sábado, 7 de abril de 2018
domingo, 1 de abril de 2018
Texto de 2002: Por que Manejar o Açaí?
Caríssim@s,
Eis que achei um texto publicado em O Liberal em 2002. Como não encontrei na internet, resolvi publicar aqui.
De um Carlos jovem e esperançoso. Que nem hoje.
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Zé Trindade, Rio Marajoí, Gurupá-Pa. Foto: FASE, 2002.
Por que manejar o açaí?[1]
Carlos Augusto Ramos[2]
O açaí (Euterpe
Oleraceae Mart.) é a palmeira de maior destaque em importância socioeconômica
nas várzeas que ocorrem ao longo do rio Amazonas e afluentes, sobretudo
naquelas localizadas em áreas de influência flúvio-marinha[3].
Possivelmente, sua utilização pelos ribeirinhos remonta desde os tempos
pré-colombianos. Os frutos do açaizeiro têm servido de base de alimentação para
milhares de pessoas, in natura ou em forma de vinho, contribuindo para
manter a população regional longe do estado famélico que caracteriza outras
partes do país, apesar da pobreza latente do interior amazônico.
Outro
produto do açaizeiro bastante demandado é o palmito, cujo destino é abastecer
os supermercados das grandes cidades, sendo normalmente pouco apreciado nas
regiões de extração. A crescente procura por fábricas e marreteiros[4],
aliada à falta de informação e conscientização dos ribeirinhos, tem diminuído
os estoques de açaí, a ponto de desencadear distúrbios no padrão de vida de algumas
comunidades que exploram a palmeira.
Rio Marajoí, Gurupá-Pa. Foto:FASE, 2003.
Recordo-me
de minha passagem pela vila do Lontra da Pedreira, na segunda metade dos anos
90, como sendo um exemplo emblemático das conseqüências negativas do não
planejamento no uso dos recursos naturais. Distante cerca de 70 Km de
Macapá-Ap, a localidade fora “brindada” com a instalação de uma “palmiteira”, o
que praticamente esgotou em menos de cinco anos, o antigo e farto açaizal de
uma área de aproximadamente 3.000 ha, pertencente à comunidade. Assim, os habitantes
foram forçados a comprar frutos e vinho do açaí de outras localidades, uma vez
que este é imprescindível à dieta local. Ou seja: acrescentaram um item
“importado” à sua cesta básica pela exploração sem planejamento de uma de suas
maiores fontes de alimentação. Atualmente, os comunitários do Lontra da
Pedreira, educados por essa dura lição, têm se esforçado para recuperar seus
açaizais e reverter esse quadro, corroborado pela falência da fábrica de
palmito. Casos como estes, infelizmente, tem aumentado muito nos últimos tempos
nas regiões estuarinas do rio Amazonas.
O
histórico dos planos de manejo de açaizais nativos tem mostrado a predominância
de planejamentos voltados quase que exclusivamente para o aproveitamento do
palmito, com operações de plantio ou condução da regeneração natural, seguida
do corte raso das palmeiras selecionadas para corte e transporte da
matéria-prima até o seu destino final que são as fábricas. Mesmo em regime
comunitário, os planos de manejo de açaizais seguem esta lógica. A extração dos
frutos, por ser uma atividade bastante corriqueira e sem danos aparentes ao
meio ambiente, não justificaria a apresentação de um plano ao IBAMA, com toda a
burocracia e as exigências documentais existentes.
Essa
postura de relativa indiferença da sociedade e dos órgãos ambientais quanto à
inexistência de planos de manejo de açaizais preferenciais aos frutos é digna
de preocupação. Se pensarmos que entidades como o IBAMA são limitadas em termos
de pessoal para avaliar e fiscalizar tantos projetos que surgiriam para manejar
frutos e palmitos em pequenas áreas, poderia soar como loucura a proposta de
cada comunidade amazônica venha a exercer o bom uso de seus açaizais através de
documentos protocolados em um órgão federal. Entretanto, a idéia da existência
de pequenos produtores florestais parece ser bem mais razoável do que a
perspectiva de grandes grupos de supermercado empreendendo grandes projetos na
Amazônia – um filme que a maioria de nós já assistiu e não gostou. Neste
sentido, o cada vez maior desapego aos recursos naturais e o êxodo dos
habitantes locais para as periferias das cidades próximas talvez sejam fortes
argumentos a favor do manejo florestal comunitário dos açaizais direcionados
preferencialmente para frutos.
