domingo, 25 de maio de 2014

O Elias

Minha homenagem ao Dia do Trabalhador e Trabalhadora Rural por meio de meu avô.
                                                    
  setembro de 2003,

Meu avô passara.
Passara por mim
e quase deu pra tocá-lo.

Homem bom, de Breves,
puro,
viúvo desde cedo na vida,
abdicou da sacanagem, sua de direito.

Tocador de banda
daquelas que banjo e músicos ficavam cansados nos piseiros
e dançarinos que eram vigiados pelos pais das moças,
ai de quem beijar.

Ia para a roça,
da roça para casa
pentear filha,
catava lêndea
“e continuava homi”.

Radinho de pilha,
jogo do Remo,
sete da noite,
“pára com a zoada, meninu”,
quando o conheci.

Seu Elias, velhinho, não podia mais roçar.
Malmente escutar rádio.
Os nervos reclamaram:
“vou imbora daqui, si não pudé mais passá terçado no matu!”
E foi-se certa noite.
Não foi pro céu. Já era do céu.

Uma bonita jovem de sua mocidade o aguarda:
“cata meu piolhu, Elias,
faz tempu qui eu tô esperandu. Tá aqui a lata”.
Enquanto isso, aqui, nós continuávamos pecando...

Pantoja Ramos



quarta-feira, 21 de maio de 2014

Rede Intercomunitária Almeirim em Ação – RICA/ Proposta de Ordenamento Territorial Reconhecendo o Uso das Comunidades Rurais Locais

Mensagem da Rede Intercomunitária Almeirim em Ação:



"Senhores e senhoras,

A Rede Intercomunitária Almeirim em Ação – RICA, é um fórum de discussão sobre desenvolvimento local, regional e sustentável de Almeirim. Criado a partir da necessidade de organizar o debate sobre o ordenamento territorial e condições de vida das comunidades rurais de nosso município, a RICA surgiu no primeiro encontro sobre segurança fundiária, ocorrida nos dias 16 e 17 de fevereiro na comunidade Barreiras, cuja carta final (em anexo), resume nossos anseios sobre segurança da terra e paz no campo.
Na oportunidade, enviamos também a carta proposta da Rede Intercomunitária Almeirim em Ação - RICA, produzida no seu 4o Encontro sobre Segurança da Terra realizado no dia 16 de maio de 2014.

Atenciosamente,


Rede Intercomunitária Almeirim em Ação."







domingo, 18 de maio de 2014

Almeirim quae sera tamen


    Foto: IFT
                      
      Almeirim, 17 de maio de 2014.


A liberdade é invisível
não tem pompa
nem tem salário
são mãos dadas num passeio de namoro com a Felicidade
em fim de tarde de sol a escolher o sabor do sorvete.

Amedronta
incomoda
é buscada
mas dá um trabalho a danada
quando conquistada.
Porque é moça de princípios.

E o que isso na sua mão Bené?
"é minha mão pronta para ajudar a mim mesmo"
e o que é isso no seu rosto, Nete?
"é sorriso meu pronto para levantar os meus dias"

Não tenho permissão mais de escrever sobre Liberdade
quer saber? Tenho sim!
é a Felicidade perguntando a todo tempo a Ela
"o que você acha?"
"Eu acho que a sua alma basta para te mostrar o caminho...".
Pantoja Ramos
http://www.recantodasletras.com.br/poesias/4811456

Foto: Rafaela Dumont

domingo, 11 de maio de 2014

Para onde vais?

              Rio Amazonas, Costa do Mazagão, 04 de maio de 2014.


Naquele tempo
Veio um menino
Lindo sorriso
A correr para mim
Para abraçar

Todos esperavam
Sobretudo eu
Que sua corrida
E o seu cata-vento
Trouxessem bons ventos

Mas com os anos
Passaram os rios
Passaram os risos
E uma sombra
Cobriu o seu rosto

Era estranho
O entra e sai
De sua alma
E um dia bateram
À minha porta
Eram mães que choravam
Choravam por seus filhos

Despenquei
Para onde vais?

Estremeci
Aonde vais?

E foi vertigem
Um rodopio
E vi boatos
Com sua foto
Por que a calúnia
Pro meu bebê?

