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domingo, 10 de maio de 2026

Crônica para lembrar de bons homens

Era uma segunda-feira de maio. Ajeitei-me para seguir para a universidade. Nesse dia eu participaria do sorteio do tema da prova didática em um concurso para professor substituto, cuja aula do tema sorteado seria ministrada no dia seguinte. Pedi o serviço de carro por aplicativo. Deivid o motorista do carro chamado. Viagem normal até chegar próximo ao Parque do Utinga. Nosso carro bateu na traseira de um outro veículo. Um susto com a freada brusca. O que estava engarrafado, ficou pior com nosso acidente. A condutora do outro carro saiu para ver o pequeno estrago. Não sou muito entendedor de automóveis, mas tive a impressão de pouco impacto no veículo. Deivid também saiu pra dialogar. Fiquei observando a conversa deles no meio da pista. Ela estava nervosa perto de um homem desconhecido, que envolvia uma batida de carros, com um monte de gente buzinando e num tempo em que pipocavam nas redes sociais as monstruosidades masculinas em várias regiões do país, não que não houvesse antes, mas as telas explodiam de casos. Ela segurando o celular com as mãos trêmulas. Deivid foi solícito:  

- Estou sem razão dona, o que for para ser pago, vou pagar. Não se preocupe.

- Estou falando com meu namorado, pois ele entende de carro melhor que eu. O prejuízo é de 500 reais.

- Tranquilo. Me diga qual o seu pix?

Transação feita. Ela seguiu. Nós seguimos.

Deivid comentou comigo:

- Ela tava muito nervosa. Acho que ela pensava que eu iria tratar mal, gritar, intimidar. Sou desse tipo de homem não. Sei que tem muito cara escroto por aí... Mas seu Carlos, que horas o senhor tem que chegar?

- Antes das 8 horas.

- Rapá, bora então.

Chegamos na universidade. Adentrei a sala onde se realizaria o sorteio às 7h59min. Uma moça chegou 8h02min e não conseguiu participar. Foi por pouco. O tema sorteado para a prova didática foi Governança e Manejo dos Recursos Naturais.

Passei o dia fazendo plano de aula. Pedi para minha filha imprimir. Preparei a aula de noite após a dormida do meu filho. Terminei de preparar minha aula por volta de meia-noite. Botei o despertador para tocar às 5h30min.

  Acordei, fiz o café, adiantei algumas coisas para a ida de Neri e Vicente para a terapia, tudo ajeitado, tudo certo. Pedi o serviço de carro por aplicativo novamente para a universidade. Eram 6h25min. O prazo máximo para estar na sala de realização das apresentações para os participantes da seleção era 7h30min.

Deu 6h30min. Nenhum carro aceitou corrida. 6h35min, 6h40min. Comecei a ficar preocupado. Às 6h45min um carro aceitou. José era o motorista. Digitei nas mensagens.

“Bom dia. Não desista de mim rsrsrs”.

Saímos às 6h50min.

- Mestre, temos que tentar a rota mais rápida possível.

- Pode deixar, seu Carlos.

E logo nos deparamos com um engarrafamento digno de assim ser chamado. Nem saída para um lado, nem para outro. Uma terça-feira. Tudo parado. Seu José fez as contas, me deu esperança, traça um plano aqui, outro acolá e em certo momento concluímos que o melhor era achar uma moto por aplicativo. Ficamos na espreita.

- Você tá fazendo corrida? – Seu José perguntou ao motoqueiro que passava com um capacete preso ao braço.

- Tô não, tô indo buscar minha mãe.

E fomos procurando, procurando, até que eu decidi:

- Seu José, olha, eu vou descer pra procurar uma moto. Tá tudo bem, tá? É que eu preciso tentar outro meio.

- Tranquilo, seu Carlos, entendo sim. Pode ir... Mas estamos na pista do meio. Deixa eu só ver se tá limpo para o senhor abrir a porta... vai.

Segui na busca por alguma moto, já naquele sentimento de um time que precisa fazer um gol aos 48 minutos do segundo tempo e que a tática já foi pro espaço. Olhei para o relógio. 7h15min. Estou no cruzamento da Avenida Júlio César com a Almirante Barroso. Concluí que não chegaria a tempo. Só se voasse (cadê o skate voador que nos prometeram nos anos 1980??). Pronto. O jogo acabou, fiquei por uns minutos andando sem pensar pela calçada, sem saber pra onde iria. Voltei pra casa.

Chateado. Mordido. Me xingando. Mea culpa, mea culpa. Um dia todo remoendo, querendo dormir e só dormir pra passar a raiva. Mas não passava. Veio a tristeza. Veio a conclusão: o único culpado por perder a prova fui eu. Essa mania que tenho de tentar controlar o tempo. Mas quem controla? Sempre raspando, sempre nas últimas, pra pegar avião, pra pegar barco, para chegar nos compromissos familiares, nas agendas profissionais. Não era assim, fui ficando assim. Mas até barco já voltou pra me buscar, aí não fui punido. Deveria. Agora não teve jeito. Aceita e evolua, Carlos! Eu já disse que fiquei muito triste com o ocorrido? Já né?

Na sexta-feira da mesma semana, fui ao Incra. Fui de ônibus. Caminhando em uma rua em que não costumo seguir, indo para um órgão que não costumo estar, num horário fora de minha rotina, em uma cidade de milhões de habitantes como Belém, ao passar por uma borracharia, uma voz me chamou.

- O senhor conseguiu chegar a tempo? Carlos, né?

- ??

- Lembra de mim?

- Simmm. Da corrida na terça... Ahhhh, Seu... – maldita memória que tenho para nome de pessoas.

- José.

- Seu José! – E lhe dei um abraço.

- O senhor chegou a tempo pro concurso?

