segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Marajó e INPE - Dados de 2018



Copaíba (plântula), comunidade Monte Herom, Portel-PA.



Caríssimas e Caríssimos,

Na defesa de tão importante órgão que tem sido nossos olhos para monitorar e combater o desmatamento na Amazônia, busco homenagear o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) neste simples ato de compilação e transformação em gráfico para os marajoaras.

Abaixo, o desflorestamento acumulado no Marajó até 2018.




















Fonte: INPE/PRODES/http://www.dpi.inpe.br/prodesdigital/prodesmunicipal.php


A área total de desflorestamento somam 422.750 hectares do total de 10,4 milhões de hectares do território marajoara. Isso equivale a 4% da mesorregião, com Portel e Breves liderando o total absoluto de áreas desmatadas. Ainda assim, o Marajó com seus 96% de florestas é um dos principais refúgios da vida amazônica, forte mantenedor do ciclo das chuvas e fundamental para proteção do Rio Amazonas que ruma para encarar de igual pra igual o Atlântico (a pororoca que o diga!), no grande estuário que forma e que abraça o nosso imaginário. Cabe consagrar o Marajó uma Reserva da Biosfera?

Em termos relativos, Salvaterra foi o município marajoara que mais desflorestou em relação à sua área, 11%, seguido de Portel (8,5%) e São Sebastião da Boa Vista (7,6%).


Fonte: INPE.


Como os números mostram, Portel é o município que mais preocupa em termos de desmatamento. Seria um efeito do "arco do desmatamento de Belo Monte", que pressiona Anapu, Pacajá e que agora segue sua sanha para Portel e Bagre? O quanto influenciou o uso do Cadastro Ambiental Rural de Má Fé nesse desmatamento, uma vez que oficialmente este foi criado em 2012?  
Vejamos o comportamento dos incrementos anuais de desflorestamento no município de Portel:


Fonte: INPE

As áreas desmatadas tiveram entre os anos de 2012 e 2016 uma crescente que somaram no período 37.620 hectares. A boa notícia é a queda observada nestes números nos anos de 2017 e 2018, aliás, uma queda substancial (59%) no desflorestamento na região na comparação entre os dois anos. 

Será uma tendência? Em 2019, diante do mundo bizarro que vivemos, os números de desmatamento voltarão a crescer? Talvez estas respostas dependerão da atitude da sociedade portelense em exigir dos gestores ações de combate à exploração clandestina de madeira, grilagem e desmatamento; e continuar perseverando na educação popular para um novo olhar sobre a natureza, a quem exemplifico pelo Centro Manejaí (https://www.manejai.com.br/), o primeiro centro comunitário de manejo florestal no Marajó.


É preciso valorizar as florestas, as pessoas e sua História...

Segue a luta.









quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Morcegos, comunidades e esquecimento - Carta de 2004


A seguir transcrevo a carta que considero minha primeira epístola de fato como um incomodado além da minha engenharia.

Como me fizeram acreditar que os sonhos se realizam, essas pessoas do rio Acuti-pereira.




“Morcegos, comunidades e esquecimento

Belém, 12 de Julho de 2004.


Caríssimos:

Estive recentemente no município de Portel, mais propriamente nas comunidades do rio Acoti-pereira a convite de um líder comunitário. O intuito da visita era passar informações à associação anfitriã (localizada na comunidade Santo Ezequiel) sobre o valor da ação coletiva e do manejo florestal para a conservação dos recursos naturais da região do Estuário Amazônico.

Nas discussões que se seguiram com alguns membros da diretoria, resolvemos adentrar no rio, visitando localidades como Nossa Senhora de Aparecida, São Benedito e São Bento. Nesses logradouros, aconteceram os ataques de morcegos hematófagos aos habitantes locais, cujo problema foi divulgado nacionalmente pela incidência da raiva humana ou hidrofobia – se não me falha a memória – nos meses de Março e Abril do corrente ano.

A enfermidade foi detectada em 15 pessoas, fato que acarretou uma verdadeira operação de guerra para evitar novos casos da doença. Dessa forma, agrônomos, veterinários, secretários de saúde de outras cidades, enfermeiros e médicos passaram vários dias vacinando moradores, estudando e prendendo animais, coletando sangue, enfim, atuando como uma tropa de choque, sempre chamadas em ocasiões extremas como esta que vos digo. Vice-governadora do estado do Pará e poder público municipal apareceram, executaram, prometeram.

