domingo, 18 de dezembro de 2022

Lição Amazônica

 


Originalmente escrito em Belém, 28 de fevereiro de 2020.



Aula de Geografia lá em SP. Professor indaga:

"Alunos, o que é um estuário?".


A mocinha sentada na primeira fila levanta a mão e responde firme:

"Estuário é a embocadura de um rio, sensível aos efeitos das marés, professor".


"Correto! Alguém cite um exemplo de estuário".



A mesma aluna prontamente complementa:

"O Estuário do Rio Amazonas".


"Correto!! Decoraste bem a lição".


Enquanto isso, uma estudante olha pro céu em busca dos pássaros que sempre pousavam no pátio em busca de migalhas de bolacha. Divagava.


O professor percebendo sua falta de atenção, pergunta para tentar tirar-lhe do suposto limbo:


"Você".


"Eu?".


"Sim. Você. Descreva o Estuário do Rio Amazonas".


A estudante dobrou o olhar para a parte esquerda da cabeça, na procura de palavras até expressar:


"Bom, acho que o Estuário do Rio Amazonas é o abraço do maior rio do Mundo na gente para contar da sua alegria em aventurar-se desde lá dos Andes, se despedindo, para assim correr ao Mar que vem a cada seis horas para dizer que está tudo bem com ele".


"Você está muito equivocada, minha cara. De onde tiraste isso! Rá-Rá! Alguém tem uma pergunta pra essa viajante?".


A aluna da primeira fila, pensativa, levantou a mão:


"Você está dizendo que o Rio Amazonas é um ser vivo??!".


"Que nem a gente".


"Isso não tem lógica! Não tem lógica... Não tem... Não tem... Será?".



Primmm!!


Fim da aula.





Pantoja Ramos.

terça-feira, 8 de novembro de 2022

Crônicas, Passageiro: a Passarela do PAP


Meados dos anos 1990. Eu morava no Conjunto Império Amazônico enquanto fazia a Faculdade de Ciências Agrárias do Pará, hoje Universidade Federal Rural da Amazônia. Estava ali próximo do Colégio Pedro Amazonas Pedroso, uma das melhores escolas públicas à época, o que talvez ainda seja. 

Na parada usual de ônibus do "Império" avistava de longe os estudantes do PAP, na batalha sua em passar no Vestibular, além da dura vida de coletivos e o pior de tudo, atravessar uma avenida Almirante Barroso hostil com seus automóveis Kadets, Unos, Vectras, Monzas, etc. 

E não foi por falta de aviso dos estudantes e outros passantes que uma tragédia ocorreria em uma avenida tão expressa: uma aluna foi atropelada e morta na frente do PAP, gerando forte comoção e revolta dos alunos que fecharam a Alm. Barroso por algumas horas em exigência que fosse construída uma passarela para evitar mais tristes acidentes.

E deste fechamento da principal via de acesso da capital Belém, vieram tropas de choque do governo estadual em resposta aos jovens em protesto, à época sob o mandato "tampão" de Carlos Santos que substituíra seu companheiro de chapa, Jader Barbalho, que renunciou ao cargo de governador para se candidatar a senador. Desproporcionalidade tamanha que media as forças de policiais muito bem armados, com cassetetes e gases de efeito moral e a de alunos secundaristas que no máximo traziam cadernos e cartolinas para bradar que era dever do estado construir uma passarela em segurança para a juventude que só queria estudar.

Porém a segurança e diria mais, a segurança pública agiu a partir de seu esquisito critério de lidar com a população e violentamente foram para cima dos protestos, entrando no PAP com truculência, explosões e muita, muita fumaça. De lá saíram gritos de desespero e medo.

Gritei lá do outro lado da avenida:

- Vocês são loucos??!! São só crianças!!


(respiro).


Sabem. Resolvi escrever essa crônica para lembrar a cada jovem que lutou, protestou e foi atacado pelo Estado naquele dia que sua peleja foi tão memorável em nome da amiga que agora temos sua homenagem construída em forma de passarela e que evita que outros tenham a vida ceifada. Não deixem essa história se apagar.

