Portel - Pará, 12 de abril de 2026
Ao Excelentíssimo ReverendíssimoDom José Ionilton Lisboa de Oliveiraterça-feira, 14 de abril de 2026
Carta em apoio à Dom José Ionilton Lisboa de Oliveira
sábado, 28 de março de 2026
Seu Codó, um mestre intuitivo
Manoel Codosvaldo Chaves de
Souza, conhecido amplamente nas paragens do município de Gurupá como Codó, foi
um dos muitos mestres e mestras que tive ao longo de minha caminhada. Homem
bom, gentil, esperançoso, Codó deixou na minha mente a marca de ser uma pessoa
intuitiva, palavra esta tão na moda e tecnológica em aplicativos, mas que
precisa ser sempre recuperada, na qualidade filosófica do intuitivo ter uma
compreensão de forma direta e quase instantânea, que antecede o uso de deduções
ou conceitos trabalhados[1].
Nessa pequena homenagem que faço, minúscula diante de todo o legado de Codó,
trago três passagens sobre a sua intuição e pensamento aberto à troca de ideias
que testemunhei.
No primeiro exemplo que apresento, recordo do episódio de um convite que recebi de Codó para explicar uma situação envolvendo a extração de madeira em sua comunidade, São João do Rio Jaburu[2]. Durante muitos anos a espécie ucuúba (também chamada de virola) foi objeto de transação comercial entre a comunidade e uma empresa japonesa sediada no município de Breves. Codó perguntou-me: “Carlos, o que é o volume Francão??”, referindo-se ao Volume Francon, fórmula utilizada para cubar a conversão entre o volume real de uma tora de madeira para a grande peça, digamos, "retangular" a ser cortada nas serrarias. Codó continuou: “É porque a firma que compra madeira da gente só paga desse jeito, no Francão”. Na tentativa besta de ser o mais didático que pudesse ser, expliquei: “imagine uma tora de madeira, roliça. Quando medido seu volume, digo que é volume real de uma tora, considerando o que de fato ela é”. Codó concordou com a lógica e assim continuei: “imagine agora que esta tora de madeira seja cortada onde se aproveitasse a grande parte digamos ‘quadrada’, retirando as costaneiras, assim ó...”.
“Esse é o Volume Francon”.
Codó passou a mão na barba branca e pediu que eu repetisse
tal explicação após o culto de domingo da comunidade. No dia combinado, repeti
o raciocínio com as famílias, e na expressão de seus olhares, captei um incômodo
geral. Decidi seguir um raciocínio, que Codó já tinha “pescado”:
“Vocês vendem virola pra quem?”.
“Para a firma japonesa que vem lá de Breves”, responderam.
“Pra quê ela precisa de virola??”.
“Pra fazer compensado, né?!!”.
“Como a máquina que faz compensado trabalha??”.
“Laminando!”.
“A Máquina corta??”.
“Não, a máquina desfia!”.
“Como a máquina desfia a tora de madeira?”.
Codó fez um desenho no ar numa espiral rodando para o centro.
“Como a firma paga vocês??”.
Outra liderança desenhou um retângulo no ar.
“Égua! Tão roubando a gente faz tempo!!!!”.
A partir de então exigiram que o
representante da firma japonesa de Breves que frequentemente visitava a
comunidade passasse a pagar pelo volume real da tora e não mais pelo tal volume
“Francão”, pra surpresa do comprador após tantos anos de missão na região. Codó
e sua comunidade passaram a calcular volume de toras assim:
Volume real da tora em metros cúbicos = circunferência
(metros) x circunferência (metros) x comprimento (metros) ÷ 12,56 (12,56 é
resultado da multiplicação de 4 x p).
Em outro exemplo de sua força de
análise, Codó ideou com João Gama e outros companheiros que a espécie andiroba
precisava ser protegida do excesso de extração madeireira. A comunidade e a
equipe da Fase fizeram então um levantamento florestal por meio de amostras
específico para as andirobeiras, cujas informações subsidiaram o Plano de
Manejo Florestal Comunitário de Andiroba da Associação dos Produtores Rurais do
Rio Jaburu (Aproja)[3]. E
a intuição mais uma vez estava certa: as árvores maiores estavam sumindo diante
da atividade madeireira, o que levou a comunidade a mudar o rumo de uso das
andirobeiras para a extração de óleo de suas sementes organizadas pelas mulheres
locais. No Livro Frutíferas e Plantas Úteis na Vida Amazônica, de
Patrícia Shanley[4],
foi feito um desenho da situação encontrada pelo inventário:
Esse exercício feito com a
andiroba levou a parcerias muito importantes, como a feita com a pesquisadora
Marina Londres para aprofundar o estudo sobre a ecologia não somente da
andiroba, mas da floresta de várzea da região[5],
que juntamente com os diagnósticos socioeconômicos elaborados pela ONG FASE em
parceria com o STTR de Gurupá, construíram uma consistente base documental e
cientifica para a futura Reserva de Desenvolvimento Sustentável Itatupã-Baquiá,
unidade de conservação administrada pelo ICMBio[6].
