sábado, 28 de março de 2026

Seu Codó, um mestre intuitivo

 



Manoel Codosvaldo Chaves de Souza, conhecido amplamente nas paragens do município de Gurupá como Codó, foi um dos muitos mestres e mestras que tive ao longo de minha caminhada. Homem bom, gentil, esperançoso, Codó deixou na minha mente a marca de ser uma pessoa intuitiva, palavra esta tão na moda e tecnológica, mas que precisa ser sempre recuperada, na qualidade do intuitivo ter uma compreensão de forma direta e quase instantânea, que antecede o uso de deduções ou conceitos trabalhados. Nessa pequena homenagem que faço, minúscula diante de todo o legado de Codó, trago três passagens de sua intuição aberta à troca de ideias e construtiva.

O primeiro exemplo que apresento, recordo de um episódio de um convite que recebi de Codó para explicar uma situação envolvendo a extração de madeira em sua comunidade, São João do Rio Jaburu[1]. Durante muitos anos a espécie ucuúba (também chamada de virola) foi objeto de transação comercial entre a comunidade e uma empresa japonesa. Codó perguntou-me: “Carlos, o que é o volume Francão??”, referindo-se ao Volume Francon, fórmula utilizada para cubar, medir, a conversão entre o volume real de madeiras em toras para grande peça retangular de madeira a ser cortadas nas serrarias. Codó continuou: “É porque a firma que compra madeira da gente só paga desse jeito, no Francão”. Na tentativa besta de ser o mais didático que pudesse ser, expliquei: “imagine uma tora de madeira, roliça. Quando medido seu volume, digo que é volume real de uma tora, considerando o que de fato ela é”. Codó concordou com a lógica e assim continuei: “imagine agora que esta tora de madeira, roliça, seja cortada onde se aproveitasse a grande parte quadrada, retirando as costaneiras, assim ó...”:

 

 

“Este é o Volume Francon”.

Codó passou a mão na barba branca e pediu que eu repetisse tal explicação após o culto de domingo da comunidade. No dia combinado, repeti o raciocínio com as famílias, e na expressão de seus olhares, captei um incômodo geral. Decidi seguir um raciocínio, que Codó já tinha “pescado”:

“Vocês vendem virola pra quem?”.

“Para a firma japonesa que vem lá de Breves”, responderam.

“Pra quê ela precisa de virola??”.

“Pra fazer compensado, né?!!”.

“Como a máquina que faz compensado trabalha??”.

“Laminando!”.

“A Máquina corta??”.

“Não, a máquina desfia!”.

“Como a máquina desfia a tora de madeira?”.

Codó fez um desenho no ar numa espiral rodando para o centro.

“Como a firma paga vocês??”. 

Outra liderança desenhou um retângulo no ar.

“Égua! Tão roubando a gente faz tempo!!!!”.

 

A partir de então exigiram que o representante da firma japonesa de Breves que visitava a comunidade passasse a pagar pelo volume real da tora e não mais pelo tal volume “Francão”, pra surpresa do comprador após tantos anos de visita na região. Codó e sua comunidade passaram a calcular volume de toras assim:

Volume real da tora em metros cúbicos = circunferência (metros) x circunferência (metros) x comprimento (metros) ÷ 12,56.

 

Em outro exemplo de sua força de análise, ideou com outros companheiros que a espécie andiroba precisava de ser protegida do excesso de extração madeireira. A comunidade e a equipe da Fase fizeram então um levantamento florestal por meio de amostras específico para as andirobeiras, cujas informações subsidiaram o Plano de Manejo Florestal Comunitário de Andiroba da Associação dos Produtores Rurais do Rio Jaburu (Aproja)[2]. E a intuição mais uma vez estava certa: as árvores maiores estavam sumindo diante da extração de madeira, o que levou a comunidade a mudar o rumo de uso das andirobeiras. No Livro Frutíferas e Plantas Úteis na Vida Amazônica, de Patrícia Shanley[3], foi feito um desenho da situação encontrada pelo inventário:

 

Esse exercício feito com a andiroba levou a parcerias muito importantes, como a feita com a pesquisadora Marina Londres para aprofundar o estudo sobre a ecologia não somente da andiroba, mas da floresta de várzea da região[4], que juntamente com os diagnósticos socioeconômicos realizados pela ONG FASE em parceria com o STTR de Gurupá, construíram uma consistente base documental e cientifica para a futura Reserva de Desenvolvimento Sustentável Itatupã-Baquiá, unidade de conservação administrada pelo ICMBio[5]. Codó, João Gama, Maria Lúcia, Graço, Benedito, os jovens da comunidade, mas também Valdir, Sheila, Nilza, Marina, Almir, Carlos, Sérgio, Selminha, Girolamo, Bira, Pedro Alves, Jorge são algumas inúmeras pessoas que estiveram em um verdadeiro mutirão ambiental para a defesa dos territórios comunitários do rio Jaburu também refletido no seu plano de uso comunitário da natureza.

Fonte: IIEB (2006)[6].

 

Em meu último exemplo da capacidade intuitiva do amigo Codó, trago a última conversa que tivemos, na cidade de Gurupá, em 2022, agora eu também de barba embranquecida, num abraço de bons camaradas que há muito tempo não se viam. Como de costume, pediu sorrindo:

“Carlos, me explica esse tal de mercado de carbono. Quero entender o máximo porque só se fala nisso”.

E ali, na mesa da cozinha do STTR de Gurupá trocamos ideias e preocupações.

“Parece ser um negócio muito complicado mesmo. Até parece que é de propósito”.

Mais uma vez, meu amigo intuitivo acertou.

É, mano Codó, mais do que intuição, tenho fé mesmo, que tu estarás para sempre no Livro da Vida por tanta luta que travaste por todos os seres vivos.

Siga em luz.

 

 

  Pantoja Ramos.

 

 

 

 

 



[1] Relatei esse caso na série Crônicas do corte - matemática ribeira/ parte 1, disponível em https://meioambienteacaiefarinha.blogspot.com/2015/09/matematica-ribeira-parte-1.html .

[3] SHANLEY, PATRICIA. Frutíferas e Plantas Úteis na Vida Amazônica. Patricia Shanley, Gabriel Medina; ilustrado por Silvia Cordeiro, Antônio Valente, Bee Gunn, Miguel Imbiriba, Fábio Strympl. Belém: CIFOR, Imazon, 2005. 300 p. il.

[4] LONDRES, MARINA; SCHULZE, MARK; STAUDHAMMER, CHRISTINA L.; KAINER, KAREN A.

Population Structure and Fruit Production of Carapa guianensis (Andiroba) in Amazonian Floodplain Forests: Implications for Community-Based Management (Estrutura populacional e produção de frutos de Carapa guianensis (Andiroba) em florestas aluviais da Amazônia: implicações para o manejo comunitário). Disponível em https://journals.sagepub.com/doi/full/10.1177/1940082917718835 .

[6] INSTITUTO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO DO BRASIL - IIEB. Regularização fundiária e manejo florestal comunitário na Amazônia: sistematização de uma experiência inovadora em Gurupá-PA / Instituto Internacional de Educação do Brasil, Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional. – Brasília : IEB, 2006. 70 p. : il ; 28 cm. – (Projeto Comunidades e Florestas).

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