terça-feira, 24 de março de 2015

Lamberto, o Traumatizado: Dicionário

Lamberto, o Traumatizado nunca gostou muito de dicionários. Não sabia muito bem o motivo, mas desconfiava de todo mundo que se chamava Aurélio. Passava longe do pai dos burros, preferia outros meios de descobrir o significado das palavras, televisão, rádio, seu avô Diógenes e para as sacanagens, recorria ao seu progenitor, o alcoólatra chamado Quilha Velha.

Seu filho Simone (outro traumatizado) outro dia interpelou-o sobre a palavra achacadores. "Pai, o que é um achacador?".

"Não sei, Simone, vai pesquisar.". E lá vem o rapazote com um Aurélio nas duas mãos de tão pesado, presente do avô do último natal.

Neste momento, ao ver o livrão, passou um filme na cabeça de Lamberto. Lembrou dos domingos de reunião de família na casa de sua mãe, Santana, sim, porque a casa era dela, Quilha Velha só passeava por ali. Todos se juntavam no almoço dominical, avô, avó, primos, até amigos de vizinhança. Todos para ouvir as histórias de Diógenes ou rir dos atos ridículos de Quilha Velha, sempre ébrio, a envergonhar Lamberto.

Vovó Mariquinha perguntou ao neto para puxar conversa: "Lamberto, fiquei sabendo que tu foste no médico". "Nada não, vó, só umas ardências nas pernas...".

"O que o médico disse?", voltou a avó a indagar, com todos ali na roda de conversa, claro, tudo era curiosidade.

"Nada não vó, ele disse uns troços estranhos, disse que era uma tal de bleno, bleno, ah, blenorragia...".

"Que é isso??".

"Sei lá, vó, tomei umas injeções e passou.".

O priminho de oito anos, tão espertinho, sugeriu: "Bora ver no dicionário??? Eu já sei ler, vocês vão ver".

"Bora", "Bora", Bora". e foi um empurra-empurra pra ver quem pegava o dicionário primeiro. O priminho esperto pegou, abriu o livro, passou as páginas, todo mundo ali. E o pequeno pedindo ajuda colocou o dicionário em pé e leu orgulhosamente e em voz alta para mostrar o quanto era genial no abecedário e no soletrar, apesar da gagueira de quem está aprendendo:

"BLE-BLE-NOR-RA-GIA =  O-MES-MES-MO-QUE-GO-GO-NOR-RÉ-IA...". Sorriu para todos.

Hoje, quando Lamberto olhou o mesmo sorriso em Simone, gritou:


"AURÉLIO NÃÃÃOOO!!".

Tirou da mão do filho e jogou no meio da rua seu Aurélio, coitado.

"QUER SABER O QUE ACHACADOR??!! AVERIGUE JUNTO AOS BEÓCIOS INCULTOS QUE PARLAMENTAM ESTA TERRA DE VERACRUZ!".

E foi lançando impropérios ao serviçal contexto das massas e sua ignorância na escolha de seus líderes até chegar ao banheiro.

Sem traumas.




quinta-feira, 19 de março de 2015

Inauguração da Miniagroindústria Boa União, Comunidade Santo Ezequiel Moreno, Rio Acuti-pereira, Portel-Pa

Foto: ASCOM, Prefeitura Municipal de Portel.


No último dia 07 de março, 25 famílias da comunidade Santo Ezequiel Moreno, rio Acuti-pereira, Portel-Pa, foram beneficiadas com a implantação de uma miniagroindústria de frutos, uma nova etapa de seu plano de uso dos recursos naturais elaborado em 2006. 

A Miniagroindústria Boa União, gerenciada pela Associação dos Trabalhadores Agroextrativistas do Acutipereira (ATAA), foi o resultado do esforço das parcerias locais, que envolveram a  Empresa de Assistência Técnica e Extensão rural do Estado do Pará (Emater), o Instituto de Educação do Brasil (IEB), a Secretaria Municipal de Desenvolvimento (Sede), a Secretaria Municipal de Agricultura (Sema) e o Banco do Brasil. "Este projeto se realizou graças ao nosso empenho pessoal, dos membros da ATAA e da gerência local do Banco do Brasil, sobretudo do ex-gerente Roney Souza", informa Milton Costa, Engenheiro Florestal da Emater em Portel.

O destino da produção de polpas de açaí, cupuaçu, manga, caju, bacuri e acerola será os programas Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e de Aquisição de Alimentos (PAA). Para Teofro Lacerda, presidente da ATAA, "Esta conquista é muito importante para nossas famílias porque estamos valorizando ainda mais nossos produtos, sempre no pensamento de ser sustentável e fortalecendo a nossa união", relata o presidente da ATAA.

Loyanne Feitosa do IEB (centro) na entrega de notebook à Sônia e Teofro, da ATAA. Foto: ASCOM, Prefeitura Municipal de Portel.


