segunda-feira, 20 de julho de 2020
Nosso Suprimo Vemelho
Hoje Erivelton Miranda partiu na vazante de tudo que é físico.
E eu queria falar um pouco do meu amigo de tantas lutas. Só um pouco de sua grandeza.
Para isso, porém, eu preciso falar de Afuá. Lugar interessante, com um terço de sua área coberto por uma baía, o Canal do Vieira. Com 95% de suas terras habitáveis conquistando Reforma Agrária, resultado da luta dos trabalhadores e trabalhadoras rurais e de seu sindicato. Esta segurança transformou o açaí afuaense em uma potência no Marajó, aliás, potência no Estuário do Maior Rio do Mundo.
Afuá é um mundo.
Um mundo onde mulheres e homens de boa vontade se vestiram de vermelho. E Erivelton foi um dos Grandes de sua geração.
Pouco se exaltava. Nem me lembro se isso aconteceu pois tinha que cuidar do coração. Um coração flamenguista que me fazia sempre pedir na encarnação nossa pra ele trocar o toque do telefone do Hino do Flamengo para Hino do Vasco.
"Não, suprimo, deixa como tá". E ria.
Um batalhador de fala calma.
Que passava o recado bem dado.
Tentou ser prefeito. Não conseguiu.
Como assim não conseguiu??!
E as Ilhas à Esquerda do Canal do Vieira?
Para mim, havia uma outra prefeitura: o sindicato. E durante anos, Eri foi o líder dessa outra gestão, de cuidados com as pessoas dos rios, dos igarapés e das florestas.
E quando as dores finais vieram implacáveis, é na História que devemos pensar como o bálsamo para nosso suprimo de camisa vermelha.
E assim quando os anjos fizerem aquela pergunta decisiva:
- Serviste mais aos pobres explorados ou aos ricos exploradores?
Jesus e Maria sorrirão contentes por sua chegada.
Enquanto isso aqui na terra, pode ter certeza mano, a gente falará às novas gerações por ti.
Esteja em Paz.
domingo, 19 de julho de 2020
Iwasa’i
Iwasa’i[1]
“Nós não somos guardiãs da natureza, somos a natureza”.
Sonia Guajajara.
Certo dia li a lenda de Iaçá e do Açaí,
muito conhecida entre os marajoaras como eu. Mas sei lá, um inconformismo bateu
forte. Senti a necessidade de pensar num outro lado para esta história. Sei que
irei muitas vezes errar, mas é preciso que eu tente.
Então começo com uma primeira frase que
aponte o caminho de mudança na minha mente: e assim Iasawi
deixou-se morrer para renascer mais forte.
Não tenho o lugar de fala de Iasawi nem
de todas as mulheres e mães aqui envolvidas. Nunca saberia expor, nem tenho a
legitimidade de seus clamores. Por isso, só posso escrever a partir do meu
lugar de fala[2] de filho, daquele que se nutriu de
sua luta, de sua força, coragem e entendimento sobre o valor da vida. Neste
conflito que passo, acabo por intercalar parágrafos para demonstrar que algo está
se novamente se transformando dentro mim, eu, criado nos anos 1970 e 1980 para
continuar o machismo.
Nesta versão da lenda de Iaçá, inicio na
imaginação com nossa protagonista posicionada como na parábola platônica da
caverna. Estava Iasawi na frente de sua comunidade a defender algo
incompreensível para os demais: sim, era possível sair da situação difícil de
carestia em que se encontravam. Iasawi dera as opções, argumentara, fizera as
contas. Era necessário um outro estilo de vida da qual tinham se habituado há
muitas gerações. Os homens da aldeia, que até então decidiam as questões
torciam os narizes, alguns até cuspiam de lado pelo fato de Iasawi, uma mulher,
lhes dirigir uma proposta. Tinham aprendido com a igreja que esta deveria ser a
relação entre mulheres e homens.
