segunda-feira, 23 de julho de 2012

MPF quer mais médicos e melhores condições de trabalho para fixar profissionais na Amazônia


Recomendação encaminhada ao Ministério da Saúde objetiva reduzir carência extrema na prestação de serviços de saúde na região
O Ministério Público Federal, por meio dos Procuradores Regionais dos Direitos do Cidadão de cinco Estados da Amazônia Legal, encaminhou ofício ao Ministério da Saúde em que recomenda a implementação de medidas para melhorar as condições de trabalho e fixar mais médicos na região, a mais carente do país em números de profissionais da área em relação ao número de habitantes. Enquanto a média nacional é de 3,33 profissionais a cada mil moradores, na Amazônia essa taxa é quase duas vezes menor: 1,86 médico para cada mil habitantes.
Os Procuradores Regionais dos Direitos do Cidadão no Amapá, Maranhão, Pará, Rondônia e Tocantins questionam o Secretário de Atenção Básica do Ministério da Saúde, Helvécio Miranda Magalhães Júnior, sobre quais medidas vêm sendo adotadas para redução do déficit de médicos na região.
Para o MPF, é necessária a tomada de providências urgentes, sobretudo para atendimento à população do interior, e para isso devem ser levadas em consideração “as peculiaridades locais, como o espaço geográfico e a acessibilidade às regiões na Amazônia Legal, fiscalizando a realização da política pública de manutenção de profissionais da medicina nos Estados e municípios”.
Segundo o Conselho Federal de Medicina (CFM) e o Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp), que em 2011 realizaram pesquisa sobre a distribuição demográfica dos médicos no país, a carência de médicos na Amazônia Legal, tem relação não só com a densidade demográfica e o quantitativo de profissionais, mas também com a qualidade dos postos de trabalho ofertados, as condições de exercício profissional, a remuneração, o perfil e a disponibilidade de especialidades médicas, as políticas públicas, entre outros itens.
Apesar de a Organização Mundial de Saúde recomendar a existência de, no mínimo, um profissional para cada mil habitantes, Estados como o Amapá, Pará e Maranhão não chegam a ter nem esse mínimo. E os Procuradores Regionais dos Direitos do Cidadão alertam: se excluídos os médicos que atuam nas capitais, os índices de acesso aos serviços de saúde, já ruins, ficariam ainda piores.
E o quadro se agrava mais ainda quando complementado pelos dados sobre a cobertura feita pelos planos de saúde. Na região, apenas 11% da população tem acesso a esses serviços, enquanto que em outras regiões, como o sudeste, quase 40% dos habitantes têm planos de saúde. “Logo, 90% da população da região norte, por necessitar do Sistema Único de Saúde, conta, em média, com apenas um quarto dos médicos atuantes na região – que já padece com o número reduzido de profissionais – situação que, certamente, deve ser a realidade dos demais Estados pertencentes à Amazônia”, detalha a recomendação.
“Com políticas públicas que permitam que cidadãos brasileiros da Amazônia sejam privados de atendimento médico, e que imponham deslocamentos por horas ou dias de barco para consultas simples ou para atendimentos médicos de urgência com risco de agravamentos e mortes para quem não reside em grandes cidades, não se tem a concretude prática da nossa Constituição Federal para os povos na Amazônia, no que tange ao atendimento à saúde e a garantia à vida de forma dignidade”, criticam os Procuradores Regionais dos Direitos do Cidadão no Amapá (George Neves Lodder), Maranhão (Ana Karízia Távora Teixeira Nogueira), Pará (Alan Rogério Mansur Silva), Rondônia (Renata Ribeiro Baptista) e Tocantins (Victor Manoel Mariz).
A Secretaria de Atenção Básica do Ministério da Saúde tem 30 dias para apresentar as respostas solicitadas pelo MPF.
Fonte: MPF - Ministério Público Federal

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Madeireira acusada de falsificar documentos é bloqueada no PA