Codó, João Gama, Maria Lúcia, Graço, Benedito, os jovens da comunidade, mas
também Valdir, Sheila, Nilza, Marina, Almir, Carlos, Sérgio, Selminha, Girolamo,
Bira, Pedro Alves e Jorge são algumas das inúmeras pessoas que estiveram em um
verdadeiro mutirão ambiental para a defesa dos territórios comunitários do rio
Jaburu, refletido também no seu plano de uso comunitário da natureza.
Fonte: IIEB (2006)[7].
Em meu último exemplo da
capacidade intuitiva do amigo Codó, relembro da última conversa que tivemos, na
cidade de Gurupá, em 2022, agora eu também de barba embranquecida, num abraço
de bons camaradas que há muito tempo não se viam. Como de costume, pediu
sorrindo:
“Carlos, me explica esse tal de
mercado de carbono. Quero entender o máximo porque só se fala nisso”.
E ali, na mesa da cozinha do STTR
de Gurupá trocamos ideias e preocupações.
“Parece ser um negócio muito
complicado mesmo. Até parece que é de propósito”.
Mais uma vez, meu amigo intuitivo
acertou.
É, mano Codó... mais do que
intuição, tenho fé mesmo, que tu estarás para sempre no Livro da Vida por tanta
luta que travaste por todos os seres vivos.
Siga em luz pelos rios da
eternidade.
[1] Ver
em https://www.dicio.com.br/intuitivo/
.
[2]
Relatei esse caso na série Crônicas do corte - matemática ribeira/ parte 1,
disponível em https://meioambienteacaiefarinha.blogspot.com/2015/09/matematica-ribeira-parte-1.html
.
[3]
Disponível em https://www.recantodasletras.com.br/e-livros/3845261
.
[4]
SHANLEY, PATRICIA. Frutíferas e Plantas Úteis na Vida Amazônica.
Patricia Shanley, Gabriel Medina; ilustrado por Silvia Cordeiro, Antônio
Valente, Bee Gunn, Miguel Imbiriba, Fábio Strympl. Belém: CIFOR, Imazon, 2005.
300 p. il.
[5] LONDRES,
MARINA; SCHULZE, MARK; STAUDHAMMER, CHRISTINA L.; KAINER, KAREN A.
Population Structure and Fruit Production of Carapa
guianensis (Andiroba) in Amazonian Floodplain
Forests: Implications for Community-Based Management (Estrutura
populacional e produção de frutos de Carapa guianensis (Andiroba) em florestas
aluviais da Amazônia: implicações para o manejo comunitário). Disponível em https://journals.sagepub.com/doi/full/10.1177/1940082917718835
.
[6]
Recomendo leitura do Plano de Manejo da RDS Itatupã-Baquiá, disponível em https://www.gov.br/icmbio/pt-br/assuntos/biodiversidade/unidade-de-conservacao/unidades-de-biomas/amazonia/lista-de-ucs/rds-itatupa-baquia/arquivos/dcom_planodemanejo_rds_itatupa-baquia.pdf
.
[7] INSTITUTO
INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO DO BRASIL - IIEB. Regularização fundiária e manejo
florestal comunitário na Amazônia: sistematização de uma experiência inovadora
em Gurupá-PA / Instituto Internacional de Educação do Brasil, Federação de
Órgãos para Assistência Social e Educacional. – Brasília : IEB, 2006. 70 p. :
il ; 28 cm. – (Projeto Comunidades e Florestas).
sábado, 21 de março de 2026
Esperançar é ter fé e não deixar a liça
Início
este texto respondendo a uma pergunta que me fazem com frequência: por que
militante da CEPLAC? Respondo: - porque
nessa Organização me fiz adepto do pensamento social contrário ao
conservadorismo assentado na classe capitalista agrária-rural e no rentismo
exagerado da economia cacaueira, condições caminhantes na contramão de uma vida
digna para todos; persisto nesse pensamento, sem perspectiva de mudar de lado.