Eu, criança, não entendia sobre aqueles
atos. Eu adulto, com a vontade de aprender, fico atento ao que diz Vandana
Shiva: “... a convergência do que eu chamo capitalismo e patriarcado está
destruindo o planeta. Unindo a enorme violência contra as mulheres, inclusive
feminicídios, e a violência contra todos os seres, crianças, idosos, que estão
morrendo... Cientistas produzem constantemente estudos que falam da extinção
das espécies, das mudanças climáticas, da desertificação e falta de água. O que
temos neste século, em que os agrotóxicos estão presentes, é ecocídio e
genocídio... Eles têm essa ideia de que matando todos vão ser vencedores,
enquanto todos os demais serão perdedores. Assim, vamos estar extintos como
espécie humana no próximo século. Por isso, é melhor terminar com o patriarcado
antes que ele termine com a vida...[3]”.
Ao ler o relato de Wilma Yãnami
Karapotó Plaki-ô, ouvi sua voz dizer que "... a igreja quebrou a
parceria índia – índio. A dependência da mulher do marido foi
uma ruptura trazida pela igreja. Na sociedade colonial e na
capitalista, a figura masculina é o centro do mundo: o homem dominador de
tudo na natureza. Após muitos séculos de dominação, a mulher ficou
dependente do homem. A mulher indígena, hoje, está reconquistando seu
espaço. Estamos acompanhando as mudanças do mundo. Nós, mulheres,
estamos estudando nas universidades e exercendo as mesmas profissões
que os homens. Perante a lei, todos são iguais tanto homem como mulher; tanto
indígena como não indígena..." [4].
Eram tempos difíceis para conseguir
comida na tribo de Iasawi, os animais tinham desaparecido, a paca, a cutia, o
matrinchã, o aracu, o pirarucu, a onça, o inambu, a harpia. A ação de caçar era
forte hábito, base da alimentação de comunidade. Os homens saiam todos os dias
pra caçar. Quanto mais caça, mais fama e subida na hierarquia local. Mesmo que
não precisassem, matavam para salgar e dependurar nas enviras e cipós para
ostentar os animais abatidos.
Algumas mulheres da tribo não concordavam
com tais costumes de caça desenfreada, mas não expressavam opinião para
confrontar a situação. Iasawi, filha do cacique, por outro lado, questionava
tais práticas abertamente. Não por ser filha de quem era, mas porque percebia
que o jeito como se tratava a natureza ainda iria lhes trazer um grande
infortúnio. O que aconteceu tempo depois, como previra.
Daí verifiquei, por meio dos estudos de
Ana Euler, Ana Faulhaber e Camila Moreira, o quanto tem sido centenária a
dificuldade das vozes políticas da mulher indígena serem escutadas no
país. Segundo as referidas autoras, “o movimento indígena teve uma
conquista histórica com a posse, em 2019, da primeira mulher indígena eleita
Deputada Federal no Brasil, a advogada Joênia Wapichana, pelo estado de
Roraima. Ainda no processo eleitoral de 2018, tivemos a primeira indígena
candidata a vice-presidência da república, Sra. Sônia Guajajara...”[5].
Quando a fome chegou aos parentes de
Iasawi e fez as primeiras vítimas, esta tentou convidar a todos para uma
assembleia e explicar que haveria uma planta que poderia mitigar os famélicos
efeitos da carestia pela carne de animais agora praticamente extintos na região
por causa do excesso de caçadas. Uma grande seca, talvez a mais grave daquela
geração também assolara aquelas plagas, maltratando de vez os poucos animais
que circulavam. Ela apontava para uma palmeira magra de frutinhos de
cores mistas do roxo ao preto, irmanadas de vários estipes a pousar vários
pássaros, principalmente periquitos.
“É venenoso!”, disse o velho cacique.
“Como o senhor meu pai sabe?”, indagava
a filha.
“Meu pai me disse que ouvira de seu pai,
que por sua vez ouviu de seu pai”.
“Se é venenoso, porque os periquitos não
morrem?”.
“Periquitos não são como nós”.
“Nunca ninguém tentou comer os
frutinhos?”.
“Algumas mulheres tentaram e passaram
mal”.
“O que elas sentiram?”, insistiu a
curiosa Iasawi.
“Coisas de mulher”.
“Que coisas?”.
“Não sei”.
“Não sabes?”.
