sexta-feira, 14 de outubro de 2016

terça-feira, 11 de outubro de 2016

Lamberto, O Traumatizado: 20 anos

Lamberto, O Traumatizado e seu filho Simone (outro traumatizado) curtiam a ressaca da aprovação da PEC 241 no Congresso Nacional, que congelaria por 20 anos os gastos com saúde, educação e assistência social, sem tocar na fortuna dos banqueiros e dos bilionários-a-quem-nós-pagamos-o-pato.

"Pai, eu queria entender o que acontece de agora em diante".

"Filho, pega o dicionário".

Simone veio com o pai dos burros.

"Dá aqui que eu te mostro. Olha só, Estado: conjunto de poderes políticos de um país. Agora deixe-me ver... Nação: conjunto dos habitantes de um país. Viu?".

"Não, e aí?".

"Ontem, dia 10 de outubro de 2016 o conjunto de poderes políticos de um país (representados pela maioria de 366 congressistas) se tornou oficialmente adversário do conjunto de habitantes de um país (de 206 milhões de habitantes) por 20 anos".

"E agora?", perguntou o filho.

"Agora é cantar Legião: VenhaMeu coração está com pressa. Quando a esperança está dispersa. Só a verdade me liberta. Chega de maldade e ilusão...".




Sem Traumas.




 

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Justa Causa


Belém,  09 de outubro de 2016.


Eu vi meu pai se arrastar
eu vi um trauma tramar
a chave do homem guardar
compra do mês a filar
eu vi o salário
esgotar
hora-extra
que detesta
álcool fez sua festa


Bate o cartão ó João
bate o cartão coração
máquina de opinião
não vejo o dia senão
na novela de uma nação
vai Maria
que acredita
que é sua vida
que é liberta
liberta
do patrão


Fugindo vou pela mata
quase a boca me escapa
"quanto o dinheiro maltrata"
fã de um escravocrata
uma cortina aparta
da sociedade a nata
“Agro é tudo”
menos pro mundo
um solo fecundo
é tão estéril
estéril
o patrão


O ônibus óbvio lotado
de um pescoço esgotado
pressinto o olho cansado
de um modelo adornado
Pro meu dinheiro trocado
e um cobrador anulado
motorista
ativista
freia na pista
pra acordar
acordar
do patrão


Na base de um açaí
que mela o dente a sorrir
que roi às vezes um mari
que rasga um jaraqui
a minha aldeia sentir
a ameaça cair
traz fome
como um drone
sem a alma só nome
só a fama
a fama
do patrão


Carrego o peso dos anos
carrego o peso dos bancos
você que era meu mano
agora se diz soberano
entramos os dois pelo cano
Baixa classe
Média classe
nós daremos a face?
pra bater
bater
o patrão?


Agora o plano de aula
viver a mente na jaula
maneira tão dinossaura
de aperta-lhe a válvula
de abobar a sua lauda
lhe colocar uma cauda
do burrinho
burburinho
escapou um bilhetinho
“Sou distinto
distinto
do patrão”


O meu profeta era livre
assim meus sonhos mantive
Tenacidade decide
cantar um salmo que vive
comerás o pão que te grite
“Sobriedade
Humanidade
Liberdade”
quem tem coragem?
pra derrotar
o patrão
Pantoja Ramos

http://www.recantodasletras.com.br/poesias/5786914

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Baía, O Viajante: Liberdade e Algozes


Lamberto, o Traumatizado: Seu Umbiguinho

Lamberto, o Traumatizado, ponderava com seu amigo-pai, Sábio Colares, os resultados das eleições municipais de 2016:

"Colares, você viu? Foram eleitos muitos prefeitos ricos e conservadores. Como se explica?".

 Sábio Colares contou-lhe uma estória.

"Conheci certa vez um homem conhecido por todos como Seu Umbiguinho. Morava lá pras bandas de Pucuruaçu, onde ocorrera mais uma eleição pra prefeito. Disputavam naquele ano os partidos PSAS (Partido Sou A Solução) e o PSdeN (Partido Sentimento de Nós) , um mais ligado ao poder econômico, outro vindo da luta da população por direitos básicos. No meio, o PDdoA (Partido Depende do Acordo). Umbiguinho era gari em um município em que os garis não eram valorizados, tanto nos salários, quanto nas condições de trabalho. Seu Umbiguinho conhecia o candidato do PSdeN, um professor também lascado como ele, que lutava pela educação, pelo meio ambiente e pela justiça aos professores e aos demais trabalhadores, inclusive para que a vida dos garis fosse digna.  Participavam sempre das mesmas passeatas. Reclamavam juntos por melhores salários. Até juntos receberam as mesmas pedradas dos filhos dos grandes comerciantes nos atos de protesto. Eram bons conhecidos. O candidato do PSdeN conseguiu a duras penas projetos para seu bairro. Água, luz, piçarra na rua, mesmo um bico extra de carreteiro de entulhos das casas conseguiu Umbiguinho a partir do esforço do candidato do PSdeN.  Estavam ali no movimento, iguais.

No dia da eleição, o candidato do PSdeN ficou em quarto lugar. O vencedor do pleito foi aquele do PSAS, que ficara com 35% dos votos.

Brancos/Nulos/indecisos somaram 35%.

O candidato do PDdoA com 25%.  

O professor com 5%.    

Refletindo sobre a derrota nas urnas ao passear no bairro, de pobreza espalhada e valas abertas a multiplicar as carapanãs, o candidato do PSdeN ficou encucado quando viu o imenso cartaz do PSAS na casa do Seu Umbiguinho. Guardou a dúvida pra si.

Quando a vida tomou realidade novamente, as mesmas lutas, as mesmas reivindicações, a labuta de sempre, lá estavam o professor e o seu vizinho gari no meio de uma caminhada reclamante. O professor aproveitou a ocasião e puxou conversa com Seu Umbiguinho: "Seu Umbigo, por nada não, mas eu vi um cartaz imenso do candidato do PSAS na porta da sua casa. Sei que o voto é secreto, mas diga pra mim, o senhor votou nele?". 

"Votei sim, professor".

"Mas eu ando junto contigo todos os dias, todos os anos, haja chuva ou sol pra que as coisas melhorem... Puxa, olha, não vou ficar com raiva não, viu? Só me explica porque o senhor votou no homem que nem liga pra gente, do PSAS. O cabra anda até com os comerciantes que mandam dar pedradas na gente!".

"Posso dizer? Na boa?".

"Pode".

"Ele foi lá em casa pedir meu voto. Já o senhor nunca foi. Me senti 'o cara', um patrão daqueles lá em casa pedir meu voto. Aí ele me ganhou...".



Sábio Colares perguntou a Lamberto: "o que tu tiras daí?".

Lamberto respirou fundo e disse: "Esse Seu Umbiguinho....".






Sem Traumas.