Manoel Codosvaldo Chaves de
Souza, conhecido amplamente nas paragens do município de Gurupá como Codó, foi
um dos muitos mestres e mestras que tive ao longo de minha caminhada. Homem
bom, gentil, esperançoso, Codó deixou na minha mente a marca de ser uma pessoa
intuitiva, palavra esta tão na moda e tecnológica em aplicativos, mas que
precisa ser sempre recuperada, na qualidade filosófica do intuitivo ter uma
compreensão de forma direta e quase instantânea, que antecede o uso de deduções
ou conceitos trabalhados[1].
Nessa pequena homenagem que faço, minúscula diante de todo o legado de Codó,
trago três passagens sobre a sua intuição e pensamento aberto à troca de ideias
que testemunhei.
No primeiro exemplo que apresento, recordo do episódio de um convite que recebi de Codó para explicar uma situação envolvendo a extração de madeira em sua comunidade, São João do Rio Jaburu[2]. Durante muitos anos a espécie ucuúba (também chamada de virola) foi objeto de transação comercial entre a comunidade e uma empresa japonesa sediada no município de Breves. Codó perguntou-me: “Carlos, o que é o volume Francão??”, referindo-se ao Volume Francon, fórmula utilizada para cubar a conversão entre o volume real de uma tora de madeira para a grande peça, digamos, "retangular" a ser cortada nas serrarias. Codó continuou: “É porque a firma que compra madeira da gente só paga desse jeito, no Francão”. Na tentativa besta de ser o mais didático que pudesse ser, expliquei: “imagine uma tora de madeira, roliça. Quando medido seu volume, digo que é volume real de uma tora, considerando o que de fato ela é”. Codó concordou com a lógica e assim continuei: “imagine agora que esta tora de madeira seja cortada onde se aproveitasse a grande parte digamos ‘quadrada’, retirando as costaneiras, assim ó...”.
“Esse é o Volume Francon”.
Codó passou a mão na barba branca e pediu que eu repetisse
tal explicação após o culto de domingo da comunidade. No dia combinado, repeti
o raciocínio com as famílias, e na expressão de seus olhares, captei um incômodo
geral. Decidi seguir um raciocínio, que Codó já tinha “pescado”:
“Vocês vendem virola pra quem?”.
“Para a firma japonesa que vem lá de Breves”, responderam.
“Pra quê ela precisa de virola??”.
“Pra fazer compensado, né?!!”.
“Como a máquina que faz compensado trabalha??”.
“Laminando!”.
“A Máquina corta??”.
“Não, a máquina desfia!”.
“Como a máquina desfia a tora de madeira?”.
Codó fez um desenho no ar numa espiral rodando para o centro.
“Como a firma paga vocês??”.
Outra liderança desenhou um retângulo no ar.
“Égua! Tão roubando a gente faz tempo!!!!”.
A partir de então exigiram que o
representante da firma japonesa de Breves que frequentemente visitava a
comunidade passasse a pagar pelo volume real da tora e não mais pelo tal volume
“Francão”, pra surpresa do comprador após tantos anos de missão na região. Codó
e sua comunidade passaram a calcular volume de toras assim:
Volume real da tora em metros cúbicos = circunferência
(metros) x circunferência (metros) x comprimento (metros) ÷ 12,56 (12,56 é
resultado da multiplicação de 4 x p).
Em outro exemplo de sua força de
análise, Codó ideou com João Gama e outros companheiros que a espécie andiroba
precisava ser protegida do excesso de extração madeireira. A comunidade e a
equipe da Fase fizeram então um levantamento florestal por meio de amostras
específico para as andirobeiras, cujas informações subsidiaram o Plano de
Manejo Florestal Comunitário de Andiroba da Associação dos Produtores Rurais do
Rio Jaburu (Aproja)[3]. E
a intuição mais uma vez estava certa: as árvores maiores estavam sumindo diante
da atividade madeireira, o que levou a comunidade a mudar o rumo de uso das
andirobeiras para a extração de óleo de suas sementes organizadas pelas mulheres
locais. No Livro Frutíferas e Plantas Úteis na Vida Amazônica, de
Patrícia Shanley[4],
foi feito um desenho da situação encontrada pelo inventário:
Esse exercício feito com a
andiroba levou a parcerias muito importantes, como a feita com a pesquisadora
Marina Londres para aprofundar o estudo sobre a ecologia não somente da
andiroba, mas da floresta de várzea da região[5],
que juntamente com os diagnósticos socioeconômicos elaborados pela ONG FASE em
parceria com o STTR de Gurupá, construíram uma consistente base documental e
cientifica para a futura Reserva de Desenvolvimento Sustentável Itatupã-Baquiá,
unidade de conservação administrada pelo ICMBio[6].