O pai já impaciente olhou com severidade
e por um milésimo de segundo seu olhar chegou até à varinha de cuieira metros
adiante. Iasawi, entendendo o gesto, achou melhor recuar, mas não sem resistir:
“É, o senhor não sabe”.
Fiquei a pensar na situação. Qual o
valor daquela palmeira para enfrentar a fome? O que a tribo de Iasawi estava
perdendo? Fui pesquisar. Achei a explicação da nutricionista Raisa Lima em
entrevista ao sítio de notícias Em Tempo: “... O Açaí roxo é rico
em vitaminas C, E e as do complexo B, fortalecendo o nosso sistema imunológico
e prevenindo o envelhecimento precoce. Além disso, é fonte de fibras, ajudando
a regular o intestino e a combater a prisão de ventre... o açaí possui também
grande quantidade de cálcio, o que facilita o ciclo menstrual das mulheres,
além de fazer bem para o coração...[6]”. Aprendi quando
infanto-adolescente que algo que faz bem para o coração se usa o termo cordial.
O açaí é cordial. Junta gente. Alimenta
as pessoas.
O brasileiro, senhor Sérgio Buarque de
Holanda, o brasileiro não é.
Na tribo de Iasawi, sempre que
o período da extrema carestia se instalava, se aplicava uma terrível lei
entre os parentes: o abandono dos mais fracos. Uma lei criada há muito tempo,
decidida pelos homens, sempre alvo dos protestos das mulheres, sempre
subjugadas e não raras vezes abandonadas junto com seus entes. Uma dura lei,
não consensual, porém executada pelos masculinos. E naquele ano, os machos mais
velhos exigiram a lei do abandono quando a escassez chegou. Houveram gritos de
desespero e dor. Iasawi protestava, brigava com os homens, batia neles, mas
sozinha e sem a ajuda das outras mulheres, sempre sucumbia quase desmaiada de
indignação. O velho cacique, impávido, apontava para o caminhar para o novo
local, quem sabe um outro igarapé. O igarapé deixado para trás ficava cheio das
lágrimas das mães sofridas por filhos e outros entes largados à própria sorte.
O abandono. Quando uma sociedade
abandona suas crianças, estamos na mais baixa capacidade de manter a própria
espécie humana. Henrietta Fore, diretora executiva do UNICEF, em 2020 alerta
que “... Antes da crise de Covid-19, 32% das crianças em todo o mundo com
sintomas de pneumonia não eram levadas a um profissional de saúde. O que
acontecerá quando a Covid-19 atingir sua força total? Já estamos vendo
interrupções nos serviços de imunização, ameaçando surtos de doenças para as
quais já existe uma vacina, como poliomielite, sarampo e cólera. Muitos
recém-nascidos, crianças, adolescentes, jovens e gestantes podem morrer por
causas não relacionadas ao coronavírus se os sistemas nacionais de saúde, já
sob grande tensão, ficarem completamente sobrecarregados. Da mesma forma,
muitos programas de nutrição foram interrompidos ou estão suspensos, assim como
os programas comunitários de detecção e tratamento precoces de crianças
desnutridas. Precisamos agir agora para preservar e fortalecer os sistemas de
saúde e alimentação em todos os países[7]...”.
Quando Iasawi engravidou, tentou o
máximo esconder sua barriga despontando. Contudo, uma mulher - que nunca gostara da filha do cacique e de sua criticidade - desconfiou da situação
da jovem e a denunciou para os homens da tribo. O cacique incrédulo a
princípio, em alguns meses se convenceu que Iasawi estava grávida e manteve
sempre alguns rapazes a vigiá-la. Um deles era o pai do bebê no ventre da moça.
Graças a esta condição de vigilância, Iasawi pode escolher onde passear e
sempre frequentava as proximidades das palmeiras que davam aquele fruto preto-arroxeado.
Observou atentamente os pássaros, os periquitos, os papagaios, os tucanos.
Reparou nas abelhas pretinhas de manhã cedo, no sol, na chuva. Enquanto os dias
passavam, tecia peças de tururi, lindas peças que embelezavam a grande oca.
Ficava horas junto às palmeiras, observando, matutando, estudando. Nove fases
de luas cheias se seguiram.
