quinta-feira, 13 de agosto de 2015

CRÔNICAS DO CORTE - Otaviano

(Imagem: Record)


Belém, 13 de agosto de 2015.


Às cinco horas da manhã estávamos em Ulianópolis, num frio de madrugada e secura da poeira. Nossa equipe chegava do Centro de Treinamento em Manejo Florestal do Instituto Floresta Tropical e de lá seguiria para Belém. Num susto do repente da conversa, um cidadão que não conheço chega perto de nosso veículo afirmando que Davi Resende "era tão rico e morreu como qualquer um morria". Eu respondi "Bom dia". Ali estava um homem de 39 anos (depois ele me diria a idade), sem o braço direito e tendo apenas um dedo na mão esquerda.

No seu puxar de conversa, disse que não adiantava ser tão rico e morrer um dia como qualquer um, dirigiu-se novamente ao mais homem abastado então daquela cidade, já conhecido por mim pelas notícias de grilagem de terras em todo o Pará vinculadas ao nome Davi Resende. Mas não foi o grileiro que chamou minha atenção. Foi a história de Otaviano, registrado no crachá que lhe dava permissão de circular nos ônibus estaduais e interestaduais por sua situação especial. Antes de subir no veículo, comprou uma água mineral, pediu à vendedora que lhe abrisse a garrafa. Esta perguntou como se virava, se sempre pedia auxílio. "Quase nunca", disse Otaviano. "E por que me pediu?", retrucou a senhora. "De vez em quando é bom pedir". Sentenciou.

Aquele cidadão sobrevivia da venda de canetas, chaveiros e fones de ouvido. Ia para Imperatriz. Viajava para Belém. Voltava para Gurupi. "Para Gurupi, lá na divisa com o Maranhão??", perguntei. "Não, aqui, aqui se chamava antes de Gurupi. Eu só chamo assim". Não sabia deste nome para Ulianópolis. "Vou lá pra Belém e consigo tirar meu salário das canetas e volto pra cá. Moro sozinho... Nunca precisei roubar, só trabalhar".  Quando dirigi a conversa para o tempo de trabalho dele, cortou com a seguinte frase: "desde pequeno, desde a serraria, mesmo com meu acidente...".

Otaviano sofrera sua tragédia aos 11 anos de idade. Uma criança. Um sofrimento imensurável não só físico, mas da alma de uma criança, de adolescente e de adulto em uma só pessoa todos estes anos. Olhei para aquele homem franzino a fazer mil contas de cabeça a medir a viabilidade econômica de viver da caneta, do chaveiro, na habilidade de ajeitar seus molambos nos poucos suportes do corpo. Não sabe ler, nem escrever. "Nossa diferença, já que temos 39 anos, é a oportunidade que cada um teve ou não teve!", concluí.

E pensei na exploração do trabalho infantil naqueles anos 1980. E pensei no Estatuto da Criança e do Adolescente graças a Deus hoje presente. E pensei naqueles que se fizeram milionários às custas de muitos sem informação nestes municípios afora. Madeira em troca de vidas. E divaguei nas reclamações de jovens atualmente para coisas efêmeras, bobas, irrelevantes.

Presenciei o senhor Otaviano falar para uma moça a pedir uns trocados para os viajantes que por ali passavam. "Ei moça, por que tu não vende canetas? Não vende chaveiros? Num dia eu faço setenta reais mesmo assim do jeito que tô".

Na despedida nossa, recomendei que estudasse; que aprendesse a ler e escrever, pois era bom de cachola. 

"Mas é muito difícil".

"Mais difícil você já fez. Esta aí você tira de letra...".

Ele sorriu. Fez sinal de quem escrevia o compromisso.

Naquela pouca mão.

Naquele muito espírito.

sábado, 1 de agosto de 2015

Lua de Julho




Rio Pará, 31 de julho de 2015.

Lua de julho
Lua luar
Iluminou 
Meu retornar 
Finca a estrada
Neste Rio - Mar


Lua de julho 
Lua luar
Espelha o Sol 
Neste rumar 
Volta pra casa
O meu olhar


Lua de julho 
Lua luar 
A borda mata
Lhe decorar
A vida segue
Num serenar


Lua de julho
Vai acabar 
Sinto a saudade 
Me variar 
Deixa o caminho 
Pra tu marcar
A Lua espelho
Deste amar...

domingo, 12 de julho de 2015

Ao Dia do Engenheiro Florestal e Ao Jardim

Belém, 12 de julho de 2015.




