sábado, 21 de outubro de 2017

Exemplo frutuoso do Brasil: Açaí - por Carlos Nobre

Caríssim@s,

Traduzi este texto em inglês publicado na página da internet http://www.wri.org/blog/2017/10/brazils-fruitful-example-acai.

É bom sabermos o que falam gente no contexto internacional...

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Exemplo frutuoso do Brasil: Açaí 
Carlos Nobre*

12/10/2017

Na popular revista de notícias brasileira Veja, o jornalista J. R. Guzzo defendeu recentemente os poderosos do agronegócios do Brasil, pedindo retoricamente: "O que os brasileiros comem, afinal?" e dando uma resposta irônica: "Talvez eles nos digam, como Marie Antoinette na lenda ... (Deixe eles) comerem o açaí".

Há uma história de fundo aqui. Você provavelmente já ouviu falar do açaí, a pequena baga roxa da Amazônia que está sendo exibida como uma super comida. A fruta chegou a simbolizar uma alternativa de alimento para brasileiros conscientes do meio ambiente: um produto que pode nos alimentar de forma sustentável, com menos impacto nas pessoas e no planeta do que a produção de carne em escala industrial. Com o setor de carne brasileiro atualmente envolvido em um escândalo de suborno enorme (o CEO da maior operação de embalagem de carne do mundo foi preso no mês passado por pagamentos de um milhão de dólares ao presidente e altos funcionários), a indústria está apontando para o humilde açaí. Buscando desacoplar sua imagem da corrupção, envolveu-se no manto de fornecer segurança alimentar.

Não há como discordar do objetivo nobre de assegurar comida para todos, mas um modelo de agronegócio em escala industrial não é a única resposta. Podemos optar por um caminho diferente que ofereça maior diversidade alimentar. E se os cínicos perguntam: "O que os brasileiros comem?", Os cientistas têm uma resposta pronta.

Estudos rigorosos realizados pela Embrapa não deixam dúvidas de que o país pode produzir muito mais proteínas animais e vegetais, reduzindo a área total de pastagem e usando uma melhor ciência e tecnologia para abrandar a expansão da agricultura e gado para a Amazônia e o Cerrado, a vasta savana tropical do Brasil. Assim, vamos ignorar aqueles que querem restringir nossas opções e continuar comendo frutas como açaí.

Açaí ilustra as enormes possibilidades econômicas de manter a floresta em pé. É o fruto da palmeira amazônica, uma espécie abundante com mais de 100 touceiras por hectare. Como milhares de outros produtos naturais originários da biodiversidade tropical, o açaí foi usado como alimento por populações indígenas e tradicionais, que ao longo dos séculos desenvolveram técnicas efetivas para selecionar e aumentar sua produtividade em sistemas agroflorestais.

Edina dos Anjos do Nascimento Siqueira climbs an açaí tree to harvest the berry. Photo by Sidney Oliveira/AG Pará.



A fruta misturada com farinha de mandioca permaneceu como alimento básico dos amazônicos e foi consumida nas cidades amazônicas sob a forma de suco e sorvete. Ganhou maior popularidade depois de ser apresentado em uma novela de televisão na década de 1990, onde foi celebrado como um alimento energético associado com saúde e fitness. Logo, o consumo cresceu exponencialmente, primeiro no Brasil e depois internacionalmente.

Hoje, o açaí conectou firmemente agricultores nos sistemas agroflorestais da Amazônia com mercados globais. As técnicas de produção, coleta e processamento foram melhoradas. Mais de 200 mil toneladas de frutas do açaí são produzidas por ano, bem como o palmito e outros produtos derivados. A renda dos produtores é muito maior do que os ganhos dos trabalhadores em gado ou exploração madeireira, apoiando sozinho mais de 350 mil pessoas no estado do Pará.

De acordo com estudos do economista Francisco da Costa, da Universidade Federal do Pará, a receita do açaí perde apenas para a carne bovina e madeira tropical - os principais vetores do desmatamento da Amazônia - entre produtos de origem animal e vegetal na Amazônia. À taxa atual, chegará ao segundo lugar em alguns anos.