Nestes tempos, conversou muito com a
maioria das mulheres de maneira reunida. Explicou suas teses em relação ao
fruto. O quanto poderiam alimentar-se daqueles estipes.
“Mas como vamos pegá-los? Não temos os
instrumentos dos homens para derrubar essas palmeiras?”, perguntou a mais velha
do grupo.
“Não precisa”.
“Não??”.
Iasawi apresentou tururis tecidos uns
sobre os outros a formar um círculo.
“Eu não posso subir porque estou
esperando criança, mas você aí pode!”. Apontou o tururi trançado para a melhor
amiga. A melhor amiga, ágil, também rápida de pensamento, encaixou a... a...
“Como é o nome disso, Iasawi?”, coçou a
cabeça a amiga.
“Peko’in”.
“Peconha?”.
“Isso”.
A melhor amiga de Iasawi trançou a
peconha nos pés, tentou a primeira, a segunda e na terceira vez escalou para o
alto das estipes. Pegou um grande cacho, cujos frutos caiam nas cabeças das
demais lá embaixo, arrancando risadas.
“E agora?”.
Olharam umas para as outras.
“Não sei. Bora roer”.
“Caramba, difícil de mastigar”.
“E se a gente colocar na água? Será que
amolece??”.
Os homens chegaram.
“Rápido, esconde, esconde”.
Disfarçar suas habilidades conquistadas
era para as mulheres locais algo corriqueiro. Elas não podiam mostrar sua
capacidade de transformação. Aliás, sabendo um pouco da vida de Elionai Pataxó,
melhor compreendo que nossa civilização é injusta e que uma mudança de Era é
inevitável. Segundo Elionai, “Nós éramos oprimidas pelos homens. Nos
sentíamos presas, obrigadas a cuidar da roça, da alimentação, dos filhos.
Hoje nós, mulheres, conseguimos abranger outras áreas. Eu tenho como
um grande exemplo a minha cacique Arian Pataxó, que fundou a Aldeia
Dois Irmãos e luta por melhorias para nossa Aldeia. Eu acho que tudo
isso é um grande avanço, pois antigamente não tínhamos este
olhar. Hoje somos mais valorizadas, pois sabemos nossos direitos...[4]”. Decisivamente isso trinca o vidro do patriarcado.
As mulheres companheiras combinaram
para voltarem antes do nascimento da criança de Iasawi. Só que após mais uma
desavença entre pai e filha que não suportara ver outra criança abandonada pela
sua comunidade, Iasawi passou mal e recebeu as fortes dores do parto antes do
previsto pelas parteiras.
E naquela noite, nasceu sua menina,
linda menina de seus olhos, num choro que rebentou a noite enluarada. No
carinho em sua cabecinha, a mãe pensava ainda em que nome dar para a pequena
quando os homens, incluindo seu pai, se aproximaram dela para levar a criança e
aplicar a lei do abandono.
“NÃOOOO! NÃOOOOO”.
Iasawi lutou bravamente com aqueles
homens, mesmo quase desfalecida do parto. Protegeu a criancinha. Segurou-a
forte, tão forte, tão forte para proteger sua menina que não viu que a tinha
sufocado.
O velho pajé desta vez não estava
impassível. Corriam-lhe os prantos. Porém, nada fez.
Todas as mulheres da aldeia cercaram os
homens. Pela primeira vez perceberam que elas eram maioria e sentiram a pressão
de um medo a lhes subir nas espinhas.
Iasawi num dos choros mais tristes que a
espécie humana já viu, caminhou tendo nos braços o pequenino corpo até as
palmeiras. Levantou o pequeno ser em direção aos ramos iluminados da lua cheia
e dançantes ao vento e gritou:
“Reviva ela! Reviva! REVIVAAAA!!!”.
Nenhum sinal. Só balançavam as
palmeiras.
Os homens se aproximaram para trazê-la
de volta. O velho cacique ordenou:
“Deixem. Deixem ela aí quieta. Para os
demais, voltemos!”.
As mulheres não puderam ficar. Foram
forçadas a sair. Ninguém dormiu. Nem as mulheres. Nem os jovens. Nem as
crianças crescidas. Nem o velho pai, soluçante em sua rede de um arrependimento
com gosto de fel na boca.
