segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

À Bauman




Morreu Bauman.
Zigmunt Bauman.
Aquele que não liquefez o mundo, mas o acusou de líquido.
Uma Modernidade Líquida.
Pecamos, Bauman. Não separamos mais o sagrado tempo pessoal para nós mesmos, entregamo-lo aos lobos.
Tornou-se fácil termos amigos. Mas a conquista, que era boa, ficou fútil e supérflua.
Fomos avisados pela sua sólida passagem por esta Terra.
Não foste nota de rodapé. Seremos?
De minha parte, teimo na poesia deixar as estruturas sempre sólidas.
Pouco te conheci, muito aprendi.

Vá em paz, mestre.




Líquido

Gurupá, Rio Amazonas, 6 de novembro de 2015


Transbordou meu peito em Ais!
Não me venha com papo líquido
Descarte no ralo o sonho
Liquefez o respeito a quem te quis
Que filosofia é esta?
Assim tão passageira
O amor não te foi sólido?
Meu travesseiro encharcou

Não tão líquido
O primeiro estágio é a negação
Ah disgrama!
O segundo estágio é a ira então
Foi tão rápido
O terceiro estágio negociação
Foi tão líquido
O quarto estágio é a depressão

De uma tristeza que inundou o lar
Não havia esteios que suportassem
Tal enxurrada
Foi me a vida arrastada a esmo
Mas é assim mesmo
No banho-maria que foste
Pouco efeito fizeste
Saudade tive do que não houve

Não não pode!
O primeiro estágio é a negação
Cobardia!!
O segundo estágio é a ira então
Voltas um dia?
O terceiro estágio negociação
Eita nós
O quarto estágio é a depressão

Fui um lago
O quarto estágio é a depressão
São canais
O quinto estágio é a aceitação
Sou um rio
Sugiro estágio a percepção
Afluente é o mundo
O novo passo é a redenção


Pantoja Ramos


O Açaí é antes de tudo...


sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

1944-1954: Dez Anos na Guatemala


Para entendermos o que se passa no Brasil nos últimos anos, convêm olhar o que acontecera em outros países. Tragédia e Farsa fazem parte do método dos poderosos para subjugar a população.

Vejamos o caso da Guatemala, entre os anos de 1944 e 1954.

Algo semelhante para nós?


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1944-1954 - Dez anos na Guatemala (*)

  
“Enquanto eu for presidente, não outorgarei liberdade de imprensa nem de associação, porque o povo da Guatemala não está preparado para a democracia e necessita de um pulso forte”.

Esta declaração foi feita pelo ditador guatemalteco Jorge Ubico, cinco dias antes de sua queda, em 1944. A ditadura do general Ubico dominou a Guatemala durante 13 anos (1931-1944), encerrando o chamado ciclo de governos liberais, que abriram o país ao capital estrangeiro e estiveram no poder, com breves interrupções, desde 1871.

O governo Ubico é derrubado por uma frente formada por comerciantes, outros setores da pequena burguesia, profissionais liberais e estudantes. Os trabalhadores participam do movimento, mas sua representação política é fraca, pois até então nunca puderam se organizar de modo expressivo.
                                        

Com a queda do ditador, assume um triunvirato e, em seguida, o general Ponce, que se compromete a convocar eleições. Iniciam-se assim os chamados Cem Dias de Organização. Às pressas, as correntes políticas representativas das diversas classes vão criando seus partidos, e os trabalhadores, fundando seus sindicatos. Os exilados regressam, a vida política se intensifica e os comunistas (ainda que não reconhecidos legalmente) passam a ser tolerados.

Em poucos meses, Ponce tenta um golpe que fracassa: as classes que esperavam as eleições se insurgem. É a Revolução de Outubro. Durante a Insurreição, são armados os estudantes, os comerciantes e os trabalhadores, que instituem um novo triunvirato: JacoboÁrbenz Guzmán (capitão do Exército), Jorge Toriello (comerciante) e Francisco Javier Arana (comandante da Divisão de Tanques e responsável pela cisão do Exército durante o levante).

