segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Lamberto, O Traumatizado: "Açaidinha"


Lamberto, o Traumatizado, saía da batedeira de açaí do Seu Ceru trazendo à mão 1 litro na sacola do popular. De repente:

"PERDEU!! PERDEU!!".

O assaltante com a arma na mão gritava: "BORA, RAPÁ, PASSA O OURO!!".

"Que ouro, mano?? Cadê? Nem com relógio eu tô??".

"E NESSA SACOLA??!! NÃO ENGANA MALACO NÃO, RAPÁ!!".

"Aqui?? É só meu açaí.".

"POISÉ, PASSA O OURO! PASSA!!".

"Ouro?".

"OURO PRETO MERMÃO!! QUÉ LEVÁ PIPOCO?!!".

"Poxa, cara, toma, caramba, Chuinf!".

"AÍ OTÁRIO, CHORA MESMO, AQUI É CRIME!".

Lamberto senta na sarjeta. 

"O que é que eu vou fazer... O que vai ser mim hoje... Só tô eu em casa, ia comer esse açaí com ovo...".

O ladrão volta-se pra ele.

"COMEQUIÉ?? TU É ABESTADO?? COMER COM OVO!!".

"É só o que tinha em casa pra comer com açaí, sabecomué, tá difícil as coisas...".

"Nem uma mortadela?".

"Sequer uma banha de charque...".

"Aí, ó, pega essa sacola, abre aí... ABRE AÍ RAPÁ, TÁ SURDO??!".

"Tá bom, tá bom.".

"Metá-Metá".

"Obrigado seu malaco, muito bom de coração o senhor... chuif!".

"CALA-BOCA-MACHO! Vou levar meio litro pra comer com mapará frito lá em casa! Aqui é Ostentação!!".

"Me bate, logo".

"E PEGA O BECO QUE EU VOU PASSAR O SAL!!".

Lamberto levantou-se rapidinho e tratou de obedecer. Quando já estava perto de casa, avistou o mesmo ladrão o seguindo.

"NÃO CORRE!".

Parou gelado.

O ladrão se aproximou com uma poquequinha de plástico com um pó branco dentro.

"Que o senhor quer?? Eu não vou traficar pro senhor, não, não".

"Te acalma, cumpadri, vim te passar o sal. Comer açaí com ovo insosso é a morte!".

"Ah, tá... Valeu...".

"Que o CONSIDERADO te acompanhe".

"Amém.".


Eu ouvi um AMÉM??





Sem Traumas. 





sexta-feira, 2 de agosto de 2019

Crônicas, Passageiro: Código de Coletivo


Belém, 02 de agosto de 2019.


O Marambaia-Ver-O-Peso seguia por dentro do meu bairro nem rápido, nem lento. Fez a curva na Rodolfo Chermont tranquilamente. Quando saiu da rotatória, um barulho muito alto, de algo que tinha se chocado a um objeto metálico surpreendeu a todos no veículo. Uma senhora idosa tinha caído da cadeira batendo forte com o rosto no piso do ônibus. 

Todos se apavoraram e num instinto humanitário a maioria se levantou para socorrer a senhora, que parecia não entender a  situação. Mesmo os que estavam em transe-zap- zumbi se assustaram. As mulheres mais próximas e eu conseguimos erguê-la e colocá-la de volta na cadeira do ônibus. Seu supercílio começou a sangrar, a órbita do seu olho direito começou a arroxear. 

Preocupados com a senhora, começamos a aconselhar que ela fosse a um posto de saúde mais próximo. O cobrador veio ver como ela estava. O motorista parou o ônibus e veio também verificar a situação. Perguntou como ela estava, zeloso, como todos nós estávamos.

"Acho que ela cochilou...", Disse a amiga que a acompanhava, outra anciã.

"Vocês querem que eu pare no posto de saúde? Numa UPA?".

"É melhor, senhora, melhor não arriscar", ponderou uma moça.

"A gente ia pro IPAMB".

Tratava-se do Instituto de Previdência dos Servidores do Município de Belém.

"Pessoal, eu vou deixar vocês até o Bosque e dali vou levar as senhoras pro IPAMB, tá? Aí vocês pegam outro ônibus, a gente chama um pra vocês entrarem por trás".

"Claro, Claro".

Todos prontamente concordaram.

Descemos.

Seguimos para nossas vidas, provavelmente comentando em nossas casas sobre o ocorrido.

