sexta-feira, 8 de dezembro de 2023

O portão do clima

 


Belém, 8 de dezembro de 2023.



Passei 2023 debatendo sobre os tais mercados de carbono, e digo que é cansativo, pois o tema é complicado. Propositalmente, eu diria.

Por outro lado, infelizmente é fácil entender discriminação e racismo, beliscão na mente que recebi desde o dia em que fui barrado no próprio colégio em que estudava nas altas terras do Jari. Pensam que esqueci??

 - Você não pode passar por este portão!

- Por quê??

- Porque aqui é lugar apenas dos meninos que são “americanos”.

- Por quê, se aqui é Brasil??

E aquele homem brancão com olhar severo disse algo entredentes inaudível e virou as costas para este menino curioso de sete anos.

Tantas décadas depois, quero adentrar pelo portão novamente para dizer que amazônidas merecem atenção, mas o portão permanece fechado para a maioria.

O vigia alvo, ocidente de ideias que mata florestas, memórias e crianças palestinas nos olha severamente, vira as costas e nos deixa, resmungando ameaças de não-futuro.

E quando eu alerto daqui de fora do portão que o capitalismo está nos massacrando e que nos deixem passar para ajudar a resolver a situação, o homem brancão sorri com ar de empáfia e diz que tudo está sob controle, que os mercados solucionarão a mudança do clima, enquanto uma adoecida Terra segue febril, tossindo.

- É, gente, é deste lado do portão que teremos que achar saídas.

As nossas saídas.


domingo, 8 de outubro de 2023

Choveu no Círio

 Belém, 8 de outubro de 2023.


Do ano mais quente da história.

Da seca que assola o Amazonas,

a cada notícia eu rezei inconscientemente.

Queria que o drama das pessoas, e dos peixes, e dos botos terminasse.

Trazia orações para que os rios fossem o leito das vidas, 

não o cemitério que mesmo de longe senti.


Hoje de manhã, porém, eu vi nuvens no céu,

mas qual nada seria novamente, de nuvens que respingavam 

para logo evaporarem.

É o vapor da panela de pressão que transformamos o mundo,

e não tendo água, iminente a panela para queimar, quem sabe explodir,

enquanto carruagens aladas levam nobres que torcem os narizes para a Humanidade.

Só lhes interessa o fedor do dinheiro.


Desculpem, são pensamentos preocupados com o amanhã.

Falha-me a esperança,

sobra indignação.

Só que Krenak agora é imortal das letras e disso eu já sabia.

Só não percebia que era possível no país inventado chamado Brasil.

Brota-me olhares de quem sabe, até poderia, eu teimando comigo,

ser tudo mais ameno, ser justo.

Quando começa a chover.


Não a chuva sofrida de pingos mal chegados na terra.

Uma chuva digna de ser chamada de chuva, barulhenta em minha janela.

Uma chuva no Círio de Nazaré.


De águas que escorrem para as profundezas do solo

que irão abastecer poços, veios, rios subterrâneos,

até emergir em igarapés.

Que em algum lugar daqui onde chove, imaginei, rega açaizeiros, mututis,

araras, quatipurus, cutias e sumaumeiras.

Sumaúmas em que Nazinha, a santa indígena, está a nos advogar, apesar de nossos erros.


Choveu no Círio de Nazaré.

E o coração esperançou.



domingo, 24 de setembro de 2023

Kadaí



Belém, pensando no povo munduruku, 19 de setembro de 2023.



Sendo o vento uma sinfonia que nos unia,

fiz uma contribuição junto ao Povo Munduruku

que me disse sorridente: "Kabia."


Tentei dizer o que minha civilização inventava.

Sim, inventava para dizer que sabia das coisas do mundo

pois na verdade pouco demonstrava saber,

já que escaldamos o planeta com nossa poluição,

já que esfumaçamos o oxigênio de nossos peitos,

já que envenenamos os rios dos inocentes,

já que nossa ganância há duzentos anos parece não ter fim.


