sábado, 15 de novembro de 2014

Ei Balsa!


      “Da Lama ao Caos
       Do Caos à Lama
       Um Homem Roubado
       Nunca se engana...”
       Chico Science & Nação Zumbi – Do Caos à Lama



     




   Baía de Melgaço, 01 de novembro de 2014.

Voou a tesoura
Pra longe da queda
E uma preguiça caiu no rio
Rasgou o cipó
Com a minha vida
E jovens foram caindo um a um

Ei Balsa! Ei Balsa! Balsa volta aqui!
Que levas? Que levas? Que levas daqui?


Levas o que tenho!
E o que não tenho!
Rico lenho!
Pobre venho!
Pobre massa!
Não mais caça!
Longe passa!
A ricaça!
Tira graça!
Lá da balsa!
Nota falsa!
Velha valsa!



Faltou-me abrigo
Pouca parede
E hoje choveu na minha rede
Mal tenho casa
Ralo assoalho
E um morcegão visitou minha filha

Ei Balsa! Ei Balsa! Balsa volta aqui!
Que levas? Que levas? Que levas daqui?

Toram tudo!
E futuro!
Se apuro!
Testa um furo!
É o sistema!
Que condena!
Tem um lema!
Pobre pena!
Rico encena!
Na novena!
Reza ao esquema!
Mete a lenha!

Mil angelins
E um bocado
De louro-faias que quase não vejo
Tão nobre ipê
Vai humilhado
Vendido por uns parcos trocados

Ei Balsa! Ei Balsa! Balsa volta aqui!
Que levas? Que levas? Que levas daqui?

Maçaranduba!
Cupiúba!
Itaúba!
Minha culpa!
Timborana!
Piquianara!
Quanta grana!
Cedrorana!
Mata rala!
Medo cala!
Surge a mala!
De mudança!
Tem Mudança??
Tem Mudança??
Tem Mudança??




















Pantoja Ramos

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Metade da riqueza mundial pertence a 1% da população, diz relatório

O tempo passa e isso não muda...

Será o Homem justificável eu me ponho a perguntar... Ei cabra, alerta pro dia: tua esperança por justiça é o que te renova!


Um dia esta balança equilibra. Lutemos!


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O 1% mais rico da população detém mais de 48% da riqueza mundial, que cresceu 8,3% de meados do ano passado a meados deste ano.
De acordo com relatório do Credit Suisse sobre o assunto, em 2014 o total da riqueza no mundo bateu um novo recorde, alcançando US$ 263 trilhões.
No documento, o banco diz que o valor já é o dobro do registrado em 2000, "apesar do ambiente econômico desafiador", marcado pela crise econômica e pela lenta recuperação dos países.
A criação de recursos foi particularmente forte na América do Norte, com um crescimento de 11,4% entre meados de 2013 e meados de 2014, e na Europa, onde a alta foi de 10,6%. Nas duas regiões, o mercado de capitais foi o principal impulsionador.
Nos mercados emergentes, a Ásia –com destaque para a China– foi a principal responsável pelo aumento de riquezas, assim como no ano passado.
"No entanto, achamos que o crescimento das riquezas no mercados emergentes não foi capaz de manter o seu momento pré-crise, entre 2000 e 2008. Isso não deve nos distrair do fato de que a riqueza pessoal na Índia e na China cresceu pelo fator de 3,1 e 4,6 desde 2000."
DESIGUALDADE
Segundo o relatório, uma pessoa precisa de US$ 3.650 para estar na metade mais rica do mundo. Para ser membro dos 10% mais ricos são necessários US$ 77 mil. Já para fazer parte do 1% mais rico é preciso ter US$ 798 mil.
O mínimo de recursos para pertencer ao 1% mais rico cresceu desde a crise de 2008. Naquele ano, eram necessários US$ 635 mil, contra US$ 798 mil hoje.
Por sua vez, a riqueza média global tem diminuído desde 2010.