Aproprio-me
do verbo Esperançar, que é movimentar-se, é sair do lugar, é
exercitar um ativismo social e político buscando minimizar as contradições que
permeiam a vida cristã, advindas do sistema capitalista de produção que, ao
lado do reconhecido bem-estar, não abre mão em favorecer todo tipo de sortilégio
de mal estar social e político, como guerras territoriais, tragédias
ambientais, violência urbana e rural desmedidas, desigualdades do poder
econômico e financeiro, a homogeneidade político-partidária impregnada de ismos
(neonazismo, fascismo, militarismo), dentre outros, com seus males.
Embora
não tenham o mesmo sentido, esperançar e esperança andam juntas; são irmãs
siamesas. Nas tragédias diluvianas do mundo do ‘dinheiro pelo dinheiro’ a
exaltação financeira da vida brada mais alto que a própria vida. As tragédias
advindas, quando temperadas com Fé, é o que resta ao cristão desejoso da paz e
da distribuição da riqueza e do bem estar.
O Papa
Francisco I enfatizou a importância da esperança como uma virtude teologal
fundamental. E várias cartas encíclicas da igreja católica abordaram a questão.
Paulo VI, quando escreveu a sua carta “Populorum Progressio (Progresso
dos Povos), nos fez refletir, à luz da esperança, sobre as nossas
aspirações como seres humanos, sobre os desequilíbrios crescentes impulsionados
pelos autos mecanismos de exclusão, arrastando o mundo para muito mais agravos do
que atenuação das disparidades sociais.
Assim,
esperançar é “cultivar a esperança como prática ativa e transformadora, não
apenas aguardar passivamente por mudanças”. Paulo Freire, notável educador
brasileiro, mundialmente reconhecido e agraciado, um cristão de nomeado olhar
humano, nos ensina sobre essas expressões gêmeas: é preciso ter esperança, ele
diz, “mas ter esperança do verbo esperançar, porque tem gente que tem esperança
do verbo esperar. E esperança do verbo esperar não é esperançar, é espera”.
Esperançar
é se levantar, é não desistir! É juntar-se com outros para fazer de outro modo.
Esperançar é coletivizar-se para encontrar a unidade desejada da Laudato Sí,
de Francisco. Nessa Carta, Francisco
lança um convite para um debate que nos una em torno das políticas nacionais,
que favoreçam transparência nos processos decisórios; um debate que junte a
filosofia, a religião e a ciência, mas sem as espetacularidades da última ou os
dogmas religiosos. Conversas dialógicas mobilizando a filosofia que nos retire das
cavernas onde ainda vivemos, com os mitos que nos enganam. Conversas que
retornem às éticas dos filósofos construtores do pensamento moderno, a exemplo
de Baruch Spinoza, cujas ideias mostram a realidade do Deus sive Natura
(Deus isto
é
Natureza), e coloca o Homo sapiens como parte da natureza, arrepiando o
clero e a ciência mecanicista das domesticações fordistas, dos pacotes
tecnológicos, e das hibridações.
Nenhum
ecossistema mundial precisa tanto dessa reflexão como a Amazônia continental e
planetária, como uma manifestação dessa substancia única e infinita contida na
expressão Spinozina. A Amazônia é um mundo multiétnico, multicultural e
multirreligioso, visível nas práticas religiosas e sociais, sem as afetações do
mercado financeiro e político. A COP 30 recém
realizada no Brasil, não conseguiu dar conta de todos os temas propostos e
mesmo necessários para discussão ou encaminhamentos de soluções; mas todos os
que conseguiram dialogar com as minorias excluídas do processo do
desenvolvimento daquele território, e até mesmo da organização do Evento, alcançaram
algum sucesso
Atitudes
nessa direção imprimem sentido ao Esperançar, desde que se esteja na liça com
olhos para ver e ouvidos para ouvir.
Sou
grato à Raimunda D’Alencar, Professora da UESC-Ilhéus, pela assistência ao
texto.
Manoel M. Tourinho (86a).
Agrônomo e Sociólogo. Professor Aposentado da UFRA, Belém do Pará e
ex-Militante da CEPLAC, na Bahia.
sábado, 21 de fevereiro de 2026
Às Vias da Vida💧
O rio Madeira não é uma hidrovia.
O rio Tocantins não é uma hidrovia.
O rio Tapajós não é uma hidrovia.
Não esqueçamos que são vias da vida, que viabilizam a existência.
