento de Chocó, no Pacífico Colombiano. Lá há uma intensa atividade minerária de com destacada participação de brasileiros em busca de ouro. Imagem: Carlos Ramos.


terça-feira, 30 de novembro de 2021

Crônicas, Passageiro: Conserto do Natal



Confesso. Estava chateado com o Natal. Sequer um enfeite em casa quase chegando dezembro. Não teria motivos.

É tanta carestia que impedi até então a própria mente de desenhar uma árvore de natal, plastificada ainda por cima, como artificial se tornou a vida. De uma cultura colonizadora que esmagou a ideia indígena do que seria um final de ano (que obviamente não coincide com o Ocidente) ou de dias festivos de convite ao Amor, à Solidariedade, ao Respeito. De cultura hegemônica que insiste em não nos apresentar a belíssima espiritualidade dos povos malês, sudaneses, angolanos, moçambicanos, senegaleses em louvar a bem-aventurança. 

São tantas mortes causadas pela Covid-19 pelo hediondo governo que se apossou deste país que embrulha-me o estômago a ter que aceitar na mesma mesa aquele parente fascista convicto que votou na perversidade e também aquela parente que flerta com o ex-juiz ladrão, como se o número 17 fosse apagado de sua testa infame.

Minhas dívidas me perturbam.

Minha rua alaga toda vez que chove, num inverno amazônico esticado perigosamente este ano a mostrar que as consequências ambientais de nossos atos nos forçam a prestar contas.

E a praga de um banqueiro continua a parasitar o Orçamento Geral da União, junto com seu bando comer 40% daquilo que deveria servir ao povo.

E a praga do fazendeiro-gafanhoto permanece a derrubar milhares de árvores, antecedido pelos madeireiros criminosos. Que garimpeiros furiosamente agridem o Rio Madeira em estocadas fatais em nome da ganância.

E o preço do açaí tá aumentando para desespero de nosso sagrado hábito de beber o santo vinho de Iaçá. 

Respiro fundo e lembro Paulo Freire: "Indignação sim, raiva não... Indignação sim, raiva não...". Mantra.

E eis que surge a foto: a foto do jornalista João Paulo Guimarães, aquele que se importou com a cena anestesiada para muitos de nós. Do menino que no lixão de nossa civilização, achou uma árvore de natal usada, arrepiada, maltrapilha. Limpa, limpa, brilha seus olhos para o Natal. Percebam a íris, o olhar esperançoso para arvoreta que enfeitará sua modesta moradia. O sonho é que faz o Lar.

Estou desconcertado.

Céus! O Menino sonhou com um Natal Digno!

Céus! O Jornalista sentiu que era seu dever mostrar ao Mundo este erro da Humanidade!

Céus! A Foto rodou o país.

Céus, Padre Júlio Lancellotti elogiou, abençoou e divulgou!

Céus, que pessoas estão a ajudar o menino e sua família!

Um ato de Comunhão! Daquilo que a Santa Ceia avisava.

Como eu sou estúpido! Como poderia deixar a Esperança me escapar? Corre não, me espera Esperança!

Alcancei-a.

Ufa! Você anda rápido, hein?

Podemos caminhar? Faz tempo que a gente não conversa.

A propósito, eu já desejei para você um Feliz Natal?

Feliz Natal. 

:)


  

sábado, 20 de novembro de 2021

Crônicas, Passageiro: A Tragédia dos Não Comuns

 



Belém, 20 de novembro de 2021.


- Vejo em seus exames que sua condição está boa, sem sinais de perda auditiva.

- Que bom, doutor. Desculpe reparar, este seu quadro é bem bonito.

- Bonito mesmo, né? E bastante atual.

- Posso bater uma foto? 

- Pode sim. Trabalhas com quê?

- Sou engenheiro florestal e trabalho com comunidades rurais.

- Mas vc é petista?

- Hã?