 
De acordo com a secretaria, um suposto consultor da empresa protocolou no dia 3 de julho deste ano, o pedido de créditos no Sisflora de 725 m³ de madeira serrada, entre elas a maçaranduva, candeia, roxinho e jatobá, todas vindas do Maranhão. Ao realizarem a fiscalização, os agentes do governo encontraram apenas cerca de 30 m³ de madeira em tora.
Segundo o gerente de Fiscalização da Sema, César Platon, nenhuma madeira serrada foi encontrada, conforme a solicitação feita pelo consultor ambiental."Na empresa, um dos sócios afirmou que não conhecia o consultor, e que o procurador da empresa seria outra pessoa que sequer havia ido à Sema solicitar créditos, já que não possuíam aquela quantidade de madeira descrita", disse Platon.
A empresa foi autuada por desdobro (corte de toras para formar tábuas e vigas) e comercialização de madeira em desacordo com a legislação ambiental e deve permanecer bloqueada no Cadastro de Exploradores e Consumidores de Produtos Florestais do Estado do Pará (Ceprof) até sua regularização na Sema. Enquanto isso, não poderá comprar, vender ou transportar produtos florestais.
http://noticias.terra.com.br/brasil/noticias/0,,OI4158726-EI8139,00-Madeireira+acusada+de+falsificar+documentos+e+bloqueada+no+PA.html?

Os sessenta reais mais valiosos do mundo


Belém, 25 de junho de 2012.

Foto: FASE


Caríssimos Manoel e Vivian,


Em junho de 2004, conheci o rio Acuti-pereira. Estava recente de sua tragédia comunitária, o ataque da hidrofobia que vitimou dezessete pessoas na região. Na missão de elaborar um diagnóstico socioeconômico das famílias locais para iniciar o processo fundiário e debate sobre os recursos naturais locais, conheci Dona Dinalva, que vivia no médio rio. Não me lembro de Dona Dinalva não estar com um filho no colo. Parecia muito sofrida, certamente é esteio de sua casa que não conheci ainda. Alta, forte, negra, pareceria que nem a pior das tempestades marajoaras era capaz de amedrontá-la. Talvez nela eu reconhecesse a força típica da trabalhadora rural de Portel, na luta por se manter, por manter a prole, manter a casa.


Sempre a vi participante das reuniões. Calada, tímida, estava ali nas oficinas de plano de uso ministradas pela FASE, nas reuniões sobre o pedido de Reserva Extrativista do Acuti-pereira, na apresentação do estudo socioeconômico, aquele onde peguei o murro na nuca do Sarney (história que prometo contar outro dia via carta). Toda vez a enxergava em algum evento. Lá estava Dona Dinalva no encontro de Mulheres do Marajó, ocorrida em Portel em 2007. Mas foi em um evento de capacitação de melhoramento da produção de farinha que a conheci de fato.


O curso foi ministrado por Dona Júlia, a melhor produtora de farinha da região, reconhecida em certificados de feiras e premiações. A idéia era passar informações de como melhorar a qualidade da farinha produzida, e obviamente atuar na auto-estimar das pessoas. A maioria eram mulheres. Aliás, em Portel, sempre são as mulheres as mais presentes nos encontros rurais. Eu investiria nelas. Ah, um detalhe importante: vocês dois conduziram a moderação da capacitação muito bem.


Dias depois, já com um fardo de farinha com uma qualidade bem melhor do que costumava produzir, fruto do aprendizado do curso, estava Dona Dinalva na dúvida se poderia vender a farinha a um preço melhor. Dona Júlia incentivou:


- Pode ir com confiança que tu vai vender por sessenta reais?


- Será? – disse Dona Dinalva, acostumada a vender o fardo a trinta reais.


- Vai ver...


Ao ficar por ali parada na feira, naquele zezeu de gente indo e vindo do interior, um picolezeiro de calça e sandália passando aqui, um ancião chegando de barco provavelmente para ir no sindicato acolá, pára perto dela um comprador de farinha, daqueles que provavelmente levam a produção direto para o porto de Santana, no Amapá.


- Quanto tu vende o fardo?


- Sessenta reais – meio indecisa, quase não sai a fala.


- Tá vendendo ouro, é? – e saiu o cidadão de lado, deixando Dona Dinalva na dúvida se devia manter o preço.


Aconselhada por Dona Júlia, teimou no valor e depois de muitas giradas, provadas, olhadas para a farinha de Dinalva, o comprador aceitou pagar os sessenta reais por fardo. Sua alegria, contida como sempre, veio com a certeza que valeu a pena acreditar em um curso para uma pequena mudança, um episódio que seja na economia de seu dia a dia. E acredita agora que pode ter sua situação mais digna e cidadã, por seus próprios braços e cabeça. Ta lá uma saída, não mais uma escuridão. Não foi à toa que fora um dos melhores desempenhos da oficina, pois agora, o resultado.