Quem são seus amigos
De onde são
Cadê suas mães?
Tem névoa nos olhos
Não ande com eles
Responda meu grito
Responda meu
Responda

Achei seu caderno
Desenhos lindos
De um sol e duas pessoas
Deviam ser você e eu
De mãos dadas
Caminhando para o sol
Pra longe destas sombras
Longe da tua sombra

Rezei
Aonde vais?

Orei
Para onde vais?

Isso é fofoca dos vizinhos
Meu filho brinca de carrinho

Que marca é essa na tua veia?
Um baldezinho e sua areia

Policiais ruins lhe trazem fama
Peguei você debaixo da cama

Não é verdade que vende drogas
Um cavalinho e suas rodas

Não prenda não seu moço ele
Não tá vendo que é minha pele?

Meu Pai devolve seu sorriso
Já nasceu seu dente do juízo?

Onde errei meu Deus, onde?
Onde sua alma se esconde?

Eu quero meu lindo sorriso de volta
Eu o quero de volta
Pantoja Ramos
http://www.recantodasletras.com.br/poesias/4796323

Mulher Chorando - Cândido Portinari
http://www.acervodearte.com.br/acervo/ver_obra.php?acervo=1059




quinta-feira, 17 de abril de 2014

O Determinante das Riquezas Futuras

Lastro é um termo que vem da engenharia e que se dirige a qualquer material usado para aumentar o peso ou manter a estabilidade de um objeto. Em embarcações o lastro podem ser pedras e mesmo a água para trazer equilíbrio no balanço de sua viagem. Na economia, o princípio é mesmo: manter a estabilidade econômica de um país para que as pessoas possam também desenvolver-se neste quesito.


O caso mais comum de lastro econômico é a relação entre moeda e ouro. Desta maneira, na medida em que uma determinada nação consegue mostrar em cédulas o quanto tem em ouro denomina-se bastante lastreada. É como se o cidadão dissesse que tem e não é só goela. “Ele se garante”.




Após a segunda guerra mundial, trocou-se a ideia de lastro-ouro por lastro-dólar a partir do momento em que os Estados Unidos dominaram o cenário mundial e venceram a queda de braço da guerra fria com a União Soviética. E impuseram a lógica do dólar como carta maior do baralho, sem a nobreza, raridade e realidade que o ouro fornecia enquanto prevaleceu na Idade Antiga, Medieval e Moderna. A ideologia americana forçou a barra em seu papel-moeda e conseguiu emplacar uma crença que a nota com George Washington era fator de riqueza.


E a casa caiu, como diriam os policiais. Vez ou outra vem uma crise que abala o planeta para o martírio de economistas, banqueiros e especuladores que tem no dólar seu mensageiro de prosperidade. Nada real, tudo virtual, efeito real, neste paradoxo. Era menino, mas não entendia como poderiam sair bilhões e bilhões do Brasil da noite pro dia de acordo com o humor especulativo de megainvestidores como George Soros, o maior deles. Tudo a contento de uma política do ministério da fazenda que só faltava distribuir flores a estes empobrecedores da América Latina e Ásia. Imperadores.


Na montagem de minhas impressões percebi que lastro tem a ver com equilíbrio e autonomia. Quanto mais lastro, mais autonomia. E no comparativo daquilo que move o mundo, percebi que energia é mola propulsora e pode ser lastro. Uau! Será que é por isso que a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) causara um transtorno mundial no início da década de 1970 ao perceberem que sem eles e seu combustível o mundo não andaria?


E cá estamos na Amazônia lidando com sua moderna plataforma energética. Muitos quilômetros de linhões interligando hidrelétricas a passar por cima das cabeças dos municípios amazônicos. É verdade absoluta que não dá pra aproveitar esta energia sem o rebaixamento necessário. Mas também é verdade que este processo não tem a mesma velocidade que a vontade de levar energia para o sul do país. E mais verdade ainda que existe uma apatia estatal em trazer alternativas que possam trazer a luz elétrica para os amazônidas, históricos que somos em ser celeiros de produtos extrativistas e não fabricantes de ciência e tecnologia. Não vejo a Constituição de 1988 ser respeitada pela federação quando da sua indicação por uma justa repartição das políticas públicas estruturantes entre as regiões brasileiras.