"Esses achados indicam um aumento da desigualdade global nos anos recentes. No entanto, nossos resultados sugerem que a tendência inversa ocorreu no período que antecedeu à crise financeira."
http://www.portaldomeioambiente.org.br/ecologia-humana/9586-metade-da-riqueza-mundial-pertence-a-1-da-populacao-diz-relatorio

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Fundos Florestais Comunitários: o Fundo Açaí da Comunidade Santo Ezequiel Moreno, Portel-Pa

Ponte da Comunidade Santo Ezequiel Moreno. Foto: ATAA

A comunidade Santo Ezequiel Moreno é uma das 17 comunidades existentes no rio Acuti-pereira, no município de Portel, Marajó, Pará. Com o Plano de Uso dos Recursos Naturais, elaborado para o rio em 2006 com assessoria do STTR de Portel e ONG FASE, as 15 famílias de Santo Ezequiel iniciaram o processo de transformação e luta pelo uso legítimo da terra, tendo como base a observância aos princípios do manejo florestal e dos recursos aquáticos.

A primeira mudança ocorrida a partir do plano de uso foi o impedimento da invasão de cortadores de palmito na região e o aprimoramento dos moradores em técnicas de manejo de açaizais. Estas duas ações foram fundamentais para a conservação dos açaizais nativos e aumento da produção de frutos de açaí na comunidade, que a coloca atualmente como uma das mais produtivas de Portel.
Igarapé local. Foto: ATAA

Segundo informações relatadas por lideranças locais quando da avaliação do plano de uso do rio Acutui-pereira em 2013, no período de 2006 a 2010 a produção de frutos de açaí cresceu ano a ano, passando de 15.600 latas para 23.000 latas. Em 2011 por conta dos trabalhos de manejo florestal nos açaizais nativos, onde foi necessário aplicar operações de desbaste nas palmeiras, houve decréscimo da produção, talvez influenciada pelos desbastes de açaizais, produzindo-se para comercialização 12 mil latas. As projeções dos comunitários, porém, apontam para uma tendência a recuperação a partir de 2012.

O aumento da produção de açaí e o aparecimento novamente de animais silvestres para alimentação e pescado permitiram à associação local o início de um processo de autonomia, tendo como base a valorização dos recursos naturais prevista no plano de uso. Mais do que isso, conseguiram gerar um fundo a partir da produção florestal iniciado em 2012.
Vila da comunidade Santo Ezequiel Moreno. Foto: ATAA
Neste ano citado, a Associação dos Trabalhadores Agroextrativistas do rio Acuti-pereira (ATAA), entidade que representa Santo Ezequiel e outras comunidades da região do Baixo Acuti-pereira, inovou ao organizar ao longo da safra do açaí a arrecadação para o coletivo tendo como princípio a doação de 1 real para cada lata de açaí comercializado pelo moradores. Como exemplo, quando um trabalhador vendia 10 latas, deixava com a tesouraria da associação 10 reais para o fundo comunitário, cujo controle é feito através de anotações em cadernos. Em dezembro de 2012, a ATAA tinha arrecadado algo entorno de 12 mil reais com as doações, cuja aplicação dos recursos financeiros, votada em assembleia, destinou-se para:
  • A construção da ponte da comunidade, interligando a vila à área de plantio das famílias em terra-firme, com 600 metros de extensão;
  • A ampliação da sede da ATAA;
  • A estruturação da comunidade quanto ao abastecimento de água (700 metros de encanamento);
  • O apoio a viagem das lideranças para capacitações;
  • O investimento em outros produtos agrícolas e agroflorestais como hortaliças, legumes, mandioca, fruticultura (bacuri, taperebá, abacaxi) e no próprio manejo de açaizais e de espécies florestais como a andiroba.

Em 2013, o volume arrecadado foi de 11 mil reais, cujo montante foi investido na reforma da capela local e no fortalecimento da agricultura para alcançar os mercados institucionais de PAA e PNAE da CONAB. Para Teofro Lacerda, uma das maiores lideranças do rio Acuti-pereira:

Teofro Lacerda, presidente da ATAA. Foto: IEB

O fundo florestal do Acuti-pereira é importante por que tem gerado certa independência aos governos, nos permitindo a construção de pontes, contribuindo na compra de materiais para nosso sistema de captação de água e até mesmo ajudando no atendimento aos doentes. Esperamos aumentar cada vez mais este fundo, trazendo recursos de outras produções da agricultura familiar como a macaxeira, a melancia, abóbora e milho”.
Teofro Lacerda, liderança da comunidade Santo Ezequiel Moreno.