São corredores de água rebeldes por natureza a se esticar além do medíocre pensamento ocidental.
São calhas que recebem as chuvas, na sagrada misturas dos rios que voam, dos que correm e dos que escorregam por debaixo da Terra, carreando comida para os seres vivos.
São as ofertas de água para matar a sede de quem só quer viver e deixar viver, ao contrário das sedes de dinheiro que fazem os estúpidos babarem a morte pelo canto da boca maldita que possuem.
O rio Tapajós não é hidrovia, nem o Tocantins, nem o Madeira.
São rios da memória de nossa infância, maiores rios do mundo aos nossos olhos maravilhados que mesmo que nos distanciemos de suas águas em espaço ou no tempo, viajam nossos sonhos em igarapés de recordações sorridentes, como esse que você acabou de lançar agora ao lembrar de um mergulho.
O rio Madeira não é um transportador de soja.
O rio Tocantins não é uma rua de balsas.
O rio Tapajós não é um serviçal dos novos feudos.
São leitos de rios de gente, de histórias, lutas, espiritualidades, açaí, mapará, araras, onças, tipitis, canoas, piracaias, danças e tambaquis.
Que apesar do mercúrio, que apesar do cheiro podre do acúmulo de grãos na roda da pickup, que apesar do poder do agro e seus capachos midiáticos em nosso país; em que pese todo veneno lançado no ar como tentativa de assassinato, em que pese a ameaça dos pistoleiros, teimam os rios e seus povos em perseverar no distinto trabalho pela dignidade das vidas em ter o que comer, onde morar e onde brincar.
Porque antes de tudo, água é fonte da vida e por isso justifica-se a nossa peleja, de enveredar no debate político pelo bem do que é justo e correto para nossa amada Amazônia, de uma batalha pela proteção dos rios de nossas vidas ancestrais, presentes e vindouras.
O rio Madeira é uma via da vida.
O rio Tapajós é uma via da vida.
O rio Tocantins é uma via da vida.
Pantoja Ramos.
(Publicado no Recanto das Letras).
terça-feira, 17 de fevereiro de 2026
Tempos de tensão amazônica
Dia 12 de fevereiro de 2005, irmã Dorothy Stang foi assassinada em Anapu.
Eram tempos de medo entre as pessoas que lutavam por direitos na Amazônia.
Lembro que no mês de maio estava em Breves, fazendo uma palestra sobre manejo florestal e estava sem comunicação. Trabalhava na ONG Fase.
Não fazia ideia que muita gente estava me procurando por não saber onde eu estava.
Até que alguém me achou via chamada telefônica.
- Cara, onde você tá??
- Em Breves, aqui em uma reunião com o STTR de Breves. Lembram que tava agendado?
- Que susto, mano... Tá todo mundo te procurando aqui, principalmente a sua família.
- Puxa, desculpa, é que meu celular deu problema.
Assim estavam aqueles tempos.
quinta-feira, 25 de dezembro de 2025
Papai Noel e o Grinch na Marambaia
Quando criança, gostava do Papai Noel. Ele até me trouxe certa vez um velocípede que eu chamava de "Motoca" e que fazia meu pai rir toda vez que eu tombava de lado. E com o tempo, fui aprendendo a história da dura luta dos ajudantes de Papai Noel, nossos pais e nossas mães, em adquirir os presentes, vindos salários escassos para se comer e se vestir. Fui compreendendo que Papai Noel explorava meu pai e minha mãe a mando de um sistema maior, que era um sujeito elitista pra caramba, enfim, um velho batuta, como diria Os Garotos Podres.
Peguei ranço.
E ontem, caminhando nas ruas com meu filho Vicente, autista de nível 3 já adolescente com todos os desafios aderentes nessa faixa etária, fui parado por um homem vestido de Papai Noel.
E eu na frente dele, com expressão facial mais para O Grinch.
Foi então que percebi que suas vestes tinham o esforço de parecer com as do Papai Noel. De algo improvisado, lutado, pano aqui, pano acolá, todo estampado. De vermelho, apenas o gorro tradicional. No rosto, um amontoado de algodão que sim lembrava uma barbona farta. Pude observar que seu caminhar tinha problemas, de uma Pessoa com Deficiência. Sorriu com o olhar pra nós e disse: "ainda bem que alcancei vocês, olha o que o Papai Noel trouxe pra você, garotão! Veja que bola bacana!!".
Vicente sorriu e pegou a bola para bater com os dedos. Tum! Tum! Tum!