Dentro do coletivo, somos solidários.

Código de união no busão. De que somos gente.

Em tempos em que a frase "penso logo existo" é corrompida, talvez seja justificável para a luta: 

"Me importo, logo, Existo".






segunda-feira, 29 de julho de 2019

Comunitarista



Baía de Melgaço, 11 de junho de 2019.


Pessoas que se equilibram nesta imensa corda bamba que é o século XXI. Percebam-me na voz que apresento ou nas letras que registro. Urge dar consistência ao movimento do COMUM! De entender a firme sentença da menina de tranças e sardas daquele país frio que eu juraria ser menina dos povos originários desta Terra, um enredo do arco e da flecha!

É tempo de erguer a cabeça e envergonhar-se com altivez (eis o paradoxo) de nossas atitudes sem responsabilidade com as próximas gerações, vergonha esta imperativa de ser reconhecida mas sem subterfúgios, sem arrodeio, diretamente no ponto certeiro que além de não estarmos evoluindo, não estamos permitindo a evolução de outros seres vivos, tão tóxicos que caminhamos! Olhar para o passado refletido no homem que pesca no rio de que nem sempre fomos assim nefastos, enganados fomos por nossa  petulância ao descobrir o átomo, construir o rádio, voar em máquinas, desenhar e até imitar o DNA, escanteado o socrático ditado de que tudo que sei é que nada sei. Nossa vaidade cegou-nos.

No fetiche destas tecnologias e materialismo, fechou-se nossa mente para a repartição e não venha me dizer que é um direito infalível a propriedade privada mal orientada por John Locke (acorda!) pois a água da ribanceira que lá está ou estaria é um bem para matar a sede de muitos, da sua família e da minha, por quê só a sua merece viver? Se pensas neste exagero da Phillia, não és da mesma espécie que sou, qual espécie luta pelo suicídio?

Se ao contrário, se tocam seu coração tais linhas, são pelas centelhas de Empatia que nos une, apesar de todas as teorias que desagregam, fruto de ilustres de ciência destacada (que pensavam) mas sem consciência (que sabiam que pensavam e indagavam por sua origem). Evolução que não passa pela lei do macho Alfa, forte nos chipanzés e seu patriarcalismo, porém pelo feminino dos bonobos onde o compartilhar é verbo quase como respirar. Um rio e uma montanha os separam, exemplo para visualizarmos, aprendermos e exercitarmos o bendito Livre-Arbítrio: qual trilha seguiremos?

Agora vejo uma baía, que junta obviamente cursos d'água por sua definição e que também traz para junto de si o Sol, o Peixe, A Ave, a Canoa, a Rede, a Pessoa e o Amanhã, pois presume-se que haverá outro dia de alimento e disso deveríamos estar certos em nossas projeções. Mas na lógica anti-comunitarista, a própria Esperança se vê ameaçada e deturpada, logo ela que julgávamos indestrutível! Esperança não é se não seguimos, não é se não fazemos. EsperaFaz seria um termo mais incomodante para essa sua preguiça de existir, ó criatura! Para proteger a Esperança, há de ser ESPERAFAZ!

Vivemos em busca de nossa sobrevivência, percebes? Sobrevivência cada vez mais conectada com a obrigação de revolucionar nossas relações interpessoais, filosóficas, sociais, econômicas. Tudo com o esmero e a provocativa de sermos parte da natureza, não como um vírus que desgraçadamente mataria o planeta, mas como algo simbionte que nos alimentou enquanto éramos povos migrantes coletores e caçadores. Que ingratos! Agora que nos estruturamos, assassinamos nossa mãe? Quem nos levou pra este mal? Nós mesmos? Somos de índole autodestrutiva? Entendo que mostramos esse caráter de autodestruição frequentemente, contudo, mais frequente é o ato de amor aqui e ali e acolá, vês nas religiões? Atos de bem-querer que ocorrem mais COMUMENTE do que se imagina.

O sábio da América Latina, aquele que passou 7 anos na prisão, avisa que no fundo somos em um mesmo ser pensante individualistas (a marca do capitalismo enquanto institucionalidade) e empáticos (marca do socialismo enquanto institucionalidade), numa briga feroz tal qual tensiona o Yin e o Yang, na ironia que um não vive sem o outro, na saúde dessas energias quando ocorre o equilíbrio. Mas não, Humanidade! Pendeste a balança para o capitalismo, para deixar a heresia de uma pessoa não ter o direito sagrado de alimentar-se pelo menos 2 vezes ao dia, como já diziam os hebreus há milhares de anos. Caímos no conto do capital, onde seu objetivo tão claro e desnudo e chegar ao cúmulo de si mesmo, não importando a consequência das espécies que mataremos, inclusive a nossa. 