Passou-se o ápice da tragédia. Os habitantes da região foram imunizados (com “validação” da vacina de 06 meses a 01 ano, dependendo de cada indivíduo), 15 mortes foram registradas (uma vez que os sintomas aparecem, a mortalidade é altíssima) e decorreram-se 120 dias sem grandes mudanças. Em conversa com pessoas atingidas pelo problema, cujas famílias foram esfaceladas pela fatalidade, foram apontadas promessas não cumpridas e feitas durante discursos naquele momento de agonia pelas autoridades:
  • A instalação de 01 posto de saúde na região do rio Acoti-pereira;
  • Recursos para a construção de casas populares e outras obras sociais; uns falam em R$38.000,00, outros em R$100.000,00. Independente do valor divulgado, o importante é mencionar que a obtenção de moradias bem forradas é imprescindível para evitar novos ataques;
  • Uma estrada ligando a sede municipal de Portel à região.

Senhoras e senhores, além desses compromissos não honrados até agora, que por si só levantam dúvidas sobre a seriedade da condução do processo, constatei ainda algumas situações que deixariam qualquer um preocupado com o futuro daqueles lugarejos.

Não existe trabalho de agentes de saúde de maneira estratégica e contínua, monitorando os residentes para possíveis surtos de raiva humana que possam surgir novamente. Como argumento, ressalto a informação dada a mim que 04 trabalhadores rurais tinham sido mordidos por morcegos recentemente.

A higiene e a saúde das crianças são sofríveis. Do ocorrido dever-se-ia aproveitar a ocasião para debater e agir para melhorar a qualidade de vida infanto-juvenil, com acompanhamento e sensibilização para o uso de hipoclorito na água dos rios para consumo, construção de sanitários mais apropriados (muitas casas não tem) e tratamento dos males dermatológicos que são verificados. Uma pena! Vi meninos e meninas de feições bonitas, porém, precisando de cuidados corporais essenciais.

Outro ponto negativo é o não retorno dos estudos realizados com o sangue coletado das famílias para análise e com os animais transmissores da enfermidade à população do Acoti-pereira. Peço sinceramente que os resultados (mesmo que preliminares) sejam socializados com o público interessado, pois é seu direito ser sabedor do que está acontecendo. Se os comunitários não possuem a base científica para entenderem, que os intelectuais revolucionem a si mesmos para serem os mais didáticos que consigam. Para se ter uma idéia, escutei de 03 moradores a noção (errônea, é verdade) de que a vacina é que está matando, não a hidrofobia. Esclarecer é necessário. Ensinar é fundamental. Perdoem-me a franqueza, mas não podemos admitir que teses ou dissertações sejam feitas para elevarem o nível de vida de uns poucos. É antiético.

Aos políticos do município: pensem antes nos portelenses do que em partidos, eleições ou manobras eleitoreiras. Trata-se de uma questão humanitária e não meramente de conjuntura política. Alerto a vocês que cada vez menos daqueles eleitores “cinco reais” (aquele que vale uma camiseta de campanha) estão a permanecer. Construir e não iludir, eis o caminho.

Às associações comunitárias de Portel digo que procurem não depender tanto de outros mais endinheirados. Façam parcerias com aqueles que desejam um bem mais duradouro para convosco. Torneios, camisas de time, quartos de boi e outros brindes são apenas elementos de momento: seus filhos são aqueles que irão ficar. Pensem nisso. Desculpem qualquer coisa.

Carlos Augusto Ramos.”



segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Lamberto, O Traumatizado: "Açaidinha"


Lamberto, o Traumatizado, saía da batedeira de açaí do Seu Ceru trazendo à mão 1 litro na sacola do popular. De repente:

"PERDEU!! PERDEU!!".

O assaltante com a arma na mão gritava: "BORA, RAPÁ, PASSA O OURO!!".

"Que ouro, mano?? Cadê? Nem com relógio eu tô??".

"E NESSA SACOLA??!! NÃO ENGANA MALACO NÃO, RAPÁ!!".

"Aqui?? É só meu açaí.".

"POISÉ, PASSA O OURO! PASSA!!".

"Ouro?".