- Não cheguei, Seu José. Não cheguei.

- Poxa. Sinto muito. Cara, eu fiquei com a consciência muito pesada. Fiquei pensando “cara, ele precisava chegar”. Fiquei pensando nisso.

- Ô, Seu José. A culpa foi minha. Só minha.

E José começou a lagrimar. Sentiu que eu tinha perdido algo muito importante. Se colocou no meu lugar. Eu fiquei sem jeito, mas admirado de uma pessoa que só me viu uma vez na vida ter tido empatia pelo que perdi. Não sabia nem o que fazer... Ele lagrimando... rude, mas sentimental e o mais importante: humano. Pensei em soltar uma frase dessas pomposas em cerimônias de premiação: “por sua empatia para comigo, eu te lembrarei nesse momento solene que és um homem trabalhador, digno, pessoa de boas atitudes que a Humanidade precisa e deveras confiável”. Mas só pensei, porque a única coisa que pude fazer foi colocar a mão no seu ombro e dizer:

- Mano, tu és um bom homem.

 José soltou um sorriso. Ergueu a cabeça. Nos despedimos e seguimos em nossas pelejas e aprendizados.


E assim a semana terminou... em paz.

 

Pantoja Ramos.



domingo, 29 de junho de 2025

Crônicas, passageiro: delinquência

 


- O senhor escreveu esse texto?

- Sim.

- Que assinatura empresarial de IA você usou?

- Não tenho assinatura.

- Como assim "não tenho assinatura"?

- Eu não utilizo inteligência artificial para escrever um texto.

- Ora, ora, temos aqui um delinquente.

- Por quê eu seria um delinquente?

- Tem pensamentos próprios, escrita própria, sem ser conduzida por nossas diretrizes.

- Professora Fátima, da minha quarta série, ensinou-me a ter autonomia, conversar com o texto, pensar no que é preciso redigir, registrar, gravar sob a forma de letras escritas à mão ou mesmo digitadas os sentimentos, as bem-aventuranças e os perigos de nosso tempo.

- Hã... O que você disse? Ahhh, sim, professora Fátima... sei... aquela comunista... Agora vire-se lentamente e fique de cara pra parede. Os monitores devem chegar em dez minutos...

domingo, 24 de novembro de 2024

Crônicas, passageiro: Alok e a COP-AÇU



Como ex-DJ de estúdio lá do Jari e acionista majoritário da Rádio Buca da Noite, nessa autoridade, faço alguns comentários sobre o show do DJ Alok em Belém:

  • A galera gostou dos technos europeus, mas pulou mesmo com Melody, Gaby Amarantos, Joelma e Viviane... BATIDÃO!🎼
  • Luzes, luzes, desconforme luzes que se batesse em Colares, iriam dizer que os chupa-chupa voltaram pra dominar a Terra 👽;
  • A versão mix da música do tacacá da Joelma que o Alok fez vai ganhar o globo; te cuida Davi Guetta;🎚️
  • Para o Pinduca, o governador do Pará ainda é o Jader;👀
  • Alok foi fazer um squash e errou... pensa que eu não reparei Alok??!! Pensa que eu não reparei??!🎛️
  • Cametá deve ter muito orgulho da Zaynara; 🥰
  • Alok: "e aí galera do Minei... (não lembro o nome do estádio 😥) De Belém do Pará!!!" 😆;
  • O Funk "Eu só quero é ser feliz, andar tranquilamente na favela onde eu nasci" já um é um hino atemporal;✊🏾
  • DJ Alok não é melhor que o DJ Tarugo lá do Jari, porque não é do Jari.👾


Brincadeiras à parte, o show do Alok foi muito bom e oficialmente colocou o Pará na atenção do mundo e chacoalhou (literalmente) a população belenense, em preparativos à Conferência das Partes que será realizada em nossa terra em novembro de 2025, a COP 30. 

Se a COP 29 em Baku, Azerbaijão, colocou cerca de 70 mil pessoas na conferência segundo o portal O Eco, temos que mobilizar pelo menos umas 200 mil pessoas, no mínimo a metade de amazônidas. Convoque Nazinha, Belém. 

Que a COP 30 não seja para manter os privilégios de bilionários e sim uma COP do Povo e da natureza. De reais mudanças em favor das próximas gerações.


Uma COP-AÇU.🌎

quarta-feira, 9 de outubro de 2024

Crônicas, Passageiro: o bolo


 

Belém, 9 de outubro de 2024.


Por meio desta crônica quero registrar que neste dia, em comemoração ao aniversário de minha sogra, Dona Lene, encomendamos um bolo. Nesse dia de tanta luta, mais um dia entre tantos de lida de um lar, não houve tempo para preparar um bolo e assim optamos pela compra de um já feito, trazido pela minha cunhada ao retornar do trabalho.

Bolo estranho, parecia uma pedra, daquelas britas grandes que até hoje vemos nas ruas de Monte Dourado, lá no Jari. Era coberto com alguns brigadeiros e biscoitos, assim todo "gourmetizado". Continuei bagunçando, dizendo que o bicho parecia pesado de tão massudo. Minha esposa disse que ao contrário, era muito macio. E cantamos parabéns para Dona Lene, uma mulher verdadeiramente guerreira. 

Enquanto as conversas seguiam na mesa, provei do bolo. O sabor que me veio fez minha cabeça voltar-se para trás como se tivesse levado um empurrão. Fui tirar a dúvida em uma segunda colherada, uma terceira e as sinapses me contaram o que havia me surpreendido.

As memórias surgiam, levando-me para minha casa em Monte Dourado nos anos 1980, ali na mesa de madeira as minhas irmãs, o meu irmão e o meu pai a esperar a minha mãe nos trazer aquele singelo bolo, um bolo de caixa de sabor laranja. Era simples, mas festivo. De caixa, mas com toques próprios de minha mãe Tereza. 