Para 2014, a estimativa é que o Fundo Açaí gere uma arrecadação final de 20 mil reais, a partir da poupança de R$2,00/lata de açaí vendida por cada família.

domingo, 28 de setembro de 2014

Um dia na vida de João Impigem de Oliveira Pano Branco


                                Belém, 20 de setembro de 2014.


Mulher me trocou por outro alguém
Na rua minha mala jogou
Perdi do meu bolso uma nota de cem
Japiim na moleira cagou

Tropecei bem na unha encravada
Rasgou a rede puída
Toalha caiu dentro da privada
Estourou a minha nascida

Rasa de açaí vi tombar no rio
Na perna fisgou uma arraia
Hoje me estranhou o cão que crio
Cordão me roubaram na praia

Queimou o meu rádio novinho
Um raio veio no telhado
Comboia topou-me no caminho
Feijão eu comi bem queimado

Eu subo no barco que construí
Rezo bem alto em mim
Dedico todo o meu sorrir
O mal sempre tem um fim
Pra um obrigado um florir
Uma criança eu vi
Tudo que valha em si
Minha força vem de Ti

Polícia achou que era bandido
Livrei-me, mas ainda apanhei
Ao abrir a boca engoli mosquito
Da estiva da vila eu despenquei

Pisei na rama do murumuru
Morcego mordeu-me a orelha
No porre dormi com um mutum
Rasparam-me a sobrancelha

Ex-sogra disse que eu não prestava
Cunhado deixou um prejuízo
A rasga-mortalha me agourava
Doeu-me o dente do juízo

O barco encalhou na vazante
Na terra das carapanãs
Um breu é o que vejo adiante
Pousou no meu ombro chicuã

Saia fora e voa pra os teus
Não acabas com sonhos meus
Não terei a morte daquele Orfeu
A Santa já intercedeu
Escritura que me valeu
Motivo do amor comoveu
Se ainda não convenceu
Eu teimo sendo de Deus.

Pantoja Ramos.
http://www.recantodasletras.com.br/poesias/4971248


sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Ao IFT Núcleo Altamira

Após 16 anos de vida profissional com comunidades tradicionais, esta consultoria voltou novamente a motivar-se para a luta por direitos socioambientais na mesma intensidade quando dos primeiros trabalhos em Gurupá, no início dos anos 2000. Impressionante constatar que mesmo após tanto esforço para colaborar na consolidação dos processos fundiários em favor de famílias agroextrativistas, regiões como Almeirim ainda buscam a segurança a terra em seu reconhecimento, princípio básico de cidadania do campesinato. Parece que tal município esteve no limbo, alheio e alienado à toda conquista obtida na Amazônia em relação aos territórios dos povos da floresta.

Da mesma maneira, surpreendente fora o despertar de um grupo de lideranças que resolvem transformar este questionamento, tardio, porém necessário, em uma rede intercomunitária. Forte e insinuante, a RICA hoje se coloca como uma alternativa de reflexão em uma região dominada pelo modelo empresarial que não colaborou muito a agricultura familiar. A pergunta estava adormecida, o IFT em sua nobre equipe só ajudou que as comunidades levantassem a mão para indagar.

E indagaram. E questionaram. E protestaram. E nunca mais serão os mesmos. Direitos constitucionais são agora buscados, tendo o Ministério Público Estadual a sua voz para equilibrar as forças, historicamente descabidas para o lado de quem tinha condições de pagar um corpo jurídico para manter a situação em quase 40 anos de história.