Quando em novembro de 2022 aqueles alunos do PAP foram intimidados por um beócio bolsonarista (redundância eu sei), eles andavam por cima de uma conquista de direitos, algo que seu intimidador talvez jamais poderia compreender. A luta justa ocorre quando não mais queremos que pessoas morram por descaso ou estupidez.

Aquele caminho erguido em ferro é solo sagrado.







domingo, 30 de outubro de 2022

Não há tempo para a ansiedade, nem para o nervosismo

Eu não posso ter medo. Mas eu não posso ser insensível se alguém sofre qualquer tipo de perseguição. Hoje, essa perseguição foi sistemática. Planejada. Gerou ferimentos. Gerou gritos de socorro. 


Fui formado em engenharia, onde muitas vezes perguntam-me: "tu és engenheiro? Não parece. Discutes coisas do social". Na verdade, eu não sei se cometo justiças, mas vejo há 25 anos as injustiças. E sei quando a perversidade toma conta de autoridades. 


Eu percebo nas entrelinhas e nos subtons (como diria Saramago) quando se defende indiretamente tal método de governo. Quando se atua para tratar toda escrotidão dos últimos 4 anos como se fosse algo relacionado a uma partida de futebol. Não. Não com quase 700 mil mortes de Covid. Não com 33 milhões de pessoas passando fome. Não com os parentes mortos ou ameaçados. Não com o racismo estampado nas manchetes.  Não com a incrível coincidência do Brasil ter 851,6 milhões de hectares e o assassino de Marielle Franco ter morado no mesmo condomínio do clã Bolsodeles. Não com o desmatamento da floresta amazônica, nossa maior empregadora, estar daqui a pouco tempo em situação de inflexão. 


Hoje eu acordei sem ansiedade, nem nervosismo. Mas hoje eu acordei com uma vontade danada de enfrentar o carnaval nazista que é o Bolsonarismo direto e indireto.

domingo, 16 de outubro de 2022

Lamberto, o Traumatizado: o ópio nosso de cada dia

Lamberto, o Traumatizado, hoje almoçou na Avenida Bernardo Saião, no tumulto de carros, ônibus, carretos, bicicletas, motos e gente pra lá e pra cá ganhando a vida nos portos e nos navios.

Bateu a fome. Sentou em um restaurante modesto, mesão de madeira para que todos almoçassem juntos, na mobilização de pratos, farinha, água, pimenta e palitos de dente. O PF era bom, bisteca, arroz, feijão e farinha. Lamberto pediu uma tigela de açaí para arrematar.

Enquanto comia, guardou o celular e antenou os ouvidos para as conversas ao lado, de cabeça baixa para não expressar qualquer tipo de julgamento. Chamou sua atenção a reclamação de uma jovem senhora, por volta dos trinta anos de luta, que alto falava para suas interlocutoras, senhoras a comer e ao mesmo tempo manejar as crianças que por ali estavam. Relatou que mataram um jovem hoje de manhã cedo por lá. Segundo a jovem líder, 2 jovens em bicicletas iriam assaltar uma pessoa num carro estacionado, mas assim que aproximaram, do carro saíram homens armados e atiraram em um dos rapazes, que logo morreu, com o outro conseguindo fugir por dentro do canal.

Ela contou que sua região era muito barra pesada por causa dos traficantes e da própria polícia. Sobre esta, disse que há 10 anos, quando estava grávida de seu primeiro filho, um grupo entrou quebrando a porta de sua casa atrás de suspeitos. Que um dos fardados estapeou forte seu rosto, mesmo ela estando gestante de 6 meses. Apesar de dizer que não tinha nada a ver com aquilo tudo, nem ela, nem sua família, por pouco não recebeu novamente um tapa. Disse que passou muito mal com esta violência, temendo complicações na sua condição de esperar um bebê.

Lamberto ficou escutando essas tragédias.

“Tragédias que vão continuar”, pensou.