Todos olhavam em direção às palmeiras
onde no chão daquelas touceiras se abraçava Iasawi.
Quando amanheceu, a jovem mãe estava
morta. Todos da comunidade sentiram que o céu pesou em cores sepulcrais. Ao
verificarem a mão de Iasawi, foram encontrados frutos daquela palmeira que defendia.
Feitas as cerimônias fúnebres, a aldeia
caminhou.
As mulheres cabisbaixas por tristeza,
mas sobretudo por estratégia, traziam em seus diversos sacos de tururis feitas
pela grande Iasawi muitos daqueles frutos preto-arroxeados. Iam jogando pelo
percurso, pois certamente, no círculo de moradas que faziam, quando voltassem,
talvez as palmeiras estivessem crescidas.
Quando o velho cacique morreu, um novo
líder foi escolhido, o jovem irmão da melhor amiga de Iasawi que sempre a
admirara. Na dor que presenciou e na saudade da amiga, aprendera a escutar com
bastante atenção e respeito as mulheres da sua comunidade. Certo dia, sua irmã
ofereceu-lhe uma surpresa numa cumbuca.
“Prova”.
“O que é isso??”.
“Prova, confia”.
O jovem cacique provou.
“Hummm, é bom. Foi tu que fizeste?”.
“Nós, mulheres. Nós amassamos na mão”.
“Como é o nome disso?”.
Não tinha pensado num nome. Um raio de
lembrança trouxe Iasawi. Pensou ao contrário.
“É... É... Iwasa’i”.
“Açaí???”.
“Isso. Açaí. Você pode comer com peixe e
farinha se tu quiseres”.
Desde então, Açaí tem alimentado e
nutrido gerações e gerações na Amazônia. O açaí oferece até hoje condições de
dignidade em algumas localidades do estuário amazônico[8].
A partir de agora, fico a sonhar com a
origem desde santo vinho, imaginar a luta e a clarividência de Iasawi (Iaçá).
Constato que, mais do que dinheiro, açaí
é cuidado.
Concluo que, mais do que negócios
comerciais, açaí é uma relação.
E filho destas paragens, deste carinho
todo que me nutriu, e de uma mulher cuja imagem bem poderia ser a de Iasawi, eu testemunho:
Açaí é uma mãe-planta que
lidera.
Belém, dias de luta e de aprendizado, 13
de junho de 2020.
Pantoja Ramos.
[1] Ensaio
elaborado para descrever a importância do açaí para enfrentar a fome no
estuário do rio Amazonas e confrontar o processo de invisibilização social que
muitas mulheres sofrem.
[2] Lugar
de Fala é o conceito construído por Djamila Ribeiro onde temas que envolvem
crimes humanitários como racismo e misoginia, por exemplo, devem ser amplamente
debatidos pela sociedade, entendendo-se os grupos diretamente afetados,
indiretamente afetados ou mesmo não afetados falarão de lugares distintos.
Ribeiro, D. O que é Lugar de Fala? (Ribeiro, 2017). Por isso,
o que escrevo desde então é limitado por ser indiretamente ou muitas vezes não
afetado. Minha intenção é iniciar a discussão, sobretudo para os homens que
queiram juntamente comigo aprender com as mulheres e ajudar a melhorar o mundo
em que vivemos.
[3] Shiva,
V. Vandana Shiva aposta no Ecofeminismo. 2018. Outras
Palavras. https://outraspalavras.net/sem-categoria/vandana-shiva-aposta-no-ecofeminismo/. Acessado em 7 de junho de 2020.
[4]
THIDÉWÁ. Pelas Mulheres Indígenas. 2015. Coleção Índios na Visão de Índios.
Disponível em http://www.thydewa.org/wp-content/uploads/2015/03/pelas-mulheres-indigenas-web.pdf. Acessado em 13 de junho de 2020.
[5] Euler,
A.; Faulhaber, A.; Moreira, C. Mulheres À Frente: Caminhos para a
Visibilidade da Agenda Indígena no Brasil. 2020. Columbia Women’s
Leadership Network In Brazil. https://globalcenters.columbia.edu/sites/default/files/content/CWLN-2019.pdf. Acessado em 7 de junho de 2020.