Este consultor agradece à equipe do IFT pela renovação profissional enquanto cidadão. Somos antes de tudo, isto, pessoas, não máquinas como diria Chaplin. Trazer a esperança da liberdade à alguém é descobrir a América novamente. Indignar-se com uma casa derrubada pelo grande capital é relembrar porque alguns profissionais nasceram para servir a sociedade. Para estes, a ideia de horas/ dia não cabe. Só o que cabe é a justiça, atemporal e espalhada no horizonte. Mas só a enxergam aqueles que têm fé.

Obrigado pela fé.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Pai Zezão


                           Macapá, 21 de julho de 2014.

Pai Zezão sempre foi um grosseiro patriarca. De fala direta e franca, comandava com bengala de acapu aquela ilha no meio do rio Amazonas, no trecho entre Almeirim e Monte Alegre. Cambado de um lado da perna pelo beijo de um surucucu ainda moço, trazia a dor estampada no rosto que muitos viam como mau humor, porém era simplesmente a somatória das experiências vividas principalmente de ruim, e seu sonoro huuuummm era sinal de concordância ou serenidade diante da situação posta. Nunca dava pra saber se era a primeira ou a segunda ou as duas coisas juntas.

O velho tinha seis filhos, sendo quatro rapazes e duas moças, todos trabalhadores e disciplinados, a exceção de Percivaldo, conhecido ali como Chumbinho, dada a mania de caçar desde molecote. Chumbinho tinha uma revolta nascida dentro dele mesmo, sacudida pela família sempre pedindo para estancar a vadiagem e a zarulhice, talvez acostumado que era ao receber os bons tratos do fato de ser o caçula. Realmente, de Pai Zezão foi o que recebera a menor quantidade de carinhos de cinta de couro. Até quando apanhou, não foi em declarações de pausa silábica do por-que-você-fez-aquilo. Uma rapa aqui e acolá, esquivando a maior parte da costa por ser o preferido. Pai Zezão com ele era mais carinhoso. Os outros reclamavam da falta de critério do pai. “O Chumbinho faz o que bem qué e nunca leva o dele de verdade...”, protesta a mais velha. “Vem cá moleca que eu vou tê mostrá o teu que tá querendo!!”. E sova.

Esses episódios não eram a dinâmica daquela relação, não: na maioria das vezes bastava Pai Zezão olhar feio e bater a bengala de acapu no chão para todos já ficarem de sobreaviso e deixar de pavulagem. Assim era quando pediam pra ir às festas, quando queriam enrolar mais uns minutos na rede antes de ir pra roça, quando tinha visita em casa, quando era a sexta-feira da Paixão.

Já adultos, as mulheres casaram-se todas, os homens também a não ser Chumbinho. Viviam todos na mesma posse, com a influência de criação do patriarca não perder uma braça que fosse.

Um dia Pai Zezão tava escamuchando o dedão inflamado da unha encravada deitado na sua rede no salão da casa quando chega o Salatiel, filho do compadre Arnô. “Bença padinho”. “Deus te dê boa sorte”. “Padinho, o pai quê falá com o senhor sobre uma situação que aconteceu com a Verinha”. “Diga pra adiantá, é só com ele?”. “Sim senhor.”. Pai Zezão botou a camisa no ombro o que para ele significava já estar vestido, calçou a percata e já na saída lhe chega a esposa, Dona Ana, a antecipar a conversa com o compadre Arnô. “Homi, que vergonha, a Verinha tá prenha e tão dizendo pur aí que é do Chumbinho...”. “Comequié??!”. Nem contou conversa e foi para o campo de muinha onde o Chumbinho, nos seus vinte e dois anos de idade se preparava para bater um pênalti. No que se virou e viu o pai ainda tentou correr, mas foi enganado pela destreza do velho ainda capaz de dar um salto certeiro em qualquer cutia que bobeasse e assim trouxe o rapaz com o polegarzão travado na orelha. “Vem cá moleque que eu vou tê ensiná a ser homi de respeito pra num andar com a filha dos outro de família, molequi!”.