Quando as sinapses me devolveram do passado, eu estava a lagrimar. Apesar de não querer demonstrar, fui traído pela voz embargada ao responder se eu tinha gostado do bolo:

- Lembra gosto de infância lá no Jari.

E saiu o choro de vez. Comedido, é verdade, mas ali havia um choro.

Hoje vou dormir com a experiência de um alimento te fazer viajar como se fosse uma máquina do tempo a ponto de despertar diversas emoções. E foi uma saudade boa. 

Um sentimento de privilégio de ter vivido e revivido o bolo de minha mãe.


Pantoja Ramos.

segunda-feira, 24 de junho de 2024

Jamanxim



Belém, pensando no Povo Munduruku, 10 de junho de 2024.


O Jamanxim já foi verde-azul, me disse Alessandra Korap Munduruku. 

Imaginem a beleza deste rio, mais belo do que eu vi. 

A miséria humana em busca do ouro vem descolorindo esse rio sagrado. O vício pelo El Dourado, esse mal, essa coisa demoníaca, invenção própria dos Pariwat (brancos), que preferem sempre TER do que SER. 

Se não SÃO rios, vão querer TER o Jamanxim, se não SÃO árvores balançando na correnteza, irão desejar TER as árvores ou destruí-las. Se não se SENTEM da mesma substância originária como os Munduruku, tentarão TÊ-LOS ou eliminá-los. 

Querer é poder, diz o dito.  Não é querer SER? Entendi, é querer TER... Eis o caminho capitaloceno que a Humanidade escolheu até o fim de seu mundo que já foi azul esverdeado.


Como o rio Jamanxim.



sexta-feira, 12 de janeiro de 2024

Crônicas, passageiro: o mourão

 


Marajó, 12 de janeiro de 2024.


- Chegou a madeira?

- Chegou, patrão. Já pedi pra tirarem pra terra.

- Quanto tu pagaste por tarugo?

- Paguei 10 reais pro pessoal de lá.

- Me diz uma coisa: quantos tarugos tu tiras por árvore de acapu?

- Hummm... patrão, depende. Depende da árvore, se for acapu de boa grossura, de 40 a 50 tarugos. Mas tá meio difícil achar desse tipo lá onde eu pego quando o senhor me encomenda.

- Ahh, vejo que anda contigo tua mulher e filha.

- É, a gente se juntou faz pouco tempo. Mas elas estão viajando comigo só pra evitar confusão.

- Confusão?

- É que antes era casada com um sujeito... Mas pensa num cara que não tinha nada... nem o de comer!  Ele foi trabalhando pra mim aos poucos. Eu levava arroz, feijão, charque, mortadela, frango (às vezes) e ele me pagava com tarugo de acapu. A cada dia que eu ia ficando mais chegado na família dele, eles dependendo de mim, fui ficando mais chegado, mais chegado... o senhor entende, né?

- Acho que entendi.

- Num falou nada quando a mulher veio embora comigo.

- Ele ficou lá?

- Não só ficou como trabalha comigo na tiração de tarugo dos vizinhos. Pelo menos do que ainda tem de acapu por lá. Mas já vi que vai acabar logo, logo.

- E daqui tu vais pra onde?

- Ahh, patrão, acho que vou quietar um pouco dessas viagens, vender um dos três barcos que tenho e comprar um terreno lá pra Cametá. Diz que a soja já tá em Baião e eu quero estar no meu terreno quando lá chegar.

- Assim tu vais longe...




sábado, 8 de abril de 2023

Caboclantes

 Desembarco:

- Onde está a sua mala, senhor? - pergunta o despachante do navio.
- Mala? Ah, é aquela valise lá.
- Essa aqui?
- Isso! Essa boroca mesmo.
- Já vi que o senhor é do trecho (risos).
Sorri orgulhoso carregando minha sacola, enquanto dezenas de malas de rodinhas trepidavam pelo porto...



Pantoja Ramos.

terça-feira, 8 de novembro de 2022

Crônicas, Passageiro: a Passarela do PAP


Meados dos anos 1990. Eu morava no Conjunto Império Amazônico enquanto fazia a Faculdade de Ciências Agrárias do Pará, hoje Universidade Federal Rural da Amazônia. Estava ali próximo do Colégio Pedro Amazonas Pedroso, uma das melhores escolas públicas à época, o que talvez ainda seja. 

Na parada usual de ônibus do "Império" avistava de longe os estudantes do PAP, na batalha sua em passar no Vestibular, além da dura vida de coletivos e o pior de tudo, atravessar uma avenida Almirante Barroso hostil com seus automóveis Kadets, Unos, Vectras, Monzas, etc. 

E não foi por falta de aviso dos estudantes e outros passantes que uma tragédia ocorreria em uma avenida tão expressa: uma aluna foi atropelada e morta na frente do PAP, gerando forte comoção e revolta dos alunos que fecharam a Alm. Barroso por algumas horas em exigência que fosse construída uma passarela para evitar mais tristes acidentes.

E deste fechamento da principal via de acesso da capital Belém, vieram tropas de choque do governo estadual em resposta aos jovens em protesto, à época sob o mandato "tampão" de Carlos Santos que substituíra seu companheiro de chapa, Jader Barbalho, que renunciou ao cargo de governador para se candidatar a senador. Desproporcionalidade tamanha que media as forças de policiais muito bem armados, com cassetetes e gases de efeito moral e a de alunos secundaristas que no máximo traziam cadernos e cartolinas para bradar que era dever do estado construir uma passarela em segurança para a juventude que só queria estudar.

Porém a segurança e diria mais, a segurança pública agiu a partir de seu esquisito critério de lidar com a população e violentamente foram para cima dos protestos, entrando no PAP com truculência, explosões e muita, muita fumaça. De lá saíram gritos de desespero e medo.