E ao mesmo tempo em que eu explicava, eu me envergonhava:

Quem era eu pra contar sobre árvores, biomassa e vidas dos seres?

Quem era eu que cinicamente criticava o tal mercado de carbono

quando eu mesmo sou produto desta geração de poluidores?


E diante de mulheres que eram a própria

transfiguração da Mãe Terra,

e no meio de minha timidez e pequenez,

um dos caciques avisou-me:

"Essa árvore gostou do que você falou... ela até sorriu".


E fiquei tão lisonjeado, como nunca tinha ficado antes.


Kadaí (árvore) sorriu pra mim e eu até percebi.



Pantoja Ramos


quarta-feira, 9 de agosto de 2023

Carta da Amazônia Gurupaense



Reunidos nos dias 27, 28 e 29 de julho de 2023, no sítio Itapereira, município de Gurupá/PA, no evento denominado I Festa da Floresta, agroextrativistas, agricultores familiares, quilombolas, povos da floresta e suas organizações sociais e religiosas que atuam e representam os territórios locais, Projetos de Assentamento, Reserva de Desenvolvimento Sustentável, Reserva Extrativista e Territórios Quilombolas, expuseram e construíram as diretrizes que devem ser consideradas na busca do bem viver na Amazônia Gurupaense.

Os povos da Floresta Gurupaense, conhecedores dos emergentes debates que cercam a Amazônia, definem três temáticas centrais que devem nortear a efetivação das políticas públicas em nossa região, são elas: a Ecologia Integral, a Emergência Climática e a Sociobioeconomia, assim então, as ações políticas devem ser propostas e implementadas considerando tais temáticas, afirmam sua existência, resistência, e coexistência com a Amazônia, e que devem ser protagonistas na elaboração e execução de todas as ações que visam a manutenção da vida.

Nacionalmente, as políticas públicas passam por um momento de reconstrução, após um período recente de desmonte, no qual a Amazônia e seus povos sofreram constantes ataques. Agora, os esforços para a preservação ambiental voltam-se novamente para a Amazônia, e logo então, as populações que nela vivem serão diretamente afetadas, positiva ou negativamente. Os povos da Floresta Gurupaense, que assim se afirmam, tem compreensão das ações necessárias para a preservação da Amazônia, pois assim o fazem há várias gerações.

Completando seus 400 anos de fundação em 2023, o município de Gurupá possui mais de 80% de seu território com floresta em pé, e apenas 0,74% de área desmatada, assim, seu povo demonstra claramente, por meio de suas ações, que sabe como cuidar da natureza, e por isso deve ser visto como um povo guardião da floresta, bem como, ser respeitado em seus modos de agir, produzir e se organizar, além de ser compensado por tamanho serviço prestado à humanidade. Este mesmo povo, conhecedor do ambiente em que vive, ressalta suas preocupações com a emergência climática que já causa efeitos em nosso município.

O planeta terra é um enorme ecossistema no qual todos estão interligados e as ações promovidas por um, geram impactos em todas as formas de vida, Gurupá já sente estes impactos e eles podem ser percebidos na variação das safras de produtos como o açaí, aumento ou queda incomum no nível das marés, aumento da temperatura e redução nos estoques dos organismos aquáticos coma peixes e camarão, os povos da Floresta Gurupaense, comprometem-se com ações e podem apontar caminhos para a saída deste estado emergencial. Na busca pelo bem viver na Amazônia Gurupaense, há necessidade de compreender os seres humanos como parte integrante do meio ambiente, nada para a Amazônia sem a presença da gente que faz parte deste ecossistema e a garantia de direitos como saúde, educação, saneamento básico, infraestrutura, assistência social, segurança, crédito rural, assistência técnica e extensão rural, segurança alimentar e nutricional, também são a garantia da floresta em pé.

As políticas públicas precisam chegar à Amazônia, de forma que a presença do estado seja melhor percebida, os povos da Floresta Gurupaenses, destacam aqui as seguintes áreas com as quais os governos Federal, Estadual e Municipal, precisam agir de forma urgente, incisiva e coordenada.