E no mesmo dia, já estava a capela, a noiva, os pais da noiva, até o padre que estava uma hora e meia de barco visitando uma ilha vizinha, tudo pronto para casar Verinha e Percivaldo Chumbinho. Ela num misto de sem graça e alegre. Ele todo amuado de cabeça baixa. E foram casados quase à meia noite pelo padre Rafael. Enquanto rolava o casório, de Pai Zezão se ouvia: “huuummmmm”.

Quinze anos depois, Chumbinho andava meio bebedor, hostil com todos até chegar ao cúmulo de bater em Verinha só porque perguntara onde estava o dinheiro do açaí que tinha vendido. Violentou a coitada até arroxear os dois olhos, vazios de vida que ficaram por sete dias. A notícia não tardou a chegar ao Pai Zezão, que contava os altos de seus setenta anos. “Ispia, pai, o Chumbinho porre bateu ontem de noite na Verinha”. O velho saiu no terreiro, passou pelo casebre e ainda viu a senhora humilhada na rede que mal balançava pra não trazer mais dor. Ao lado do jirau em pé estava Chumbinho e sua garrafa de cachaça a proferir impropérios para o pai. “Sai daqui velho, que sou homi agora e faço o que eu quiser nessa porra!”. Pai Zezão pegou a bengala tremida e deu com a curva da madeira na costa do filho rebelde, bastando duas porradas pra arrancar o ai-ai-ai do bebum, que logo se acocorou no canto da cozinha. “Quero vê se tu é homi de batê em macho de verdade. Tu é o valentão pra batê em mulhé, então toma o teu!!”. Rachou o supercílio de Chumbinho, que botou as mãos e cotovelos para proteger a cabeça embriagada. “Enquanto tu morar debaixo do meu sobrado, tu não manda nada aqui viu, molequi! Bate de novo na Vera, bate, que eu parto tua cabeça que nem um babaçu!”.

O evento marcou a ilha e fez de Chumbinho um cidadão aparentemente correto, até melhorou na lida diária, um comportamento que já não lembrava mais a bebedeira, e fez o pilequento largar a farra escondida com as mulheres trazidas nas geleiras pelos pescadores de Abaetetuba. Tudo em ordem que tirava de Pai Zezão ao ver Percivaldo carregando rasas de açaí o som de “huuummmmm”.

Cinco anos depois, Pai Zezão morreu. Foi-se devido a uma veia estourada na cabeça que não deu chance de se despedir dos filhos. Neste pé  Chumbinho voltou ao vício da bebida.

Bebeu a roça boa que tinha. Bebeu a embarcação que antes era limpa e rápida para os padrões locais. Bebeu o resto da casa que estava se ajeitando. Bebeu até o amor da esposa que não aguentando mais a ausência do marido, chamou a todos para uma audiência familiar. E disse aos cunhados ajuntados no salão: “Gente, antes de eu botá uma galhada na cabeça do Chumbinho, que não me dá carinho, não me procura, nem pára sequer na sala, só no jirau bicando buchudinha e mais buchudinha, eu prefiro dizer pra vocês que é melhor a gente seguir cada um pro seu rumo”. Todos escutaram e concordaram que talvez fosse o caso. De um a outro, surgiam huuummmm. “É isso que tu qué?”, perguntou o irmão mais velho. “É melhó”. E assim foi. Chumbinho, lá perto do Jirau nem fez questão de tentar entrar na reunião e dizer que iria mudar, que Verinha deixasse disso e que tudo seria melhor daqui pra frente. Só abraçou mais ainda a garrafa que dizia a ele que ao contrário daquela mulher, jamais o abandonaria.

Bêbado, largado, feridento, não falando coisa-com-coisa, Chumbinho passou a viver do coração bom das pessoas e dos irmãos, apodrecendo que nem a morada que lhe sobrara, fartando os cupins que ali se multiplicavam. Verinha, por sua vez, por consideração ao sogro passou a mandar religiosamente uma quantia em dinheiro para que Chumbinho não morresse de fome. Quando perguntada por uns dos filhos o que o vovô Zezão diria daquelas cenas de desolação, Verinha apenas balbuciou:

“Huuummmmmmm”.
Pantoja Ramos
http://www.recantodasletras.com.br/cronicas/4891927