Hoje é dia do Engenheiro Florestal.
Que hajam florestas sempre para comemorar nossos dias.
Falo das misturadas, diversificadas. 
Nativas.
Que hajam manejo de todos os tipos.
Refiro-me à criatividade de cuidar.
Zelar.
Que hajam ciências mil a nos aprimorar.
Digo dos debates e do bem estar da sociedade.
Reflexão.
Que hajam mais Jardins no nosso caminho.
Lembro do Professor que tivemos.
Sim, por que uma pessoa precisa ser o resumo bom de seus mestres.
Consciente.
Hoje é Dia do Engenheiro Florestal.
Que hajam mais florestas nativas, jardins e humanistas a cada ano.
A cada ciclo.
Não de corte.
Mas sim da Vida.



Foto: FASE

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Jari: Madeireira tem atividades suspensas por fraudes em manejo florestal no PA


Multas somam R$ 5,989 milhões por quatro autuações.
Punições ocorreram por ocasião da Operação Gênesis, realizada pelo Ibama.

Segundo o Ibama, por para embarque de madeira não tinha licença e danificou grande área às margens do rio Aruanã (Foto: Divulgação/ Ascom Ibama)
Segundo o Ibama, porto para embarque de madeira não tinha licença e danificou grande área às margens do rio Aruanã, no Pará (Foto: Divulgação/ Ascom Ibama)
A empresa Jari Florestal, considerada uma das gigantes da exportação de madeira do país, foi multada em R$ 5,989 milhões e teve as atividades suspensas por irregularidades em manejo florestal constatadas durante a “Operação Gêneses”, realizada pelo Instituto de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) em Santarém e região oeste do Pará, no mês de abril. O órgão federal aplicou quatro autos de infração à empresa na terça-feira (7).
A operação identificou que a empresa adquiriu o direito de explorar e comercializar a madeira de dois planos de manejo florestais, mas comercializou de forma indevida grandes quantidades de créditos de produtos florestais no Sistema de Comercialização e Transporte de Produtos Florestais (Sisflora). "A Operação Gênenis visa combater a inserção de créditos falsos a partir de planos de manejos florestais que, apesar de serem licenciados legalmente, durante a execução, a gente encontra falhas, fraudes visando burlar o sistema Sisflora, que é de competência do Estado, e com isso burlar dados da fiscalização, gerando créditos fictícios na cadeia florestal, permitindo a legalização de madeira oriunda de áreas protegidas em terras indígenas", informou a gerente regional do Ibama em Santarém, Silvana Cardins.
Empresa foi punida por causa da comercialização indevida de créditos e dos danos ambientais às margens do rio (Foto: Divulgação/ Ascom Ibama)Empresa foi punida por causa da comercialização indevida de créditos e dos danos ambientais às margens do rio (Foto: Divulgação/ Ascom Ibama)
De acordo com o Ibama, a empresa emitiu guias florestais oriundas de um plano de manejo com notas fiscais emitidas em nome de outro plano. Tanto as guias quanto as notas fiscais foram assinadas por um funcionário da madeireira. O órgão ambiental também identificou transações com empresas que não existiam (empresas fantasmas).
Ainda segundo o Ibama, a empresa provocou danos ambientais numa área de preservação permanente, às margens do rio Aruanã, ao construir, sem licença, uma rampa para atracação de balsas visando os embarques de madeiras. A rampa destruiu uma área de 3,5 mil m² e assoreou o rio.
De acordo com o superintendente do Ibama no Pará, Hugo Américo, todos esses fatos foram suficientes para que houvesse a punição à Jari Florestal. “A empresa, além de fraudar o sistema florestal, que já é bastante grave, prejudicou o meio ambiente local, mostrando total descompromisso com as comunidades ribeirinhas e com a legislação ambiental”, destacou.
Segundo o chefe de gabinete do Ibama no Pará, Leandro Aranha, o dano ambiental às margens do rio acarretaram em autuação e embargo das atividades no local. Já a fraude no Sisflora ocasionou o bloqueio da atividade de comercialização de madeira.
G1 entrou em contato com a assessoria de comunicação da Jari Florestal na região e aguarda posicionamento a respeito do assunto.
http://g1.globo.com/pa/santarem-regiao/noticia/2015/07/madeireira-tem-atividades-suspensas-por-fraudes-em-manejo-florestal-no-pa.html