São marcadas eleições gerais e surge como presidente Juan José ArévaloBermejo, um professor universitário de 40 anos, parte dos quais viveu exilado. Sua base social era fundamentalmente a pequena burguesia, profissionais liberais e outros setores médios urbanos. À sua orientação filosófica, dava o nome de Socialismo Espiritual. Durante seu governo é convocada uma Constituinte que, tendo como base a Constituição dos EUA, a Constituição Revolucionária Mexicana de 1917 e a Constituição Soviética, elabora a Constituição Guatemalteca de 1945.

O novo presidente encontra a Guatemala dominada por companhias estrangeiras, particularmente estadunidenses. Só a American FruitCompany dominava uma extensa propriedade que se estendia do Atlântico ao Pacífico, onde atuava quase como um governo paralelo: mais de 40 mil guatemaltecos dependiam direta ou indiretamente dessa empresa. Além disso¬, La Frutera, como era chamada, era a acionista majoritária da International Railways of Central America, tinha o monopólio da navegação (nas duas costas), possuía e administrava as instalações portuárias e, através de uma subsidiária, fiscalizava as comunicações telegráficas do país.
                                     

Frente a esse quadro, longe de combater os comunistas, Arévalo procura se aproximar deles. Em sua opinião, “enquanto o imperialismo da União Soviética era uma ameaça potencial, a ameaça do norte-americano era imediata e palpável”.

Durante seu governo, os sindicatos de trabalhadores são fortalecidos e, paulatinamente, vão se transformando na principal base do poder.

No pleito presidencial de 1950, Arévalo e as forças que o apoiavam elegem seu sucessor, JacoboÁrbenz. Este, segundo os estudiosos, foi o governo de maior base popular que a Guatemala conhecera desde a conquista espanhola do século 16.

Os sindicatos urbanos e rurais aprofundaram sua organização, estruturando-se horizontalmente em duas grandes centrais: a Confederação Geral dos Trabalhadores da Guatemala e a Confederação Geral Camponesa.

Os comunistas continuaram a atuar intensamente e muitos deles chegaram a assessorar Árbenz que, como Arévalo, nunca foi comunista. A aliança de ambos com os comunistas, no entanto, pode ser facilmente entendida: o desenvolvimento do capitalismo guatemalteco exigia a resistência a sérios interesses estrangeiros, como, por exemplo, a United Fruit. Para isto, os representantes dos capitais nacionais (ou dos programas políticos que pretendiam apenas seu desenvol¬vimento) deveriam, desde logo, se aliar e buscar o apoio das organizações (profissionais, sindicais, partidárias e outras) que tinham como base os trabalhadores. Além disto, em consequência do papel desempenhado pelo Exército Vermelho e das resistên¬cias comunistas e socialistas na Europa, durante a Segunda Guerra, na derrota do nazi-fascismo, grande parcela da intelectuali¬dade e dos técnicos guatemaltecos se inclinava para a esquerda. Isto explica, em grande parte, que os elementos mais capacitados para assessorar os dois governos fossem recrutados entre comunistas ou, pelo menos, entre seus simpatizantes. Chamamos a atenção, porém, que a eleição de Árbenz coincide com o início da Guerra Fria.

O fato é que as centrais de trabalhadores do campo e da cidade crescem e um sentimento anti-imperialista e nacionalista toma conta do país. Tanto aos que tinham como perspectiva apenas o desenvolvimento de um capitalismo guatemal¬teco, quanto aos que (para além deste horizonte) pretendiam uma revolução socialista/comunista, colocava-se a necessidade de uma reforma agrária. Esta era a palavra de ordem.

Era também a primeira vez que, desde a chegada dos espanhóis, os índios (descendentes dos maia-quiché e que representavam quase 60% da população, contra 10% de brancos e 30% de ladinos – os mestiços) – eram chamados a participar enquanto sujeitos do processo político. A palavra de ordem que os sensibilizava era a propriedade da terra: os índios viviam encurralados nas montanhas, em terras exíguas e pobres. Os brancos (nativos e estrangeiros) ocupavam as planícies, férteis e vastas.


