quinta-feira, 9 de março de 2017

Projeto Lançante: Marluce Moraes, a Dama Negra


Marluce Moraes  - conhecida artisticamente como Dama Negra - nasceu em Breves, no Marajó, Pará. Nasceu, cresceu e aprendeu a ler à margem do rio Parahuaú.

Formada em Letras pela Universidade Federal do Pará, tem se dedicado desde a adolescência a escrever poemas advindos de uma alma inquieta que possui. Seus trabalhos viajam no tempo exterior e interior, misturando estilos diversos.

A Dama Negra de Breves é uma poetisa multifacetada: vai do regionalismo amazônico dos botos, igarapés e açaizais, passando pelo sentimento bucólico, intensidade do romantismo e modernidade para construir uma poesia rica, ao mesmo tempo intimista, universal, mas com toque marajoara.

Abaixo, um dos poemas do livro FACES, de Marluce Moraes:



"Mar(a)Jó

Meu nome não é um poema,
mas há quem reconheça nos meus olhos
a poesia e a musicalidade do rio.

Sou a margem plácida com açaizeiro no cio,
porque meu nome é Terra,
é igapó,
é canoeiro.

Meu horizonte é proa,
miriti boiando,
as talas do paneiro
que vai secando como um rio que desce goela abaixo.

Meu nome é sol,
chuva e vazante,
Sou enchente, serpente e mururé.

Sou aquilo que passa por entre a massa que por mim passa.
A beleza que mil desatentos não preservam.

Sou terra líquida,
forte e consistente.
Sou chão,
o pão,
o berço,
o terço,
a sepultura,
a luz do dia,
a noite escura,
sou minha gente.
Mar(a)Jó!".



Para saber mais sobre a autora, recomenda-se ler: FACES - Poemas



Dama Negra de Breves, mistura de intimismo e universal a serviço da poesia no Marajó.



--------------------------------
O Projeto Lançante é uma iniciativa do Blog Meio Ambiente, Açaí e Farinha de divulgação de ilustres pensadores do Marajó e jovens que começam na arte da escrita.

Leia, escreva, cresça e apareça!


Vamos Lançante, escorrei mundo afora!



segunda-feira, 6 de março de 2017

Anajás


Rio Anajás, 05 de março de 2017.



Eu prefiro o nascer do Sol de Anajás.
Prefiro a gente forte de Anajás.
Não falemos mais da maleita como não fosse possível combatê-la.
Escolho falar da lágrima no porto para aqueles que partem.
Do filtro do Tempo mais forte deste lugar para meditar na rede
Na opção de estar no âmago de um território
O cúmulo da várzea marajoara.
Redescobrir que nada sabemos e que talvez nem o próprio Destino saiba.
Prefiro pensar que Anajás é antes de tudo, um Rio
E que como todo rio tem seus Altos, Médios e Baixos.
Eu quero e falo da resistência anajaense
No corpo e na alma
que foram esquecidos pelos poderosos
que foram saqueados por tantos outros
Todavia um entretanto de questionadores brota da terra.
Eu decidi falar do nascer do Sol de Anajás
cegando-me a vista para que eu me concentre na beleza da vida
na curva do rio
no gosto de seu açaí
no milagre de resistir.
Mais um dia começou em Anajás
e eu testemunhei.

Pantoja Ramos

Publicado no Recanto das Letras - http://www.recantodasletras.com.br/poesias/5932629 

quarta-feira, 1 de março de 2017

Com cacos na floresta me trouxeram profetas a dúvida




                                    Belém, 22 de fevereiro de 2014.

No sonho um homem que juntava cacos
Me falou: “não pise na sua história”
Olhei para cima e vi erguido no céu
Sambaqui, ciência e vitória

Sobressaltado
Eu revirei de lado
E neguei sua mensagem
Já estava acostumado

E no sonhar avistei uma senhora andando
Cabelo branquinho e um livro na mão
“O fim da floresta é o fim da vida”
Seguia repetindo em refrão

Olhei pro chão
E assim brotou um gavião
Que alçou tão alto voo
Carregando a nova canção

Que quer dizer isso?
Agonia da Dúvida
E não me convenço
A neblina tão turva

A mente pode querer?
Os braços vão entender?
Tenho Dúvida

Vi um profeta com a barba cheia de frutos
Arrastado espalhava seu sangue
Para beber 500 mil passarinhos