[6] Em
Tempo. Saiba Mais Sobre o Açaí, o Superalimento da Amazônia. 2018.
Disponível em https://d.emtempo.com.br/saude/103832/saiba-mais-sobre-o-acai-o-superalimento-da-amazonia. Acessado em 7 de junho de 2020.
[7] UNICEF. Não
permitam que crianças sejam as vítimas ocultas da pandemia de Covid-19.
Declaração de Henrietta Fore, diretora executiva da UNICEF. 2020. https://www.unicef.org/brazil/comunicados-de-imprensa/nao-permitam-que-criancas-sejam-vitimas-ocultas-da-pandemia-de-covid-19. Acessado em 7 de junho de 2020.
[8] Ver o artigo de Ramos,
C.A.P e Euler. A.M.C. Quarta baliza do agroextrativismo no estuário do
rio Amazonas: da luta pela terra à consolidação da economia do açaí. 2019.
Revista de Agricultura Familiar - RAF. v.13 , nº 2 / jul-dez 2019, ISSN
1414-0810. Disponível em https://periodicos.ufpa.br/index.php/agriculturafamiliar/article/view/8718. Acessado em 7 de junho de
2020.
domingo, 21 de junho de 2020
domingo, 14 de junho de 2020
Crônicas, Passageiro: O Botão
Belém, pensando sobre
o passeio das pessoas na Batista Campos,
em plena pandemia, 14
de junho de 2020.
As
notícias vieram-me como bananas mofadas.
Tanta
gente passeando na capital paraense neste domingo, assim, assim, a dar de
ombros para a situação que estamos. E implacável veio-me a memória, ahh, essa
memória tão boa de longa data, mas sempre falha para as coisas corriqueiras do
dia a dia. E hoje, o dia a dia caminha de morte em morte. Contudo, nisso não
falharei. A causticidade é necessária. Que tempos!
Aí olhei pro nada. Na minha cabeça viajante para os anos 1980 anunciaram a programação:
“ALÉM DA IMAGINAÇÃO... Episódio de Hoje: O BOTÃO. Versão Brasileira: Herbert Richert...”.
Recordo deste pequeno filme. Uma mulher de cabelos ruivos estava na sua casa. Morava com seu marido e filhos e viviam com dificuldades financeiras. Seu marido frequentemente tinha problemas no emprego. A mulher de cabelos ruivos sempre estava a reclamar da vida e num dia de fúria diante de tantas dívidas, desejou ter muito dinheiro e bradou tal desejo para todo o bairro saber.
Toco-Toc-Toc.
Bateram à sua porta.
Ela atendeu.
Um homem de paletó, sério, magro, alto e misterioso que carregava 2 maletas diz seco e sem qualquer cerimônia:
“Eu vim fazer uma proposta para você”.
“Você vai me vender o quê? Vieste em péssimo momento”.
“Não vim lhe vender nada. Simplesmente vim fazer uma proposta”.
Já impaciente, a mulher de cabelos ruivos aceita ouvir a tal proposta mais para se livrar daquela visita na sua porta e continuar sua lida.
“Minha proposta envolve 1 milhão de dólares para que vocês superem suas dificuldades financeiras”.
“Como sabes?”.
Ele continuou geladamente.
“Ofereço a você 1 milhão em troca de uma simples ação. Posso entrar para lhe mostrar?”.
A mulher surpresa e já vencida pela curiosidade, deixa o estranho homem entrar no seu lar. Depositou a primeira maleta na mesa da sala de jantar. Pediu para que ela abrisse. A mulher de cabelos ruivos abriu. Que surpreendente! Notas a perder de vista estavam ali, certamente 1 milhão de dólares. Ele fechou a maleta e disse:
“A maleta com 1 milhão de reais pode ser sua. Só tem uma condição...”.
“Roubar?? Traficar?? Sei não...”.
O homem misterioso abriu a segunda maleta. Tinha simplesmente uma pequena plataforma, com uma elevação que claramente mostrava ser um botão de cor vermelha e um dizer “Aperte aqui”. Apenas isso.