Em 1954, com a reforma agrária em curso, o país está tensionado e dividido. De um lado, as forças que compunham o Governo e internamente hegemônicas: nacionalistas, socialistas e comunistas, organizações de trabalhadores da cidade e do campo (entre estes, a população indígena) e o Exército. Do outro, enfraquecidos, os latifundiários, os comerciantes, amplos setores da pequena burguesia urbana, a Igreja Católica e todos os que mantinham seus interesses políticos/econômicos vinculados a empresas estrangeiras, especialmente à United Fruit.

Incapazes de agir contando apenas com as forças internas, os opositores e a Frutera passam a apostar numa intervenção externa.




Desde meados de 1953, o governo do presidente IkeEisenhower (EUA), através de seu secretário de Estado, Foster Dulles, intensifica a campanha internacional que já desenvolvia contra a Guatemala. A conspiração se articulava fundamentalmente em três frentes: ações diplomáticas, ações de propaganda e organização de uma força militar externa, composta de mercenários recrutados entre o lumpemproletariado¬ e delinquentes dos países da região.

Em 30 de dezembro daquele ano (1953), o presidente Jacobo Árbenz divulga um comunicado oficial, com centenas de cópias de trechos de documentos apreendidos pelas autoridades guatemaltecas, que implicavam três ditadores latino-americanos – Anastasio Somoza (Nicarágua), Rafael Trujillo (República Dominicana) e Perez Jimenez (Venezuela) – na preparação de um golpe contra seu governo. O comunicado denuncia compra de aviões, armas e munições (inclusive bombas de napalm) pelos generais guatemaltecos Miguel Idigeras Fuentes e Carlos Castillo Armas (ambos exilados em Honduras), através de uma empresa da família Somoza. O comunicado encerra descrevendo resumidamente um plano de invasão: 

“Desembarque nas costas do Pacífico com tropas trazidas de portos nicaraguenses (...); apoio aéreo mediante bombardeio das povoações e aterrisagem em aeroportos particulares do Pacífico: posse dos pontos-chave (...); ataques simultâneos pela fronteira de Honduras (...), onde estão comprometidas todas as autoridades militares dessas populações”. Exatamente¬ este plano foi posto em prática, seis meses depois, sem qualquer alteração ou pejo, pela United Fruit, pelo secretário de Estado Foster Dulles, pela elite econômica e de direita guatemaltecas, respaldados por um exército de mercenários.


Entre outras ações, para a formação de uma força militar sob a direção de Castillo Armas, foram afixados, nas capitais do Caribe, cartazes para o recrutamento de mercenários, prometendo um bom pagamento e acenando com o butim.

Em Honduras, o aliciamento de todo tipo de marginais era feito de modo tão desabrido, que provocou a reação dos estudantes. Resultado: o governo hondurenho determinou a ocupação militar da universidade. Prisões em massa. 

Em Bogotá, agentes da Frutera estabeleceram um escritório no centro da cidade, para atendimento de todos os que quisessem fazer fortuna rápida na invasão da Guatemala. 

Na Nicarágua, o ditador Anastasio Somoza simulou um atentado contra si próprio, atribuído – de forma orquestrada – pelo seu Governo e pelo Departamento de Estado de Washington, ao Governo Árbenz.




Mas, se esta era a parte visível da operação, restava ainda uma série de tarefas de preparação da infraestrutura bélica articuladas diretamente por militares de Washington. Na base estadunidense no Panamá, concentraram-se as providências¬ para os ataques aéreos: pilotos e outros especialistas das forças armadas estadunidenses, aviões, armamentos, munições e outros equipamentos de guerra. Alguns destes, a serem usados na data escolhida para a invasão. Outros deveriam chegar às mãos dos articuladores do golpe em território guatemalteco com alguma antecedência.
                  

