Por Manoel Tourinho e Roberta Coutinho.
15 de maio de 2026.
Um
livro polêmico, mas um bom livro. Está no mercado. O livro se chama: “Amazônia.
Ocupação, problemas socioambientais e desenvolvimento sustentável”. Editado
pela Editora Vozes, em 2025. A “Vozes” merece respeito, e o autor idem. Francisco
Benedito da Costa Barbosa, Barbosinha, como é chamado por seus colegas, inclusive
por Tourinho, seu colega de turma. Barbosinha é Agrônomo, formado por aqui
mesmo. Conhece o que escreve e defende o que escreveu. Pois bem, a obra tem 690
páginas, que acomodam 15 capítulos encapsulados em três partes. Uma extensa
bibliografia de apoio, que dá ao autor a capacidade de cotejar números e
interpretações que vão desde a economia da Hevea ao extrativismo madeireiro,
atividade com impacto ambiental encoberto (sic), atrelada à pecuária ultraextensiva.
Aborda as ações ambientalistas, como o zoneamento ecológico e econômico da
BR-163, e faz loas à chegada da produção agropecuária e florestal sustentável,
baseada nas ciências agrárias e suas diferenciações disciplinares.
Alfredo
Homma, um notável da EMBRAPA – Amazônia Oriental, refere-se ao livro como uma
“minienciclopédia sobre 15 temas sensíveis sobre a Amazônia, atualmente com
desinformação e preconceitos, e sem antíteses”. A bem da observação muito
pertinente do agrônomo cientista da EMBRAPA, é urgente convocar um livre debate
sobre as antíteses. Mas um debate que
permita aos tesistas não serem desconsiderados porque trazem teses que desagradam
um dos lados, ou que deixe o tesista falar e depois simplesmente se fazer de rogado
diante das suas observações e propostas. Essa postura ficou muito visível e
acentuada nos debates encetados na COP-30, quando rentistas e invasores da natureza
amazônica se enfiaram em “bunkers” de proteção às ideias contrárias vindas dos
movimentos sociais das minorias, como, por exemplo, a tese das tecnologias
pesadas e inadequadas à natureza amazônica.
Um
capítulo relevante nesse tipo de debate é o capítulo 9, que tem como título: “A
crescente perda do capital natural”. Essa parte do livro tem a ver com a
natureza amazônica e tecnologias. Daí o título desse artigo: “Mais Natureza e
menos Tecnologia”, porque são as tecnologias brindadas nos sistemas de produção
dos novos “modus economicus”, as responsáveis pelo desastroso manejo da
natureza amazônica, conforme a leitura permite avaliar e verificar a
inexistência de uma ética – ou éticas - orientadora de relações amorosas entre
o homem, a natureza e o amor divino. Na nossa região, as paixões governam as
ações, tanto aquelas vindas da economia privada quanto aquelas vindas do setor
público governamental, conduzindo a erros grosseiros que agridem a natureza.
No
que tange essa chamada, dois comentários são pertinentes, ambos abordados no
livro de Francisco Barbosa, acima mencionado: o primeiro diz respeito ao zoneamento
ecológico-econômico da BR-163. O governo propõe um ordenamento do território
sob influência do eixo rodoviário. O setor privado, movido por suas paixões e
sem nenhuma ética com a natureza, muda aquilo que foi planejado. A própria
EMBRAPA foi muito envolvida com a proposta. A UFRA criou um campus em Santarém,
iniciando as suas atividades de extensão, pesquisa e ensino com a engenharia
florestal, com o propósito de trazer alternativa à expansão da soja que descia
do Planalto Matogrossense em direção às terras baixas da Amazônia, às margens
do rio Amazonas. Então, em seu livro, o autor Barbosa assim se expressa sobre o
assunto: “Observa-se que as tentativas com o Plano de Desenvolvimento Regional
Sustentável para a área de influência da Rodovia BR-163 (DES-BR 163), o
Zoneamento Ecológico-Econômico da BR-163 e a extensa legislação ambiental não
conseguiram, até o presente, seu objetivo maior que é a preservação e a
produção sustentável nessa área e, ampliando-se o foco, pode-se dizer que muito
menos tem sido conseguido em toda a Amazônia Legal”, como vem acontecendo com o
uso da terra na região da rodovia Transamazônica (BR-230), cuja concepção
simbolizou a conquista da Amazônia pelo poder militar. Dos 4.260 Km dessa
rodovia, apenas um trecho foi colonizado, de Altamira à Itaituba, ou seja, 12%
deram certo em virtude dos solos de alta fertilidade, da opção pelo cultivo do
cacau e da condução sociotécnica pela CEPLAC, possibilitando um manejo imitativo
da natureza, sem significativas alterações nas relações sistêmicas e próprias ao
uso da terra na Amazônia.
Após
a intencional e maléfica desidratação da CEPLAC na região e a privatização
completa dos destinos da cacauicultura, acentuam-se três fenômenos de ampla
reverberação tecnológica: a “chacarização”, o remembramento das parcelas
originais de 100 ha e a eliminação do manejo sombreado do cacau, com ampla
exposição da planta ao sol, acentuando-se a dependência de ‘pacotes
tecnológicos’ densos em capital, inclusive irrigação. Tais eventos, num futuro
à vista, protocolam insucessos da colonização, além de ativar conflitos pela
posse da terra. Anterior à abertura da rodovia Belém-Brasília, em 1959, a
Amazônia tinha 87% dos seus ecossistemas inalterados, e as atividades de uso da
terra ocupavam apenas 1,8% do território amazônico, segundo Barbosa.
Não
se trata de usar tais números e comentários com o propósito de defender a
Amazônia como santuário intocável. Não, não é isso. Mas usar tecnologias inadequadas
é uma questão de má fé. Isso vem acontecendo com a justificativa das
necessidades de atender aos mercados, os quais vivem de costas para a natureza,
para a cultura local. Essas tecnologias são responsáveis pela perda das
capacidades substantivas da natureza amazônica, levando-a às fronteiras do “ponto
de não retorno” das essencialidades qualitativas e quantitativas. Até mesmo
ecossistemas com história biogeoquímica de retorno estão ameaçados. Refiro-me às
várzeas, cuja dinâmica pedológica e florestal se vê ameaçada pela composição físico-química
dos seus sedimentos, formadores dos solos de várzea. As más tecnologias
aplicadas nas terras altas para a produção agropecuária são indutoras da perda
do capital natural: as taxas de erosão e deposição na bacia dos rios amazônicos
são bem próximas, e na medida em que os atuais padrões de uso da terra forem
permanecendo, ocorrerá a correspondente alteração do material depositado. Nesse
sentido, infelizmente, a perda do capital natural será cada vez mais crescente
e volumosa.
Manoel Tourinho é agrônomo, professor aposentado da Universidade Federal Rural da Amazônia – Belém/PA, ex-militante da CEPLAC/ Bahia.
Roberta Coutinho é agrônoma, mestre em Solos da Amazônia e pesquisadora
do GPGESA da UFRA, Belém.

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