O Grinch de repente sorriu também, pois aquela bola lembrava as que ele chutava na parede de sua caverna onde vivia, em Monte Dourado, no Jari.
Quando aquele Papai Noel desejou "Feliz Natal", o Grinch desconcertado apertou sua mão com muita vontade de pedir desculpas por todo o mal humor que carregou ao longo dos anos no Natal.
Ele ficou feliz por ter recebido um aceno do Vicente.
Vicente ficou feliz pelo som que saia da bola ao ser batida com os dedos.
Eu, não mais o Grinch, fiquei feliz por existir gente com boa vontade em dar alegria para as pessoas em puro ato de empatia.
Agora, ao lembrar de seu caminhar se dirigindo para outras entregas, concluo:
- É... Nesse Papai Noel eu acredito.
Feliz Natal.
sexta-feira, 5 de dezembro de 2025
Belém: a cidade de cheiro forte e alma gigante que emplacou uma COP diferente (1)
Uma colega e amiga especial, aqui
de Belém, enviou-me o artigo que segue abaixo, dizendo não ter certeza sobre o
autor. Eu penso que pode ser Leal Kostav, renomado autor e escritor brasileiro.
A dúvida não desonra o texto. Mais importante que a autoria é a opinião
expressa: uma verdade de nos deixar tocados de orgulho, pois somos exatamente
assim: paraenses, belemenses, nativos ou não, mas todos amazônicos trabalhadores,
desta parte oriental da grande Amazônia continental.
Vejamos o que diz o autor sobre a
cidade de Belém, sede da COP30: “Antes da COP30, Belém do Pará era, para o Sul
Maravilha e o restante do planeta, uma paisagem borrada no mapa, entre o açaí e
o igarapé. De repente, virou o centro das atenções. Não por sua beleza
estonteante (que existe, mas exige um olhar mais demorado que o de um chanceler
alemão apressado), mas por seus... digamos, desafios logísticos.
O problema é que, ao mirar os
buracos da rua e a pouca oferta de hotel cinco estrelas, esquecem-se de mirar o
que realmente importa: A alma da cidade. Belém é uma cidade que não tenta
disfarçar quem é. Ela te recebe com um calor úmido que é quase um abraço
pegajoso e um cheiro inconfundível. É o perfume da história colonial misturado
com a fumaça da maniçoba cozinhando, o bafo do rio e, sim, o aroma pungente da
infraestrutura inacabada. É uma cidade com cheiro forte, e isso, convenhamos, é
melhor do que o cheiro insípido da perfeição asséptica.
Os engravatados da ONU vieram dispostos a salvar a Amazônia. Passaram meses discutindo "crises climáticas", "desmatamento zero" e "mercados de carbono”. Mas a maior lição que levaram para casa, se tivessem tido tempo de respirar, é que a gente do Norte já vive essa crise. Não se trata de “falta de internet” ou de “piscina verde. Trata-se de gente que vive no limite da água doce e salgada, que constrói sua vida sobre palafitas na beira do rio, que convive diariamente com a biodiversidade, a chuva que inunda e o sol que racha. A sustentabilidade, aqui, não é um tema de conferência. É a diferença entre ter peixe na mesa e não ter.
E é aí que reside a verdadeira
força de Belém, o que o governador e o prefeito tentaram inutilmente explicar
aos narizes torcidos. Essa cidade, com sua bagunça assumida, sua humildade de
capital ribeirinha e sua gente que não economiza sorriso, conseguiu sediar um
evento que exigiria a logística da Suíça.
Não foi fácil, claro. Houve
perrengue, teve preço abusivo, teve barco poluente servindo de hotel flutuante,
até incêndio dentro da COP 30. Mas aconteceu. O povo de Belém provou que sua
capacidade de improviso é infinitamente superior ao planejamento europeu.
Enquanto o chanceler alemão reclamava
do calor e voltava feliz para a sua Berlim cinzenta, o paraense estava aqui, vendendo
tacacá na porta do centro de convenções, explicando a diferença entre açaí e
sorvete roxo, e mostrando que a verdadeira riqueza não está nas torneiras com
água quente, mas na generosidade de quem tem pouco.
Em Belém, a "vergonha
brasileira", como foi classificada, virou motivo de orgulho. Pois a vergonha
não é ser pobre. A vergonha é ter que expor a pobreza para que os ricos se toquem
que a solução não virá de powerpoints e de ar-condicionado. A COP30 está
passando.
