Mostrando postagens com marcador Projeto Lançante. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Projeto Lançante. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Memória em Escavações: Eliane Costa e a Valorização das Narrativas Orais e da Memória dos Moradores do Rio Mapuá, Breves-PA



Cruz Milagrosa, às margens do Braço do Lago do Socó, Alto Rio Mapuá. Foto: Eliane Costa.



Sendo a Memória base construtora de identidades individuais e sociais da humanidade, como não exercitar o seu destaque no dia a dia da sociedade brasileira? Quais são as lacunas históricas que devemos preencher no nosso sistema educacional para que as diferentes vozes possam ecoar? Que histórias e memórias foram subalternizadas pela colonialidade na Amazônia Marajoara?

Na contribuição de respostas a tais questionamentos para a mesorregião do Marajó, Eliane Costa, Doutora em Antropologia e professora de Pesquisa em Educação da Faculdade de Educação e Ciências Humanas do Campus Universitário do Marajó-Breves/UFPA, gentilmente apresenta ao Blog Meio Ambiente, Açaí e Farinha um resumo da sua recentemente defendida Tese de Doutorado, com o título MEMÓRIAS EM ESCAVAÇÕES: Narrativas de Moradores do Rio Mapuá sobre os Modos de Vida, Cultura Material e a Preservação do Patrimônio Arqueológico do Marajó, PA, Brasil[1].

Eliane Costa.



Eliane Costa ao realizar um valioso trabalho de valorização da memória e das vozes de moradores do Mapuá, nos convida para o respeito aos saberes e práticas culturais das comunidades tradicionais no Marajó.




Blog Meio Ambiente, Açaí e Farinha: O que te motivou a estudar a história do rio Mapuá?

Eliane Costa: A primeira vez que estive no rio Mapuá e região por ele banhada foi em 2008. Nessa viagem me falaram do sítio arqueológico de cemitério indígena Amélia, na localidade conhecida por vila Amélia, que até então não tinha conhecimento. Também conheci uma Cruz chamada de Milagrosa, acompanhada de curiosas oferendas e narrativas sobre milagres. Essas primeiras descobertas foram decisivas para despertar meu interesse em estudar a história e memória do Mapuá. Posso dizer que o motivo maior foi exatamente a possibilidade de dar visibilidade a essa história, mas também em conhecer a origem da região e, principalmente, nossas próprias raízes marajoaras, que até então tem sido, em sua maioria, ignorada, silenciada pela historiografia oficial.



Prováveis igaçabas no sítio de cemitério indígena Amélia, localidade vila Amélia, rio Mapuá. Foto: Eliane Costa.




Blog Meio Ambiente, Açaí e Farinha: Há muito o que se investigar e divulgar sobre a formação dos povos e comunidades tradicionais marajoaras. Em seu estudo, quais foram suas principais bases de referência? Quais pistas ajudaram você na sua busca científica?

Eliane Costa: O Marajó é um oceano a ser descoberto em termos de história e memória dos povos tradicionais. Como definiu a arqueóloga Denise Schaan (2009, p. 50) o Marajó é “um tesouro de história, arte e cultura a ser descoberto”. Então, para desvelar um pouco mais da história desse tesouro pautei-me, grande parte, nos estudos dessa arqueóloga, como também das primeiras arqueólogas que pesquisaram no Marajó, no caso, as americanas Betty Meggers e Ana Roosevelt e, mais recentemente, os estudos das professoras Márcia Bezerra e Helena Lima. Outra base fundamental nesse empreendimento foi a pesquisa desenvolvida pelo historiador marajoara Agenor Sarraf Pacheco. Além dessa base teórica as diferentes fontes que explorei em campo (no sentido concreto) foram decisivas nessa busca científica. As narrativas orais de moradores da região, por exemplo, me ajudaram não só a contar a história escondida nas camadas estratigráficas da memória, como também, contribuíram com o mapeamento das ocorrências arqueológicas. Estas, inclusive foram mapeadas com a ajuda do orientador, professor Dr. Diogo Costa, por meio de um levantamento não interventivo (sem escavação). A etnografia e as fotografias, por sua vez, me permitiram explorar um pouco mais os significados e sentidos atribuídos pelas pessoas as coisas do passado e do presente. Os documentos, a exemplo, do relatório de campo da arqueóloga Dirse Kern, cedidos por ela, foram fundamentais para conhecermos informações mais detalhadas a cerca da história e memória dos sítios arqueológicos. Então tanto a memória escrita quanto as narrativas orais, visuais e materiais foram fontes e pistas de fundamental relevância nessa busca científica.