Que quer dizer isso?
Agonia da Dúvida
Chico, responda
Minha visão tá tão turva

“Sua mente tem que querer
Seus braços tem que fazer
Caia a Dúvida”

Acordei da mentira
Não restou mais a Dúvida
Sonho em terras ricas
Paisagens não mais turvas

Penso que vou fazer
Faço no meu entender
Sem a Dúvida.
Pantoja Ramos


Do E-Livro Semente de Sumaúma - http://www.recantodasletras.com.br/e-livros/4838930

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Manoel Tourinho - 100 é o AZIMUTE: AS NOSSAS INSTITUIÇÕES FUNCIONAM?



Caríssim@s,

Socializo texto de Manoel Tourinho, ex-reitor da Universidade Federal Rural da Amazônia, publicado no Jornal Alto Madeira, de Rondônia, quase centenário.

Um abraço


--------------------------------------

Capa da primeira edição do jornal Alto Madeira, de 15 de abril de 2017. Fonte: http://www.gentedeopiniao.com.br/noticia/do-fundo-do-bau-imagem-da-primeira-edicao-do-jornal-alto-madeira-o-qual-foi-mpresso-em-15-de-abril-de-1917/163363 



100 é o AZIMUTE:  AS NOSSAS INSTITUIÇÕES FUNCIONAM?(*)
                                                                        
Manoel Tourinho (**)


Papeava outro dia com um oficial militar sobre a situação do país e perguntei se ele achava que as instituições civis estão funcionando.   Como gosto de saber a opinião dos opostos, fizemos igual indagação a gente do povo: trabalhadores rurais, taxistas e trabalhadores do comercio. Vejo o militar e o popular como extremos amostrais. O militar, acima de tudo constitucionalista, tem no positivismo da Ordem e Progresso, o sendeiro que lhe toca a vida e a cidadania.  Geralmente os seus quadros, digamos o capital social da força armada, é bem preparado pelas suas escolas e centros de formação militar. As constantes mudanças de domicilio e residência, em razão da missão profissional o faz uma pessoa preceptora da pulsação da sociedade em tempo real. Entretanto, devido a sua formação ancorada no positivismo constitucional, acredita que as instituições civis do Brasil estão funcionando, como expressou o oficial com quem conversei. No outro extremo, as opiniões expressas pelo povão, não se revelam iguais a do pessoal da caserna militar. O operário tem a sua formação tecida na luta pela sobrevivência e nos desenganos promovidos pelas instituições civis, e hoje até religiosas. São humanos premidos a revoltar-se contra essas instituições, porque suas práticas institucionais, mais retóricas que francas ou lhanas, não alcançam suas aspirações. Assim,  os militares preferem acreditar que as instituições estão funcionando, enquanto que os populares não confiam mais nelas. Entretanto, como o povo é uma força desarticulada, sem liderança capaz de alçar  suas reivindicações aos patamares dos estamentos burocráticos do estado, tornando-as exequível como insumos de bem-estar e de cidadania, vive por isso apregoando  desejos de retorno dos militares ao poder porque o desespero é tamanho.  Mas, antes de comentar fatos do desapreço das nossas instituições as reivindicações  populares, abro uma janela para falar do Centenário do Jornal “Alto Madeira“ que já se avista ao largo do horizonte.


Logo mais, daqui a dois meses chegaremos ao 15 de abril de 2017 para comemorar os 100 anos de vida do “AM”. Neste AZIMUTE temos feito finca-pé sobre a importância dessa efeméride. A exaltação não é simplesmente porque se trata de um Jornal familiar. Jornais que tem uma família como retaguarda não é algo desconhecido do Brasil.  Aí estão os Marinho, os Calmon, os Mesquita, os Maiorana, os Barbalho, os Rocha, os Maranhão, os Cunha, os Santiago, entre outros. A exaltação que faço, já repetidas vezes, tem a ver com a saga de manter um jornal que virou lenda e legenda neste pedaço de Amazônia ocidental. Fundado nas primeiras décadas do século vinte, o jornal nunca sucumbiu às dificuldades de várias naturezas fossem elas materiais, humanas e financeiras. A história do “Alto Madeira” é uma espécie de “libero” da imprensa nacional porque foi invariável no enfrentamento das adversidades, inclusive política institucionais, mantendo suas características de jornal livre ao longo do seu trajeto centenário, o que lhe permitiu muitas vezes sair da sua ideologia específica para cobrir eventuais “falhas” de seus confrades de caminhada.  Que “falhas” eram aquelas? Um desafio para os historiadores fincados na história de Rondônia.