A
utilização dos frutos é mais vantajosa, tanto econômica, quanto social e
ecologicamente, do que o uso simplesmente do palmito para os ribeirinhos. Ao
contrário da receita bruta de apenas R$250,00 obtidos com o corte de 1000
“cabeças”[5],
estudos tem apontado que o manejo florestal pode aumentar a produção de frutos
em até 30%, gerando uma renda bruta média de R$ 470,00 mensais[6], já
incluídos a venda do palmito retirado daquelas estipes mais velhas e com a
produtividade frutificativa em declínio, que são abatidas para a maior entrada
de luz na mata. Os custos são mínimos. Tal receita está acima da média de
municípios estuarinos como Gurupá, que têm uma renda média mensal familiar de
dois salários mínimos (R$360,00)[7].
Rio Jupatituba em Breves-Pa. Foto: FASE, 2003.
Ecologicamente,
o manejo florestal preferencial aos frutos de açaí é benéfico por manter uma
quantidade bem maior de estipes na área, sem forçar a resiliência da floresta,
o que não ocorre em casos de manejo exclusivamente para palmito. Garante também
a alimentação de pássaros e mamíferos locais e evita a incidência maior de
plantas invasoras e espinhosas. Finalmente, nos aspectos sociais, o aumento da
produção de frutos e de vinho é uma segurança maior para a subsistência da
comunidade e previne problemas como o ocorrido na vila do Lontra da Pedreira.
Durante a
vistoria do IBAMA-Ap ao plano de açaizais nativos da ilha de Santa Bárbara,
aprovado em 30 de Novembro de 2001, com a ajuda da FASE Gurupá, um dos técnicos
vistoriadores levantou questionamentos sobre a pequena área estabelecida para o
manejo (em média 3 ha por posseiro) e o direcionamento dado mais aos frutos do
que ao palmito, o que não garantiria, em tese, um grande retorno econômico –
uma das bases que as atividades sustentáveis preconizam. A reação da comunidade
foi bastante serena. Seus objetivos vão muito
além do que simplesmente ganhar um documento de comprovação do bom uso da mata:
eles querem se tornar produtores florestais, organizando sua produção e
aplicando o que foi estabelecido no plano de uso da comunidade[8].
Desejam também recuperar o estoque de açaizais, impactado pela exploração
desenfreada do palmito em tempos atrás.
Curso de manejo de açaizais e de pau-mulato, Ilha de Santa Bárbara, Gurupá-Pa. Foto: FASE, 2001.
O exemplo
da ilha de Santa Bárbara demonstra que a organização voltada para o manejo de
frutos de açaí pode ser uma oportunidade de inserir as comunidades tradicionais
no âmbito das discussões sobre o futuro da Amazônia. A exploração sustentável
deste e de outros produtos florestais, regida pelo zoneamento da floresta em
áreas de manejo específico para cada recurso, assegura a otimização do uso da
terra, valorizando-a e oferecendo ao ribeirinho motivos para não mais deixá-la,
a não ser que seja para os filhos e netos.
[1] Texto
escrito e publicado em O Liberal em 2002.
[2]
Engenheiro Florestal, MSc., pertecnente ao quadro da Federação de Órgãos
para Assistência Social e Educacional (FASE), atuando no Projeto Demonstrativo
Gurupá, no desenvolvimento do manejo florestal comunitário, no município de
Gurupá, Estado do Pará.
[3]
Delas fazem parte, segundo os professores Rubens Lima e Manoel Tourinho, ambos
da Faculdade de Ciências Agrárias do Pará - FCAP), as Várzeas da Costa
Amapaense, Várzeas do Estuário Amazônico, Várzeas do Rio Pará e Várzeas do
Nordeste Paraense e Pré-Amazônia Maranhense.
[4]
Marreteiros são comerciantes que visitam as localidades ribeirinhas
periodicamente, comprando os frutos e palmito de açaí, camarão, etc., e
vendendo víveres sempre a preços bem maiores do que os oferecidos na cidade
aproveitando a falta de alternativa dos ribeirinhos pelo isolamento.
[5]
Utilizando como média por cabeça de palmito, o valor de R$0,25.
[6] Estimativas
do autor com bases nas experiências em Gurupá. Preço médio da lata (14 Kg):
R$2,00 (moda de preços ao ano).