Gritei lá do outro lado da avenida:

- Vocês são loucos??!! São só crianças!!


(respiro).


Sabem. Resolvi escrever essa crônica para lembrar a cada jovem que lutou, protestou e foi atacado pelo Estado naquele dia que sua peleja foi tão memorável em nome da amiga que agora temos sua homenagem construída em forma de passarela e que evita que outros tenham a vida ceifada. Não deixem essa história se apagar.

Quando em novembro de 2022 aqueles alunos do PAP foram intimidados por um beócio bolsonarista (redundância eu sei), eles andavam por cima de uma conquista de direitos, algo que seu intimidador talvez jamais poderia compreender. A luta justa ocorre quando não mais queremos que pessoas morram por descaso ou estupidez.

Aquele caminho erguido em ferro é solo sagrado.







domingo, 21 de agosto de 2022

"Seu Zweede"


- Rapaz, de onde você é?

- Portel.

- Conheço bem.

- Meu pai trabalhou na Companhia Amazonas. Meu avô também.

- Como era o nome de seu avô? - Olhou desconfiando pra minha cara.

- Raimundo Ramos.

- Você é neto de Raimundo??! Rapaz, trabalhamos juntos em Portel. É... Devo estar ficando velho.


Velho, não, "Seu Zweede". Só estás na História do Manejo Florestal.


Que sigas bem em outro plano, rodeado de sumaumeiras.




Imagem de Johan Zweede: IFT.

quinta-feira, 19 de maio de 2022

Crônicas, Passageiro: uma crônica para servir de flor para Manelzinho

 


Belém, pensando em Portel, 19 de maio de 2022.

 

Esta será uma crônica incompleta, desde já aviso. Sua intenção é apenas ser uma flor. Uma homenagem jogada para sempre em favor de Manelzinho, aquele que não pude conhecer, mas cuja partida me socou por dentro.  Escrevo neste ato concreto de digitar as letras para que ao rodar nos meios virtuais, possa sensibilizar alguém que imprima tal texto e quem sabe, trazer nossa atenção para o mundo real.

Mundo real que viu partir Manelzinho, o eterno garoto que veio a este plano na forma de pessoa com deficiência, com limitações para comunicar à nossa mediana civilizatória seus sonhos e vontades; incômodos e dissabores; vislumbres e reflexões. E pelo que vi de sua foto, sabia comunicar-se ao sorrir com os olhos e como é bonito ver gente assim: que sorri pelos olhos!

Nas almas boas que captei em mensagens de condolências, li a sinceridade do descrever do abandono, discriminação, exclusão e até hostilidade que sofrera Manelzinho, mergulhado no rio etílico ofertado por aqueles não o compreendiam. Em se falando de compreensão, lanço meus sentimentos profundos para a avó de Manelzinho, dona da luta tamanha em cuidá-lo, que não é fácil, aliás, é tarefa duríssima onde só o amor pode contar em segredo de onde surge a força para continuar a caminhada.

E pensando bem, esta crônica precisa ser uma roseira, com espinhos para espetar a sociedade que não se alertou do quanto Manelzinho chamava “papai” em busca talvez de uma orientação, de um guarda, de um guia, sei lá, não é isso que procuramos no firmamento quando nos defrontamos com a insegurança, o medo, a dúvida? “Pai”? Não é o que chamamos? Pois Manelzinho assim procurava e nós ignoramos.

No fim, trágico acima de tudo, implacável em primeiro pensamento, Manelzinho foi atropelado pelo caminhão do lixo da cidade, veículo que não é de correr muito e apesar disso, traz consigo todo o peso da sujeira que produzimos, todo o descarte que consideramos.

E o caminhão do lixo matou Manelzinho, muitas vezes descartado.

Não sendo eu uma pessoa que costuma rogar, pecador que sou, não posso desta vez deixar de implorar pelas pessoas de Portel, do Marajó e da Amazônia, que como Manelzinho, precisam de proteção da família, de cuidados da saúde pública, de educação inclusiva, de acompanhamento profissional para que possam dizer do seu modo o que sentem. Falo de Dignidade.

 

Deposito esta crônica em forma de flor, Manelzinho. Que tu descanses em paz.

E depois que acordares, que possas brincar céus afora com seu Papai.



quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

No soy un minero de oro


Pizarro, Colômbia, 2019, na sacada do hotelzinho da cidade:

- Hola, ¿eres brasileño?

- Sí, yo soy. 

- Sou brasileira, rapaz.

- Que bacana!

- Onde estás garimpando??

- Não sou garimpeiro.

- Ah tá.

(mudou a expressão do rosto).

- Tchau.

- Tchau.

Confesso, senti uma estranha vergonha.




*Fotos da cidade de Quibdó, capital do Departamento de Chocó, no Pacífico Colombiano. Lá há uma intensa atividade minerária de com destacada participação de brasileiros em busca de ouro. Imagem: Carlos Ramos.


terça-feira, 30 de novembro de 2021

Crônicas, Passageiro: Conserto do Natal



Confesso. Estava chateado com o Natal. Sequer um enfeite em casa quase chegando dezembro. Não teria motivos.

É tanta carestia que impedi até então a própria mente de desenhar uma árvore de natal, plastificada ainda por cima, como artificial se tornou a vida. De uma cultura colonizadora que esmagou a ideia indígena do que seria um final de ano (que obviamente não coincide com o Ocidente) ou de dias festivos de convite ao Amor, à Solidariedade, ao Respeito. De cultura hegemônica que insiste em não nos apresentar a belíssima espiritualidade dos povos malês, sudaneses, angolanos, moçambicanos, senegaleses em louvar a bem-aventurança. 