A aplicação do conhecimento científico e as novas tecnologias estão por trás desse crescimento. Na Califórnia, dois jovens empresários levaram o açaí para laboratórios de pesquisa e desenvolveram várias aplicações, incluindo alimentos, suplementos alimentares e cosméticos. Em Belém, pesquisadores da Embrapa descobriram e patentearam uma nova substância encontrada na polpa do açaí, que pode ser usada como marcador natural da placa dentária, com possibilidades de mercado encorajadoras.

Muitas centenas de produtos de biodiversidade na Amazônia já são conhecidos e usados, embora em pequena escala. Se pudessem seguir o exemplo do açaí, emergiria uma economia mais dinâmica, mais equitativa e poderosa - uma muito diferente da atual economia regional baseada na carne, madeira, grãos, energia e minerais, que por sua natureza são concentradores da riqueza.

O maior potencial está no que ainda não foi descoberto. A grande capital deste século não é material, mas conhecimento. Ciência e tecnologia podem desvendar os ativos biológicos incomparáveis ​​escondidos na biodiversidade amazônica, alavancando inúmeras novas indústrias biológicas e serviços em um caminho inovador para a bioeconomia do futuro.


Quando chegar esse futuro, o que os brasileiros comerão? Vamos comer uma dieta diversificada que incluirá carne, mas em menor quantidade, e oferecerá mais produtos produzidos de forma sustentável a partir de nossa imensurável biodiversidade, um presente para nossa saúde e para o planeta. Viva o açaí!


(*) Carlos A. Nobre é membro da Academia Brasileira de Ciências, membro estrangeiro da Academia Nacional de Ciências e membro sênior da WRI Brasil.






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Texto original
Brazil’s Fruitful Example: Açaí


In the popular Brazilian news magazine Veja, journalist J. R. Guzzo recently defended Brazil’s mighty agribusinesses, asking rhetorically, "What will Brazilians eat, after all?" and giving an ironic answer: "Perhaps they are telling us, like Marie Antoinette in the legend…(Let them) eat açaí.".

There’s a backstory here. You’ve probably heard of açaí, the tiny purple berry from Amazonia that’s being touted as a super food. The fruit has come to symbolize an alternative approach to eating for environmentally-conscious Brazilians: a product that can feed us sustainably, with less impact on people and the planet than industrial-scale meat production. With Brazil’s meat sector currently embroiled in a massive bribery scandal (the CEO of the world’s largest meat-packing operation was arrested last month for million-dollar payments to the president and top officials), the industry is taking aim at the humble açaí. Seeking to decouple its image from corruption, it has wrapped itself in the mantle of providing food security.

There’s no way to disagree with the noble goal of ensuring food for all, but an industrial-scale agribusiness model isn’t the only answer. We can opt for a different path that offers greater food diversity. And if cynics ask, “What will Brazilians eat?” scientists have a ready answer.

Rigorous studies carried out by Brazil’s Agricultural Research Agency (Embrapa) leave no doubt that the country can produce much more animal and vegetable protein by reducing the total area of ​​pasture, and use better science and technology to slow down the expansion of agriculture and livestock into the Amazon and the Cerrado, Brazil’s vast tropical savannah. So yes, let's ignore those who want to restrict our dietary options and keep eating fruits like açaí.
Açaí illustrates the enormous economic possibilities of keeping forests standing. It is the fruit of the Amazonian palm tree, an abundant species with more than 100 trees per hectare. Like thousands of other natural products originating from tropical biodiversity, açaí was used as food by indigenous and traditional populations, who over centuries developed effective techniques for selecting and increasing its productivity in agroforestry systems.

The fruit mixed with cassava flour remained the staple food of Amazonians and was consumed in Amazonian cities in the form of juice and ice cream. It gained wider popularity after being featured in a television soap opera in the 1990s, where it was celebrated as an energy food associated with health and fitness. Soon, consumption was growing exponentially, first in Brazil and then internationally.