Dentre as iniciativas diplomáticas, certamente a de maior expressão foi a 10a Conferência Interamericana de Consulta, reunida em 3 de março de 1954, em Caracas, e destinada a “estudar a penetração do comunismo na América Latina”, manipulada por Foster Dulles, tendo como grande aliado (ao lado dos Somoza, Trujillo, Jimenez e outros do mesmo naipe) o chanceler brasileiro Vicente Rao. O documento final, que contou em sua aprovação com apenas duas abstenções (México e Costa Rica) e o voto contrário da Guatemala, isolava o governo Árbenz.

Os meios de comunicação latino-americanos, as agências noticiosas e as grandes mídias ocidentais transformaram-se em caixas de ressonância da política, versões e calúnias de Washington contra a Guatemala, e do “perigo comunista que rondava a América Latina”. No Brasil, os principais guardiões da Pax Americana foram os jornais O Globo, O Estado de S. Paulo, os Diários Associados e a Tribuna da Imprensa. Entre as mais virulentas personalidades públicas brasileiras que abraçaram a campanha, estava, como era de se esperar, o jornalista e deputado Carlos Lacerda. 

Por fim, às 18h30 de 18 de junho de 1954, a rádio Voz da Guatemala transmite para todo o mundo o comunicado de Guillermo Garrido Toriello, chanceler da Guatemala: “Neste momento, meu país foi invadido”.
Iniciava-se uma grande chacina.

Com a queda de Árbenz, assume o governo Carlos Enrique Diez, imediatamente substituído pelo general Castillo Armas que, três anos mais tarde, seria assassinado por uma das sentinelas do seu palácio.


Bibliografia
CARPEAUX, Otto Maria. O romance como poema e a ditadura como realidade. Introdução in O Senhor Presidente, Miguel ÁngelAsturias, 7a. edição. São Paulo. Brasiliense. 1974. FILHO, O. C. Louzada. A parábola do grande e do pequeno. Prefácio in Week-End na Guatemala, Miguel ÁngelAsturias. São Paulo. Brasiliense. 1968. 


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(*) NOTA DO AUTOR
Este texto foi publicado originalmente com este mesmo título, como Apêndice, na edição da Expressão Popular (2002) do livro “Week-end na Guatemala”, do escritor guatemalteco Miguel Ángel Asturias.



sábado, 31 de dezembro de 2016

Todo Ano Maria e Bené






Foto: Mônica Barroso

Belém, 22 de dezembro de 2016.


Ei Benedito todo ano é ano tuíra
Do açaí que todo tempo te admira
Maria do Céu ispia vem o pingo d´água
Afogando sempre que pode as suas mágoas


Pra quem tu emprestaste a esperança?
Bacana teu Bené te devolveu
A maré agora encheu
Rede chama que é hora de se aquietar


Maria reparaste a mangueira como está?
Riem fácil as crianças
Benedito valsou-te a dança
Rodopio de todo tempo o velho e o novo


Ei Mariazinha todo ano assim termina
Saudade do que é bom e o ruim que finaliza
Seu Benedito quem provou a eternidade?
Uma manta de retalhos costurada de bondade


Bacuris avisam que tem fartura à vista
A Mãe Terra dá mais uma chance
Mais um início de romance
Do engatinho à bengala um lance
Maria e Benedito plantam no terreno todo ano


Dezembrada pra janeiro é sorriso no olhar
Comoção de quem partiu
Emoção de quem nasceu
Viajante da amizade que aportou


Ei Benedito sabe que horas são?
Será tempo de ir rever o seu irmão?
Ei Dona Maria quanto falta e custa?
A mata pede vida da mulher sendo justa


Algum dinheiro vira-e-mexe é um pedido
Mas pra Maria antes de tudo é a pessoa
Bené concorda e prefere a alma boa
Fala profética na mente ressoa
Verdade que para os netos ecoa


Seu Benedito abraça Maria e vê o mundo
Dona Maria é abraçada e percebe tudo
No seu trapiche de vista pro horizonte