domingo, 28 de junho de 2015

Carta sobre a Meliponicultura

Belém, 28 de junho de 2015.
Caro Richardson,
     
Desde que conheci seus trabalhos sobre a criação de abelhas nativas para a produção de mel (de um nome complicado de decorar no início, confesso) ainda no Instituto Peabiru, percebi que ali estava uma antiga ciência socioambiental, decisiva para contribuirmos com a diminuição de nossas ações desmedidas à floresta. Assim, a Meliponicultura veio a mim como uma nova tecnologia social, mas besteira minha, é sabedoria indígena que temos subestimado desde as décadas militares e mesmo no período de redemocratização brasileira. Ainda não se firmou como política Pública é bem verdade.


Albert Einstein ao falar das abelhas, acertou em cheio sobre a soberba da humanidade em atacar a biodiversidade, ganhar dinheiro e achar que não teríamos as reações da natureza. Mostra-se, pois, a diminuição da produção de frutas onde agem os agrotóxicos e agora plantios transgênicos, apesar da insistência de alguns em dizer que não há relação[1]. O preocupante deste quadro é o efeito sobre as árvores de maneira geral. Contudo, apontas o caminho no seu Manual da Meliponilcultura: uma comunidade com 30 meliponicultores fixa 166 toneladas de carbono por ano e ajuda na conservação de 160 hectares de floresta pela simples ajuda na polinização das plantas! Bingo!


Como principais agentes polinizadoras das árvores amazônicas, abelhas sem ferrão como a uruçú e jandaíra (as mais conhecidas, do gênero Melipona sp), seu manejo somente agora começa a ter mais reconhecimento do público e das agências de apoio a projetos socioambientais. Essa vitória é sua e de todos aqueles que lutam por esta bandeira, agitada por muitos anos pacientemente até que fossem vistos como iniciativas de transformação social, econômica e de combate ao desmatamento.


E espalham-se os meliponários Amazônia afora. Sei que conheces e acompanhas os projetos junto às entidades indígenas do Amapá. Informo-te que existem pelo menos 10 projetos apoiados pelo Fundo Dema voltados para o desenvolvimento da meliponicultura em municípios das regiões Xingu e Baixo Amazonas que dariam por si só uma rede robusta de troca de experiências como forma de aprimorar esta ciência para torná-la política pública. Eis a sugestão: Uma rede intercomunitária de meliponicultores.


Sobre esta possível rede, não poderia de deixar de mencionar o trabalho feito por vocês na comunidade Praia Verde, em Almeirim, que poderia ser incluída neste rol. Estive lá no período de 19 a 21 de junho de 2015 e fiquei surpreendido com a desenvoltura dos comunitários locais em explicar as técnicas e com a pequena cidade das abelhas sem ferrão na posse de “seu Marabá”. Ainda não produzem a quantidade de mel que desejam, uma vez que estão em fase de consolidação das colmeias, mas um fato dito pelo senhor que nos acolheu nos deu dimensão da importância ambiental e econômica desta atividade: “a produção de frutos, principalmente de açaí aumentou muito depois que começamos a criação de abelha nativa”. Vejam só que interessante aliar abelha e açaí, então pronto: o manejo florestal de açaizais nativos se depender de mim andará junto com a meliponicultura, não somente por causa do açaí, mas para garantir a reprodução de outras plantas para o enriquecimento da flora que rebate na fauna que rebate nos olhos dos que virão amanhã.

Foto: Comunidade Praia Verde e seu Meliponário

No final das contas aprendi com sua arte (sim, pois acho uma arte) que deveríamos pensar como as abelhas: polinizar nas mentes que outro mundo é possível, diverso, equilibrado, mais justo e muito mais interessante.
    


Aos mestres, escrevi.