Today, açaí has firmly connected farmers in Amazonia's agroforestry systems with global markets. Production, collection and processing techniques have been improved. More than 200,000 tons of açaí fruit are produced per year, as well as hearts of palm and other derived products. And growers’ income is much higher than earnings by workers in livestock or logging, supporting more than 350,000 people in the state of Pará alone.

According to studies by Federal University of Pará economist Francisco da Costa, the value of açaí lags behind only beef and tropical timber―the main vectors of Amazon deforestation―among products of animal and vegetal origin in the Amazon. At the current rate, it will reach second place in a few years.

Application of scientific knowledge and new technologies were behind this growth. In California, two young entrepreneurs took açaí to research laboratories and developed various applications, including foods, food supplements and cosmetics. In Belém, Embrapa researchers discovered and patented a new substance found in açaí pulp which can be used as a natural marker of dental plaque, with encouraging market possibilities.

Many hundreds of biodiverse products in the Amazon are already known and used, albeit on a small scale. If they could follow the example of açaí, a more dynamic, equitable and powerful economy would emerge―one far different than the current regional economy based on meat, timber, grains, energy and minerals, which by their nature are concentrators of wealth.

The greatest potential lies in what has not yet been discovered. The great capital of this century is not material, but knowledge. Science and technology can unveil the incomparable biological assets hidden in Amazonian biodiversity, leveraging innumerable new bio-industries and services in an innovative pathway to the bio-economy of the future.
When that future arrives, what will Brazilians eat? We will eat a diversified diet that will include meat, but in smaller quantity, and will offer more products sustainably produced from our immeasurable biodiversity, a gift for our health and for the planet. Long live the açaí!

Carlos A. Nobre is a member of the Brazilian Academy of Sciences, a foreign member of the National Academy of Sciences, and Senior Fellow of WRI Brasil.

Fonte: http://www.wri.org/blog/2017/10/brazils-fruitful-example-acai

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Malariômetro Reage! Ajude a Preencher a Tabela!

Caríssim@s,

Não verificamos nos últimos 12 meses a atualização do portal do DataSus sobre os números de casos positivos de malária (sinal de desgovernança na saúde pública). No entanto, graças ao engajamento e à pesquisa feita por pessoas como a Irmã Maria do Carmo e da Prelazia do Marajó junto às secretarias municipais de saúde e regional da SESPA, fomos informados da situação da doença em Anajás, Bagre, Breves, Curralinho, Gurupá, Melgaço e Portel. 

Dos calamitosos 51 mil casos em 2010, sociedade civil e governo uniram-se contra a maleita, cujos resultados de atendimento e prevenção baixaram para 4 mil casos em todo o Marajó em 2015.

Com a "escuridão" de dados a partir de setembro de 2016, eis que chegamos em 2017 a números novamente preocupantes. 

Abaixo, apresentamos o comportamento da malária em Anajás, Portel e Bagre entre 2009 e 2017 .






































































Precisamos das informações dos demais municípios para preencher a tabela a seguir. Quem puder ajudar, nos envie subsídios. Monitoramento (Malariômetro) é uma ferramenta poderosa de enfrentamento da enfermidade.
























Dívida Pública, aumento de casos de malária, corrupção, esmola para o saneamento básico, golpe de estado para a retirada de direitos, etc.: tudo junto e misturado...

Lutemos.



segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Protocolo de Consulta Prévia da Comunidade Quilombola de Abacatal

Caríssim@s,

Abaixo imagens do evento de apresentação do Protocolo de Consulta Prévia da Comunidade Quilombola de Abacatal, Aurá, Ananindeua-Pa.