"Ei Ano Novo seja mais belo e bom com a gente
Do ano velho quero saudade tal rio corrente"
"Ei Ano Novo queria assim só um favor
Sejas quebra-cabeças pra juntarmos as suas peças de amor"
Pantoja Ramos

http://www.recantodasletras.com.br/poesias/5860414

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Malária no Marajó: Monitoramento 2016

Caríssim@s,

No costumeiro monitoramento dos casos de malária no Marajó, eis que constatamos que em pleno mês de dezembro de 2016, os números chegam até o mês de setembro apenas, o que preocupa, pois em alguns municípios a doença tem dados sinais de crescimento.




Em tempos de Estado de Exceção, Estado Mínimo (a nível nacional e mesmo de Pará) e PEC dos Gastos, a sociedade marajoara precisa mobilizar-se para controlar a doença.

Chamam a atenção os municípios de Breves, Portel e Chaves, que duplicaram seus casos em relação a 2015.

Anajás segue na boa luta contra a maleita.

A luta está em todos os campos, guerrilheiros de ideias e de atitudes que somos.






quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Bem Viver Marajó 2017: a cidadania crescerá em nosso território?

Rio Tajapuru, Breves. Em 2017, é preciso avançar  em políticas públicas.Nenhum Direito a menos. Foto: Carlos Ramos



“...A História é um profeta com olhar voltado para trás: pelo que foi, e contra o que foi, anuncia o que será...

As Veias Abertas da América Latina
Eduardo Galeano



Caríssim@s,

     Recebi a boa provocação de nosso amigo João Paulo Carvalho para fazer uma tentativa de análise de conjuntura sobre o Marajó em seus diversos aspectos de vivência e sobrevivência de sua população. Como escrevo este texto em Almeirim (vindo da luta digna de comunidades tradicionais pelo reconhecimento fundiário de seus territórios contra o grande empresariado), não poderei estar participando da reunião final de 2016 do Colegiado de Desenvolvimento Territorial do Marajó – CODETEM, no dia 05 de dezembro, na espera de poder ao menos estar na manhã do dia 06 de dezembro junto com os colegas que lutam por dias melhores em nossa terra.


     Primeiramente é preciso reforçar o quão nocivo e cínico (pra não dizer calhorda) foi a aprovação no Senado Federal do Projeto de Emenda Constitucional (PEC) dos gastos públicos por 20 anos, no fatídico dia 29 de novembro, novo marco para os anais da História: o dia em que o Estado oficialmente desconectou-se da Nação Brasileira. Não que isso não ocorresse antes, pois o Marajó é testemunha e sofredor das inconstantes e muitas vezes não efetivas formas de diminuir nossa pobreza que resulta nos baixos IDHs que possuímos[1]. Só que temos agora um caso interessante de institucionalização da intenção de empobrecer. Isso mesmo, de prestar o desserviço de manter níveis ridículos de investimento nas áreas de saúde, educação e saneamento básico, itens fundamentais para uma boa qualidade de vida e persistentes na carência marajoara. A desconexão governamental (em suas três esferas) é provada quando se tem um já percentual alto de destinação do Orçamento Geral da União de 2014 (45%) e 2015 (42%) para pagamento de juros e amortizações da Dívida Pública para a credores principalmente da iniciativa privada como os bancos, de conhecimento do Executivo, do Judiário e do Legislativo há pelo menos uma geração, ao que será punido outra geração à frente minimamente com esta nova (mas de mentalidade velha) PEC. Para os 16 municípios do Marajó, resta novamente apertar o cinto com uma envira, já que muitos não terão dinheiro nem para comprar um cinto.



A Escola de Formação da FETAGRI Marajó 2016 realizou várias palestras sobre análise sobre a conjuntura nacional. Foto: FETAGRI.