Decidi escrever esta carta aos dois porque vi nos olhos de cada um o mesmo que eu sentia ao desvendar um enigma em cada projeto que fazia. É como marcar um golaço de bicicleta. Existem as soluções, em algum lugar, mas é a atitude de ir atrás dela que faz a diferença. Perdido no mato, o melhor negócio é andar, pelo menos pra mim. Nestes instantes cai por terra a minha vaidade, intransigência, gabolice, arrogância. É avaliar a unidade das coisas. É transformar, ao menos um pouco, uma realidade difícil como temos em Portel, no Marajó, no Pará, na Amazônia.


É perceber que tem sentido valorizar a pessoa e o meio em que ela vive, podendo ser usando a desculpa da farinha, do açaí, do artesanato, do camarão, da madeira, da dança, da arte, de alguns reais.


Os sessenta reais mais valiosos do mundo.


Aos mestres, escrevi.

Pantoja Ramos

domingo, 1 de julho de 2012

Entender o REDD é preciso

"Como outros mercados, um poluidor poderá compensar suas emissões comprando créditos de quem ainda tem o que conservar. Por outro lado, se um dono de floresta mantiver sua mata em pé será compensado financeiramente..." (texto sobre REED http://www.oeco.com.br/suzana-padua/18264-oeco26975)

Peraí, deixa-eu-ver-se-eu-entendi:

1 - eu estou oferecendo carta branca para aquele que polui fazer mais??

2 - não punirei quem manter a escalada irresponsável?

3 - comunidades podem estar contribuindo para que outro polua, apesar de estar conservando a sua parte?

4 - Onde fica a floresta produtiva e manejada? No futuro o mercado virtual de REED será mais valioso que a produção física das florestas comunitárias?

Precisamos pensar.

Ser contra simplesmente por ser não basta.

Mas precisamos entender o bagulho.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Carta sobre planos de uso dos recursos naturais



Alto Rio Camarapi, Portel, 06 de junho de 2012.

Caríssimos
Pedro, Bira, Girolamo, Juci, Codó e Alípio.

Esta viagem que faço para Portel, no Marajó, trata do lançamento do projeto do Sindicato de Trabalhadoras e Trabalhadores Rurais de Portel (STTR Portel) em parceria com o Instituto de Desenvolvimento Florestal do Estado do Pará (IDEFLOR). Seu propósito é incentivar a elaboração de planos de uso dos recursos naturais de cerca de 60 famílias comunidades que fazem parte da estratégia do IDEFLOR de estabelecer Decreto de Reserva de 274.919 hectares envolvendo cerca das micro-regiões Jacaré-Puru, Alto Camarapi, Acangatá e Acuti-pereira. Ao lembrar a 15 anos atrás dos debates sobre planos de uso documentados em Gurupá, que o plano de uso acordado pela comunidade antes da destinação fundiário, é um bom preparo das famílias para recebimento do documento fundiário, uma contrapartida de fato para as concessões de direito real de uso.

As localidades Ilha de Santa Bárbara, Ilha das Cinzas e rio Jaburu são alguns dos exemplos que mais me recordo em seus detalhes, talvez por conta de ter acompanhado de perto e com maior intensidade, todas hoje regularizadas em formato de assentamentos agroextrativista ou Reserva de Desenvolvimento Sustentável. Aprendi nestas construções participativas que discutir regras de uso da mata e dos rios estava além de discutir segurança da terra, tratando-se de uma luta pela manutenção das famílias.

Nestes lugares pude perceber que as regras comunitárias seriam o direcionador de todas as ações em agricultura e extrativismo realizadas pelas comunidades, com os limites de respeito entre cada posse como redutor de conflitos. Assim uma posse historicamente iria do igarapé limão até o tracuá e tudo estava acertado entre os confinantes. Deste modo não seria permitido bater timbó. Assim ficava estabelecido que explorar madeira seria apenas se houvesse manejo florestal. Aliás, neste ponto, percebi ao visitar alguns assentamentos, que a falta de discussão prévia sobre onde e como seriam feitas determinadas atividades agroflorestais, abriu-se a porta para espertalhões que se aproveitaram da terra regularizada para praticar a extração predatória.