Só que um dia visitei uma casa movida a energia solar, lá no extremo norte do Estado. A residência pertence a um técnico muito perspicaz de nome Marcus Vinícius, morador da comunidade Morada Nova em Almeirim-Pa, do Sítio do Pica Pau Amarelo (um nome muito sugestivo pela força imaginativa que nos relembra a infância temperada a Monteiro Lobato), a qual contava com:

• 2 placas solares de 140 w a um valor total de R$1480,00;
• 1 placa solar de 80 w a um valor de R$600,00;
• Cabos, controladores de carga e outras peças que, segundo Vinícius, somariam no máximo R$1.000,00;
• Inversor de 1000 w a um valor de R$800,00;
• 4 baterias automotivas de caminhão que juntas somavam R$2.400,00;
• Um custo total de R$6.280,00 nestes equipamentos.

Seu Marcus disse-me usar baterias automotivas para armazenar a energia acumulada durante o dia. Se fossem adquiridas baterias profissionais para a energia solar, o custo total seria de R$8.680,00. Perguntei o que funcionava e ele relatou que sua “montagem” abrigava televisão e seu receptor; lâmpadas (todas da casa); ventilador, liquidificador, computador (notebook) e freezer. Acho que poderia concluir que com o recurso de R$10.000,00, é possível gerar autonomia em energia em uma casa através da luz solar. Bom, eu vi. Aparentemente Seu Marcus não precisa do Linhão e de suas contradições.


O raciocínio que fiz em relação ao lastro econômico me leva a crer que a energia será o determinante das riquezas futuras. Quem desenvolver mais alternativas será, pois, mais rico. Os programas que trouxerem propostas menos impactantes ao meio ambiente serão os mais viáveis. A mulher e o homem que possuírem mais lastro nesta categoria serão cidadãos mais livres. Sentirão mais o vento, irão valorizar mais o sol e assim estarão mais perto da natureza.


Uma essência humana recarregável.


Pantoja Ramos

http://www.recantodasletras.com.br/cronicas/4772496 

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Fundos Florestais Comunitários

Foto: ATAA, Portel.


Primeira Nota Técnica da Estuário Serviços, em parceria com a ONG Lupa Marajó e associações comunitárias do rio Acuti-pereira (Portel) e associação do rio Pagão (Curralinho). o texto refere-se ao processo de implantação de fundos florestais comunitários a partir da criação de reservas financeiras vindas da comercialização dos frutos de açaí. o autor entendeu esta experiência ser digna de registro por se tratar de alternativa viável para milhares de famílias rurais da Amazônia.

Para baixar, clique abaixo:


http://www.recantodasletras.com.br/e-livros/4760368



quinta-feira, 27 de março de 2014

A cor que as mulheres desprezam

                 Belém, 13 de março de 2014.


O Sol já nasceu,
O Sol já nasceu Maria
Findou o tormento
O escuro se desfez

O Sol despontou,
O Sol despontou Maria
Fantasmas correram
Demônios evaporaram

Agora é erguer a voz bem alto
“Eu sou mais eu”
Agora é escolher o salto

O Sol já nasceu,
O Sol já raiou Maria
Tempos de alívio
Pele menos dolorida

A luz preencheu,
A luz preencheu Maria
A íris dos olhos
E te coloriu a alma

O monstro que te fechou as portas
Tornou-se lenda
A causa de suas flores mortas
Se foi, entenda
O que fazia tuas bases tortas
Sumiu, pois tenta
A casa, jardim uma nova rota

A ideia de um novo mundo
Até que é boa
A brisa que refresca tudo
Até ressoa
O plano do grito não ser mais mudo
Agora voa
O ser vivente que renasceu

O Sol apareceu
O Sol apareceu Maria
Chega de sombras
Que o Sol as possa apagar

O Sol já tá alto
O Sol já tá alto Maria
Alerta pro dia
Reis e Rainhas formar

Dor, roxo, grito, choro e pranto
São histórias atrás

Brisa, luz, íris, reis e rainhas
Descobrir o mais

Já nasceu a manhã Maria!


Pantoja Ramos

http://www.recantodasletras.com.br/poesias/4729166