- Você sabe que esse negócio de Comunismo não deu certo em lugar nenhum do mundo, certo? Eu já viajei à Europa e pude constatar. Fui à Polônia, conversei lá. Também fui aqui perto na Bolívia. Não deu certo também. Esse negócio é papo furado, por isso a União Soviética se lascou. A Venezuela tá lascada. E Cuba então? Nem se fala. Nunca deu certo, nunca dará.

- Doutor, vi hoje uma foto de placa pregada na parede de uma empresa que trabalha com dendê. Na placa estava escrito: "Proibido tomar água do igarapé ou qualquer outra fonte que não seja bebedouro. A Empresa fornece água potável pra você". E se a água do igarapé estiver contaminada?

- Complicado...

- É bom pensar nisso porque a água de um rio, de um igarapé é um bem comum. O que pensaria Ele ali no quadro sobre aquilo que é comum a todos?

Silêncio.

- É isso doutor? Tenha um bom dia.

Fim da consulta.



sábado, 23 de outubro de 2021

PsicoLive

 PsicoLive:

- Boa noite, Carlos.

...

- Seu áudio, Carlos. Está no mudo.

- Ops, desculpem. Boa noite, Zarazilda... Boa noite Professor Benedícrates.

- Estás bem? 

- Tô sim, escapando, Zarazilda.

- Nunca um verbo foi tão bem encaixado! Escapando rsrssr

- Concordo, Benedícrates. Mas rapára como o Carlos tá com o semblante pesado.

- Parece? Hummmm. De fato tô meio preocupado.

- Com o quê, mano?

- Em 2022 irão completar-se 10 anos que muitas famílias conseguiram suas primeiras vitórias em Portel para ter segurança da terra. Foi em 2012.

- Ahh, eu lembro. O Decreto 579, de 2012, do Governo do Estado do Pará. Decretos de Reserva.

- Isso, professor, boa memória. 

- E depois estas áreas viraram Projetos Estaduais de Assentamentos Agroextrativistas, os PEAEXs. 

- O que foi bacana, né?

- Foi sim Zarazilda. Mas ultimamente me preocupa essa corrida pelos tais créditos de carbono. Vocês acreditam que está rolando contratos de até 40 anos envolvendo empresas e estas áreas?

- Não entendi.

- É assim: empresas têm procurado as comunidades para oferecer a intermediação junto a outras empresas maiores para a venda de créditos de carbono das áreas comunitárias, já que elas possuem territórios com bastante mata. Segundo as empresas que intermediam, isso pode envolver milhões de reais em favor das comunidades.

- Hummm.

- Que foi Zarazilda?

- Eu que te pergunto, Carlos, o que tá te preocupando?

- Sei lá... Eu sei que as pessoas precisam... há muita fome... há muita carestia... Só não sei se 40 anos é um contrato muito longo pra se assinar.

- Nós não passamos pela necessidade deles. A gente não sabe, Carlos, a penúria de cada um. E lembras que muitas madeireiras chegam lá e arrebentam com tudo, outros vão lá e desmatam e as pessoas perdem tudo. Talvez seja uma oportunidade de ganhar dinheiro com a mata em pé e elas certamente sabem o que estão fazendo.

- É, professor, pode ser.

- "Pode ser" uma pinóia, Benedícrates. Até parece que isso resolve a questão.

-  Tava testando ele, Zarazilda. Queria ver se tem poder de reação. Mas espia como tá melancólico. Brocoxô.

- Olha, o que eu sei é que eu não tenho o direito de decidir por uma geração inteira lá na frente. É isso o que me incomoda. 40 anos é tempo demais. É um arrendamento por tempo demais. Chega uma hora que não se sabe se eu sou dono da terra ou já empregado dos outros, com um novo patrão.

- Carlos, a liberdade é algo pesado de se carregar...


Fim de transmissão.



domingo, 26 de setembro de 2021

Crônicas, Passageiro: volto a pedir passagem

 Belém, pensando no rio Pará, 26 de setembro de 2021. 


Peço passagem. 