Belém aos poucos volta à sua
rotina de calor, e chuvas torrenciais. Mas o legado que fica não é a crítica
azeda, nem o QI médio que o colunista julgou (porque é claro que a burrice é um
privilégio do Norte). O que fica é a certeza de que a Amazônia e suas capitais não
precisam de pena ou de condescendência. Elas precisam de muito investimento
sério, honesto e, principalmente, de gente disposta a reconhecer que, debaixo da
lama e do suor, há uma força de vida que nenhuma crítica preconceituosa pode
apagar. E essa força é gigante.
Como paraense adotado, muito
obrigado Leal Kostav. Não sou nascido aqui, mas vim pra cá muito jovem. Nasci
na Amazônia, nas barrancas do rio Madeira, em Porto Velho, quando aquela cidade
tinha todas as manias e trejeitos amazônicos. Os rios e a mata perpetuavam nos
corações um sentimento nativista de muito orgulho. Para onde íamos, reconhecíamos
a existência deles e entendíamos como afetavam e coloriam as nossas
experiências.
A COP 30 trouxe para o debate a
visibilidade tropical. O melhor resultado foi uma grande lição de ‘alma e de
espírito’, dada pelo nativismo plural vindo dos quatro cantos do mundo. Tudo
que se percebeu foi fruto do tempo andante e dos territórios historicamente
desconsiderados. Toda mudança tem uma causa. As nossas: africanas, asiáticas,
latino-americanas e caribenha-antilhanas, são derivadas de modelos impositivos
sob pretextos variados.
Em nenhum momento os colonizadores europeus, e norte-americanos, todos da étnica branca- cristã, adotaram, sequer, um dedo de prosa com a gente nativa. Territórios roubados, valores e éticas, derivados das relações com a Natureza, censurados e deletados das memórias ancestrais. O denominador da ocupação foi a violência aplicada contra as várias cores e etnias: negra, vermelha, parda, cafuza, morena, mulata e cabocla.
O modelo, com seus paradigmas de
dominação, acentuou as ocupações dos territórios nacionais. A “brancura”,
nacionalizada, ocupou os territórios das fronteiras onde viviam os moradores
nativos. Na Amazônia do Brasil, essa história pouco debatida, responde pelas causas
mais visíveis das perturbações climáticas. O modelo e o uso dos recursos naturais,
especialmente o uso da terra, usam uma parafernália tecnológica totalmente desajustada
das condições edafoclimáticas e socioculturais amazônicas e tropicais. Se é possível
configurar essas tecnologias, elas podem ser hoje simbolizadas pelos “Texanismos”,
ou seja, chapéu “cowboy” de abas largas, cinturões com fivelas alargadas, botas
de bicos finos arrebitados e calças jeans “acaneladas”. Nada a ver com a Amazônia
e sua cultura ribeirinho-extrativista.
A COP 30, de Belém do Pará e do Brasil, trouxe à liça demandas históricas dos povos oprimidos pelos modelos capitalistas de produção e consumo. Como verberou uma ativista: O problema não é o clima, é o sistema de produção capitalista. Diante disso, os modelos globais de desenvolvimento sujo foram contestados pelos povos originais globais em diversos lugares e momentos da COP de Belém: nas praças públicas, nas passeatas, nas bateatas fluviais, nos campi das universidades federais, além de manifestações populares “in situ” nas zonas elitizadas da “Blue Zone”, da “Green Zone,” e do “AgriZone” do agronegócio. A COP 30 teve presença de 195 países, mais de 45 mil participantes, e foi a segunda maior do gênero, superada por Dubai (terra dos ricos poluidores mundiais), mas sem a presença das vozes populares, traço que fez da COP paraense, o sítio de maior expressão do povo contra aqueles que sujam o planeta e nos pedem que compensemos atenuando as nossas necessidades básicas, mas desde que essas atenuações continuem empregando os seus meios e técnicas imperialistas e sigamos pagando o “overhead” do desenvolvimento comprado deles. Quanto às finalizações, conclusões e recomendações ideais, já se previa a dificuldade, desde a ausência, previamente anunciada, do Xerife mundial norte-americano e de seus aliados europeus e árabes. Não aconteceu. Porém, as lutas populares avolumaram suas presenças e suas vozes. Uma lição oferecida pela democracia plena e multilateral, como a brasileira de hoje.
(1) O autor agradece a assistência dos colegas Carlos Pantoja
Ramos e Roberta Maria Coutinho, Pesquisadores Associados ao Projeto Várzea, da
UFRA. Belém (PA). Publicado na revista








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