       Zygmunt Bauman, o filósofo polonês que aponta a atual forte liquidez nas relações humanas, corajosamente indica a impotência de governos federais e estaduais de diversos países diante da altíssima dependência ante às grandes empresas nacionais e transnacionais[2]. Nosso Marajó em 2012 recebeu a famosa frase do Governador Simão Jatene que “não poderia avançar muito na área social”, o que deixou surpreso nosso bom Dom Luiz Azcona pela sinceridade diante do não engajamento governamental para apoiar nosso território em soerguer-se. Como pode um gestor público admitir isso? O Pará é campeão em isenções fiscais para a classe empresarial (o que contradiz a capacidade real do Estado em apoiar o Marajó ao ampliar para mais 15 anos as milionárias isenções fiscais de empresas como a Albrás - como investigou o nada isento mas-vale-a-pena-estudar-o-caso Diário do Pará[3]). Por outro lado, a juventude regional tem sido massacrada em seu ensino médio nos últimos anos nestes rincões, salvo (e a salvo) os jovens que estudam no Instituto Federal Tecnológico (IFPA Castanhal e Breves), numa atitude de Estado quase que intencional de não desenvolver a região. Pior, tem sido uma gestão com ideologia para os mais abastados, típico da linha de raciocínio dos estilos conservadores. Novamente na Esfera Federal, apesar de uma certa decepção do que poderia ter sido executado do Plano Marajó[4], é justo avaliar como positivos os avanços nas áreas de assistência social e ordenamento fundiário nos últimos 15 anos. Do lado do Estado do Pará, resultados pífios nestes aspectos,por exemplo. Os últimos assentamento agroextrativista estadual e território quilombola foram criados em 2001.


Mapa participativo dos conflitos fundiário de Breves, algo que perigosamente cresceu em 2016. Foto: Carlos Ramos.



      Por falar em conservadorismo, a onda desta maresia chegou prontamente nos nossos tapiris, fincando a ideia de que a esquerda não deve ser a mesma dos últimos 50 anos, desde Brasília até cá. Na verdade, o mundo todo tem esta reflexão. Até Gurupá e seus 20 anos de gestão petista disseram que é hora de reinventar a esquerda, serenamente admitido por lideranças com quem tenho conversado a respeito. Como diria um radialista gurupaense, “Bom Dia Gurupá, Bom dia Brasil, Boa Noite Japão!!”, momento exato de renovação. Mas, com que cara?


     Também é preciso mencionar no argumento de que precisamos nos mexer sobre o fato que em 2017, praticamente não haverá recursos orçamentários para o Programa Territórios da Cidadania, o que se soma ao desmantelamento do Ministério do Desenvolvimento Agrário[5]. Por isso, caros e caras marajoaras, é necessário decidir se o Colegiado de Desenvolvimento Territorial continuará dependente do apoio federal (que convenhamos nem foi tanto apoio, e sim mais garantir a oportunidade de estar no palco das disputas de políticas públicas) ou perecerá na percepção de que não pode mover-se sem ter um ente federativo que o escute. É bom lembrar que o senhor sentado na cadeira de presidente da república (estas duas palavras propositadamente por mim escritas com letras minúsculas) e sua trupe de dois anos de mandato (se não caírem antes, oxalá aconteça!) não escondem a clara intenção de retirar direitos adquiridos da população no máximo que puder. Se é verdade o que reflete Boaventura de Sousa Santos, professor da Universidade de Coimbra e ativo militante do Fórum Social Mundial, de que “o poder só é democrático quando é exercido para ampliar e aprofundar a democracia”[6], receio termos voltado aos anos 1980 neste aspecto, pois se golpeiam-se a cada dia conselhos e participações populares; várias institucionalidades retrocederam como a negação da mulher na gestão ministerial; mesmo escutar o clamor do campesinato sobre as ameaças e mortes advindos dos conflitos fundiários é algo agora negado neste confirmado estado de exceção[7].  Daqui a pouco se a coisa não parar, voltaremos a ver o fura-dedo e o muçum na vala nos rondando, coisas tenebrosas dos anos 1980.