As instituições nacionais que lidam diretamente com as condições de provedoras da cidadania e do bem-estar coletivo de duas uma: atuam sofismando as suas missões ou não atuam.  O Congresso Nacional e o Ministério da Educação, como instituições do legislativo e executivo, são instituições sofisma porque vivem de mentiras propositadamente maquiadas por argumentos verdadeiros para que possa parecer real. O sistema político partidário brasileiro é o paradoxo popular que faz da câmara dos deputados e do senado federal os locus da antithesis devido à resistência e a oposição aos desejos populares. Subtrair direitos dos trabalhadores para acertar ajustes nas contas públicas são medidas absolutistas e imperiais, recorrentes ao longo da história republicana brasileira, como se o povo fosse o responsável pela gastança pública. Quando se limita os gastos públicos sem  nenhuma medida restritivas aos ganhos financeiros dos parlamentares, diretos e indiretos, conferidos por acordos soturnos, tétricos, medonho e pavorosos; confabulados de modo secreto. Indaga-se pois: funciona o Congresso Nacional a serviço do bem-estar coletivo e da classe trabalhadora? É correto o Senado Federal estender os seus sujos tentáculos para fazer barragem as ações da Lava-a-Jato? Trocar Renan por  Eunicio ? E as outras travessuras e molecagem contra o povo?  Por isso pergunta-se: O Congresso como instituição legislativa funciona no interesse do Brasil?   O MEC, membro executivo federal, é outra instituição “sofisma”. Como não há uma política educacional de estado para o Brasil, o MEC como instituição pública executiva  vive das elocubrações mentais de seus titulares; cada um que está “ on duty” assume fazer o “melhor” para a educação. Nenhum deles estimula em amplos contextos a autonomia prescrita pela Constituição Federal, no Artigo 207 que trata da autonomia das Universidades, por exemplo.  O MEC dá preferência, como instituição executiva, a perenizar uma política de subordinação intensa à sua classe burocrática que enxerga o Brasil sem diferenças regionais, culturais, sociais, ambientais, políticas e econômica. E a partir dessa visão linear, simétrica, oferece instrumentos “democráticos”  como FIES, REUNI, SISU, ENEM e etc.,  desarticulando completamente os ensaios regionais e locais das universidades, desconstruindo as suas experiências de acesso, desfazendo as suas lógicas pedagógicas, enfim desmobilizando totalmente qualquer “pensar endógeno”, favorecendo a PASTEURIZAÇÃO do ensino superior que enseja de um  lado, alunos e professores alienados, e do outro lado provedores “inocentes úteis” da meação corrompida. Do MEC salta-se a qualquer outro sistema executivo; do federal salta-se ao estadual e desse as estruturas executivas municipais. Indaga-se:  as Instituições estão funcionando (bem) neste país? Na visão dos populares, NÃO !!



_____________________________

(*) Publicado no dia 15 de fevereiro de 2017 na secção Opinião do Jornal Alto Madeira, de Rondônia.
(**) Professor aposentado. Natural de Porto Velho, rio Madeira, Amazonas.



quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Ei Balsa!



      “Da Lama ao Caos
       Do Caos à Lama
       Um Homem Roubado
       Nunca se engana...”
       Chico Science & Nação Zumbi – Do Caos à Lama


        Baía de Melgaço, 01 de novembro de 2014.



Voou a tesoura
Pra longe da queda
E uma preguiça caiu no rio
Rasgou o cipó
Com a minha vida
E jovens foram caindo um a um

Ei Balsa! Ei Balsa! Balsa volta aqui!
Que levas? Que levas? Que levas daqui?

Levas o que tenho!
E o que não tenho!
Rico lenho!
Pobre venho!
Pobre massa!
Não mais caça!
Longe passa!
A ricaça!
Tira graça!
Lá da balsa!
Nota falsa!
Velha valsa!

Faltou-me abrigo
Pouca parede
E hoje choveu na minha rede
Mal tenho casa
Ralo assoalho
E um morcegão visitou minha filha

Ei Balsa! Ei Balsa! Balsa volta aqui!
Que levas? Que levas? Que levas daqui?

Toram tudo!
E futuro!
Se apuro!
Testa um furo!
É o sistema!
Que condena!
Tem um lema!
Pobre pena!
Rico encena!
Na novena!
Reza ao esquema!
Mete a lenha!

Mil angelins
E um bocado
De louro-faias que quase não vejo
Tão nobre ipê
Vai humilhado
Vendido por uns parcos trocados

Ei Balsa! Ei Balsa! Balsa volta aqui!
Que levas? Que levas? Que levas daqui?

Maçaranduba!
Cupiúba!
Itaúba!
Minha culpa!
Timborana!
Piquianara!
Quanta grana!
Cedrorana!
Mata rala!
Medo cala!
Surge a mala!
De mudança!
Tem Mudança??
Tem Mudança??
Tem Mudança??





Pantoja Ramos

Publicado em http://www.recantodasletras.com.br/poesias/5022940


domingo, 12 de fevereiro de 2017

O Urubu do Laranjeiras





Caríssim@s,


Envio texto elaborado para a FETAGRI no objetivo de analisar a condição de muitos campesinos e campesinas da Amazônia no ano de 2017.

Para baixar o texto completo, clicar em http://www.recantodasletras.com.br/e-livros/5907877.

Um abraço

Trecho:


O Urubu do Laranjeiras

"Sendo uma vez[1] um urubu, do tipo mais feio entre os urubus, branquelo quase albino entre os de sua espécie quando nasceu, conto aqui sua trajetória. Veio naquela ninhada na ilharga do lixão daquela cidade, que poderia ser a sede do meu município, mas que podia ser também do seu[2]. Quebrou a casca juntamente com outros três filhotes, irmãos para cada lado desde sempre. No tocante a que lhe cabe nos instintos, nosso pequeno urubu depois de alguns meses começou a voar e abrigar-se no vento, descobrindo o horizonte até mais perto que os homens, mesmo que estivessem em suas máquinas voadoras (uma delas quase o triturou lá em cima). Talvez o ajudasse a pensar melhor a corrente de ar e filosofar sobre a vida, vai saber o que passa na mente de um urubu lá no alto planando...".





[1] Não pode ser “era uma vez”, porque ainda o continua esta ideia com todas as características que é proliferar-se a população de urubus onde aglomeram-se os homens, que teimam alguns indivíduos em dar-lhe má fama.
[2] Cerca de 75 milhões de brasileiros usam, provavelmente sem saber, os 3.000 lixões ou aterros inadequados ativos no país e são afetados pelos danos ambientais causados por eles: contaminação do ar, da água, do solo, da fauna e da flora por substâncias tóxicas e cancerígenas. Um novo estudo fez a conta do impacto do problema no sistema de saúde do país: R$ 1,5 bilhão por ano. Se os lixões continuarem abertos, em cinco anos, o custo chegará a R$ 7,4 bilhões - https://www.organicsnewsbrasil.com.br/meio-ambiente/especial-lixoes/lixoes-ainda-fazem-parte-da-realidade-do-brasil-2/ .


sábado, 21 de janeiro de 2017

Lamberto, O Traumatizado: Cotação da Vida

Bom Colares e Lamberto, o Traumatizado, escutavam juntos, atônitos, as notícias da Voz do Brasil sobre o acidente envolvendo o juiz do Supremo Tribunal Federal, o senhor Teori. Lamentavam pelo falecimento e pelo sentimento de perda que sentiriam sua família e amigos. Colocaram-se no lugar daqueles que o amavam. Benzeram-se como se tivessem benzido aquele alto juiz, como assim merecem todas as pessoas, iguais que somos no nascimento e na morte.

De manhã, a filha de Lamberto, Shana (outra traumatizada), zapeia no controle remoto buscando um programa qualquer de culinária e eis que pára num Canal de Economia.
 
Noticia-se:


















Bom Colares e Lamberto leem o anunciado e discutem:

"Quanto tá a cotação da vida na Bolsa de Valores dos que amam o dinheiro?", indaga Lamberto.



"Despencou para -10%, numa escala até +10", analisa o ancião.


"Quebramos!", diz Lamberto, deprimido.


"Te anima rapá, ajude a consertar quié...".







Sem Traumas.