[7] Segundo
Hermes da Costa Viana, Presidente do Sindicato de Trabalhadores Rurais de
Gurupá, informação pessoal.
[8] O plano
de uso é o conjunto de regras gerados pelos próprios ribeirinhos para o uso
racional dos recursos florestais, pesqueiros e agrícolas.
sábado, 31 de março de 2018
domingo, 25 de março de 2018
sexta-feira, 23 de março de 2018
segunda-feira, 19 de março de 2018
Crônicas do Corte: o que a Andiroba ensina
Belém, 19
de março de 2018.
A
andiroba (Carapa guianensis Aubl) tem me dado muitas lições.
Aprendi
que o óleo de andiroba vem sendo usado milenarmente pelos povos originários e que alguns povos indígenas utilizavam-no para mumificação[1]. Ao longo dos séculos, suas propriedades foram sendo descobertas e sua utilização se
expandiu.
O óleo de
andiroba é muito usado também na massoterapia. Tem
ação cicatrizante e anti-inflamatória, que se potencializa quando massageado,
relaxando os músculos e aliviando dores musculares e inflamações[2].
Minha bisavó Margarida[3],
que era parteira em Portel, sempre carregava sua caixinha cheia de unguentos,
na qual estava o óleo de andiroba para "puxar" a barriga das
gestantes. Eu, curioso em meus 6 anos de idade, queria saber o que elas
(minha bisavó, a grávida e as outras mulheres) tanto conversavam dentro do quarto, quando perguntava, levava bronca.
Foi assim que aprendi que as mulheres têm segredos e respeitar isso é regra de ouro.
Aprendi
que o óleo de andiroba, misturado com óleo de copaíba num chumaço de algodão
ajuda na cura das gargantas inflamadas. Que o diga dona Cândida, senhora muito
conversadeira e bondosa que eu gostava, mas que tinha um dedo da grossura de um
cabo de vassoura. Não adiantava o menino de 4 anos correr pra debaixo da cama,
me achavam e aí eu sarava na marra sentindo o gosto amargo do óleo de andiroba
pra combater os estreptococos da goela. Acho desnecessária a recomendação do não
consumo via oral do óleo andiroba, pois pode “magoar” o fígado, afinal quem é o
doido que faz isso?? Por outro lado, apesar de reclamar da planta, quando aos
13 anos saía do campo de futebol (não esqueço do campinho de nome "sangue
de areia" em Monte Dourado) manquejando da canelada que tinha dado na
perna do meu adversário (já reparavam que canela de gente magra é dura pra
caramba??), o óleo de andiroba fomentado pela minha mãe ou pela minha tia me recuperava para
outros baques futebolísticos. Que ingrato fui contigo, andirobeira.
No
mercado nacional, a maior aplicação do óleo de andiroba é como repelente
natural contra insetos. E pela sua ação inseticida, é muito usado na produção
de velas a fim de espantar carapanãs; e para fazer sabão, ajudando
no tratamento de coceiras e picadas de insetos. Nas minhas andanças em 1999 na
região do Lontra da Pedreira, Amapá, tempos do mestrado, conheci a
história de uma senhora de um rio chamado Ipixuna que fazia vela com o bagaço
da andiroba. Na época, o Instituto Estadual de Pesquisas do Amapá - IEPA pediu
ao Instituto Osvaldo Cruz para estudar as propriedades daquele produto artesanal. Me surpreendi quando vi as velas nas prateleiras dos supermercados agora vendidas por uma
empresa e nenhuma citação ou reconhecimento do uso tradicional daquela senhora do
Ipixuna entrevistada que tentava proteger sua família durante o surto de malária que na época que testemunhei na região.
Aprendi que é necessário discutir a origem dos bens da floresta para que seja feita
justiça quando houver a sua comercialização em favor dos habitantes locais[4].
No mesmo
ano (1999), a andiroba era a espécie florestal mais aproveitada para fins
madeireiros no Estado do Amapá[5].
Anos mais tarde, em 2003, seria a terceira colocada nas várzeas de Gurupá na
demanda por madeira para a construção civil. Levada a discussão para as
mulheres do rio Jaburu de que as andirobeiras estavam escasseando nas classes
de diâmetro maiores pela intensa procura das serrarias[6],
elas se posicionaram de que o óleo era a melhor saída para aquela
espécie florestal e não a madeira. Anos depois, a andirobeira caíra para nono
lugar entre as espécies demandadas pelos extratores de madeira locais[7].