Entendi que quando se debate a natureza e a convivência entre famílias, todos ficam mais fortes. Daí a conseqüência de estarmos mencionando a regularização fundiária como conseqüência nos casos Santa Bárbara, Ilha das Cinzas, Jaburu. Acho até que a avaliação de tais planos é estratégia de reacender a chama da organização comunitária, agora em vez da luta pela terra, da batalha pela valorização da floresta. Se bem ganhamos, bem temos que manter.
Acho muito louvável que o IDEFLOR inicie a regularização fundiária a partir de diagnóstico socioeconômico e plano de uso dos recursos naturais nas comunidades portelenses. Em um tempo em que a direção do ITERPA assume o posicionamento retrógrado de não mais desejar destinar terras por meio coletivo, no mesmo governo tem-se uma opinião contrária, onde a discussão precisa passar sob o ponto de vista territorial de utilização dos recursos florestais e aquáticos por famílias agroextrativistas. Interessante este certo impasse, o que significa que o processo de ordenamento passa a ser mais importante que o entendimento de um ou dois indivíduos do que é regularizar terras.
Portanto, lá vou eu novamente ajudar na elaboração de planos de uso, convidado que fui pelo STTR de Portel e IDEFLOR.

Além de elaborar, a ocasião é ótima para avaliar o caso do rio Acuti-pereira. Da grave crise humanitária que se instalou naquela localidade em abril de 2004, quando da morte de 17 pessoas por hidrofobia causada por morcegos, naquele mesmo ano as comunidades analisaram a maneira como tratavam a fauna e flora, em época em que balsas de madeira escapavam do rio, empobrecendo ainda mais os moradores. Com isso, as associações Associação dos Trabalhadores Agroextrativistas do Acuti-pereira (ATAAP) e Associação dos Produtores Extrativistas do Rio Acuti-pereira (APERAP) construíram leis comunitárias para disciplinar a caça e a pesca, ao mesmo tempo em que se manifestaram contra a extração madeireira, ameaçando fechar o rio. Se não conseguiram sua tão sonhada Reserva Extrativista (perdido o processo dentro da intrincada transição entre IBAMA e ICMBIO), ao menos melhoraram suas ofertas de caça, pescado e produção de açaí, segundo os relatos que tomei neste janeiro de 2012 quando visitei a comunidade Laranjal, terra da querida Vanica. Não sabem os moradores afirmar em termos numéricos este avanço, mas sentem a diferença nestes oito anos. É momento realmente de avaliar para aprender e ensinar.

O Plano de Uso é um constante estado de alerta. Depois do que vi em uma comunidade que tinha suas leis, mas as fizeram cair pela sedução madeireira, penso ser necessário que as associações agroextrativistas passem a dar o mesmo peso em relevância das assembléias de eleição de diretoria com as assembléias de avaliação dos planos de uso dos recursos naturais.

Seria uma prova de lealdade com o futuro. Um pacto com os ainda não nascidos.

Aos mestres, escrevi.

Carlos Augusto Pantoja Ramos

Pantoja Ramos
Enviado por Pantoja Ramos em 18/06/2012
Reeditado em 19/06/2012
Código do texto: T3729942

domingo, 17 de junho de 2012

Após expulsarem latifundiários, moradores da floresta dão exemplo de sustentabilidade



Gurupá é uma das regiões no Brasil onde o direito de uso e de acesso à terra e aos recursos naturais pelas comunidades locais foi mais bem resolvido. A floresta é explorada, mas 96% da mata seguem intactos.

O índice de prosperidade tem indicadores próprios na Ilha das Cinzas. E ele é considerado alto pelos moradores: as 60 famílias têm um barco cada uma, as casas foram recentemente equipadas com televisão e parabólicas, não falta diesel para abastecer o gerador de energia elétrica, todos usam coletivamente computadores conectados na internet via satélite.

A comunidade é cravada na floresta, rodeada pela águas do rio Amazonas, no oeste do estado do Pará, e fica a quatro horas de barco da cidade mais próxima.
A melhoria de vida no local é recente. A situação começou a mudar quando os moradores se uniram para acabar com o domínio dos latifundiários, no início de 2000, e passaram de posseiros informais a donos legais da terra onde sempre viveram. A tranquilidade trazida pelo direito de posse ajudou a acabar com a miséria.

"Antes, todos aqui eram muito pobres. Mas agora todo mundo conseguiu muita coisa. Nós nos unimos e colocamos o conhecimento em prática", conta Manuel Malheiros de Oliveira, presidente da Associação dos Trabalhadores Agroextrativistas da Ilha das Cinzas.