"OURO PRETO MERMÃO!! QUÉ LEVÁ PIPOCO?!!".

"Poxa, cara, toma, caramba, Chuinf!".

"AÍ OTÁRIO, CHORA MESMO, AQUI É CRIME!".

Lamberto senta na sarjeta. 

"O que é que eu vou fazer... O que vai ser mim hoje... Só tô eu em casa, ia comer esse açaí com ovo...".

O ladrão volta-se pra ele.

"COMEQUIÉ?? TU É ABESTADO?? COMER COM OVO!!".

"É só o que tinha em casa pra comer com açaí, sabecomué, tá difícil as coisas...".

"Nem uma mortadela?".

"Sequer uma banha de charque...".

"Aí, ó, pega essa sacola, abre aí... ABRE AÍ RAPÁ, TÁ SURDO??!".

"Tá bom, tá bom.".

"Metá-Metá".

"Obrigado seu malaco, muito bom de coração o senhor... chuif!".

"CALA-BOCA-MACHO! Vou levar meio litro pra comer com mapará frito lá em casa! Aqui é Ostentação!!".

"Me bate, logo".

"E PEGA O BECO QUE EU VOU PASSAR O SAL!!".

Lamberto levantou-se rapidinho e tratou de obedecer. Quando já estava perto de casa, avistou o mesmo ladrão o seguindo.

"NÃO CORRE!".

Parou gelado.

O ladrão se aproximou com uma poquequinha de plástico com um pó branco dentro.

"Que o senhor quer?? Eu não vou traficar pro senhor, não, não".

"Te acalma, cumpadri, vim te passar o sal. Comer açaí com ovo insosso é a morte!".

"Ah, tá... Valeu...".

"Que o CONSIDERADO te acompanhe".

"Amém.".


Eu ouvi um AMÉM??





Sem Traumas. 





sexta-feira, 2 de agosto de 2019

Crônicas, Passageiro: Código de Coletivo


Belém, 02 de agosto de 2019.


O Marambaia-Ver-O-Peso seguia por dentro do meu bairro nem rápido, nem lento. Fez a curva na Rodolfo Chermont tranquilamente. Quando saiu da rotatória, um barulho muito alto, de algo que tinha se chocado a um objeto metálico surpreendeu a todos no veículo. Uma senhora idosa tinha caído da cadeira batendo forte com o rosto no piso do ônibus. 

Todos se apavoraram e num instinto humanitário a maioria se levantou para socorrer a senhora, que parecia não entender a  situação. Mesmo os que estavam em transe-zap- zumbi se assustaram. As mulheres mais próximas e eu conseguimos erguê-la e colocá-la de volta na cadeira do ônibus. Seu supercílio começou a sangrar, a órbita do seu olho direito começou a arroxear. 

Preocupados com a senhora, começamos a aconselhar que ela fosse a um posto de saúde mais próximo. O cobrador veio ver como ela estava. O motorista parou o ônibus e veio também verificar a situação. Perguntou como ela estava, zeloso, como todos nós estávamos.

"Acho que ela cochilou...", Disse a amiga que a acompanhava, outra anciã.

"Vocês querem que eu pare no posto de saúde? Numa UPA?".

"É melhor, senhora, melhor não arriscar", ponderou uma moça.

"A gente ia pro IPAMB".

Tratava-se do Instituto de Previdência dos Servidores do Município de Belém.

"Pessoal, eu vou deixar vocês até o Bosque e dali vou levar as senhoras pro IPAMB, tá? Aí vocês pegam outro ônibus, a gente chama um pra vocês entrarem por trás".

"Claro, Claro".

Todos prontamente concordaram.

Descemos.

Seguimos para nossas vidas, provavelmente comentando em nossas casas sobre o ocorrido.

Dentro do coletivo, somos solidários.

Código de união no busão. De que somos gente.

Em tempos em que a frase "penso logo existo" é corrompida, talvez seja justificável para a luta: 

"Me importo, logo, Existo".






segunda-feira, 29 de julho de 2019

Comunitarista



Baía de Melgaço, 11 de junho de 2019.


Pessoas que se equilibram nesta imensa corda bamba que é o século XXI. Percebam-me na voz que apresento ou nas letras que registro. Urge dar consistência ao movimento do COMUM! De entender a firme sentença da menina de tranças e sardas daquele país frio que eu juraria ser menina dos povos originários desta Terra, um enredo do arco e da flecha!