     É nesse estado de espírito que instigo os colegas do CODETEM a se mobilizarem e sobretudo, pensarem uma nova estratégia de transformação sócio-ambiental-econômica à margem do Status Quo, cujo formato não está definido, porém em visível momento de construção. Uma transição riquíssima em artes, em análises conjunturais e conceitos que forçam as lideranças a estudarem mais o Mundo e o Marajó, não necessariamente nesta ordem. De minha parte visualizo (apesar de mencionar em outros escritos que poderíamos ter ultrapassado a Era da Indústria Predatória no Marajó[8] – dos anos 1950 até 2005, limitado pela criação das reservas extrativistas e projetos de assentamentos agroextrativistas) a retomada da intimidação aos territórios rurais marajoaras pelo Grande Capital. Eduardo Galeano em sua magnífica obra As Veias Abertas da América Latina teoriza que é na boa fase de um país capitalista que as grandes empresas usurpam e rapinam os recursos naturais dos povos tradicionais; na crise econômica se afastam temporariamente. Como explicar então que na nossa dita crise nacional, o agronegócio perigosamente tem reaparecido? Não sei a resposta, talvez o mestre estudioso das Américas tenha se enganado nesta sentença. No entanto, quando penso que enquanto passamos por esta crise institucional, os bancos privados “charlam” seus bilhões de reais de lucros, então deve ser no financiamento bancário aos grandes projetos que se mantêm apoio para o novo atropelamento de vidas. E aí Seu Galeano acerta mais uma vez. Quem anda financiando o CAR Grilado em Breves e Chaves? Quem oferece condições de investimento para os estudos de pesquisa petrolífera em Salvaterra? Quem garante o dinheiro para os portos de transbordo de soja em Ponta de Pedras? Quem tem o dinheiro hoje fácil nas mãos? Por outro lado, tonta, a sociedade civil organizada ainda está nas cordas tal qual um lutador entendendo de onde vieram tantos socos.



Casas do Programa Nacional de Habitação Rural nos Quilombolas de Bacabal, Salvaterra organizada pela própria associação local. Mobilizar é preciso. Foto: Haroldo Júnior.


     Nas cidades, nos furos, florestas de terra-firme e campos do Marajó as condições de vida tornaram-se mais difíceis. Não estranho a vinda de salvadores da pátria com suas empresas milagrosas a espalhar empregos e carteiras assinadas, claro que num debate de “flexibilização” dos direitos trabalhistas em troca do dito emprego. Ah, quantas horas-extras virão! Quantos subterfúgios surgirão para acumular o que já é altamente acumulado! Fui criado em uma CompanyTown (Cidade-Empresa) como Monte Dourado, local em que escrevo agora, na memória um pai que tive trabalhador que muito suou para entregar seu salário no supermercado... da mesma empresa!! Também não será surpreendente a chegada do super agronegócio a dar a reviravolta econômica! Mas em Cachoeira do Arari não é bem assim. Em Portel as madeireiras não desenvolveram as pessoas assim, assim como dizem. O problema é não acreditar nos recursos locais de Bem Viver. Do próprio Marajoara construir organizadamente a sua trajetória, que pena, sempre nos retiram a chance. Vez ou outra aparece um mago do saber que atrapalha tudo, no querer ser a salvação, acaba por escravizar-nos. O pior é quando dinastias dominantes de certos municípios marajoaras se mantem no poder ou ressurgem para "precariar" seus habitantes.


Feira Agroecológica de Portel como alternativa de geração de renda e fornecimento de alimentos saudáveis. Foto: STTR de Portel.




