Era uma segunda-feira de maio. Ajeitei-me para seguir para a universidade. Nesse dia eu participaria do sorteio do tema da prova didática em um concurso para professor substituto, cuja aula do tema sorteado seria ministrada no dia seguinte. Pedi o serviço de carro por aplicativo. Deivid o motorista do carro chamado. Viagem normal até chegar próximo ao Parque do Utinga. Nosso carro bateu na traseira de um outro veículo. Um susto com a freada brusca. O que estava engarrafado, ficou pior com nosso acidente. A condutora do outro carro saiu para ver o pequeno estrago. Não sou muito entendedor de automóveis, mas tive a impressão de pouco impacto no veículo. Deivid também saiu pra dialogar. Fiquei observando a conversa deles no meio da pista. Ela estava nervosa perto de um homem desconhecido, que envolvia uma batida de carros, com um monte de gente buzinando e num tempo em que pipocavam nas redes sociais as monstruosidades masculinas em várias regiões do país, não que não houvesse antes, mas as telas explodiam de casos. Ela segurando o celular com as mãos trêmulas. Deivid foi solícito:
- Estou sem
razão dona, o que for para ser pago, vou pagar. Não se preocupe.
- Estou
falando com meu namorado, pois ele entende de carro melhor que eu. O prejuízo é
de 500 reais.
- Tranquilo.
Me diga qual o seu pix?
Transação
feita. Ela seguiu. Nós seguimos.
Deivid
comentou comigo:
- Ela tava
muito nervosa. Acho que ela pensava que eu iria tratar mal, gritar, intimidar.
Sou desse tipo de homem não. Sei que tem muito cara escroto por aí... Mas seu Carlos, que
horas o senhor tem que chegar?
- Antes das 8
horas.
- Rapá, bora
então.
Chegamos na universidade. Adentrei a sala onde se realizaria o sorteio às 7h59min. Uma moça chegou 8h02min e
não conseguiu participar. Foi por pouco. O tema sorteado para a prova didática
foi Governança e Manejo dos Recursos Naturais.
Passei o dia
fazendo plano de aula. Pedi para minha filha imprimir. Preparei a aula de
noite após a dormida do meu filho. Terminei de preparar minha aula por volta de
meia-noite. Botei o despertador para tocar às 5h30min.
Acordei,
fiz o café, adiantei algumas coisas para a ida de Neri e Vicente para a terapia,
tudo ajeitado, tudo certo. Pedi o serviço de carro por aplicativo novamente para
a universidade. Eram 6h25min. O prazo máximo para estar na sala de realização
das apresentações para os participantes da seleção era 7h30min.
Deu 6h30min. Nenhum
carro aceitou corrida. 6h35min, 6h40min. Comecei a ficar preocupado. Às 6h45min
um carro aceitou. José era o motorista. Digitei nas mensagens.
“Bom dia. Não
desista de mim rsrsrs”.
Saímos às
6h50min.
- Mestre,
temos que tentar a rota mais rápida possível.
- Pode deixar,
seu Carlos.
E logo nos deparamos com um engarrafamento digno de assim ser chamado. Nem saída para um lado,
nem para outro. Uma terça-feira. Tudo parado. Seu José fez as contas, me deu esperança, traça um
plano aqui, outro acolá e em certo momento concluímos que o melhor era achar
uma moto por aplicativo. Ficamos na espreita.
- Você tá
fazendo corrida? – Seu José perguntou ao motoqueiro que passava com um capacete preso ao braço.
- Tô não, tô
indo buscar minha mãe.
E fomos
procurando, procurando, até que eu decidi:
- Seu José,
olha, eu vou descer pra procurar uma moto. Tá tudo bem, tá? É que eu preciso
tentar outro meio.
- Tranquilo,
seu Carlos, entendo sim. Pode ir... Mas estamos na pista do meio. Deixa eu só ver se tá limpo para o senhor
abrir a porta... vai.
Segui na busca por alguma moto, já naquele sentimento de um time que precisa fazer um gol aos 48 minutos do segundo tempo e que a tática já foi pro espaço. Olhei para o relógio. 7h15min. Estou no cruzamento da Avenida Júlio César com a Almirante Barroso. Concluí que não chegaria a tempo. Só se voasse (cadê o skate voador que nos prometeram nos anos 1980??). Pronto. O jogo acabou, fiquei por uns minutos andando sem pensar pela calçada, sem saber pra onde iria. Voltei pra casa.
Chateado. Mordido.
Me xingando. Mea culpa, mea culpa. Um dia todo remoendo, querendo dormir e só
dormir pra passar a raiva. Mas não passava. Veio a tristeza. Veio a conclusão: o
único culpado por perder a prova fui eu. Essa mania que tenho de tentar
controlar o tempo. Mas quem controla? Sempre raspando, sempre nas últimas, pra
pegar avião, pra pegar barco, para chegar nos compromissos familiares, nas
agendas profissionais. Não era assim, fui ficando assim. Mas até barco já
voltou pra me buscar, aí não fui punido. Deveria. Agora não teve jeito. Aceita e evolua,
Carlos! Eu já disse que fiquei muito triste com o ocorrido? Já né?
Na sexta-feira
da mesma semana, fui ao Incra. Fui de ônibus. Caminhando em uma rua em que não
costumo seguir, indo para um órgão que não costumo estar, num horário fora de
minha rotina, em uma cidade de milhões de habitantes como Belém, ao passar por
uma borracharia, uma voz me chamou.
- O senhor
conseguiu chegar a tempo? Carlos, né?
- ??
- Lembra de
mim?
- Simmm. Da corrida na terça... Ahhhh, Seu... – maldita memória que tenho para nome de pessoas.
- José.
- Seu José! –
E lhe dei um abraço.
- O senhor chegou a tempo pro concurso?
- Não cheguei, Seu José. Não cheguei.
- Poxa. Sinto
muito. Cara, eu fiquei com a consciência muito pesada. Fiquei pensando “cara,
ele precisava chegar”. Fiquei pensando nisso.
- Ô, Seu José.
A culpa foi minha. Só minha.
E José começou a lagrimar. Sentiu que eu tinha perdido algo muito importante. Se colocou no meu lugar. Eu fiquei sem jeito, mas admirado de uma pessoa que só me viu uma vez na vida ter tido empatia pelo que perdi. Não sabia nem o que fazer... Ele lagrimando... rude, mas sentimental e o mais importante: humano. Pensei em soltar uma frase dessas pomposas em cerimônias de premiação: “por sua empatia para comigo, eu te lembrarei nesse momento solene que és um homem trabalhador, digno, pessoa de boas atitudes que a Humanidade precisa e deveras confiável”. Mas só pensei, porque a única coisa que pude fazer foi colocar a mão no seu ombro e dizer:
- Mano, tu és um
bom homem.
José soltou um sorriso. Ergueu a
cabeça. Nos despedimos e seguimos em nossas pelejas e aprendizados.
E assim a semana
terminou... em paz.
Pantoja Ramos.