Para Odivan Corrêa, presidente da recém criada Associação dos Moradores da Gleba Acuti-pereira, entidade que envolve 250 famílias da região, onde está inserida a comunidade Santo Ezequiel Moreno, "é um momento positivo, pois pode ser um exemplo para as outras comunidades sobre a melhoria de renda através da organização social", diz Odivan.

Na solenidade de inauguração, foi entregue o primeiro Selo de Inspeção Municipal (SIM) de Portel, pela Secretaria Municipal de Desenvolvimento (Sede), atestando a boa qualidade das instalações da comunidade Santo Ezequiel Moreno para a produção de polpas de frutas.

Foto: Carlos Ramos.


segunda-feira, 16 de março de 2015

Lamberto, o Traumatizado: Manifestação

Lamberto,  o Traumatizado,  saiu nas ruas em 1992 como legítimo cara - pintada para expulsar o Collor do Palácio do Planalto. Estava apaixonado por sua condição de jovem cidadão.
FORA COLLOR! !! FORA COLLOR!!

Anos depois, na faculdade, após uma palestra sobre Paulo Freire e seu método de ensino, nosso Traumatizado caiu em si sobre o que é uma verdadeira educação libertadora, contraponto da manobra de massas. Deprimiu-se.

Mais algum tempo depois, Lamberto leu artigos sobre a imprensa golpista e juntou as peças: seu Marinho collocou o homem lá.  Assim como o introduziu na população, puxou com força um presidente no bel prazer e sadismo que tinha de manipular.  Mas não se mexeu no sistema político,  que naquele tempo já era execrável, até porque era peça importante da engrenagem que mantinha o poder da mídia.

Simone (outro traumatizado), filho mais velho de Lamberto,  saiu dia 15 de março de 2015 para pedir a saída de Dilma em uma espécie de terceiro turno.

Quando viu a programação global esportiva virar cobertura da nova manifestação sem mencionar seus apadrinhados,  Lamberto torceu o nariz. Ao ler a faixa de "Basta de Paulo Freire", Lamberto surtou:

NÃO!  PAULO FREIRE NÃO! !!

Gritou da porta ao filho:

"SIMONE, AO MENOS LEVE UM CARTAZ ESCRITO ´VALE A PENA VER DE NOVO´. NÃO ESQUECE DO GLOBINHO EM UM DOS ÓS!".

Sentou no sofá. Trocou de canal. Decidiu assistir um programa sobre criação de gado.

Sem traumas.

quinta-feira, 12 de março de 2015

Lamberto, o Traumatizado: Lambada

Lamberto odiava lambadas. No início dos anos 90 foi a febre das danceterias.  Logo ele que era um verdadeiro prego para movimentos corporais.

Beninha,  sua musa, só dançava a peste. Nas tertúlias, sempre que Lamberto se aproximava da pequena pra puxar conversa, ouvia-se: "Chorando se foi...". Outro espinhento pegava - a e lá se ia saracoteando pelo salão.

"Chorando de foi...".

Em casa lutava pra aprender os passos. Nada. Cintura dura demais.

Enquanto isso, Beninha rebolava.

"Chorando se foi...". 

Maldito Kaoma.

Décadas depois, após ter se tornado um pé - de - valsa de todos os estilos, fruto da revolta adquirida na adolescência, resolve ir para mais uma noitada de divorciados de meia idade misturada à juventude.  Na festa,  uma jovem chamou sua atenção por lembrar,  por lembrar... Beninha!

Chama-a para um embalo.

"Você dança Melody? ", convida a moçoila.

"Danço,  é só começar, princesa". Dispara seu olhar 43, como diria Paulo Ricardo.

O DJ solta a próxima:  uma versão Melody. de: "...chorando se foi...".

Lamberto surta, fica suado, bota as mãos no ouvido e senta na primeira cadeira pra tomar um ar. Grita:

"Kaoma, sua desgraçada!!!".

Caramba, Lamberto sequer sabia que Kaoma era uma banda e não uma mulher.

A jovem Beninha já estava no roda-roda com outro caboclo no meio da multidão de dançarinos.

Quanto à Lamberto?

"Chorando se foi...".


Sem traumas.

segunda-feira, 2 de março de 2015

Lamberto, o Traumatizado: viagem de avião

Lamberto tinha medo de andar de avião quando menino. Viajava de TABA (Transporte Aéreo da Bacia Amazônica), num quiprocó de chuva que lhe arrebentava o estômago. Era famosa a sua histeria entre os passageiros de Monte Dourado, no Jari.

ME TIREM DAQUI!!! SOCORRO!! SOCORRO!

Para aliviar, antes de cada viagem, sua mãe colocava o LP A Casa de Brinquedos, na música do Toquinho:

"Venha voar comigo, amigo
Sem medo venha voar
De dia tem um sol brilhando
De noite o luar

Venha voar comigo, amigo
Sem medo venha voar
Em dia nublado
Não fique assustado
Que eu tenho radar...".