Volto a viajar após 18 meses, resultado dos impactos da pandemia de Covid-19 que a todos afetou e comigo evidentemente não seria diferente. Dou graças aos céus por até o momento não ter ninguém adoecido gravemente em minha família. Somente Neri inspirou maiores cuidados, ela que chegou a ter  30% do pulmão comprometido e que se não fosse uma talentosa médica que a atendeu, talvez sofresse real perigo de morte. Ficou acamada, isolada, cuidada, cercada de amor e após 20 dias, teve alta. 

E seguindo nesses zelos, consegui abrir espaço para o sentimento de indignação e justiça, olhos fixos quando penso como BolsoDeles e sua horda serão punidos, porque certamente serão por seus crimes. Vista alerta  também para os seus cúmplices, circulantes de nossas ruas, praças, feiras e salas de jantar, capazes de promover massacres enquanto bradam pela Pátria ou por Deus de tal maneira que parecem ser arrotos das almas sebosas que adquiriram ou sempre tiveram. 

Eclodiram o que há de pior na gente.

Quando entrei na embarcação rumo a Breves e de lá para Portel, senti-me realmente mascarado, quase um fora-da-lei  tal a quantidade de rostos desprotegidos, apesar das recomendações científicas. Embebidas as mãos de álcool, caminhei dentro do navio com um infravermelho mental tentando ver cada parte da embarcação contaminada, calculando a metragem de distância entre os passageiros até atar minha rede confortavelmente separada das demais pessoas. O navio ao numerar os pontos de escápula, ajuda a diminuir os riscos.

É estranho ter que pensar assim, logo eu que fico à vontade com o contato humano e nunca me preocupei com o entrelaçado das redes. Ao contrário, achava legal aquela muvuca. Só evitava os flatulentos (risos).

E desconfiado escondido na minha baladeira, eis que revi o Rio Pará.

Rio Pará que não é rio. Peguei o celular, achei o PDF do poema que fiz e li como se fosse oração:


Rio Pará

                      Belém, 07 de Janeiro de 2015.

Rio Pará que não é rio
Leve-me pra longe
Das coisas ruins da vida
Navegue navegue navegue
Vazante vazante vazante
Vazante é meu olhar pra ti

Sobe um turbilhão de água
Sobe um turbilhão de mágoa

Rio Pará que não é rio
Diga que sou inocente
Das coisas que na terra fiz
Vai barco vai barco
Leve-me à liberdade
Decidido é meu olhar pra ti

Bate-me um forte vento
Bate-me um contentamento

Penso num banjo
A tocar para mim
Tá dizendo em suas notas
Que a vida segue

Rio Pará
Pára o rio
E começa a encher

Navego navego navego
Enchente enchente enchente
Enchente é essa fé em mim


E terminada a meditação, reparei na minha rede bastante puída, desbotada. 

- Tenho que comprar uma rede nova, pois o tempo requer. Hummm...A Humanidade também carece de uma nova rede.

Uma rede, um rio, esperança, outro caminho.

Anotei aqui.



segunda-feira, 9 de agosto de 2021

Alertas de Desmatamento no Marajó

 


Caríssimas e Caríssimos,

Ao estudar a plataforma MapBiomas, verifiquei que entre novembro de 2018 e junho de 2021, em Portel, Marajó, foram desmatados 34 mil hectares, o que equivale a cerca de 2.600 Bosques Rodrigues Alves. 


É disparado o município em que mais se desmata a floresta no Marajó.

O que a PL da Grilagem vai legitimar?

Quais os riscos que o desmatamento traz para o surgimento de novas epidemias?

Na luta pela proteção da floresta, os direitos das comunidades tradicionais serão respeitados?

É preciso se mobilizar para manejar e restaurar, pois a velocidade de desmatamento é de 37 hectares/dia. 




Não há muito tempo.