Comunidade Cantagalo, Alto Rio Mapuá. Foto: Eliane Costa.



Blog MAAF: O que seu estudo encontrou nesses 4 anos de pesquisa?

Eliane Costa: A pesquisa mapeou vários achados. Entre esses achados estão os vestígios da memória indígena (verificada nos sítios arqueológicos e nas práticas culturais dos moradores), da memória cabana (observados nas narrativas e artefatos chamados de trincheiras dos cabanos pelo imaginário local) e do período da borracha (inclui artefatos e narrativas sobre seringalistas portugueses e nordestinos e os seringueiros em sua maioria, cearenses). Com base nesses vestígios é possível dizer que os moradores do Mapuá, em tese, podem estar ligados a duas ancestralidades, uma milenar (indígena) e uma secular (portugueses e cearenses). Outro achado importante diz respeito aos artefatos de fé, entre os quais destaca-se, a Cruz Milagrosa, que muitas famílias sobretudo da comunidade Santa Rita, alto Mapuá, tem como um poderoso artefato simbólico-religioso. A pesquisa constatou ainda que as famílias ao longo dos tempos aprenderam a desenvolver um conjunto de técnicas e táticas para lidarem com a dinâmica do rio e floresta no período das chuvas e do sol forte. Desse movimento a pesquisa mapeou diferentes artefatos confeccionados pelas famílias com produtos retirados da floresta e usados de várias formas na vida cotidiana, que indicam a relação com a ancestralidade indígena. Os dados de campo demonstram ainda que no período da borracha o Mapuá foi controlado por seringalistas que se intitulavam coronéis e donos desse espaço. Um sistema que vai perdurar por longas décadas, sob a tutela dos herdeiros dos coronéis e patrões. Daí os moradores em sua maioria afirmarem que o Mapuá era “um cativeiro” (JH 2017). Para driblar as proibições e sanções historicamente impostas foram criando formas de lidar com as dificuldades e se relacionar com o ambiente. Uma das estratégias apontada como importante pelos entrevistados foi a própria criação de uma reserva extrativista, que resultou da reivindicação das famílias para livrarem-se do domínio dos patrões e, assim, poder acessar a terra e o rio tradicionalmente ocupados. É bom frisar que nesse rio, terra e floresta não estão apenas os recursos naturais que garantem a existência das famílias, mas, está sobretudo a história, a memória de cada pessoa, família. Ficou evidenciado que as vilas, edificações (inclui casarões antigos e cemitérios com sepultamento antigo), paisagens são lugares de memória, assim como possuem uma memória. A memória, na verdade, é o elemento que dá sustentação ao patrimônio cultural e material desses agentes. É o elo que conecta passado, presente e futuro. Isso nos ajuda a defender a ideia de que o Mapuá é um lugar de memória, um território onde cada pessoa e famílias ao longo dos anos vem criando suas histórias, memórias, desenvolvendo suas práticas, costumes, hábitos, etc. É, portanto, um espaço histórico, social e culturalmente transformado, praticado e construído pelo trabalho das diferentes gerações, por isso ser um grande patrimônio natural, material e cultural, que precisamos estudar e, também, preservar.