O açaí parceiro ajudou a aliviar essa pressão madeireira por seus frutos ganharem maior
espaço na renda das famílias. Aprendi que o uso múltiplo é a melhor saída para
o manejo florestal. Aprendi que as mulheres organizadas decidem em favor da
natureza.
Como
hidratante, o óleo de andiroba é indicado para quem tem cabelos cacheados e crespos, proporcionando brilho e maciez. Ele também ajuda a
recuperar pontas quebradiças e espigadas, deixando-as com um aspecto brilhoso e
saudável. Para quem tem cabelo oleoso, o ideal é utilizá-lo somente nas pontas
do cabelo para não ficar seboso. Tudo isso li nas embalagens de shampoo. Ah, como diria minha bisavó: combate
o piolho. E como os
anos 1980 foram dominados (e sobrevoados) por piolhos!
Mães,
avós, pais, tios, irmãos catando as crianças e adolescentes nas portas de casa
de frente pra rua, na vergonha de quem era catado (por isso a manha das moças
em jogar todo o cabelo pro rosto para não se mostrar quando passava o quem sabe
pretendente? Hummm). Óleo de andiroba a auxiliar na retirada das lêndeas. Um
catar de mãe, uma massagem no couro cabeludo. Um sono...
Em 2010, a andiroba pela primeira vez era valorada oficialmente pelo Estado do Pará. Segundo o IDEFLOR, para planos de manejo madeireiros que desejassem explorar andiroba em florestas públicas, passou a ser imperativo pelo setor madeireiro pagar aos cofres do Estado R$33,43 por cada metro cúbico extraído da árvore de andiroba em pé[8]. Ali me convenci que esse valor era muito baixo quando comparado ao que a mesma árvore pode gerar de receita em óleo, como estudou Marina Londres no rio Jaburu, Gurupá, de cerca de 90 kg de sementes por hectare[9], aqui calculo em 18 litros por hectare, ou seja, uma renda bruta de R$558,00/ha (sendo eu conservador no preço pago por litro em R$31,00). Considero o óleo de andiroba um Bem e um Serviço da Floresta (BSF)[10] que não é fácil precificar.
Hoje
acompanho a extração de óleo de andiroba, seja por meio de maquinários, seja
por meio da extração artesanal, em iniciativas que procuram uma nova
institucionalidade para o uso e valorização dos bens florestais. Percebo
que a memória está naquela massa escorrendo óleo na luta pela sua sobrevivência.
Reconheço a importância da história entorno da andiroba, parteiras, repelentes,
mulheres, mato, gargantas, canelas, piolhos, assoalhos, fomento, debates,
leis, justiça, direitos, evolução.
Sim,
evolução. Melada
de andiroba.
Pode não
ser cheirosa como as rosas, mas nos cura das batidas da vida.
Ficamos
fortes.
[1] Ver em https://www.ecycle.com.br/component/content/article/67/2650-oleo-vegetal-andiroba-que-e-para-serve-onde-comprar-puro-uso-repelente-hidratacao-pele-cabelo-massagem-saude-beneficios-propriedades-terapeuticas-fazer-sabao-cosmeticos-cremes-riscos-contaminacao-quimica-nociva-parabenos-extracao-descarte.html
[4] Recomendo
as leituras: a) BRASIL. Lei 13.123. Dispõe sobre o acesso ao
patrimônio genético, sobre a proteção e o acesso ao conhecimento tradicional
associado e sobre a repartição de benefícios para conservação e uso sustentável
da biodiversidade. Disponível em http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2015/Lei/L13123.htm.
Acessado em 29 de maio de 2017; b) Dourado, S. A Lei N.º 13.123/2015 e suas
Incompatibilidades com as Normas Internacionais. In: A “Nova” Lei N.º 13.123/2015 no Velho Marco Legal da Biodiversidade:
Entre Retrocessos e Violações de Direitos Socioambientais. / Eliane
Cristina Pinto Moreira (Org.); Noemi Miyasaka Porro (Org.); Liana Amin Lima da
Silva (Org.). - São Paulo : Inst. O direito por um Planeta Verde, 2017. 280
pp.:
[5] ITTO.
Curso de disseminação e treinamento nas diretrizes e critérios da ITTO: Fase
II, Estágio 2.
Macapá, 1999.
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