Deste assunto, aquela mulher pulou para outro de que abrira mão do "seguro da colônia" para não perder seu "bolsa-família". Que em anos passados, teve seu seguro de pescadora desviado de sua conta. Que chorou na Caixa Econômica para que recuperassem seu dinheiro e assim o fizeram. Em outro tema, confirmou para as demais que tudo estava muito caro. Que só não passa fome porque pinta unha, faz chopp, que não tempo pro que é mundano. Que seu marido é barbeiro, que é carregador do porto se preciso for. Uma luta. Imensa luta.

 

Lamberto levantou-se, pagou a conta e ainda escutou da jovem senhora: “por isso que vou votar no 22, pois Lula em 8 anos nunca fez nada e ainda roubou 3 trilhões de reais... Em nome de Jesus!".

 

 

 

Sem traumas (?).

domingo, 21 de agosto de 2022

"Seu Zweede"


- Rapaz, de onde você é?

- Portel.

- Conheço bem.

- Meu pai trabalhou na Companhia Amazonas. Meu avô também.

- Como era o nome de seu avô? - Olhou desconfiando pra minha cara.

- Raimundo Ramos.

- Você é neto de Raimundo??! Rapaz, trabalhamos juntos em Portel. É... Devo estar ficando velho.


Velho, não, "Seu Zweede". Só estás na História do Manejo Florestal.


Que sigas bem em outro plano, rodeado de sumaumeiras.




Imagem de Johan Zweede: IFT.

quinta-feira, 19 de maio de 2022

Crônicas, Passageiro: uma crônica para servir de flor para Manelzinho

 


Belém, pensando em Portel, 19 de maio de 2022.

 

Esta será uma crônica incompleta, desde já aviso. Sua intenção é apenas ser uma flor. Uma homenagem jogada para sempre em favor de Manelzinho, aquele que não pude conhecer, mas cuja partida me socou por dentro.  Escrevo neste ato concreto de digitar as letras para que ao rodar nos meios virtuais, possa sensibilizar alguém que imprima tal texto e quem sabe, trazer nossa atenção para o mundo real.

Mundo real que viu partir Manelzinho, o eterno garoto que veio a este plano na forma de pessoa com deficiência, com limitações para comunicar à nossa mediana civilizatória seus sonhos e vontades; incômodos e dissabores; vislumbres e reflexões. E pelo que vi de sua foto, sabia comunicar-se ao sorrir com os olhos e como é bonito ver gente assim: que sorri pelos olhos!

Nas almas boas que captei em mensagens de condolências, li a sinceridade do descrever do abandono, discriminação, exclusão e até hostilidade que sofrera Manelzinho, mergulhado no rio etílico ofertado por aqueles não o compreendiam. Em se falando de compreensão, lanço meus sentimentos profundos para a avó de Manelzinho, dona da luta tamanha em cuidá-lo, que não é fácil, aliás, é tarefa duríssima onde só o amor pode contar em segredo de onde surge a força para continuar a caminhada.

E pensando bem, esta crônica precisa ser uma roseira, com espinhos para espetar a sociedade que não se alertou do quanto Manelzinho chamava “papai” em busca talvez de uma orientação, de um guarda, de um guia, sei lá, não é isso que procuramos no firmamento quando nos defrontamos com a insegurança, o medo, a dúvida? “Pai”? Não é o que chamamos? Pois Manelzinho assim procurava e nós ignoramos.

No fim, trágico acima de tudo, implacável em primeiro pensamento, Manelzinho foi atropelado pelo caminhão do lixo da cidade, veículo que não é de correr muito e apesar disso, traz consigo todo o peso da sujeira que produzimos, todo o descarte que consideramos.

E o caminhão do lixo matou Manelzinho, muitas vezes descartado.

Não sendo eu uma pessoa que costuma rogar, pecador que sou, não posso desta vez deixar de implorar pelas pessoas de Portel, do Marajó e da Amazônia, que como Manelzinho, precisam de proteção da família, de cuidados da saúde pública, de educação inclusiva, de acompanhamento profissional para que possam dizer do seu modo o que sentem. Falo de Dignidade.

 

Deposito esta crônica em forma de flor, Manelzinho. Que tu descanses em paz.

E depois que acordares, que possas brincar céus afora com seu Papai.