E assim manteve a letra decorada até a fase adulta, recitando em cada trecho aéreo que fazia. Era a comissária de abordo anunciar o fechamento de portas "em automático", que ele cantarolava baixinho para diminuir a agonia.

E na bizarrice da cantiga de canto de boca viajava, até um dia que olhou pro lado e viu um pai em celular colocando um vídeo para o filho de 4 anos, do grupo Palavra Cantada:

"A pobre galinha
Não sabe voar
Enquanto o avião
Vive pelo ar

Se ele é tão pesado
E a galinha não
Então por que que voa
E a galinha não?"

ME TIREM DAQUI!!! SOCORRO!! SOCORRO!

Foi expulso da aeronave.

Se voltou a viajar de avião?

Soube-se que quando a mãe faleceu, foi pro enterro dela de ônibus, chegando uma semana após o sepultamento.


Sem traumas.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Lamberto, o traumatizado

Lamberto foi um menino nascido em 1980, iniciado em tecnologias eletrônicas, mas cultivado em terra dura do conservadorismo em fim de ditadura militar. Atualmente (2015), tem picos de afloramento de todo o trauma da infância e adolescência, otimizadas pelas contradições do século XXI.

Lanço suas histórias a partir de hoje.

Seu nome em si foi um trauma. Não o registraram Gilberto, nem Roberto, nem teve sequer apelido Bebeto.

Seu pai escolheu o nome bêbado, dizendo ao homem do cartório em fim de expediente de sexta-feira que o nome seria Lamberto, fruto da memória do desenho da Disney em preto e branco sobre Lambert, o Leão Acanhado. O homem do cartório aportuguesou seu registro

Ainda no colo, coitado, Lamberto escutava assim seu primeiro jingle de Bulling da voz embrulhada do pai:

Lambert, o leão acanhado, 
ele vive querendo ser o valente,
mas é só um leão molenga..."

Cresceu na anedota dos colegas, que repetiam a musiquinha até ela se perder com o tempo. Hoje o tal desenho chama-se Cordélio, o leão cordeirinho, mas ficou o drama e melodrama que se for possível, descreverei de vez em quando.

Sem traumas.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

NO TEMPO EM QUE SE ESCREVIAM CARTAS DE AMOR NO MARAJÓ

Reflexão de abertura do evento de lançamento do projeto Embarca Marajó, apoio do Fundo Socioambiental da Caixa Econômica Federal. Este projeto será executado pelo IEB (coordenação), Instituto Peabiru e Instituto Vitória-Régia.

Breves, 24 de fevereiro de 2015.



Era uma vez, num tempo em que as pessoas escreviam mais cartas do que hoje em dia, uma moça do Mapuá (Breves) conheceu um rapaz do rio Canaticu (Curralinho) numa festa em Gurupá. Naquela noite, os fogos no céu da festa de São Benedito iluminaram seus olhos espelhando o amor.

Ele era todo cheio da prosa, ela era bastante tímida. Enamoraram-se.

O rapaz foi para seu canto. A moça para o dela. Decidiram que iriam trocar correspondência e assim regavam suas saudades.

Ele escrevia cartas de amor para a moça, cheia de frases poéticas e rimas em nome da paixão:

“Tu és a estrela do céu a canção
tu és a envira do meu coração
rasgando meu peito de cima pra baixo
matando de amor um pobre de um macho”

Ela não respondia.
Ele se matava no escrever.

“Flor do igapó,
somos nós um só
de um reino Marajó..."

Ela nada...



O rapaz já achava que sua amada não gostava dele, não respondia, não escrevia. Até entendia que ela era quieta, mas precisava de uma resposta que fosse, um sinal, pois os apaixonados precisam disso para se manter esperançosos.


Eis que chegou um dia uma carta assim escrita:





O rapaz não entendeu nada da carta. Guardou-a na carteira velha, mostra de sua dedicação em ter qualquer lembrança.


Um dia o rapaz veio a Breves cuidar de assuntos de educação, já que era professor.

Um dia a moça do Mapuá visitou a agência barco da Caixa Econômica para resolver assuntos de aposentadoria da avó.

Encontraram-se no porto. A felicidade estampou-se nos rostos.

Quanto tempo!
Quanto tempo!

E beijaram-se. Por mais que fossem tímidos e educados, não se aguentaram e beijaram-se novamente.


Depois da emoção e coração estarem mais serenos, conversaram sobre a vida e ela elogiou as cartas, lidas com muito carinho.

Ele ficou feliz pela opinião da moça e aproveitou, abrindo a carteira e mostrando aquele pedaço de papel amassado com a cartinha enviado por ela.

“Meu amor, vi sua carta, me emocionei, mas confesso pra tu que não entendi muito não”.

Ela pegou a carta e disse com um sorriso meigo e cativante:

“Ó meu amor, não é você que é tão cheio da prosa?

Eu disse:




Moral da História: o amor pode escrever certo por linhas tortas.