  • Regulamentação da Política Nacional de Pagamento por Serviços Ambientais;
  • Criação de um Programa de Fortalecimento da Produção Agroextrativista, que garanta Assistência Técnica, Extensão Rural e Crédito aos atendidos;
  • Efetivação da Política Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural, no município de Gurupá, através do fortalecimento dos órgãos oficiais, com pessoal, equipamentos e transporte;
  • Protagonismo dos agroextrativistas, nas ações de planejamento e gestão das Unidades de Conservação, RDS Itatupâ-Baquiá e RESEX Gurupá-Melgaço;
  • Política educacional que considere e valorize as especificidades da Amazônia Gurupaense, seus povos e sua identidade, com currículo que reconheça a educação agroextrativista, quilombola, de pescadores e agricultores familiares e que esteja integrada aos processos produtivos para assim garantir a permanência dos povos em seus territórios;
  • Instalação de um Polo Universitário em Gurupá, que garanta educação de nível superior pública, gratuita e de qualidade e que atenda a crescente demanda municipal;
  • Titularização de terras no município, e;
  • Fortalecimento do Sistema Único de Saúde no município de Gurupá e sua extensão à todas as comunidades.

Caminhando em consonância com o Governo do Estado do Pará, Gurupá também já se prepara para a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças do Clima, a COP30, que acontecerá em 2025 em Belém do Pará, em preparativo para a COP30, os povos da Floresta Gurupaense, se propõem a apresentar uma carta de relato das experiências de vivência e proteção dos territórios aos representantes políticos do Arquipélago de Marajó.


Ainda planejando, a participação gurupaense na COP30 se propõe construir um plano de participação e consolidação a curto, médio e longo prazo, que resulte no acesso às políticas públicas, também, como forma de fortalecimento das organizações sociais locais, construir um fórum de participação local para a COP30, a realização destas ações, tem como objetivo reforçar o protagonismo local neste evento global.

Neste cenário atual de precificação dos serviços ambientais e dos produtos da biodiversidade, os povos da Floresta Gurupaense afirmam a necessidade de observar-se a presença de gente nos territórios, e a inclusão da área social em todos os debates e decisões, gente com saberes e fazeres que estão em sua identidade e que se relacionam diretamente com seu meio de vida, produção e reprodução.

Debater a sociobioeconomia é urgente para garantir a vida digna dos povos e a integridade das florestas, e o fortalecimento do sistema extrativista de produção através, de formação, crédito, processamento de produtos e acesso ao mercado é uma das formas mais eficientes para o alcance da sustentabilidade em todos os seus múltiplos pilares. As ações governamentais devem visar além da preservação ambiental a garantia dos modos de vida nos territórios.

Através da I Festa da Floresta, que se propõe ser um evento anual, o município de Gurupá, abre o debate urgente à respeito da Amazônia e suas diversas formas de vida, e ansiosos desejamos que tal debate se estenda a outros territórios, a partir de agora, nossas ações de reivindicação devem basear-se nas diretrizes coletivamente aqui estabelecidas.


Sítio Itapereira, Gurupá/PA, 29 de julho de 2023.






sábado, 17 de junho de 2023

Açaí Colonial para Mentes Decoloniais



Outro dia, estava eu comprando açaí em Breves. Diz o vendedor:

- Tá R$14,00 o litro.

- Tá bom. É, há 10 anos eu comprei a R$3,00 aqui mesmo em Breves.

E o mototaxista que me esperava entrou na conversa:

- Eu cheguei a ver quando era 50 centavos o litro! Era pequeno ainda.

- Será que um dia abaixa pra menos de R$10,00? - perguntei pela rama.

- Eu mesmo até queria baixar, mas a conta da luz não deixa - queixou-se o batedor de açaí mostrando o boleto pra gente.

- E olha que produzimos muita energia aqui no Pará - arremata o rapaz da moto.

Bingo. 



Pantoja Ramos.



quinta-feira, 25 de maio de 2023

"Indigestão" de florestas públicas

 




Carlos Augusto Pantoja Ramos[1]

 

 

Resumo da ópera sobre as mudanças na Lei de Gestão de Florestas Públicas de 2006 a partir da Lei 14.590, de 24 de maio de 2023 (Dia de Boiada):

 

🐂🐂 O Plano Anual de Outorga Florestal passa de anual para plurianual.

 

🐂🐂🐂🐂 O poder concedente (União e Estados) poderá permitir a inclusão de produtos florestais não madeireiros como também objeto de concessão florestal para empresas;

 

🐂🐂🐂🐂🐂🐂 🐂🐂União e Estados poderão permitir a inclusão de créditos de carbono como objeto de concessão florestal em favor de empresas (Obs 1: o mercado de carbono não está ainda regulamentado; Obs 2: a Lei 14.119 de 13 de janeiro de 2021 que trata da Política Nacional de Pagamento por Serviços Ambientais não é citada na lei aprovada recentemente);

 

🐂🐂🐂🐂🐂🐂🐂🐂🐂🐂🐂🐂🐂🐂🐂🐂🐂 🐂🐂 Foi retirada a vedação (impedimento) de acesso ao patrimônio genético por empresas concessionárias.

 

 

O caminho que se fez no dia 24 de maio de 2023 foi: a) a descaracterização de uma lei bastante debatida em sua criação no ano de 2006; b) a implantação de concessões florestais públicas com efeito de privatização e c) a abertura das portas para o rentismo (o vampirismo de ganhar dinheiro sem produção e por especulação).

 

Falamos de uma política que não garante isonomia e equidade no uso de florestas públicas.

 

🐂



[1] Carlos Augusto Pantoja Ramos, Engenheiro Florestal e ex-diretor de gestão de florestas públicas do Instituto de Desenvolvimento Florestal e Biodiversidade - IDEFLORBIO nos anos de 2009 - 2010.

quinta-feira, 4 de maio de 2023

O Expresso 30



Belém, 3 de maio de 2023.



Partiu o amanhã

No som do passarinho

Mas cortaram o canto lindo

Metal diapasão


Expressão

Expressivo

A Expressão

A Expressão


- Licença pra eu passar

Por cima das tuas grotas

Licenças prévias marmotas

Que eu possa atravessar


A Expressão

O Expressivo

O Expresso

O 30 Expresso

O 30 Expresso

O Expresso 30

O Expresso 30

O Expresso 30


- E corro encharcado de grãos

Qual Bíblia das vacas gordas

De tantas esfomeadas pontas

Anti-José dos sonhos vilão


O Expresso 30

O Expresso 30

O Expresso 30

O Expresso 30

O Expresso do grão

O Expresso do grão

O Expresso do grão

O Expresso do grão


- Zunindo passei na tua vida

Sem tempo para responder

Palestras em telas esconder

Os trilhos de sua ferida


O Expresso do grão

O Expresso do grão

O Expresso do grão

O Expresso do grão

COPiii!

O Expresso da COP

O Expresso da COP

O Expresso da COP

O Expresso da COP


- Possível ali a chegada

A nova velha estação

Que insiste num passo caminhão

Que odeia paisagens mulheradas


O Expresso da COP

O Expresso da COP

O Expresso da COP

O Expresso da COP

O Expresso 30

O Expresso 30

O Expresso 30

O Expresso 30


- Parece que tem gente no trilho

Não temem a força do trem?

De esperança em esperança alguém

Convence até do acionista seu filho


O Expresso 30

O Expresso 30

O Expresso 30

O 30 Expresso

O 30 Expresso

O Expresso

Expressivo

Expressivo


Quedou o entardecer

No som de uma cigarra

Parou o expresso a garra

Quem sabe, quem irá saber?


A COP expressa

A Expressão

Expressão


A Impressão

E a pressão

Pra um mundo são


São.




Pantoja Ramos