São tantas mortes causadas pela Covid-19 pelo hediondo governo que se apossou deste país que embrulha-me o estômago a ter que aceitar na mesma mesa aquele parente fascista convicto que votou na perversidade e também aquela parente que flerta com o ex-juiz ladrão, como se o número 17 fosse apagado de sua testa infame.

Minhas dívidas me perturbam.

Minha rua alaga toda vez que chove, num inverno amazônico esticado perigosamente este ano a mostrar que as consequências ambientais de nossos atos nos forçam a prestar contas.

E a praga de um banqueiro continua a parasitar o Orçamento Geral da União, junto com seu bando comer 40% daquilo que deveria servir ao povo.

E a praga do fazendeiro-gafanhoto permanece a derrubar milhares de árvores, antecedido pelos madeireiros criminosos. Que garimpeiros furiosamente agridem o Rio Madeira em estocadas fatais em nome da ganância.

E o preço do açaí tá aumentando para desespero de nosso sagrado hábito de beber o santo vinho de Iaçá. 

Respiro fundo e lembro Paulo Freire: "Indignação sim, raiva não... Indignação sim, raiva não...". Mantra.

E eis que surge a foto: a foto do jornalista João Paulo Guimarães, aquele que se importou com a cena anestesiada para muitos de nós. Do menino que no lixão de nossa civilização, achou uma árvore de natal usada, arrepiada, maltrapilha. Limpa, limpa, brilha seus olhos para o Natal. Percebam a íris, o olhar esperançoso para arvoreta que enfeitará sua modesta moradia. O sonho é que faz o Lar.

Estou desconcertado.

Céus! O Menino sonhou com um Natal Digno!

Céus! O Jornalista sentiu que era seu dever mostrar ao Mundo este erro da Humanidade!

Céus! A Foto rodou o país.

Céus, Padre Júlio Lancellotti elogiou, abençoou e divulgou!

Céus, que pessoas estão a ajudar o menino e sua família!

Um ato de Comunhão! Daquilo que a Santa Ceia avisava.

Como eu sou estúpido! Como poderia deixar a Esperança me escapar? Corre não, me espera Esperança!

Alcancei-a.

Ufa! Você anda rápido, hein?

Podemos caminhar? Faz tempo que a gente não conversa.

A propósito, eu já desejei para você um Feliz Natal?

Feliz Natal. 

:)


  

sábado, 20 de novembro de 2021

Crônicas, Passageiro: A Tragédia dos Não Comuns

 



Belém, 20 de novembro de 2021.


- Vejo em seus exames que sua condição está boa, sem sinais de perda auditiva.

- Que bom, doutor. Desculpe reparar, este seu quadro é bem bonito.

- Bonito mesmo, né? E bastante atual.

- Posso bater uma foto? 

- Pode sim. Trabalhas com quê?

- Sou engenheiro florestal e trabalho com comunidades rurais.

- Mas vc é petista?

- Hã?

- Você sabe que esse negócio de Comunismo não deu certo em lugar nenhum do mundo, certo? Eu já viajei à Europa e pude constatar. Fui à Polônia, conversei lá. Também fui aqui perto na Bolívia. Não deu certo também. Esse negócio é papo furado, por isso a União Soviética se lascou. A Venezuela tá lascada. E Cuba então? Nem se fala. Nunca deu certo, nunca dará.

- Doutor, vi hoje uma foto de placa pregada na parede de uma empresa que trabalha com dendê. Na placa estava escrito: "Proibido tomar água do igarapé ou qualquer outra fonte que não seja bebedouro. A Empresa fornece água potável pra você". E se a água do igarapé estiver contaminada?

- Complicado...

- É bom pensar nisso porque a água de um rio, de um igarapé é um bem comum. O que pensaria Ele ali no quadro sobre aquilo que é comum a todos?

Silêncio.

- É isso doutor? Tenha um bom dia.

Fim da consulta.



domingo, 26 de setembro de 2021

Crônicas, Passageiro: volto a pedir passagem

 Belém, pensando no rio Pará, 26 de setembro de 2021. 


Peço passagem. 

Volto a viajar após 18 meses, resultado dos impactos da pandemia de Covid-19 que a todos afetou e comigo evidentemente não seria diferente. Dou graças aos céus por até o momento não ter ninguém adoecido gravemente em minha família. Somente Neri inspirou maiores cuidados, ela que chegou a ter  30% do pulmão comprometido e que se não fosse uma talentosa médica que a atendeu, talvez sofresse real perigo de morte. Ficou acamada, isolada, cuidada, cercada de amor e após 20 dias, teve alta. 

E seguindo nesses zelos, consegui abrir espaço para o sentimento de indignação e justiça, olhos fixos quando penso como BolsoDeles e sua horda serão punidos, porque certamente serão por seus crimes. Vista alerta  também para os seus cúmplices, circulantes de nossas ruas, praças, feiras e salas de jantar, capazes de promover massacres enquanto bradam pela Pátria ou por Deus de tal maneira que parecem ser arrotos das almas sebosas que adquiriram ou sempre tiveram. 

Eclodiram o que há de pior na gente.

Quando entrei na embarcação rumo a Breves e de lá para Portel, senti-me realmente mascarado, quase um fora-da-lei  tal a quantidade de rostos desprotegidos, apesar das recomendações científicas. Embebidas as mãos de álcool, caminhei dentro do navio com um infravermelho mental tentando ver cada parte da embarcação contaminada, calculando a metragem de distância entre os passageiros até atar minha rede confortavelmente separada das demais pessoas. O navio ao numerar os pontos de escápula, ajuda a diminuir os riscos.

É estranho ter que pensar assim, logo eu que fico à vontade com o contato humano e nunca me preocupei com o entrelaçado das redes. Ao contrário, achava legal aquela muvuca. Só evitava os flatulentos (risos).