É tempo de erguer a cabeça e envergonhar-se com altivez (eis o paradoxo) de nossas atitudes sem responsabilidade com as próximas gerações, vergonha esta imperativa de ser reconhecida mas sem subterfúgios, sem arrodeio, diretamente no ponto certeiro que além de não estarmos evoluindo, não estamos permitindo a evolução de outros seres vivos, tão tóxicos que caminhamos! Olhar para o passado refletido no homem que pesca no rio de que nem sempre fomos assim nefastos, enganados fomos por nossa  petulância ao descobrir o átomo, construir o rádio, voar em máquinas, desenhar e até imitar o DNA, escanteado o socrático ditado de que tudo que sei é que nada sei. Nossa vaidade cegou-nos.

No fetiche destas tecnologias e materialismo, fechou-se nossa mente para a repartição e não venha me dizer que é um direito infalível a propriedade privada mal orientada por John Locke (acorda!) pois a água da ribanceira que lá está ou estaria é um bem para matar a sede de muitos, da sua família e da minha, por quê só a sua merece viver? Se pensas neste exagero da Phillia, não és da mesma espécie que sou, qual espécie luta pelo suicídio?

Se ao contrário, se tocam seu coração tais linhas, são pelas centelhas de Empatia que nos une, apesar de todas as teorias que desagregam, fruto de ilustres de ciência destacada (que pensavam) mas sem consciência (que sabiam que pensavam e indagavam por sua origem). Evolução que não passa pela lei do macho Alfa, forte nos chipanzés e seu patriarcalismo, porém pelo feminino dos bonobos onde o compartilhar é verbo quase como respirar. Um rio e uma montanha os separam, exemplo para visualizarmos, aprendermos e exercitarmos o bendito Livre-Arbítrio: qual trilha seguiremos?

Agora vejo uma baía, que junta obviamente cursos d'água por sua definição e que também traz para junto de si o Sol, o Peixe, A Ave, a Canoa, a Rede, a Pessoa e o Amanhã, pois presume-se que haverá outro dia de alimento e disso deveríamos estar certos em nossas projeções. Mas na lógica anti-comunitarista, a própria Esperança se vê ameaçada e deturpada, logo ela que julgávamos indestrutível! Esperança não é se não seguimos, não é se não fazemos. EsperaFaz seria um termo mais incomodante para essa sua preguiça de existir, ó criatura! Para proteger a Esperança, há de ser ESPERAFAZ!

Vivemos em busca de nossa sobrevivência, percebes? Sobrevivência cada vez mais conectada com a obrigação de revolucionar nossas relações interpessoais, filosóficas, sociais, econômicas. Tudo com o esmero e a provocativa de sermos parte da natureza, não como um vírus que desgraçadamente mataria o planeta, mas como algo simbionte que nos alimentou enquanto éramos povos migrantes coletores e caçadores. Que ingratos! Agora que nos estruturamos, assassinamos nossa mãe? Quem nos levou pra este mal? Nós mesmos? Somos de índole autodestrutiva? Entendo que mostramos esse caráter de autodestruição frequentemente, contudo, mais frequente é o ato de amor aqui e ali e acolá, vês nas religiões? Atos de bem-querer que ocorrem mais COMUMENTE do que se imagina.

O sábio da América Latina, aquele que passou 7 anos na prisão, avisa que no fundo somos em um mesmo ser pensante individualistas (a marca do capitalismo enquanto institucionalidade) e empáticos (marca do socialismo enquanto institucionalidade), numa briga feroz tal qual tensiona o Yin e o Yang, na ironia que um não vive sem o outro, na saúde dessas energias quando ocorre o equilíbrio. Mas não, Humanidade! Pendeste a balança para o capitalismo, para deixar a heresia de uma pessoa não ter o direito sagrado de alimentar-se pelo menos 2 vezes ao dia, como já diziam os hebreus há milhares de anos. Caímos no conto do capital, onde seu objetivo tão claro e desnudo e chegar ao cúmulo de si mesmo, não importando a consequência das espécies que mataremos, inclusive a nossa. 

Nesta correlação de forças, há de sermos COMUNITARISTAS! É mais do que mais-valia, é mais do que a luta de classes (porém seu entendimento muito nos ajuda perceber as injustiças). É uma reflexão-ação que deve incluir cada esfera deste planeta, biosfera, ionosfera, estratosfera. 