     Se o Equador conseguiu derrubar a especulação vampira da sua dívida pública e aprovar uma constituição nacional de caráter “intercultural” e “plurinacional”, reconhecendo em peso os povos tradicionais daquele país[9]; se o teko porã dos guaranis se harmoniza com a natureza; se a filosofia africana do ubuntu – “eu sou porque nós somos” - dita a forma de trato interpessoal, por que nós viventes do Marajó misteriosamente ao longo dos séculos auto reconhecidos como território não podemos construir uma nova forma de crescimento? Para os citados acima, o Bem Viver é o caldo que os une, pode ser que nos una também. Resgatar a antiquíssima leitura da ética (a arte do viver bem) pode não ser somente a alternativa de nossa população, mas a de toda a Humanidade. Se o capitalismo está em crise, a esquerda também está, ora pois. Se me pego pensando que para comer tenho que ter aquele papel-moeda, pois sem ele passo fome, algo está profundamente errado...


     Nesse intuito, recomendo às lideranças do CODETEM refletirem que nunca mergulhamos no mesmo rio, como diria Heráclito, então este Rio Marajoara que nos leva devido às mudanças das marés, mudou de canal, e quem sabe, nos leve às nossas raízes de conhecimento e antepassados. A ciência de cuidar da água para bebermos, de possuir outra matriz energética, de defender nossos territórios com atitude, de olhar a floresta como bens e serviços e não produtos madeireiros e não madeireiros[10], de praticar a agroecologia, de educar e alimentar nossos jovens de maneira comprometida podem ser sinais, mesmo que utópicas, de sermos cidadãos mais dignos e justificáveis. Isso requer mobilização. Uma nova mobilização, CODETEM, para se alcançar resultados. Testemunhei fundos florestais organizados ajudarem a transformação social de comunidades, ninguém me contou. Em Portel, em Curralinho, em Chaves. Seria uma sintonia, um “transmimento de pensação” com o que deseja muita gente espalhada pelo planeta para uma nova civilização?[11] 


Eu também vi governantes paraenses em uma reunião fechada vomitarem de suas bocas que não gostam dos territórios tradicionais reconhecidos fundiariamente. Ninguém me contou. Ao ver o Cadastro Ambiental Rural ser utilizado em vários casos para a grilagem ou ser direcionado para somente os lotes individuais, fazendo-se bico de negação para os CARs coletivos, minha certeza aumentou sobre aqueles amantes da não cidadania.


Entrega do CAR em Ponta de Pedras a partir da mobilização feita pelo STTR local, com base na posse mansa e pacífica. Foto: Carlos Ramos.


Trata-se de uma diástole e sístole tal qual um coração, o individualismo e o coletivo brigando para sempre por suas posições em destaque. O DIA-bólico (a não harmonia) e o SIM-Bólico (a harmonia) como diria Leonardo Boff em sua obra O Despertar da Águia trocando de posições, naquilo que afeta homens e natureza. Ai da Humanidade que tanto degrada a Casa Comum, Mãe Terra, acusa o Papa Francisco I em sua iluminada encíclica Laudato Si[12].


Uma alternativa para os precariados e precariadas é olhar o vizinho e desejar o seu Bem Viver, como a si mesmo.

Acreditar no jovem.

Dar igualdade de gênero para que mulheres estejam firmes nas tomadas de decisões.


Exercitar a Alteridade: não é esta a base do Cristianismo?


Marajó, é preciso saber viver.


Para Bem Viver, precisamos nos mexer.



Almeirim, 04 de dezembro de 2016.

Pantoja Ramos.






[1] Índice de Desenvolvimento Humano
[4] O Plano Marajó é um documento que resume as ações do governo federal para a região, criada em 2008 e retomada em 2013. Ver mais em http://www.sudam.gov.br/index.php/component/content/article?id=616:governo-federal-inicia-implementacao-do-plano-marajo
[7] Em dezembro de 2016, o Governo Temer extinguiu a Ouvidoria Agrária Nacional, espaço fundamental de encaminhamentos e resoluções sobre os conflitos fundiários no Brasil. Ver em http://alertasocial.com.br/?p=2176
[10] Incomoda-me muito os termos madeireiros e não-madeireiros, parece que a floresta ou cai ou não cai. Prefiro referir àquilo que a floresta fornece como Bens e Serviços Florestais - http://www.recantodasletras.com.br/e-livros/5624741.