Codó, João Gama, Maria Lúcia, Graço, Benedito, os jovens da comunidade, mas
também Valdir, Sheila, Nilza, Marina, Almir, Carlos, Sérgio, Selminha, Girolamo,
Bira, Pedro Alves e Jorge são algumas das inúmeras pessoas que estiveram em um
verdadeiro mutirão ambiental para a defesa dos territórios comunitários do rio
Jaburu, refletido também no seu plano de uso comunitário da natureza.
Fonte: IIEB (2006)[7].
Em meu último exemplo da
capacidade intuitiva do amigo Codó, relembro da última conversa que tivemos, na
cidade de Gurupá, em 2022, agora eu também de barba embranquecida, num abraço
de bons camaradas que há muito tempo não se viam. Como de costume, pediu
sorrindo:
“Carlos, me explica esse tal de
mercado de carbono. Quero entender o máximo porque só se fala nisso”.
E ali, na mesa da cozinha do STTR
de Gurupá trocamos ideias e preocupações.
“Parece ser um negócio muito
complicado mesmo. Até parece que é de propósito”.
Mais uma vez, meu amigo intuitivo
acertou.
É, mano Codó... mais do que
intuição, tenho fé mesmo, que tu estarás para sempre no Livro da Vida por tanta
luta que travaste por todos os seres vivos.
Siga em luz pelos rios da
eternidade.
[1] Ver
em https://www.dicio.com.br/intuitivo/
.
[2]
Relatei esse caso na série Crônicas do corte - matemática ribeira/ parte 1,
disponível em https://meioambienteacaiefarinha.blogspot.com/2015/09/matematica-ribeira-parte-1.html
.
[3]
Disponível em https://www.recantodasletras.com.br/e-livros/3845261
.
[4]
SHANLEY, PATRICIA. Frutíferas e Plantas Úteis na Vida Amazônica.
Patricia Shanley, Gabriel Medina; ilustrado por Silvia Cordeiro, Antônio
Valente, Bee Gunn, Miguel Imbiriba, Fábio Strympl. Belém: CIFOR, Imazon, 2005.
300 p. il.
[5] LONDRES,
MARINA; SCHULZE, MARK; STAUDHAMMER, CHRISTINA L.; KAINER, KAREN A.
Population Structure and Fruit Production of Carapa
guianensis (Andiroba) in Amazonian Floodplain
Forests: Implications for Community-Based Management (Estrutura
populacional e produção de frutos de Carapa guianensis (Andiroba) em florestas
aluviais da Amazônia: implicações para o manejo comunitário). Disponível em https://journals.sagepub.com/doi/full/10.1177/1940082917718835
.
[6]
Recomendo leitura do Plano de Manejo da RDS Itatupã-Baquiá, disponível em https://www.gov.br/icmbio/pt-br/assuntos/biodiversidade/unidade-de-conservacao/unidades-de-biomas/amazonia/lista-de-ucs/rds-itatupa-baquia/arquivos/dcom_planodemanejo_rds_itatupa-baquia.pdf
.
[7] INSTITUTO
INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO DO BRASIL - IIEB. Regularização fundiária e manejo
florestal comunitário na Amazônia: sistematização de uma experiência inovadora
em Gurupá-PA / Instituto Internacional de Educação do Brasil, Federação de
Órgãos para Assistência Social e Educacional. – Brasília : IEB, 2006. 70 p. :
il ; 28 cm. – (Projeto Comunidades e Florestas).







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