Pantoja Ramos



[1] Segundo reportagem do site http://www.biodiversidadla.org/Principal/Secciones/Noticias/Agrotoxicos_matam_populacao_de_abelhas_e_comprometem_biodiversidade, em Araraquara, apicultores lutam para diminuir a carga de agrotóxicos nas plantações que estariam matando abelhas e prejudicando nesta região a apicultura. 

terça-feira, 19 de maio de 2015

Lamberto, O Traumatizado: Maioridade Penal

Lamberto, O Traumatizado, era uma menino desastrado, mas de boa índole. Mesmo com todos os traumas, nunca fugiu dos princípios que sua mãe lhe ensinava. Do pai, pouco aprendia, a não ser do quanto os homens alcoolizados podem ser imbecis ao dar conselhos para os filhos. E um dia seu velho apontou para o esperto Ananias, chamado Nanico: "esse sim é moleque sabido...vai aprender com ele, Lamberto, pra vê se tu te esperta...". Ananias era filho de um colega de cachaça do pai.


Ananias, de apelido Nanico, era arteiro, esquisito, cheio das estratégias. No jogo de petecas, mencionava coisas sobre ser rico, ser o maior, ser o mais forte. Lamberto não prestava muita atenção e tentava não perder as bolas de aço que ainda mantinha, dada a habilidade de "tecar" do parceiro de jogo. Nanico, sempre aparecia com uma sandália nova, um relógio Champion, uma camisa da VideBula, marcas famosas naqueles anos 1980.


Um dia, Nanico convidou Lamberto para irem ao supermercado. Andavam pelas prateleiras aqui e ali, quando Lamberto deparou Nanico chupando um iorgute através do buraco feito com o dedo indicador sem tirar a embalagem. "Que é isso cara??? Num faz isso!!", pegou o potinho ainda pela metade e colocou-o de volta na prateleira. Uma mão segurou-lhe o braço. Era o segurança do supermercado. "Ahhhhh, peguei finalmente a gangue dos vampiros de iorgute!!!". Levou os dois para a gerência.


Uma sala com poucos móveis, muito papel. Um gerente com cara de segunda-feira, um segurança meia idade, dizem que seu sonho era ser tenente naqueles tempos de fim de ditadura, só que com pensamentos "medicianos" ainda visíveis nele.


Um interrogatório.



"Quem mais chupa os iogurtes, quem? Quem??" Bate na mesa o gerente. "Bora rapá, senão a gente vai ficar aqui o dia todo!! BORAAA!". Outro soco na mesa.


A sala não tinha janelas.


Lamberto começa a chorar. Nanico, cínico, olha nos olhos do gerente.


"Vamo contá pro seu pai e pra sua mãe, aí quero ver a vergonha...". Ele vai pagar essa conta, ela vai chorar de te ver indo pra Febem". Na verdade,  a mãe de Lamberto faria as duas coisas.


"Bora rapá! !!" Dá um tapinhas na nuca de Lamberto. Nanico quieto.


Lamberto chora, chora, chora.


"Fui eu senhor, fui eu que peguei! Não conta pra minha mãe!". Resolveu admitir o inadmissível.


Lamberto foi pra casa humilhado. Sua mãe perguntou o porque da cara comprida, do beiço pra baixo. Não contou. Seu pai nem quis saber e mandou: "Lamberto, vai comprar cigarro pra mim, um maço de Calton. Leva o Nanico pra ir contigo, ele sabe onde tem. Tem que ser do Calton, viu?".


Lamberto, chateado só de pirraça, preferiu ir sozinho e comprar cigarro Hollywood. Quando voltou com outra marca, pegou um cascudo.


Nos atuais dias, Lamberto assiste a uma senhora cheia de ódio na TV falar a favor da redução da maioridade penal.



Enquanto olha a TV, seu filho Simone (outro traumatizado) diz que vai sair com os amigos que estavam na porta. Lamberto olha da janela os rapazes com cara de poucos amigos, cambaleantes em seus passos de uma moda eterna malandra. Reconheceu o trejeito.


"Simone, hoje não, fica em casa que eu quero que você traduza um texto em inglês pra mim. É do meu trabalho". O filho fica emburrado, porém, obedece. Os dois estudam a tarde toda até Simone ficar interessado com a tarefa. Lamberto contou - lhe uma história engraçada como recompensa.


Nanico não virou ladrão como se podia imaginar. Virou policial corrupto. Gostou de transgredir, não pegar nada, dá uma de moralista e ver alguém sendo humilhado.


Nanico atento às palavras de ódio da jornalista.


Lamberto e seu filho conversando.


Sem traumas.