E desconfiado escondido na minha baladeira, eis que revi o Rio Pará.

Rio Pará que não é rio. Peguei o celular, achei o PDF do poema que fiz e li como se fosse oração:


Rio Pará

                      Belém, 07 de Janeiro de 2015.

Rio Pará que não é rio
Leve-me pra longe
Das coisas ruins da vida
Navegue navegue navegue
Vazante vazante vazante
Vazante é meu olhar pra ti

Sobe um turbilhão de água
Sobe um turbilhão de mágoa

Rio Pará que não é rio
Diga que sou inocente
Das coisas que na terra fiz
Vai barco vai barco
Leve-me à liberdade
Decidido é meu olhar pra ti

Bate-me um forte vento
Bate-me um contentamento

Penso num banjo
A tocar para mim
Tá dizendo em suas notas
Que a vida segue

Rio Pará
Pára o rio
E começa a encher

Navego navego navego
Enchente enchente enchente
Enchente é essa fé em mim


E terminada a meditação, reparei na minha rede bastante puída, desbotada. 

- Tenho que comprar uma rede nova, pois o tempo requer. Hummm...A Humanidade também carece de uma nova rede.

Uma rede, um rio, esperança, outro caminho.

Anotei aqui.



sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

Crônicas, Passageiro: a tragédia dos deterministas

 

Belém, 29 de janeiro de 2021.


Fui ao mercadinho comprar ovos.

Porta de acesso pequena.

Um homem sem máscara estava por ali batendo um final de papo. 

Esperei ele sair.

Quando ele sai e vou entrar, surge de repente um jovem correndo (sem máscara) adentrando na mesma porta.

Recuei.

Balancei a cabeça em negação e agora sim entro no mercado.

Lá fora, aquele homem que vi na porta subiu em sua bicicleta e esbraveja em minha direção para assim partir:

- Usa tua touca, rapá, quero saber se tu vai morrer de máscara!!

Não respondi. Comprei os ovos e saí calado, pensando nesta cruel filosofia espalhada pelos deterministas da Morte.



sábado, 22 de agosto de 2020

Crônicas, Passageiro: A Corda

 Belém, 22 de agosto de 2020.


Se eu não me engano, isso aconteceu em 1995.

Sinal que a memória anda já catando aqui e ali os pedaços do que foi vivido. Mas assim descrevo: estava na Estação Ferreira Pena, na Floresta Nacional de Caxiuanã em curso de férias promovido pela FCAP, hoje UFRA (anos depois um e-mail para Brasília exigiria que eu não entrasse nesta Unidade de Conservação, mas isso é outra história).

Eram tempos em que eu comia muito e dormia na mesma quantidade.

E não é que na Estação Ferreira Pena, apesar de toda estrutura inaugurada pelo príncipe Charles, não tinha escápula para atar as redes? Que engenheiros foram esses? Pra montar a baladeira, era preciso ter uma corda de pelo menos uns 3 metros pra dar a volta lá no alto, na tesoura do centro. 

Lascou. 

Minha corda era "gita". 

"Caramba, vou ter que dormir no chão", pensei. As camas da estação estavam reservadas apenas para os pesquisadores e um ex-calouro como eu dificilmente iria conseguir esse luxo.  Fiquei zanzando com a rede e a corda na mão.

Um pesquisador dormia na rede. Era um estadunidense que fazia intercâmbio e sua rede com um mosquiteiro estranho deixava à mostra uma corda imensa, mais de sete metros eu calculo, a ponto de enrolar-se no chão. 

"Cara, tanta corda, e eu aqui andando doido pra dormir... Vou torar um pedaço da corda desse gringo".

Fui procurar uma faca na cozinha.

Mexe. Mexe. Mexe.

"Não tem faca aqui... ahhhh, achei essa peixeira! Deve servir".


E naquela 1 hora da manhã, com todos já dormindo, me aproximei da vítima. Cortaria a corda do gringo e amarraria minha rede no outro lado do salão.

Fui sorrateiro como uma osga (até aparentava de tão magro que eu era).

O homem dormia, roncava em inglês.

Comecei a cortar.

Corta. Corta. Corta.

"Vamo, faca!".

Os olhos do gringo se abrem e deparam-se com minha peixeira empunhada.

"HELP!!!!!!!! HELP!!!!!!!!", gritou o infeliz.

Eu disse, "Não, não, eu só quero um pedaço de corda" e gesticulei esticando o braço direito e tocando na altura deste braço com o dedo de minha mão esquerda. Tenta fazer aí, leitor.

Aí é que o senhor gritou:

"HELLLLPPP".

Obviamente todos acordaram.

Uma confusão danada.

"Eu só queria roubar um pedaço da corda dele...".

Resultado: arrumaram-me uma cama. 

Dormi como o anjo que sou.

Fiquei ainda mais 3 dias em Caxiuanã.

O pesquisador estrangeiro? 

Continuou também por lá na estação. 

Quando me enxergava, se esgueirava pelas paredes.

Será que ele lembra de mim?







domingo, 14 de junho de 2020

Crônicas, Passageiro: O Botão


Belém, pensando sobre o passeio das pessoas na Batista Campos,
em plena pandemia, 14 de junho de 2020.


            
As notícias vieram-me como bananas mofadas.

Tanta gente passeando na capital paraense neste domingo, assim, assim, a dar de ombros para a situação que estamos. E implacável veio-me a memória, ahh, essa memória tão boa de longa data, mas sempre falha para as coisas corriqueiras do dia a dia. E hoje, o dia a dia caminha de morte em morte. Contudo, nisso não falharei. A causticidade é necessária. Que tempos!