Blog MAAF: Vivemos um tempo de luta pela não invisibilidade das comunidades agroextrativistas na Amazônia. Como a Memória pode ajudar na mobilização das famílias para que sejam respeitados seus direitos?

Eliane Costa: A memória é a base construtora da identidade cultural de cada povo, logo, precisamos entendê-la como condição sine qua non para que os povos tradicionais tenham direito ao seu modo de vida, isso inclui o acesso à terra, ao rio e aos recursos naturais e ao próprio passado. Por meio da memória esses coletivos podem demonstrar e afirmar que tradicionalmente ocupam determinado território, e com isso, reivindicar o direito de permanecer nesse lugar. Mas para que a memória ajude na mobilização dos agentes tradicionais quanto ao respeito e, principalmente, a garantia de direitos, faz-se necessário que seja valorizada e reconhecida. Para isso, faz-se necessário uma escola e uma pedagogia que de fato promova a valorização da memória e história desses povos.



Nossa Senhora de Nazaré, lago do Jacaré. Foto: Eliane Costa




Blog MAAF: Que recomendações apresentas às instituições e tomadores de decisão para a valorização da história local e inserção destes resultados no conteúdo pedagógico de Breves e do Marajó?

Eliane Costa: A principal recomendação é que se priorize a história local, que docentes e discente sejam oportunizados a ter acesso ao saber produzido sobre a região pela pesquisa científica. A sugestão é que essas pesquisas sejam inseridas nas propostas pedagógica das escolas e da Secretaria de Educação.  Durante a pesquisa ficou evidente que o currículo das escolas pouco dialoga com o saber local. Então é urgente que se promova esse diálogo e a inserção dessas pesquisas poderá potencializar na promoção de uma educação capaz de reconhecer as memórias, as práticas e saberes locais.



Blog MAAF: O que esta investigação científica contribuiu para a sua própria formação como educadora e cidadã?

Eliane Costa: A pesquisa me abriu várias frestas. No campo acadêmico me possibilitou ampliar conhecimentos sobre o Marajó, conhecer aspectos identitários de nossa ancestralidade indígena, como também dialogar com diferentes fontes e autores do campo da História, da Arqueologia e da Antropologia. Um exercício que tem sido de salutar relevância para pensar a pesquisa e a educação no Marajó. Cabe destacar nesse exercício a importância do aprendizado em dialogar com a cultura material enquanto fonte de conhecimento. É um aprendizado que tem me possibilitado ampliar o diálogo epistemológico que venho fazendo. A pesquisa tem me permitido assim contribuir com a realização de um trabalho sensível as particularidades de nossa região.


Eliane Costa no barco em viagem de volta do Rio Mapuá.



Blog MAAF: Que conselho darias para os jovens da região, onde muitos ressentem-se que não tem acesso às obras que descrevem a milenar história e cultura do Marajó? 

Eliane Costa: Não seria bem um conselho, mas sugestão que considero fundamental para o desempenho acadêmico e pessoal. A sugestão aos jovens marajoaras é que apostem na educação. Quanto ao acesso às obras cabe informar que é possível ter acesso a algumas dessas produções, pois estão disponíveis em sites na internet. Na página do Museu Goeldi é possível obter cópias dos primeiros Boletins publicados por essa instituição que tratam sobre o Marajó. Também alguns textos da professora Denise Schaan estão disponíveis em diferentes revistas que podem ser baixadas na internet. Hoje, com a internet as produções já estão mais acessíveis, o que era bem mais complicado alguns anos atrás. Ainda temos a limitação quanto as publicações em língua estrangeira, pois, embora algumas estejam disponíveis a dificuldade com outro idioma impossibilita esse acesso.