Por outro lado, a Fera Humana precisa ser subjugada.

Quando do devir dos passos até o final do ciclo de nossa caminhada na Terra, que estejamos de mãos dadas, comuns de coração, felizes, apesar de concluirmos que nada é para sempre, com exceção da energia cósmica do amor.

Que possamos irradiar esse sentimento pelo universo para que os viajantes curiosos digam sobre nós: A HUMANIDADE SE JUSTIFICOU!

COMUNITARISTAS (vem você também, Marx)! Uni-vos!




domingo, 28 de julho de 2019

Crianças Nascidas de Mães Adolescentes no Marajó

Caríssimas e caríssimos,

Compartilho abaixo os dados que este Blog sistematizou da página do DATASUS na internet sobre o percentual de crianças nascidas no Marajó de mães com até 19 anos de idade no período de 2009 a 2017, último ano de levantamento.

Na outra tabela, o número absoluto de crianças nascidas de meninas com até 14 anos de idade.

A seguir, os gráficos que acompanham a média no Marajó e os municípios com maior número de crianças com até 14 anos.














Se é verdade que a sociedade é maior que qualquer governo, temos aí um problema antes de tudo de sociedade para enfrentarmos.

Para vossa reflexão e ação.


quinta-feira, 11 de julho de 2019

Crônicas do Corte: o legítimo ocupante de áreas rurais segundo o Estado do Pará, a balbúrdia que me deixa grilado...




Carlos Augusto Ramos[1]

“Esta terra é desmedida
e devia ser comum,
Devia ser repartida
um toco pra cada um,
mode morar sossegado.
Eu já tenho imaginado
Que a baixa, o sertão e a serra,
Devia sê coisa nossa;
Quem não trabalha na roça,
Que diabo é que quer com a terra?”
A Terra dos Posseiros de Deus – Patativa do Assaré

Hábito que tenho ao ler normas e leis é focar nas regras, nos parágrafos, nos imperativos, proibições, autorizações, deveres e direitos, no limite de minhas capacidades por não ser da área do Direito. Normal, pois é o que interessa na maioria das pessoas, na objetividade de ver quem ganha e quem perde nos marcos legais que se estabelecem. Nesse sentido, entendo que é um marco a nova lei de terras do Estado do Pará, lei n° 8.878, de 8 de julho de 2019, que dispõe sobre a regularização fundiária de ocupações rurais e não rurais em terras públicas do Estado Pará e que revoga a lei n°7.289, de 24 de julho de 2009; e o Decreto-Lei n°57, de 22 de agosto de 1969.

Para fugir do trivial e diante do nosso quadro político desde 2016, passei a prestar mais atenção nos conceitos das leis. Observo que ganham espaço nos últimos anos entrelinhas, tons, subtons e eufemismos que delicadamente entretecem perversidades no Estado de Direito, minando-o e legitimando violações na Constituição, ferindo-a, num passo posterior de violência física, muitas vezes sem o agredido saber de onde veio a justificativa da retirada de seus antes entendidos direitos. Assim é o congelamento dos gastos públicos por 20 anos (agora 19 anos, ufa!) pelo Governo Federal[2]; assim é o subjetivo termo “sob forte emoção” para um policial atirar em alguém, de acordo com a proposta de pacote anti-crime do Ministro da Justiça (?); assim é a prisão de uma pessoa por “atos indeterminados”. A cobra aprendeu a não ser objetiva: subjetivamente ela se arrasta em direção às suas presas.

E seguindo essa reflexão de definições e conceitos, reparei no artigo n° 5, da Lei 8.878, no seu entendimento sobre legítimo ocupante de áreas rurais:

“... pessoa física ou jurídica com ocupação consolidada (em exercício de atividade agrária) ou que pretendam exercer atividade agrária em terras do Estado...”.