Aí olhei pro nada. Na minha cabeça viajante para os anos 1980 anunciaram a programação:

“ALÉM DA IMAGINAÇÃO... Episódio de Hoje: O BOTÃO. Versão Brasileira: Herbert Richert...”.

Recordo deste pequeno filme. Uma mulher de cabelos ruivos estava na sua casa. Morava com seu marido e filhos e viviam com dificuldades financeiras. Seu marido frequentemente tinha problemas no emprego. A mulher de cabelos ruivos sempre estava a reclamar da vida e num dia de fúria diante de tantas dívidas, desejou ter muito dinheiro e bradou tal desejo para todo o bairro saber.

Toco-Toc-Toc.

Bateram à sua porta.

Ela atendeu.

Um homem de paletó, sério, magro, alto e misterioso que carregava 2 maletas diz seco e sem qualquer cerimônia:

“Eu vim fazer uma proposta para você”.

“Você vai me vender o quê? Vieste em péssimo momento”.

“Não vim lhe vender nada. Simplesmente vim fazer uma proposta”.

Já impaciente, a mulher de cabelos ruivos aceita ouvir a tal proposta mais para se livrar daquela visita na sua porta e continuar sua lida.

“Minha proposta envolve 1 milhão de dólares para que vocês superem suas dificuldades financeiras”.

“Como sabes?”.

Ele continuou geladamente.

“Ofereço a você 1 milhão em troca de uma simples ação. Posso entrar para lhe mostrar?”.

A mulher surpresa e já vencida pela curiosidade, deixa o estranho homem entrar no seu lar. Depositou a primeira maleta na mesa da sala de jantar. Pediu para que ela abrisse. A mulher de cabelos ruivos abriu. Que surpreendente! Notas a perder de vista estavam ali, certamente 1 milhão de dólares. Ele fechou a maleta e disse:

“A maleta com 1 milhão de reais pode ser sua. Só tem uma condição...”.

“Roubar?? Traficar?? Sei não...”.

O homem misterioso abriu a segunda maleta. Tinha simplesmente uma pequena plataforma, com uma elevação que claramente mostrava ser um botão de cor vermelha e um dizer “Aperte aqui”. Apenas isso.

“Mas é um botão!”.

“Sim... é um botão... e basta você apertar para ganhar 1 milhão de dólares, porém...”.

“Porém??”.

“Se apertares o botão, uma pessoa no mundo que você não conhece morrerá no mesmo instante”.

A mulher ficou boquiaberta.

O enigmático ser pegou a maleta com dinheiro e partiu, não sem antes avisar: “daqui a 3 dias eu voltarei para pegar a maleta com o botão vermelho. Decida”.

Foram dias de profunda agonia para aquela mulher. De princípio não levara a sério. Contou ao marido que sem pestanejar opinou:

“Pessoas morrem todos os dias. Aperta ué?”.

“Não, não. Não farei isso. Nem por todo o dinheiro do mundo”.

As horas se passaram e o marido que antes falava de maneira galhofada, começou a pressionar a esposa, tentá-la mesmo, esgueirando argumentos que iriam das contas da casa, da hipoteca, da faculdade dos filhos. Cenas que me pareciam uma nova versão da entrega da maçã, não por Eva, porém por Adão, pois ali a disputa era pela árvore do conhecimento sobre a vida das pessoas.

Pressão dele.

Pressão dela mesma.

A frase que martelava, sibilava: “todos os dias morrem pessoas mesmo...”.

A mulher de cabelos ruivos abriu a maleta. Suava. Tremia. “Mas o dinheiro... O dinheiro iria resolver tudo... As contas... Roupas... Uma casa nova... Um carro... não! Dois carros!”.

Apertou o botão.

Segundos depois, ouviu-se um barulho à porta.

Toc-toc-toc.

Era o sombrio homem alto, magro, de paletó.

“Olá, senhora. Vim trazer seu dinheiro”.

Entrou pela casa, foi à sala de jantar, trocou a maleta do botão vermelho por aquela milionária.

A mulher ficou eufórica, o marido ficou eufórico e quando o estranho já seguia seu caminho, a mulher de cabelos ruivos perguntou:

“E agora? Para onde vais?”.

“Sigo para mais uma casa, para mais uma proposta”.

“É na casa de algum vizinho aqui?”.

“Não. É UMA PESSOA QUE VOCÊ NÃO CONHECE...”.

O episódio de ALÉM DA IMAGINAÇÃO termina com o olhar espantado da mulher de cabelos ruivos.


E sobre a quarentena que vivemos?

“A pandemia democratizou poder de matar” -  Achille Mbembe/ Filósofo camaronês.

Pessoas que conhecemos e pessoas que não conhecemos...

É um tipo de Botão Vermelho...




Pantoja Ramos.




segunda-feira, 27 de abril de 2020

Dia da Terra Pairando no Ar



Esqueci de comentar sobre o Dia da Terra. Talvez as notícias tenham me atordoado. Ainda assim, hoje um beija-flor preto e azul entrou no pátio de casa e pairou pertinho de mim enquanto eu digitava.
Veio ver se eu tinha escrito alguma crônica.
- Tá bom, só pela visita e pela leveza, vou te registrar seu sapeca.
Saiu sorrindo.
Pronto.
Viva a Terra!


*Foto: Lago Branco, Almeirim-PA. 

sábado, 11 de abril de 2020

Crônicas, Passageiro: Pedro Barbosa, o Bom, o Mal, o Feio e a Grandeza

Belém, 11 de abril de 2020.


Esta é uma crônica sem floreios.

Porque o homenageado não suportava floreios.

Porque registro palavras sobre alguém autêntico.

Não é mesmo, seu Pedro? Pedro Barbosa, nome eternizado no Marajó.