[1] Costa, Eliane Miranda. MEMÓRIAS EM ESCAVAÇÕES: Narrativas de Moradores do rio Mapuá sobre os Modos de Vida, Cultura Material e Preservação do Patrimônio Arqueológico (Marajó, PA, Brasil) / Eliane Miranda Costa. — 2018. 334 f.: il. Color. Tese (Doutorado) - Programa de Pós-graduação em Antropologia (PPGA), Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal do Pará, Belém, 2018.







sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Projeto Lançante: Marinete Boulhosa, Lente, Etnografia e Veredas Marajoaras



Marinete Silva Boulhosa é bacharel em turismo e mestre em antropologia e professora do Instituto Federal do Pará - IFPA, Campus Belém. Atua na área de turismo, planejamento, organização e execução de eventos. Nascida em Cacheira do Arari, desde 1997 desenvolve pesquisas na área do turismo, educação ambiental, ecoturismo, turismo rural, cultura imaterial, identidade e antropologia cultural, tendo o Marajó como local de investigação.



Tem na fotografia documental um de seus principais recursos de coleta, testemunha ilustrativa e explicação textual, e considera a fotografia importante recurso, capaz de contribuir para ensinar, explicar e reapresentar uma cena ou um evento. Em sua pesquisa de mestrado, produziu mais de três mil fotos sobre o vaqueiro e dos campos do Marajó.

Sua principal obra, Entre a Sela e o Santo, é um livro elaborado a partir de um intenso trabalho etnográfico sobre a vida e a lida do vaqueiro marajoara, construída entre os cenários dos vastos campos naturais da Ilha do Marajó, dos espaços das fazendas da grande ilha, da dinâmica de trabalho no interior das mesmas e do maior evento religioso da Ilha, a Festividade de São Sebastião de Cachoeira do Arari. 




Abaixo, trecho desta obra:

"... Com a liberdade permitida na abordagem antropológica, esse livro é escrito na primeira pessoa, que para além de revelar meu imbricamento com a obra, manifesta também a relação umbilical que possuo com a terra Marajó...".



Marinete Boulhosa, conte mais pra gente sobre o Marajó com suas lentes e alma!


Para contatos e colaboração com a publicação Entre a Sela e o Santo
entrar em contato no e-mail: neteboulhosa@gmail.com .


















--------------------------------
O Projeto Lançante é uma iniciativa do Blog Meio Ambiente, Açaí e Farinha de divulgação de ilustres pensadores do Marajó e jovens que começam na arte da escrita.

Leia, escreva, cresça e apareça!


Vamos Lançante, inundai mundo afora!



quinta-feira, 9 de março de 2017

Projeto Lançante: Marluce Moraes, a Dama Negra


Marluce Moraes  - conhecida artisticamente como Dama Negra - nasceu em Breves, no Marajó, Pará. Nasceu, cresceu e aprendeu a ler à margem do rio Parahuaú.

Formada em Letras pela Universidade Federal do Pará, tem se dedicado desde a adolescência a escrever poemas advindos de uma alma inquieta que possui. Seus trabalhos viajam no tempo exterior e interior, misturando estilos diversos.

A Dama Negra de Breves é uma poetisa multifacetada: vai do regionalismo amazônico dos botos, igarapés e açaizais, passando pelo sentimento bucólico, intensidade do romantismo e modernidade para construir uma poesia rica, ao mesmo tempo intimista, universal, mas com toque marajoara.

Abaixo, um dos poemas do livro FACES, de Marluce Moraes:



"Mar(a)Jó

Meu nome não é um poema,
mas há quem reconheça nos meus olhos
a poesia e a musicalidade do rio.

Sou a margem plácida com açaizeiro no cio,
porque meu nome é Terra,
é igapó,
é canoeiro.

Meu horizonte é proa,
miriti boiando,
as talas do paneiro
que vai secando como um rio que desce goela abaixo.

Meu nome é sol,
chuva e vazante,
Sou enchente, serpente e mururé.

Sou aquilo que passa por entre a massa que por mim passa.
A beleza que mil desatentos não preservam.

Sou terra líquida,
forte e consistente.
Sou chão,
o pão,
o berço,
o terço,
a sepultura,
a luz do dia,
a noite escura,
sou minha gente.
Mar(a)Jó!".



Para saber mais sobre a autora, recomenda-se ler: FACES - Poemas



Dama Negra de Breves, mistura de intimismo e universal a serviço da poesia no Marajó.



--------------------------------
O Projeto Lançante é uma iniciativa do Blog Meio Ambiente, Açaí e Farinha de divulgação de ilustres pensadores do Marajó e jovens que começam na arte da escrita.

Leia, escreva, cresça e apareça!


Vamos Lançante, escorrei mundo afora!



domingo, 27 de março de 2016

Projeto Lançante: Denise Schaan, a arqueóloga do Marajó

Denise Pahl Schaan é uma das maiores arqueólogas da Amazônia. Nasceu em 1962, em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil. Graduou-se em História em 1987 pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, e recebeu o título de Mestre em História, Área de Concentração Arqueologia Amazônica, pela Pontíficia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC/RS) em 1996.

Sua Dissertação de Mestrado, um estudo detalhado da coleção de cerâmica Marajora “Tom Wildi”, foi publicada em 1997 pela editora da PUC/RS. Intitulada A Linguagem Iconográfica da Cerâmica Marajoara, a obra aborda os grafismos da cultura regional, mostrando que ícones representando a fauna da Ilha de Marajó eram usados para veicular mensagens sociais sobre mitologia, parentesco, e status social.

Já moradora de Belém do Pará, em 1997, Denise Schaan começou a estudar as coleções de cerâmica Marajoara do Museu Paraense Emílio Goeldi. Lá, ela dedicou-se também a analisar a ocupação pré-histórica na região do alto Rio Anajás, centro da Ilha de Marajó. Suas pesquisas resultaram na descoberta de nove novos sítios arqueológicos da cultura Marajoara, um deles avaliando impactos ambientais para a construção da Hidrovia do Marajó (1999 a 2001).

Em 2004, defendeu a tese de doutorado intitulado O Cacicado dos Camutins: Emergência e Desenvolvimento de Complexidade Social na Ilha de Marajó, pela Universidade de Pittsburgh, Estados Unidos.

Os estudos de Denise Schaan são um dos mais importantes trabalhos arqueológicos amazônicos e ajudam a entender a origem da população marajoara, possivelmente  decorrente  daquelas já estabelecidas na Amazônia, ou seja, uma população autóctone.


Abaixo, trecho do livro Arte da Cerâmica Marajoara: Encontros entre o Passado e Presente, onde Denise Schaan defende a valorização da História Regional:

A ressignificação da iconografia marajoara em contextos contemporâneos serve às necessidades do presente. Pode ser usada, é claro, de maneira positiva para sensibilizar as pessoas sobre a importância de aprendermos e conhecermos o passado e, nesse sentido, sobre a importância de protegermos e preservarmos o patrimônio arqueológico. Através da preservação, garantimos que muitas interpretações ainda serão possíveis nos séculos vindouros e que o passado seja constantemente reatualizado e utilizado de maneira construtiva para criar identidade, cidadania e história.”.

Para saber mais sobre a autora, recomenda-se ler:


Denise Schaan, a Arqueologia a serviço da Educação e da Cidadania no Marajó.

--------------------------------
O Projeto Lançante é a iniciativa do Blog Meio Ambiente, Açaí e Farinha de divulgação de ilustres pensadores do Marajó e jovens que começam na arte da escrita.

Leia, escreva, cresça e apareça!


Vamos Lançante, escorrei mundo afora!

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Projeto Lançante: conheça Agenor Sarraf, o dono do “Chapéu Viajante”.



Agenor Sarraf Pacheco é historiador marajoara, nascido no município de Melgaço. Notável estudioso da origem das atuais questões sociais do Marajó, Sarraf é Doutor em História Social pela PUC-SP´, no qual atua como Professor Adjunto da Universidade Federal do Pará. 

Com projetos voltados para memórias, identidades, saberes, religiosidades letradas e de matrizes orais afroindígenas da Amazônia Marajoara, é um dos grandes defensores de uma nova mentalidade amazônida “decolonial”, ou seja, um movimento de crítica e rompimento com ordens coloniais, de concepções eurocêntricas e discursos de modernidade que excluem grupos sociais indígenas e africanos na América.

Abaixo, apresenta-se parte de seu artigo Cosmologias Afroindígenas na Amazônia Marajoara, em que analisa o valor do negro e do índio na formação humana do Marajó:

“... Apesar de exercícios excludentes frente a práticas de negros e antigos escravos, que passaram a habitar o Marajó das Florestas e se mesclar com nações Nheengaíba, Mamaianá, Chapouna, expressões de culturas afroindígenas enraizaram identidades e se expressam, ainda hoje, de variadas formas. É possível considerar que os “Marajós” estão enroscados com viveres e saberes africanos e ameríndios em seu jeito de comunicar, dançar, cultuar santos ou entidades do rio e da floresta, acreditar em narrativas fantásticas, realizar festejos juninos, pressentir a vida e a morte.

Em Melgaço, no tempo das diásporas nordestinas para os seringais do Marajó das Florestas, duas manifestações artísticas passaram a fazer parte do cotidiano de vida dos moradores da vila. Tratam-se do cordão do Japiim e do Boi Estrela, preparados para apresentações no período junino, em espetáculos de teatro popular de rua. Esses dois folguedos podem ser lidos como marcas das cosmologias afroindígenas nas formas de representar a vida social, seus conflitos, contradições, derrotas e vitorias...”.



Agenor Sarraf, o Dono do Chapéu Viajante e Pensante!



--------------------------------

O Projeto Lançante é a iniciativa do Blog Meio Ambiente, Açaí e Farinha de divulgação de ilustres pensadores do Marajó e jovens que começam na arte da escrita.

Leia, escreva, cresça e apareça!

Vamos Lançante, escorrei mundo afora!

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Projeto Lançante: conheça José Varella, curioso de quem inventou o mundo



José Varella Pereira é escritor e historiador marajoara, nascido em Ponta de Pedras. Oficial de Chancelaria aposentado pelo Itamaraty, o que lhe proporcionou notável conhecimento histórico sobre o Marajó e sua população, é um ótimo analista dos caminhos e contradições governamentais para desenvolver o Marajó. Luta para manter viva a memória do tio, Dalcídio Jurandir, consagrado romancista amazônico, porém, pouco valorizado nos currículos escolares.

Aos setenta anos, mantem firme a ideia de defender a "Criaturada Grande" (índios, quilombolas e cabocos). Ama o Marajó, a Amazônia: "Viva o Brasil, o maior país amazônico do mundo!".



Para conhecê-lo mais, pesquisar no Blog http://gentemarajoara.blogspot.com.br/


Abaixo, apresenta-se parte de seu ensaio sobre a Pax de Mapuá, evento escanteado das páginas escolares que marca o acordo de paz entre as sete caciques Nheengaíbas das ilhas do Marajó com a delegação de paz em nome da coroa de Portugal, negociada pelo Padre Antônio Vieira em 1665. 


----------------


AOS 400 ANOS DE BELÉM DO PARÁ, 
LEMBRAI-VOS DE MAPUÁ.

 Segundo o historiador José Honório Rodrigues, em "Teoria da História do Brasil", a História não é para os mortos. Quantas vezes, no passado, já foi dito que o relato do chamado "payaçu dos índios" é um caso inverossímil e que o tal acordo de paz entre caciques do Marajó e portugueses do Pará não tem interesse acadêmico?

No entanto, a historiografia das gerações passadas ou as esperanças do porvir, só tem significado no presente. A geografia esconde as consequências históricas.  Se a academia ainda não despertou para o fato, pior para os acadêmicos do período colonial. Para os excluídos da História só o futuro interessa. Para isto a leitura a respeito de que somos, de verdade, donde vieram nossos antepassados e aonde podem ir nossos filhos e netos; é de todo nosso interesse. 

A Criaturada grande de Dalcídio Jurandir (comunidades tradicionais ribeirinhas), em especial a associação de usuários da Reserva Extrativista Florestal de Mapuá, têm direito de saber o que rolou por ali há mais de três séculos e meio. 

Porque sem Gurupá, em 1623, Mapuá, Aricará (Melgaço) e Aracaru (Portel), em 1659, certamente não poderia acontecer a adesão do Pará em Muaná, em 28 de Maio de 1823. A peça de teatro estampada tem, evidentemente, intenção se superestimar o papel dos padres e impressionar a corte. Mas, o fato é que o Pará dependente de índios para tudo, no século XVII, não havia como evitar a expansão das Guianas holandesa, inglesa ou francesa, caso não tivessem recebido a adesão dos chamados rebeldes "nheengaíbas" (nuaruaques) e seus parentes além Cabo do Norte (Amapá). Como Vieira frisou, na carta abaixo, enviada à regente de Portugal, Dona Luisa de Gusmão; viúva de Dom João IV, durante a menoridade de Dom Afonso VI, espécie de prestação de contas e preparação para regressar definitivamente a Europa.

É das atuais consequências da Lei de abolição dos cativeiros, de 1655, e da pax dos Nheengaíbas, fraudada pelos colonos do Pará para doação da ilha dos "Nheengaíbas" ou "Aruans" como capitania hereditária da Ilha Grande de Joanes (1665); que os marajoaras de hoje, com o mísero IDH dos municípios, devem se interessar a fim de saber mais sobre a invenção da Amazônia Brasileira no passado, a partir do Maranhão (1615). 

Cujo empoderamento em curso por descendentes daqueles índios bravios e seus camaradas desertores degredados e negros escravos, todos eles refugiados em mocambos (quilombos) pelos centros da ilha; é garantia efetiva da soberania do Brasil democrático na região.

http://gentemarajoara.blogspot.com.br/2013/08/por-que-o-brasil-precisa-saber-da-pax.html


--------------------------------

Leia, escreva, cresça e apareça!

Vamos Lançante, escorrei mundo afora.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Projeto Lançante: conheça Juraci Siqueira, o Boto.



Juraci Siqueira, o Boto, é poeta nascido no Cajary, em Afuá. Licenciado pleno em Filosofia pela Universidade Federal do Pará , atua em entidades litero-culturais como professor de filosofia, oficineiro de literatura, performista e contador de histórias. Possui mais de 80 títulos individuais publicados entre folhetos de cordel, livros de poesias, contos, crônicas, literatura infantil, histórias humorísticas e versos "picantes" como ele mesmo diz, além de poemas musicados por compositores locais. 

Juraci Siqueira colabora com jornais, revistas e boletins culturais de Belém e de outras localidades além de contar com mais de 200 premiações literárias em vários gêneros, em âmbito nacional e local.

Abaixo, texto deste importante poeta de nossa terra em homenagem à Cabanagem.


Voo Entre Armas I (Juraci Siqueira)

Era sete de janeiro.
De quando em vez um banzeiro
rebentava na muralha
antecipando a batalha
contra o Forte do Castello
primeiro e mortal duelo
na Belém recém-nascida
precocemente envolvida
em sua casta inocência
nos lençóis da violência.
Era janeiro. Chovia.
Céu escuro, manhã fria
com feição de luto e medo.
vez por outra do arvoredo
um agourento chincoã
engravidava a manhã
com seu canto mandingueiro.
Era sete de janeiro...
Do Piri as verdes margens
escondiam nas ramagens
guerreiros Tupinambá,
angelins do Grão Pará
pintados de amor e guerra,
de revolta e bem querer
para lutar pela terra
ou sobre a terra morrer.
Belém nem tinha três anos
e já registrava os danos
de um batismo a ferro e fogo
no brutal e eterno jogo
entre opressor e oprimido
entre mocinho e bandido
entre balas carniceiras
e taquaras justiceiras,
bordunas de redenção
contra espadas de opressão!
Tomba o grande Guaymiaba,
cacique Tupinambá
e longa noite desaba
sobre Belém do Pará.
Cai por terra Guaymiaba
mas a luta não acaba
naquele triste janeiro.
Em cada peito guerreiro
as sementes da igualdade,
da justiça e liberdade
germinam feito capim
à espera de um dia, além,
que a rosa rubra do povo
desabrochasse de novo
nos canteiros de Belém.
***
Voo Entre Armas II
Manhã sem luz, sem cor, sem poesia...
De quando em vez do matagal se ouvia
o agourento cantar de um chincoã.
Era o sétimo dia de janeiro.
Na muralha o marulho do banzeiro
embalava Belém que ainda dormia.
A história se repete. Nada é novo.
Mesmo palco de luta, mesmo povo
mesmos tiranos, mesmos ideais.
E Guymiaba após duzentos anos
renasce e luta ao lado dos cabanos
fundido ao lema vencer ou vencer!
A luta é desigual: artilharias
contra espingardas, ódio e tirania
contra o ideal e a fome de justiça!
A história desta vez não se repete:
Belém, cansada, nesse dia sete,
adormece nos braços do seu povo.
___________________________________
(Do livro Uirá-Pirá, a saga do peixe-pássaro )


Para conhecer mais sobre este literário marajoara, visite o Blog http://blogdobotojuraci.blogspot.com.br/ 



Leia, escreva, cresça e apareça!

Vamos Lançante, escorrei mundo afora.

domingo, 1 de novembro de 2015

Projeto Lançante: Uma tentativa de colaborar com a reflexão no Marajó

Caríssimos,

Em 2014 fui escolhido como um dos autores amadores que teriam textos publicados na 64ª edição do Projeto PALAVRA É ARTE, iniciativa do escritor Gilberto Martins no objetivo de formar e achar novos escritores brasileiros. "Porto Diego" abre esta edição, o que muito me honra.

Diante da problemática educacional no Marajó, minha região de origem, percebi que precisava provocar nos meus conterrâneos a vontade de colocar no papel suas histórias e sentimentos, sua realidade e sua arte. Fazer o que o projeto PALAVRA É ARTE me despertou: o irremediável desejo de escrever o que penso e ajudar a registrar o contraste entre a beleza amazônica e a luta dos seus viventes por dias mais dignos.

Confesso, nem sei se dará certo esta tentativa, nem sou bom na arte da escrita como acho que deveria ser, mas não fujo de minha característica de instigar, de cutucar para a reflexão. Por isso, a ajuda de meus inúmeros amigos me é bem vinda em prol de marajoaras mais críticos de sua condição, mais senhores de sua grandeza.

Aqui decidi chamar meu simplório incentivo de PROJETO LANÇANTE. 

A Lançante, quando a lua cheia oferece as maiores marés, a água a espalhar nas ilhas, dominando, disseminando, fertilizando a terra. Assim penso que a ação-reflexão proposta por Paulo Freire o faz, encharca a gente de pensamentos, de ideias, de soluções. 

Para todos.

Operacionalmente começarei divulgando autores do Marajó, conhecidos ou não, para que outros os leiam. Para isso, este Blog vem  calhar, assim como as demais redes sociais. 

Futuramente, penso ser importante promover concursos de redação e aí paro por enquanto, pois preciso dos amigos comprometidos com a cidadania para ajudar nesta formatação. E tenho vários.

É um projeto que vai se auto-construindo. Às vezes planejar demais atrapalha. 

Vamos Lançante, escorrei mundo afora.