Interessante é jogo de significados das palavras legítimo (fundado, amparado na lei, legal; ditado, justificado pelo bom senso, pela razão, justo, razoável), ocupante (que ocupa neste caso a área pública) e pretendam (que não está na área pública, porém intenciona estar ou possuir). Instigador é pensar nisso a partir do monitoramento que as entidades do movimento social do Marajó (principalmente FETAGRI[3] e CPT[4]) fazem do Cadastro Ambiental Rural – CAR, um registro eletrônico ambiental que não dá direito à posse, contudo, tem gerado muita balbúrdia (situação confusa; trapalhada, complicação). Para Moreira (2017), na natureza jurídica do CAR, a lei prevê claramente que “o cadastramento não será considerado título para fins de reconhecimento do direito de propriedade ou posse...”[5]. Porém, denúncias do Grupo Carta de Belém (2018)[6] apontam para o uso do CAR de má fé como um instrumento de grilagem e promoção de conflitos:

“Os erros de inscrição e validação no sistema de cadastramento não foram corrigidos, agravando-se conflitos fundiários devido à confusão realizada pelo CAR entre a análise ambiental e de posse e propriedade de terra... a situação é ainda mais grave para os casos em que os povos e comunidades tradicionais não tem oportunidade de inscrever-se no CAR e de manter a sua inscrição válida no sistema”.

Na própria página da internet, o Serviço Florestal Brasileiro admite que existem na Região Norte do Brasil, 97 milhões de hectares de áreas cadastráveis para o CAR, porém, com 145 milhões de hectares cadastrados[7]. No Marajó, por exemplo, o monitoramento até 2018 apontava para 61,3% da mesorregião marajoara cadastrada no sistema CAR, maior que a área destinada, hoje em 41,9% (Ramos, 2018[8]), com casos conflituosos envolvendo este registro eletrônico. Já estou acostumado com a frase “CAR não legitima posse”, mas na dura realidade da desinformação e truculência nos interiores do Pará, garimpa-se legitimidade não por meio de bom senso ou justiça. É a mentira, “mentirando, mentirando”, como diz um sábio que conheci, numa situação que não é, dizendo-se que não é, mas nos fatos, gente e empresas pretendentes da terra pública cadastrando, cadastrando, expulsando até[9]. Algo que instrumentalmente me recorda a Pós-Verdade[10].
São pontos como os anteriormente referidos que me deixam grilado. Um incômodo... aquela palavrinha, pretendam... No conceito, no entendimento pelo Governo Estadual. A brecha que periga romper a barragem das más intenções de especular sobre a terra (o fundiário), a água (os aquíferos de água doce, maiores do mundo na Amazônia) e o ar (créditos de carbono nas bolsas de valores sem o conhecimento das comunidades). Tudo executado na surdina por aprovar na Assembleia Legislativa Paraense em primeiro e segundo turno de um único dia tal lei, mesmo com todas as ponderações dos perigos de agravar os conflitos no campo e aumentar ainda mais os índices de desmatamento.

Um grilo me sonda a mente.

Um gafanhoto voa para a mata.

Baratas Kafkianas da Pós-Verdade.





[1] Engenheiro Florestal, consultor socioambiental, ganhador da Medalha Qualidade de Vida Ambiental no Pará, outorgado pela Assembleia Legislativa do Estado do Pará em 2017, a mesma ALEPA que aprovou a Lei de Terras do Pará em 2019 sem escutar os clamores da sociedade sobre seus riscos ambientais e de geração de violência. Menciono pela ironia que passou a ser este prêmio para mim.
[2] Ler a Emenda Institucional 95 de 2016.
[3] Federação dos Trabalhadores Agricultores e Agricultoras no Estado do Pará.
[4] Comissão Pastoral da Terra, regional Marajó.
[5] MOREIRA, Eliane. 2016. “Cadastro Ambiental Rural: a nova face da grilagem na Amazônia?” Sítio da Associação Brasileira dos Membros do Ministério Público de Meio Ambiente. Belo Horizonte, 7 jul. Disponível em: http://www.abrampa.org.br/site/?ct=noticia&id=230 . Acesso em: 10 de julho de 2019.
[6] Grupo Carta de Belém. 2018. Denúncia: Invisibilização dos Povos e Comunidades Tradicionais no CAR. Disponível em https://www.cartadebelem.org.br/site/denuncia-invisibilizacao-dos-povos-e-comunidades-tradicionais-no-car/ . Acessado em 10 de julho de 2019.
[10] Pós-verdade é um neologismo que descreve a situação na qual, na hora de criar e modelar a opinião pública, os fatos objetivos têm menos influência que os apelos às emoções e às crenças pessoais.