O link da plataforma MapBiomas pode ser acessado em https://plataforma.alerta.mapbiomas.org/ .




terça-feira, 27 de julho de 2021

Créditos de Carbono: 9 recomendações



Caríssimas e Caríssimos,

O que eu posso dizer? O que posso aconselhar? Não é fácil em meio a tantas dificuldades financeiras que alguém ao receber um convite de uma estratégia que oferece milhões de dólares como o mercado de carbono possa parar pra pensar. E não me recordo de tão encegueirada corrida por contratos. Tudo muito rápido. Parece fácil. Deve ser fácil, não é? 

A questão é saber se o que vem fácil, irá fácil. E não sei o que se passa na cabeça e na realidade de muita gente para evitar isso, pois a fome bate à porta e todos neste país que trabalham, inclusive eu, estamos sujeitos à carestia. 

No entanto, se eu posso aconselhar algo, seria prudência. "Mas prudência nestes tempos de fome?? Tu estás pedindo demais, Carlos!". Como disse o homem na fila lotada sem cuidados na pandemia, "prefiro a Covid do que ficar de barriga vazia". Uma frase de aparente grande esperteza que fez as pessoas rirem enquanto aguardavam a vez. 

Contudo, desculpa eu alertar, esperteza tem prazo de validade quando o substantivo não vem acompanhado de uma saída. Uma alternativa, ideia pequena que seja, num sopro de João Grilo que passeou por ali rapidamente a solucionar uma questão. 

E dito isto, aqui exponho sopros de ideias, talvez mais para o Chicó pela ingenuidade. Só que essa coisa que me persegue na mente me incomoda, e como não vejo como escapar, aceito a sina e peço como faria Chicó: "Dizei-me o que quereis...".   

E assim recomendo para comunidades agroextrativistas que estão a debater os créditos de carbono:

  1. Estudem a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho, que trata dos direitos de povos tribais e comunidades tradicionais;
  2. Fortaleçam-se em atualizar seus Planos de Uso dos Recursos Naturais para que este simples documento possa lhes garantir direitos sobre determinadas espécies florestais e agroflorestais;
  3. Construam seus protocolos comunitários de consulta prévia, livre e informada para que assim possam ter uma ferramenta que lhes sirva de escudo jurídico e judicial em caso de se sentirem lesados; tal protocolo precisa ter a mesma intensidade de comunicação para fora e para dentro da comunidade;
  4. Estudem suas florestas e a capacidade destas em proteger o clima, animais e plantas; realizar inventários florestais é um ato que deve ser do conhecimento e da prática da comunidade para que esta diga com legitimidade sobre a riqueza natural existente na região; tenham seus próprios técnicos de confiança;
  5. Tenham sob seu domínio o Cadastro Ambiental Rural de fato, sabendo seus objetivos e seu zoneamento socioeconômico e ecológico; afinal, não é vosso território? Diria Chicó: "dizei-me o que quereis...";
  6.  Tenham o acompanhamento jurídico da defensoria pública ou de advogados comprometidos com a justa relação entre as partes que estão discutindo créditos de carbono; é importante entender que se trata de um jogo internacional, onde as tratativas muitas vezes saem da alçada das leis nacionais (em outras palavras, envolvem empresas "de fora"); 
  7. Percebam que tudo que é tratado com a palavra PREÇO pode afetar aquilo que vocês possuem de VALOR. A memória das famílias, seus ancestrais não tem preço, tem valor. Uma procuração dada a terceiros pode colocar em má situação seus valores;
  8. Comprometam-se com as novas gerações, pois os acordos firmados vão impactá-las seja positivamente, seja negativamente. Tenham em conta isso antes de assinar os papéis;
  9. Em caso de dúvidas, perguntem às suas instituições e técnicos de apoio. E não se envergonhem de sentirem que há perguntas: é melhor começar na dúvida e terminar na certeza do que o contrário. 



Cresci profissionalmente vendo muitas comunidades se libertarem. 
Que bom seria se mantivessem o mesmo espírito de alerta. 



Aos mestres, escrevi.