Conheci Padro Barbosa em 1990, na cidade de Monte Dourado, lá no Jari. Reuniu com meu pai, conterrâneo seu, em casa, buscando eleitores e apoiadores. Sequer vi a cara deste homem, só escutara a voz grave dele se destacando no meio das pessoas na cozinha. Ainda assim, recebi ordem do meu pai de ir falar com meus amigos e estes falarem para os pais deles sobre o tal candidato. 

"E quem é Pedro Barbosa??", perguntavam meus amigos, querendo uma justificativa para irem adular seus pais sobre este voto.

"Ora, ora, é... é primo do Beto Barbosa!".

"Ahhhhhh simmm".

Que coisa feia, Carlinhos. Não sei se consegui eleitores. Tentei. E talvez lutasse mais por tais votos, se soubesse a cena que me ocorreu depois. De um homem que dormiu por quase um dia inteiro em uma rede lá em casa por não ter sido eleito.

"Mãe, por que esse homem dorme tanto?".

"Ele tá triste por ter perdido a eleição". Achava que seu projeto político iria lograr êxito, na exposição de toda uma capacidade analítica do mundo, moço estudado e preparado para ser um legislador paraense, por que não? Ah, eu digo o motivo: é "pusquê" talvez homens inteligentes e sabedores que o Sistema é vil e cheio de fragilidades não podem facilmente ter cargos  de decisão a nível estadual ou nacional ainda mais oriundos de lugares pobres como Portel. É ameaçar a pirâmide. É risco à Democracia por castas.

E teimando por suas teses, depois de muita tentativa, foi eleito prefeito de Portel. Não quero arriscar alto, mas estaria bem nas apostas se indicasse que Pedro foi o melhor prefeito daquele município. Foram oito anos em que coincidentemente estive de volta a Portel trabalhando pela ONG FASE e IDEFLOR e percebendo suas ações. O barco da saúde, a Madonna, o apoio às atividades de ordenamento territorial no município, temperadas com sua simplicidade bicicleteira nas ruas me convenceram de seu comprometimento.

No dia em que apanhei do Sarney (mais detalhes disso é melhor contar em uma roda de conversa), lá estava ele no mesmo palanque que eu, convalescente da quimioterapia e do câncer em estágio de superação. O bom murro de Sarney foi acertadamente errada nele e acertada em mim, jovem ainda, cheio das forças para suportar aquele bom galo na nuca. Para Pedro, poderia ter sido um complicador de sua já desgastada saúde. O Bispo Dom Luiz Azcona que também estava no palanque não entendeu nada. Nem eu, que parecia um porre a falar asneiras, resultado do baque. 

Quando Pedro se tornou gestor da Associação dos Municípios do Marajó, nos aproximamos mais, dada a ideia junta que tínhamos de um Marajó necessitado de ser liberto de sua escravidão causada pelo patrão, pelo aviamento e pela depredação dos recursos naturais. E a cada discurso, a cada piada e a cada mostra da oratória franca que fazia ("miserável!" ele dizia) , aparecia na gente o entendimento leve que tudo sim podia ser transformado e transformador. 

Nunca entendi algumas de suas articulações políticas, o porquê da opção historicamente pelo PMDB.  Sei lá, tinha todo o jeito de pertencer à Partido de Esquerda e mais que Esquerda, de Baixo. E reparem, diante dos atuais dias, de tanta gente estúpida, ignóbil em seus mandatos país afora, não exagero em dizer que Pedro fazia bem seu papel, de debatedor de ideias, mesmo nas costuras. 


E foi assim que ouvi uma das frases que até hoje me move: "o Marajó vai cumprir seu destino". 

E foi assim que minha memória se fortaleceu navegável: quando da última vez que nos encontramos, viemos em sua voadeira do Monte Hermom, rio Pacajá até a cidade de Portel, conversando em fim de tarde sobre os jogos de futebol em que ele e meu pai faziam quando moços. Zaga forte, dos clássicos de Camel e Fabril.


Só nunca gostei da alcunha que lhe deram, de feio.

Feio é não ser Grande como Pedro Barbosa.





"Muitas vezes, desgraçadamente, nos sentimentos pequenos demais para lutar pela nossa própria Grandeza".
Pedro Barbosa.








segunda-feira, 6 de abril de 2020

Crônicas, Passageiro: "Controada"



Mano, Mana, eu saí de casa depois de 15 dias pra comprar comida porque o estoque tinha acabado. Minha esposa e eu fomos ao Entroncamento caminhando.

Parecia um dia normal quanto ao movimento de pessoas.


No que esperava fora de um dos atacadōes, passou um rapaz que trabalhava como carregador de mercadoria, sem luva, sem máscara e escarrou na minha frente, apontando para os colegas: "Tu pegou... Tu pegou... Tu também...".


O segundo passou com uma caixa na cabeça ofegante no seu duro trabalho e cuspiu também.


O flanelinha que estava a catar carros para estacionar andava de lá pra cá tocando uma flauta em arremedos de alguma canção.


Um senhor bem velhinho parou diante de mim e pediu-me 2 reais, no que um outro gritou "dá não! É pra cachaça!". Busquei o dinheiro e quando vi, ele já estava longe. Falei baixinho "senhor, vá pra sua casa".


Um rapaz sem máscara, sem luva, dava o panfletinho, de mão em mão para centenas de passantes (imaginei), divulgando o centro odontológico ali perto. 


Saindo do Entroncamento, vi 3 idosos conversando sobre o Mundo. Na esquina.


Tudo isso em lapso de tempo de 15 minutos.


Caminhava calado. "Todas essas pessoas e suas famílias ficarão bem?", pensava.


"Amor, você tá bem?".


"Tô, só queria ficar em posição fetal".


Ela fitou-me como se dissesse:


"Fica em casa".








Imagem: região do Entroncamento, em Belém do Pará - Google Maps.