Nesta correlação de forças, há de sermos COMUNITARISTAS! É mais do que mais-valia, é mais do que a luta de classes (porém seu entendimento muito nos ajuda perceber as injustiças). É uma reflexão-ação que deve incluir cada esfera deste planeta, biosfera, ionosfera, estratosfera. 

Por outro lado, a Fera Humana precisa ser subjugada.

Quando do devir dos passos até o final do ciclo de nossa caminhada na Terra, que estejamos de mãos dadas, comuns de coração, felizes, apesar de concluirmos que nada é para sempre, com exceção da energia cósmica do amor.

Que possamos irradiar esse sentimento pelo universo para que os viajantes curiosos digam sobre nós: A HUMANIDADE SE JUSTIFICOU!

COMUNITARISTAS (vem você também, Marx)! Uni-vos!




domingo, 28 de julho de 2019

Crianças Nascidas de Mães Adolescentes no Marajó

Caríssimas e caríssimos,

Compartilho abaixo os dados que este Blog sistematizou da página do DATASUS na internet sobre o percentual de crianças nascidas no Marajó de mães com até 19 anos de idade no período de 2009 a 2017, último ano de levantamento.

Na outra tabela, o número absoluto de crianças nascidas de meninas com até 14 anos de idade.

A seguir, os gráficos que acompanham a média no Marajó e os municípios com maior número de crianças com até 14 anos.














Se é verdade que a sociedade é maior que qualquer governo, temos aí um problema antes de tudo de sociedade para enfrentarmos.

Para vossa reflexão e ação.


quinta-feira, 11 de julho de 2019

Crônicas do Corte: o legítimo ocupante de áreas rurais segundo o Estado do Pará, a balbúrdia que me deixa grilado...




Carlos Augusto Ramos[1]

“Esta terra é desmedida
e devia ser comum,
Devia ser repartida
um toco pra cada um,
mode morar sossegado.
Eu já tenho imaginado
Que a baixa, o sertão e a serra,
Devia sê coisa nossa;
Quem não trabalha na roça,
Que diabo é que quer com a terra?”
A Terra dos Posseiros de Deus – Patativa do Assaré

Hábito que tenho ao ler normas e leis é focar nas regras, nos parágrafos, nos imperativos, proibições, autorizações, deveres e direitos, no limite de minhas capacidades por não ser da área do Direito. Normal, pois é o que interessa na maioria das pessoas, na objetividade de ver quem ganha e quem perde nos marcos legais que se estabelecem. Nesse sentido, entendo que é um marco a nova lei de terras do Estado do Pará, lei n° 8.878, de 8 de julho de 2019, que dispõe sobre a regularização fundiária de ocupações rurais e não rurais em terras públicas do Estado Pará e que revoga a lei n°7.289, de 24 de julho de 2009; e o Decreto-Lei n°57, de 22 de agosto de 1969.

Para fugir do trivial e diante do nosso quadro político desde 2016, passei a prestar mais atenção nos conceitos das leis. Observo que ganham espaço nos últimos anos entrelinhas, tons, subtons e eufemismos que delicadamente entretecem perversidades no Estado de Direito, minando-o e legitimando violações na Constituição, ferindo-a, num passo posterior de violência física, muitas vezes sem o agredido saber de onde veio a justificativa da retirada de seus antes entendidos direitos. Assim é o congelamento dos gastos públicos por 20 anos (agora 19 anos, ufa!) pelo Governo Federal[2]; assim é o subjetivo termo “sob forte emoção” para um policial atirar em alguém, de acordo com a proposta de pacote anti-crime do Ministro da Justiça (?); assim é a prisão de uma pessoa por “atos indeterminados”. A cobra aprendeu a não ser objetiva: subjetivamente ela se arrasta em direção às suas presas.

E seguindo essa reflexão de definições e conceitos, reparei no artigo n° 5, da Lei 8.878, no seu entendimento sobre legítimo ocupante de áreas rurais:

“... pessoa física ou jurídica com ocupação consolidada (em exercício de atividade agrária) ou que pretendam exercer atividade agrária em terras do Estado...”.