Este documento é importantíssimo para dar voz às famílias diante daqueles projetos governamentais que surgem como rolo-compressor.












quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Meu primeiro Poema: A Saga de Um Sem Teto/ 1990

Caríssim@s,

Resgatei junto à Jucy Costa, amiga de infância de Monte Dourado, o texto abaixo, primeiro poema escrito, em parceria com Rogério Pereira Lima. Não foi registrado seu nome lá Rogério, mas eu bem lembro da nossa dupla e te faço justiça mano velho.

Juro de pé junto (me ajuda Gério!) que eu nunca tinha escutado até então Faroeste Caboclo, do Legião Urbana.

Desculpa pelos erros de português. Errando, acertando, ajustando e tareando.


Assim sou: um incomodado por natureza.












(Por isso que digo, em 2017: as comunidades agroextrativistas do Jari merecem a segurança da terra!)



segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Carta da CPT sobre REDD



Segue transcrição da Carta da Comissão Pastoral da Terra sobre projetos REDD – Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal.

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Carta dos participantes do Encontro sobre REDD


Estivemos reunidos/as dos dias 25 a 29 de setembro de 2017, em Brasília, agentes pastorais da Articulação das CPT’s da Amazônia, professores, pesquisadores, ribeirinhos das comunidades do Seringal Itatinga e Porto Central do município de Manuel Urbano, Seringal Valparaiso do município de Cruzeiros do Sul - Acre, ouvimos e sentimos os clamores que vem dos povos amazônidas.

A história e os testemunhos dos ribeirinhos demonstram que as comunidades tradicionais são constantemente violentadas pela grilagem de terras e pela implementação de megaprojetos de ampliação do agronegócio, e por outros tipos de exploração de recursos naturais em seus territórios por parte dos grandes interesses econômicos.

A partir das experiências relatadas, constatamos que mais uma grande ameaça ronda sobre eles, causada pelos projetos do tipo REDD – Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal, que vem sendo implementados nos territórios dos povos das florestas e terras indígenas. Tais projetos são apresentados como se fossem soluções tanto para a crise climática quanto para os problemas vivenciados pelas comunidades. Na realidade são um risco e representam sérias ameaças para as comunidades, além de não reduzirem as emissões de gases responsáveis pelo aquecimento global.

Tais projetos intervêm diretamente no modo de viver da comunidade com proibição de fazerem roçados e de criarem animais de pequeno porte, e impedimento da caça e pesca, e do uso de madeira para construção de suas casas e canoas. Além disso, estes projetos têm causado conflitos e divisões dentro das comunidades, com o  risco de perderem sua autonomia, a soberania alimentar e, até seus territórios.

Iluminados pelas palavras proféticas do Papa Francisco: “A estratégia de compra-venda de ‘créditos de emissão’ pode levar a uma nova forma de especulação, que não ajudaria a reduzir a emissão global de gases poluentes. Este sistema parece ser uma solução rápida e fácil, com a aparência dum certo compromisso com o meio ambiente, mas que não implica de forma alguma uma mudança radical à altura das circunstâncias. Pelo contrário, pode tornar-se um diversivo que permite o consumo excessivo de alguns países e setores.” (LS 171), repudiamos a lógica perversa do “pagar para poder continuar poluindo”, que fundamenta tanto os projetos REDD, quanto outros pagamentos de “Serviços Ambientais”. Lógica que se baseia em compensações climáticas ou ambientais, em que: quem causa emissões excessivas ou outros danos ambientais obtém permissão para continuar poluindo através da compra dos créditos gerados a partir destes projetos. A conversão ecológica proposta pelo Papa somente será possível, se repudiarmos toda e qualquer forma de mercantilização da natureza.

Firme na missão de ser “fiel ao Deus dos pobres e à terra de Deus, ouvindo o clamor que vem dos campos e florestas, seguindo a prática de Jesus...”, a Comissão Pastoral da Terra, que nasceu da Amazônia, reafirma mais uma vez o compromisso com as comunidades que sofrem os impactos dos megaprojetos e repudia as formas de exploração da natureza, que visam somente o lucro rápido em detrimento da vida que pulsa em nossas florestas e dos povos que nela vivem.

CPT’s da Amazônia
Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins