quinta-feira, 17 de abril de 2014

O Determinante das Riquezas Futuras

Lastro é um termo que vem da engenharia e que se dirige a qualquer material usado para aumentar o peso ou manter a estabilidade de um objeto. Em embarcações o lastro podem ser pedras e mesmo a água para trazer equilíbrio no balanço de sua viagem. Na economia, o princípio é mesmo: manter a estabilidade econômica de um país para que as pessoas possam também desenvolver-se neste quesito.


O caso mais comum de lastro econômico é a relação entre moeda e ouro. Desta maneira, na medida em que uma determinada nação consegue mostrar em cédulas o quanto tem em ouro denomina-se bastante lastreada. É como se o cidadão dissesse que tem e não é só goela. “Ele se garante”.




Após a segunda guerra mundial, trocou-se a ideia de lastro-ouro por lastro-dólar a partir do momento em que os Estados Unidos dominaram o cenário mundial e venceram a queda de braço da guerra fria com a União Soviética. E impuseram a lógica do dólar como carta maior do baralho, sem a nobreza, raridade e realidade que o ouro fornecia enquanto prevaleceu na Idade Antiga, Medieval e Moderna. A ideologia americana forçou a barra em seu papel-moeda e conseguiu emplacar uma crença que a nota com George Washington era fator de riqueza.


E a casa caiu, como diriam os policiais. Vez ou outra vem uma crise que abala o planeta para o martírio de economistas, banqueiros e especuladores que tem no dólar seu mensageiro de prosperidade. Nada real, tudo virtual, efeito real, neste paradoxo. Era menino, mas não entendia como poderiam sair bilhões e bilhões do Brasil da noite pro dia de acordo com o humor especulativo de megainvestidores como George Soros, o maior deles. Tudo a contento de uma política do ministério da fazenda que só faltava distribuir flores a estes empobrecedores da América Latina e Ásia. Imperadores.


Na montagem de minhas impressões percebi que lastro tem a ver com equilíbrio e autonomia. Quanto mais lastro, mais autonomia. E no comparativo daquilo que move o mundo, percebi que energia é mola propulsora e pode ser lastro. Uau! Será que é por isso que a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) causara um transtorno mundial no início da década de 1970 ao perceberem que sem eles e seu combustível o mundo não andaria?


E cá estamos na Amazônia lidando com sua moderna plataforma energética. Muitos quilômetros de linhões interligando hidrelétricas a passar por cima das cabeças dos municípios amazônicos. É verdade absoluta que não dá pra aproveitar esta energia sem o rebaixamento necessário. Mas também é verdade que este processo não tem a mesma velocidade que a vontade de levar energia para o sul do país. E mais verdade ainda que existe uma apatia estatal em trazer alternativas que possam trazer a luz elétrica para os amazônidas, históricos que somos em ser celeiros de produtos extrativistas e não fabricantes de ciência e tecnologia. Não vejo a Constituição de 1988 ser respeitada pela federação quando da sua indicação por uma justa repartição das políticas públicas estruturantes entre as regiões brasileiras.




Só que um dia visitei uma casa movida a energia solar, lá no extremo norte do Estado. A residência pertence a um técnico muito perspicaz de nome Marcus Vinícius, morador da comunidade Morada Nova em Almeirim-Pa, do Sítio do Pica Pau Amarelo (um nome muito sugestivo pela força imaginativa que nos relembra a infância temperada a Monteiro Lobato), a qual contava com:

• 2 placas solares de 140 w a um valor total de R$1480,00;
• 1 placa solar de 80 w a um valor de R$600,00;
• Cabos, controladores de carga e outras peças que, segundo Vinícius, somariam no máximo R$1.000,00;
• Inversor de 1000 w a um valor de R$800,00;
• 4 baterias automotivas de caminhão que juntas somavam R$2.400,00;
• Um custo total de R$6.280,00 nestes equipamentos.

Seu Marcus disse-me usar baterias automotivas para armazenar a energia acumulada durante o dia. Se fossem adquiridas baterias profissionais para a energia solar, o custo total seria de R$8.680,00. Perguntei o que funcionava e ele relatou que sua “montagem” abrigava televisão e seu receptor; lâmpadas (todas da casa); ventilador, liquidificador, computador (notebook) e freezer. Acho que poderia concluir que com o recurso de R$10.000,00, é possível gerar autonomia em energia em uma casa através da luz solar. Bom, eu vi. Aparentemente Seu Marcus não precisa do Linhão e de suas contradições.


O raciocínio que fiz em relação ao lastro econômico me leva a crer que a energia será o determinante das riquezas futuras. Quem desenvolver mais alternativas será, pois, mais rico. Os programas que trouxerem propostas menos impactantes ao meio ambiente serão os mais viáveis. A mulher e o homem que possuírem mais lastro nesta categoria serão cidadãos mais livres. Sentirão mais o vento, irão valorizar mais o sol e assim estarão mais perto da natureza.


Uma essência humana recarregável.


Pantoja Ramos

http://www.recantodasletras.com.br/cronicas/4772496 

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Fundos Florestais Comunitários

Foto: ATAA, Portel.


Primeira Nota Técnica da Estuário Serviços, em parceria com a ONG Lupa Marajó e associações comunitárias do rio Acuti-pereira (Portel) e associação do rio Pagão (Curralinho). o texto refere-se ao processo de implantação de fundos florestais comunitários a partir da criação de reservas financeiras vindas da comercialização dos frutos de açaí. o autor entendeu esta experiência ser digna de registro por se tratar de alternativa viável para milhares de famílias rurais da Amazônia.

Para baixar, clique abaixo:


http://www.recantodasletras.com.br/e-livros/4760368



quinta-feira, 27 de março de 2014

A cor que as mulheres desprezam

                 Belém, 13 de março de 2014.


O Sol já nasceu,
O Sol já nasceu Maria
Findou o tormento
O escuro se desfez

O Sol despontou,
O Sol despontou Maria
Fantasmas correram
Demônios evaporaram

Agora é erguer a voz bem alto
“Eu sou mais eu”
Agora é escolher o salto

O Sol já nasceu,
O Sol já raiou Maria
Tempos de alívio
Pele menos dolorida

A luz preencheu,
A luz preencheu Maria
A íris dos olhos
E te coloriu a alma

O monstro que te fechou as portas
Tornou-se lenda
A causa de suas flores mortas
Se foi, entenda
O que fazia tuas bases tortas
Sumiu, pois tenta
A casa, jardim uma nova rota

A ideia de um novo mundo
Até que é boa
A brisa que refresca tudo
Até ressoa
O plano do grito não ser mais mudo
Agora voa
O ser vivente que renasceu

O Sol apareceu
O Sol apareceu Maria
Chega de sombras
Que o Sol as possa apagar

O Sol já tá alto
O Sol já tá alto Maria
Alerta pro dia
Reis e Rainhas formar

Dor, roxo, grito, choro e pranto
São histórias atrás

Brisa, luz, íris, reis e rainhas
Descobrir o mais

Já nasceu a manhã Maria!


Pantoja Ramos

http://www.recantodasletras.com.br/poesias/4729166

domingo, 2 de março de 2014

Vulnerabilidade social - jovens mulheres

Caríssimos,

Sei que estamos em tempos de carnaval, folia e fusaca que marcam a história brasileira de gostar de brincar. Tudo bem, não somos nem seremos um povo sisudo.

E como é um tempo digamos, “eufórico”, envio a estatística no Marajó, segundo o PNUD, das jovens que tem engravidado na região, estudo acompanhado de 1991 a 2010 pelo IBGE. Sinceramente não confio nos dados de 1991, mas é bom dar uma olhada nos momentos de 2000 e 2010, pois ao que parece, temos trabalho pela frente nesta proteção às meninas marajoaras.

Ps: minha filha Bianca perguntou a mim como se mexia no programa Excel, mostrei o site do PNUD e pedi que fizesse esta sistematização, que acho muito útil.

Um abraço


sábado, 1 de fevereiro de 2014

Rio Paru, até o Panama

Almeirim, 29 de janeiro de 2014.







Foto: Carlos Ramos, rio Paru
Dizer que este texto deveria ser um registro de trabalho, mas é quase todo de admiração. Não, não conhecia o rio Paru, somente o outro lado, o Jari, aquele que povoou minha infância. Muitas paredes me impediram de ver o surpreendente Paru e suas comunidades, plantas, bichos, lendas, sabores e paisagens. Tudo tem o seu tempo e oportunidade e precisam ser bem aproveitados.

No começo da viagem, fiquei desconcertado ao saber que a cidade de Almerim fica relativamente próxima à boca do Paru, eu que achava por meios dos mapas que seriam quilômetros e mais quilômetros. Na verdade, há uma guerra de dimensões em nossa mente: quando crianças, os homenzarrões de antes não passam de medianos quando crescemos e na geografia às vezes superestimamos os territórios mapeados em seus tamanhos. Quando o caminho é feito, não fica tão longe nem tão grande assim, penso.


Seu Chico falou-me de sua juventude, de seu tempo de remada até chegar às altas quedas d´água. Uma saga que durava um mês, ou, de acordo com a precisão do viajante citado, 32 dias à procura da balata, vez ou outra topando com as tribos indígenas que circulavam por ali.E naquilo que me permito relatar, fecho limite de minha observação da Cachoeira do Panama até a foz do Paru.


Foto: Carlos Ramos, frutos de camu-camu
E subindo o rio vi um mosaico de paisagens, das águas barrentas que cercam as ilhas de várzea próprias da influência direta do rio Amazonas, do saltar de camarões e corrida dos bagres migradores como a dourada e a piramutaba. Maravilhado fiquei com a presença das serras que em alguns momentos dava guarita ao Paru e aos buritizais, rápidas lembranças dos sertões do centro do país, até chegar à floresta. E cá e lá uma vila, com a maior atualmente sendo Barreiras, porque um dia outrora a comunidade Cafezal já o tenha sido.



Foto: Carlos Ramos, cachoeira do Panama

Em Cafezal foi a contradição em pessoas: poucos plantam café atualmente, apesar do histórico. Daquilo que se tinha mantido, provei café direto da planta, nativo, vermelhos frutos, de terras onde havia certa friagem alimentados pelo relevo. Aquele cafezinho deve estar entre os três melhores que já tomei na vida, mas não indico qual vem primeiro, não me atrevo. É pegar uma bronca da mãe e da esposa. Então é isso, entre os de fora da família, o do Paru é o preferido, fica bem assim?

Foto: Carlos Ramos, comunidade Catabaú
Infelizmente, a localidade de Cafezal está minguando, ano a ano. É preciso recuperar esta identidade comunitária. Mais do que isso, o território agroextrativista da região precisa ser protegido e preservado. Recreio, Santa Rosa, Catabaú, Barreiras também devem ter reconhecidas suas histórias, extrativismos e agroecologias locais.

Foto: Carlos Ramos, comunidade Cafezal

Uma cachoeira como o Panama não pode virar hidrelétrica. É beleza demais em troca de nosso conforto consumista. Vão lá piuns, expulsem os gananciosos. Percebam almeirienses, valorizem suas matas. Pulem jaraquis para o nosso jantar. Alegrem ribeiros com suas prosas e causos. Misture feijão manteiguinha a formar o mais saboroso baião. Cresçam graviolas, alimentem as crianças. Vitaminem camu-camus, vitaminem sua gente. Mostrem aos moços, cacaus nativos, a antiga agricultura sustentável.


Afirme, Panama, como Deus é magnífico. Como diria Saramago, é pelo dedo que se conhece o Gigante...







Foto: Carlos Ramos, cachoeira do Panama
Pantoja Ramos

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Quilombolas promovem segurança alimentar no Baixo Tocantins


Por Élida Galvão – Assessora de comunicação do Fundo Dema
Dependente da natureza, ao longo da evolução civilizatória, o homem foi construindo relações de intervenção positiva e negativa com a tríade vegetal, animal e mineral. As crises ecológicas geradas pelo uso indiscriminado e irracional dos recursos naturais ameaçam o biossistema numa escala local, regional e global. Diante de tamanho desequilíbrio ambiental engendrado pela expansão do capital, na Amazônia urge a necessidade de trabalhar alternativas para garantir o futuro das populações que hoje ali sobrevivem. Espera-se que tais populações consigam de fato viver com qualidade de vida e garantir o respeito ao ecossistema e o desenvolvimento local a partir da sustentabilidade.
É dessa forma, cônscia de suas responsabilidades quanto à proteção e promoção socioambiental, que a Associação dos Remanescentes de Quilombos de Porto Alegre (ARQUIPA), localizada no município de Cametá (PA), distante a 150 quilômetros da capital Belém, encaminhou em novembro de 2012 – período de lançamento da 2ª Chamada Pública para apoio a projetos socioambientais quilombolas – um projeto à FASE/Fundo Dema, em sua parceria com o BNDES/Fundo Amazônia, visando promover o desenvolvimento da agricultura familiar fundamentada em princípios e conceitos de agroecologia a partir da criação de galinha caipirão.
Situada em um ramal a altura do quilômetro 40, da BR 422, no Nordeste do Pará, com uma área de 2.597 hectares, a comunidade reúne 90 famílias remanescentes de quilombo. Ainda em fase de reelaboração, o projeto Viva Alegre Caipirão vai beneficiar 360 pessoas e fortalecer a cidadania quilombola por meio da valorização da produção familiar e segurança alimentar. Com isso, conquista-se a redução da pressão aos recursos naturais da região e se combate o uso predatório destes recursos.
Justiça ambiental
Embalados por uma sensibilidade coletiva, os quilombolas de Porto Alegre têm a ampla percepção das assimetrias sociais, econômicas e ambientais decorrentes da relação entre homem e a natureza, tanto que não é incomum ouvir nas falas dos moradores as transformações sentidas no clima, por exemplo.
“Antigamente a gente tava acostumado a ver muita mata, áreas densas de matas verdes e os rios, no caso os igarapés aqui próximos tinham mais peixes, em relação ao clima mudou muito e acho que é devido aos desmatamentos próximos aos igarapés. Aqui passa um belíssimo igarapé, mas pessoas que vêm de fora, por exemplo, essas serrarias próximas à comunidade começam a fazer o desmatamento e não tem aquela preocupação de fazer um reflorestamento, então tudo isso vai danificando o tempo, aí causa mais calor. Eu me lembro que a noite fazia muito frio, ainda faz um pouco, mas não tanto quanto antes”, reflete Maria Benedita Borges, professora do ensino básico, remanescente de quilombola e moradora da comunidade.
A noção de justiça ambiental é coerentemente ajustada ao pensamento de que apesar das dificuldades enfrentadas com os impactos ambientais, o desnivelamento econômico e a ausência do Estado, ainda vale a pena lutar pela morada na floresta.  “Por uma parte é muito bom morar na floresta porque a pessoa pode plantar, pode criar e tirar disso o seu próprio alimento, por outra não porque tem um tempo que a gente procura expandir a nossa produção. Às vezes a gente planta arroz, milho, aí quando chega em outra localidade, no caso Cametá, aí eles querem comprar a preço muito baixo, aí não compensa levar, pagar transporte pra chegar até lá”, complementa Maria.
As construções ideológicas, permeadas pelo sentimento paralelo entre o avanço da melhoria da qualidade de vida e a conservação da identidade cultural, são sempre associadas a mecanismos coletivos, participativos e compartilhados. Portanto, para os quilombolas de Porto Alegre, construir coletivamente uma alternativa de desenvolvimento sustentável enquanto estratégia de ação significa, sobretudo, ter noção da importância de se produzir uma atividade econômica respeitando a finitude dos recursos naturais.
Dessa forma, manter-se preocupado com a preservação ambiental é assegurar às próximas gerações remanescentes, diante de interesses cada vez mais excludentes, um futuro onde possam disseminar e orgulhar-se de suas histórias, não de forma lamentável, mas maravilhados pelas conquistas obtidas.
Transformações socioeconômicas
Reconhecida em 2009 pelo Instituto de Terras do Pará (ITERPA) como área de domínio coletivo, com ocupação e uso por famílias remanescentes de quilombos, a comunidade de Porto Alegre sempre atuou em regime de mutirão, e é dessa forma que há anos tem conquistado benfeitorias ao território e à sua gente. Durante os anos de existência, a Associação dos Remanescentes providenciou abertura de ramal para a chegada de energia à comunidade, construção de ponte, além de organizar o 1º Festival de Samba de Cacete entre outras atividades.
Para os moradores, mais do que desenvolver conjuntamente processos de mudança nas formas e manejo do frango caipirão, o projeto representa um avanço quanto à democratização dos meios de produção, uma vez que pretende envolver a participação dos agricultores de base familiar da comunidade, contribuindo para o fortalecimento organizacional, garantindo a segurança alimentar com base em princípios e conceitos de agroecologia, mediante adequação do uso de tecnologia de baixo impacto ambiental e social e de retorno econômico coletivo.
Ansioso pela concretização do projeto, o presidente da ARQUIPA, Lael Soares Sales, fala das metas que se pretende alcançar com a construção do viveiro comunitário para a criação do caipirão. “Além de capacitar nossos agricultores na criação de galinha caipirão, o projeto também vai nos ajudar em relação a nossa alimentação, também vai ser vendido para as comunidades vizinhas, e também até a sede do nosso município e se pensando também com a merenda escolar futuramente. Com isso as famílias vão estar sendo beneficiadas e até o final do projeto a gente pretende que todas as famílias dessa comunidade tenham conhecimento de como se criar essa galinha e daí dar continuidade nesse processo desse projeto”, comenta.

Lael, presidente da Associação, tem orgulho de viver na comunidade
De forma semelhante às expectativas expostas por Lael, a professora Maria Benedita também acredita que o projeto irá beneficiar toda a comunidade, além de fortalecer a identidade quilombola. “Eu creio que esse projeto veio para melhorar, eu já tinha ouvido falar em vários projetos, mas nunca sentaram com a gente pra conversar como seria dado o andamento do projeto, ter primeiro uma formação pra poder fazer a criação, então eu acho que é uma boa oportunidade para as famílias da comunidade. Eu creio que todas as famílias estão se sentindo lisonjeadas pelo apoio que o Fundo [Fundo Dema/FundoAmazônia] tá dando pelo fato de vir um Fundo Nacional pra ajudar as famílias aqui, dar oportunidade, porque eu creio que muitos querem fazer, tem a vontade de fazer mas não sabem como começar, então isso veio a calhar no momento que a gente esperava pra dar andamento na produtividade”, diz ela.

Maria Benedita é uma educadora compromissada com a preservação ambiental
É assim, coletivamente, que os quilombolas pretendem expandir sua atividade de produção, como já vinha fazendo com o extrativismo vegetal e criação de pequenos animais. Porém, a criação destes incita grande expectativa de melhorar as condições de vida das famílias por meio do manejo florestal e respeito ao equilíbrio ecológico do agroecossistema.
No tempo em que a Organização das Nações Unidas (ONU) declara 2014 como sendo o Ano Internacional da Agricultura Familiar, o projeto se faz importante porque além de atender aproximadamente 90 famílias, o excedente da produção poderá se expandir para a merenda escolar e também para o abastecimento de comunidades próximas.
De acordo com os dados do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), publicados em dezembro de 2013, no ano anterior a compra de produtos da agricultura familiar destinados à merenda escolar foi adquirida por 80% dos municípios brasileiros, movimentando pelo menos 360 milhões de Reais.
Apesar disso, o cenário atual aponta a necessidade de ampliar efetivamente o acesso de mais famílias camponesas, quilombolas, pescadoras artesanais nos programas de aquisição de alimentos do Governo Federal para garantir melhorias nos níveis de segurança alimentar na Amazônia.
Sentimento comunitário
Da janela de sua casa de madeira, uma casinha branca com os detalhes de portas e janelas azuladas, Eugênio Soares observa atentamente a movimentação no barracão da comunidade, que fica bem em frente a sua morada, onde as pessoas se reuniam para discutir o projeto. Levando uma vida simples, o agricultor que frequentou a escola formal até a quarta série, sonha com um futuro melhor para seus netos.

Para o lavrador, o projeto vai garantir uma alimentação saudável para todos
“Devido nós não ter o conhecimento, hoje em dia nós já caminhamos um pouquinho através de umas entidades que tá nos acompanhando. Então a gente agradece as entidades que vêm e faz parcerias com a gente porque são elas que estão nos levando pra esse caminho de esperança. A expectativa com o projeto é pra ver até mesmo se melhora a nossa alimentação, porque nós sabemos que hoje em dia pra nós comer um frango de qualidade, nós precisamos de uma alimentação melhor pra nós e pros nossos filhos. A nossa prioridade mesmo é nós aqui dentro, os moradores e algumas comunidades aqui próximas”, afirmou o seu Eugênio.
Em suas trajetórias de vida semelhantes, os moradores de Porto Alegre fomentam uma identidade coletiva. Para eles, é importante lutar pela garantia de direitos e reconhecimento de uma cidadania desvinculada do direito centralizado no indivíduo. É, portanto, na junção de forças que redefinem lógicas de pertença grupal e se firmam enquanto agentes sociais e políticos, tomando consciência de suas ações frente à realidade social em que estão inseridos.

Assis deseja que o poder público garanta os direitos dos quilombolas
“Sou Assis do Nascimento Gonçalves, nascido e criado aqui, sou tataraneto de quilombo, meu avô e bisavô foram um dos fundadores da comunidade aqui de Porto Alegre, e eu como um tataraneto convivo com o meu pai e minha mãe aqui. Nunca saímos daqui pra morar em outro lugar. Sempre vamos na cidade, na capital passear com meus irmãos, buscar alguma informação, mas moro aqui onde fui criado. Sou pai de duas filhas, não convivo com a mãe, mas dou o sustentamento para as crianças. Tenho 42 anos e pra mim ser quilombola é ser proprietário da terra onde meu bisavô, meu avô, que trabalharam como escravos, mas eu já não quero isso pra mim e nem para minhas filhas, mas quero permanecer na nossa área e espero que o governo segure essa titulação que nós já temos, pelo menos os quilombos fiquem permanecendo na sua área, assim como os indígenas”, conta cheio de orgulho de sua história, o agricultor.

Maria Erundina sonha em construir novos horizontes para a geração de sua neta
É comum ouvir nas falas dos moradores a necessária saída dos membros da comunidade para estudar ou para desempenhar alguma atividade na capital, mas o desejo de voltar ao aconchego, ao lugar de pertencimento é fortemente externado, tanto que assim como Assis, que vai a Cametá somente por um período curto, Maria Erundina Soares Gonçalves, conta que estudou fora e depois de formada voltou à comunidade para continuar ajudando seus familiares na atividade agrícola.
“Eu já trabalhei muito na roça, sempre eu ia estudar, mas voltava pra a roça, mesmo depois de trabalhar na escola que eu trabalho hoje, mas sempre tô ajudando na comunidade, no que é preciso, faço o que está ao meu alcance”, diz a senhora de 50 anos que faz questão de preservar a sua história por meio do samba de cacete, uma espécie de batucada originária da cultura africana.
Fundo Dema e os quilombolas
Sujeitados a uma vida de grande exploração, iniciada no século XVII com o processo de colonização, durante muitos anos homens e mulheres negras configuraram um cenário de escravidão na Amazônia. A relutância a essa condição muitas vezes se firmava na fuga para os mais longínquos lugares, nas mais diversas direções.
De acordo com a historiadora Benedita Celeste Pinto, no artigo Escravidão, fuga e a memória de quilombos na região do Tocantins, “no itinerário da fuga de negros escravos [na Amazônia], a região do baixo Tocantins despertava uma certa sedução, pois lá, principalmente na localidade de Cametá, ventilavam-se algumas movimentações contra o regime de então, que se arrastaram após a adesão do Pará à Independência, mesclando com os ideais do movimento cabano”
Dessa forma os quilombos foram se formando, frutos de fuga de negros escravos. Na luta pela sobrevivência, sobressaltados com a possibilidade de serem reescravizados, deixavam para trás os laços de amizade e percorriam mata adentro para se refugiar, daí nasciam os miniquilombos como o de Porto Alegre.
Tendo os seus direitos territoriais reconhecidos pela Constituição de 1988, os quilombolas lutam pela garantia de seus direitos como cidadãos e por conta da ausência de políticas de Estado que consigam assegurar-lhes concretamente uma vida digna, necessitam criar alternativas de sobrevivência, tal qual fazem com planejamento de projetos, a exemplo do projeto de criação de galinha.
O projeto Viva Alegre Caipirão, que deverá iniciar em breve, é resultado da articulação de uma das entidades que integram a Coordenação das Associações das Comunidades Quilombolas, intitulada MALUNGU, criada para tratar das especificidades dos quilombolas da Amazônia. Parceira da FASE Amazônia e do Fundo Dema, com o apoio da Fundação Ford, desde 2008 a MALUNGU articulou e coordenou vários projetos de fortalecimento das associações comunitárias quilombolas no Pará e preservação do meio ambiente. Atualmente integra o Comitê Gestor do Fundo de Apoio às Comunidades Quilombolas do Fundo Dema, e na parceria FASE/Fundo Dema e o Fundo Amazônia está previsto o apoio a 39 projetos que visam o fomento de transformações estruturais positivas e fortalecimento histórico e social da população quilombola do Norte do país.

Fonte: http://www.fundodema.org.br/site/index.php/quilombolassegurancaalimentar/