Interessante é jogo de significados das palavras legítimo (fundado, amparado na lei, legal; ditado, justificado pelo bom senso, pela razão, justo, razoável), ocupante (que ocupa neste caso a área pública) e pretendam (que não está na área pública, porém intenciona estar ou possuir). Instigador é pensar nisso a partir do monitoramento que as entidades do movimento social do Marajó (principalmente FETAGRI[3] e CPT[4]) fazem do Cadastro Ambiental Rural – CAR, um registro eletrônico ambiental que não dá direito à posse, contudo, tem gerado muita balbúrdia (situação confusa; trapalhada, complicação). Para Moreira (2017), na natureza jurídica do CAR, a lei prevê claramente que “o cadastramento não será considerado título para fins de reconhecimento do direito de propriedade ou posse...”[5]. Porém, denúncias do Grupo Carta de Belém (2018)[6] apontam para o uso do CAR de má fé como um instrumento de grilagem e promoção de conflitos:

“Os erros de inscrição e validação no sistema de cadastramento não foram corrigidos, agravando-se conflitos fundiários devido à confusão realizada pelo CAR entre a análise ambiental e de posse e propriedade de terra... a situação é ainda mais grave para os casos em que os povos e comunidades tradicionais não tem oportunidade de inscrever-se no CAR e de manter a sua inscrição válida no sistema”.

Na própria página da internet, o Serviço Florestal Brasileiro admite que existem na Região Norte do Brasil, 97 milhões de hectares de áreas cadastráveis para o CAR, porém, com 145 milhões de hectares cadastrados[7]. No Marajó, por exemplo, o monitoramento até 2018 apontava para 61,3% da mesorregião marajoara cadastrada no sistema CAR, maior que a área destinada, hoje em 41,9% (Ramos, 2018[8]), com casos conflituosos envolvendo este registro eletrônico. Já estou acostumado com a frase “CAR não legitima posse”, mas na dura realidade da desinformação e truculência nos interiores do Pará, garimpa-se legitimidade não por meio de bom senso ou justiça. É a mentira, “mentirando, mentirando”, como diz um sábio que conheci, numa situação que não é, dizendo-se que não é, mas nos fatos, gente e empresas pretendentes da terra pública cadastrando, cadastrando, expulsando até[9]. Algo que instrumentalmente me recorda a Pós-Verdade[10].
São pontos como os anteriormente referidos que me deixam grilado. Um incômodo... aquela palavrinha, pretendam... No conceito, no entendimento pelo Governo Estadual. A brecha que periga romper a barragem das más intenções de especular sobre a terra (o fundiário), a água (os aquíferos de água doce, maiores do mundo na Amazônia) e o ar (créditos de carbono nas bolsas de valores sem o conhecimento das comunidades). Tudo executado na surdina por aprovar na Assembleia Legislativa Paraense em primeiro e segundo turno de um único dia tal lei, mesmo com todas as ponderações dos perigos de agravar os conflitos no campo e aumentar ainda mais os índices de desmatamento.

Um grilo me sonda a mente.

Um gafanhoto voa para a mata.

Baratas Kafkianas da Pós-Verdade.





[1] Engenheiro Florestal, consultor socioambiental, ganhador da Medalha Qualidade de Vida Ambiental no Pará, outorgado pela Assembleia Legislativa do Estado do Pará em 2017, a mesma ALEPA que aprovou a Lei de Terras do Pará em 2019 sem escutar os clamores da sociedade sobre seus riscos ambientais e de geração de violência. Menciono pela ironia que passou a ser este prêmio para mim.
[2] Ler a Emenda Institucional 95 de 2016.
[3] Federação dos Trabalhadores Agricultores e Agricultoras no Estado do Pará.
[4] Comissão Pastoral da Terra, regional Marajó.
[5] MOREIRA, Eliane. 2016. “Cadastro Ambiental Rural: a nova face da grilagem na Amazônia?” Sítio da Associação Brasileira dos Membros do Ministério Público de Meio Ambiente. Belo Horizonte, 7 jul. Disponível em: http://www.abrampa.org.br/site/?ct=noticia&id=230 . Acesso em: 10 de julho de 2019.
[6] Grupo Carta de Belém. 2018. Denúncia: Invisibilização dos Povos e Comunidades Tradicionais no CAR. Disponível em https://www.cartadebelem.org.br/site/denuncia-invisibilizacao-dos-povos-e-comunidades-tradicionais-no-car/ . Acessado em 10 de julho de 2019.
[10] Pós-verdade é um neologismo que descreve a situação na qual, na hora de criar e modelar a opinião pública, os fatos objetivos têm menos influência que os apelos às emoções e às crenças pessoais.




sábado, 29 de junho de 2019

Crônicas, Passageiro: Tapete de Pele de...





         Que interessante receber convite do Centro ARCORES, de Portel, local cativante que possui várias ações educacionais para as crianças portelenses. Naquela tarde do dia 13 de junho conversei com os voluntários deste centro sobre literatura e filosofia. Não sou formado em literatura, nem formado em filosofia, mas nos permitimos debater ao vento essas duas ciências já que tantos livros ali estavam na estante à disposição dos pequenos leitores.

         Falamos sobre Anne Frank (“O Papel Tem Mais Paciência do que as Pessoas” foi uma frase que Frei Manoel gostou muito), sobre Carlos Drummond de Andrade, sobre Paulo Freire. Decidimos fazer um exercício de discutir a nossa realidade a partir do primeiro livro que escolhêssemos na estante, um exercício paulo-freiriano.

“Hummm, deixa ver... vejam esse título: TAPETE DE PELE DE TIGRE. Um livro interessante, mas me digam, vocês já viram uma pele de tigre?”.

“Eu nunca vi”.

“Aqui tem tigre?”, começamos a série de perguntas.

“Não, não tem”, lá do fundo responderam.

“E se pudéssemos mudar o nome deste livro, com todo o respeito à boa intenção do autor que escreveu o livrinho? Se ao invés de Tapete de Pele de Tigre fosse Tapete de Pele... de Pele...”.

Um voluntário do fundo da sala respondeu:

“Pele de comboia!”.

Todos riram.

Que interessante. Tapete de Pele de Comboia. Rrssrsr.

“O que é uma comboia?”, perguntou uma moça.

“Uma comboia é uma cobra”, respondeu um jovem.

“Ela é venenosa?”.

“Deus-o-livre, é sim!!”.

“Onde ela vive? Em que tipo de mata?”.

“Ela vive em terra encharcada, nas matas de várzea e igapó”.

“Como o senhor sabe disso?”.

“Porque eu já tirei muito açaí e sei disso”.

“Alguém que o senhor conhece já foi picado de comboia?”.

“Ixi, se foi, um amigo meu foi batido de comboia e veio pra Portel”.

“O que aconteceu com ele?”.

“Ele quase perdeu a perna, mas deu tempo de chegar na cidade e tomar o soro”.

“Graças!”.

“Ele voltou a trabalhar?”.

“Ficou difícil pra ele, ficou de benefício, mas acho que ele vai se aposentar”.

Uma voz da frente se posicionou:

“Se ele se aposentar, não viu o que diz essa Reforma lá no Congresso??”.

“Que reforma?”.

“A da Previdência!!”.

Silêncio pairou. Do Tapete de Pele de Comboia chegou-se até Brasília.

O assunto correu para a Reforma da Previdência. Informação, esclarecimentos. Entendimento sobre o jogo e os jogadores deste país que teima em não ser nação.

Voltando-me para a literatura, escrevi no quadro um poema de Drummond:

“Tinha uma pedra no meio do caminho, no meio do caminho tinha...”.

“Um Buraco!”.

Palmas para quem entendeu a sua realidade!

Clap-Clap-Clap...

Pantoja Ramos.



terça-feira, 18 de junho de 2019

Jordana


Todo estudante pobre é um resistente nos dias de hoje. Assim considero todos os estudantes do Marajó.

Na vontade de um jovem que busca um futuro sossegado mesmo contra um sistema que não dá vida fácil a quem luta simplesmente por dignidade.

Por isso a tragédia que ocorreu na BR ceifando a vida da jovem Jordana de Melgaço é tão sentida. Pais, mães, irmãos, irmãs, amigos, amigas, professores, professoras sabem deste sonho que aparentemente é individual, mas na verdade é coletivo.

Uma saudade coletiva, um ato de solidariedade, o desejo de se esforçar mais nos estudos em honra à Jordana, do pobre município de Melgaço que nem sabe da riqueza que possui pela quantidade de sonhos que carregam jovens como nossa querida estudante marajoara.

Que os céus a recebam.

Jordana?

- Presente!