O município de Gurupá, do qual a ilha faz parte, é uma das regiões no Brasil onde o direito de uso, de acesso à terra e aos recursos naturais pelas comunidades locais foi mais bem equacionado. Por iniciativa dos moradores, 99% do território do município estão atualmente em processo de regularização. O controle das florestas pela população local também é modelo de preservação – 96% da mata do município continuam intactos.


A expulsão do latifundiário ilegal
A figura do "patrão" fez parte da história da região até há pouco. Ele se dizia dono de grandes faixas de terra, exigia que fosse o único comprador da produção dos posseiros que ocupavam sua propriedade. O patrão cobrava ainda desses moradores 5% de "taxa de uso do solo". Esse modelo se perpetuou por décadas, até que um levantamento fundiário feito com apoio do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais mostrou que a maioria das escrituras desses latifundiários não tinha validade.

"A extensão de terra declarada em escrituras era quase duas vezes maior do que o tamanho do município. Havia muito documento falso", conta Manuel Pantoja da Costa, o Bira, presidente do Instituto Gurupá, que apoia e capacita a comunidade local. Como a região está localizada numa área de marinha (região de interesse da União) a posse do território tem que ser autorizada pelo governo federal. E muitos latifundiários que exploravam a floresta o faziam na ilegalidade, com documentos forjados.

Conscientes da situação, as comunidades tradicionais iniciaram a briga para assumir o controle. Aos poucos, o governo foi concedendo a posse aos donos de direito, a associações, como a da Ilha das Cinzas, criando reservas sustentáveis, agroextrativistas e quilombolas.

"Fizemos um trabalho de capacitação ao longo de dez anos junto aos moradores. Nós trouxemos informação sobre leis, sobre os direitos que tinham e eles brigaram pelo resto", lembra Jorge Pinto, engenheiro agrônomo que na época atuava na ong Fase.

Como consequência do processo de transferência da posse às comunidades locais, uma das madeireiras mais tradicionais da região, a Brumasa, se viu obrigada a fechar as portas. A empresa, que até então controlava os posseiros, foi asfixiada pelos custos de uma cadeia de produção legal.


Antes de o governo aparecer
As 60 famílias da Ilha das Cinzas receberam do governo a concessão de direito real de uso como Projeto de Assentamento Agroextrativista só em 2006, quatro anos após encaminharem o pedido. O acordo comunitário para a exploração sustentável da floresta, por outro lado, já havia sido traçado em 1997.
Foi quando os moradores criaram o Plano de Uso, um pacto coletivo que diz o que e onde pode ser feito. A pesca do camarão foi a primeira a passar por adequações: cada família, que antes usava até 200 armadilhas (matapi), passou a usar 75 no máximo. "Foi o nosso acordo de pesca. Depois disso, o preço do camarão melhorou e as horas de trabalho diminuíram", diz Francisco Barbosa Malheiros, membro da associação.

Com o tempo extra, os ribeirinhos passaram a explorar outras atividades, como o manejo do açaí, hoje a principal fonte de renda da comunidade. De lá para cá, o ganho das famílias dobrou – passou de 1 para 2,5 salários mínimos.

"Toda a parte de desenvolvimento socioeconômico e melhoria da qualidade de vida tem sido feita junto com o manejo da floresta. Eles optaram pela sustentabilidade e pela preservação. E fizeram isso antes da presença do governo", lembra Luís Carlos Joels, consultor e ex-diretor do Serviço Florestal Brasileiro.

Também as casas rodeadas pela floresta amazônica têm televisão, máquina de lavar e celular. Mas a energia elétrica ainda é artigo de luxo. Como não são conectados à rede distribuidora pública, os moradores gastam 300 reais por mês por três horas de eletricidade por dia, das sete às dez da noite. A despesa alta se deve ao preço do diesel que abastece o gerador.
Ainda assim, ninguém ali troca a Ilha das Cinzas pelo ambiente urbano. "Na cidade, você precisa de dinheiro para sobreviver. Aqui é diferente: trabalhando e fazendo o manejo da floresta você tem sempre o que comer, sem precisar gastar. Só é preciso saber trabalhar com a natureza, sem destruir", justifica seu apego ao lugar Manuel Malheiros de Oliveira.

Autora: Nádia Pontes
Revisão: Roselaine Wandscheer