“Mas é um botão!”.
“Sim... é um botão... e basta você apertar para ganhar 1 milhão de dólares, porém...”.
“Porém??”.
“Se apertares o botão, uma pessoa no mundo que você não conhece morrerá no mesmo instante”.
A mulher ficou boquiaberta.
O enigmático ser pegou a maleta com dinheiro e partiu, não sem antes avisar: “daqui a 3 dias eu voltarei para pegar a maleta com o botão vermelho. Decida”.
Foram dias de profunda agonia para aquela mulher. De princípio não levara a sério. Contou ao marido que sem pestanejar opinou:
“Pessoas morrem todos os dias. Aperta ué?”.
“Não, não. Não farei isso. Nem por todo o dinheiro do mundo”.
As horas se passaram e o marido que antes falava de maneira galhofada, começou a pressionar a esposa, tentá-la mesmo, esgueirando argumentos que iriam das contas da casa, da hipoteca, da faculdade dos filhos. Cenas que me pareciam uma nova versão da entrega da maçã, não por Eva, porém por Adão, pois ali a disputa era pela árvore do conhecimento sobre a vida das pessoas.
Pressão dele.
Pressão dela mesma.
A frase que martelava, sibilava: “todos os dias morrem pessoas mesmo...”.
A mulher de cabelos ruivos abriu a maleta. Suava. Tremia. “Mas o dinheiro... O dinheiro iria resolver tudo... As contas... Roupas... Uma casa nova... Um carro... não! Dois carros!”.
Apertou o botão.
Segundos depois, ouviu-se um barulho à porta.
Toc-toc-toc.
Era o sombrio homem alto, magro, de paletó.
“Olá, senhora. Vim trazer seu dinheiro”.
Entrou pela casa, foi à sala de jantar, trocou a maleta do botão vermelho por aquela milionária.
A mulher ficou eufórica, o marido ficou eufórico e quando o estranho já seguia seu caminho, a mulher de cabelos ruivos perguntou:
“E agora? Para onde vais?”.
“Sigo para mais uma casa, para mais uma proposta”.
“É na casa de algum vizinho aqui?”.
“Não. É UMA PESSOA QUE VOCÊ NÃO CONHECE...”.
O episódio de ALÉM DA IMAGINAÇÃO termina com o olhar espantado da mulher de cabelos ruivos.
E sobre a quarentena que vivemos?
“A pandemia democratizou poder de matar” - Achille Mbembe/ Filósofo camaronês.
Pessoas que conhecemos e pessoas que não conhecemos...
É um tipo de Botão Vermelho...
Aí olhei pro nada. Na minha cabeça viajante para os anos 1980 anunciaram a programação:
“ALÉM DA IMAGINAÇÃO... Episódio de Hoje: O BOTÃO. Versão Brasileira: Herbert Richert...”.
Recordo deste pequeno filme. Uma mulher de cabelos ruivos estava na sua casa. Morava com seu marido e filhos e viviam com dificuldades financeiras. Seu marido frequentemente tinha problemas no emprego. A mulher de cabelos ruivos sempre estava a reclamar da vida e num dia de fúria diante de tantas dívidas, desejou ter muito dinheiro e bradou tal desejo para todo o bairro saber.
Toco-Toc-Toc.
Bateram à sua porta.
Ela atendeu.
Um homem de paletó, sério, magro, alto e misterioso que carregava 2 maletas diz seco e sem qualquer cerimônia:
“Eu vim fazer uma proposta para você”.
“Você vai me vender o quê? Vieste em péssimo momento”.
“Não vim lhe vender nada. Simplesmente vim fazer uma proposta”.
Já impaciente, a mulher de cabelos ruivos aceita ouvir a tal proposta mais para se livrar daquela visita na sua porta e continuar sua lida.
“Minha proposta envolve 1 milhão de dólares para que vocês superem suas dificuldades financeiras”.
“Como sabes?”.
Ele continuou geladamente.
“Ofereço a você 1 milhão em troca de uma simples ação. Posso entrar para lhe mostrar?”.
A mulher surpresa e já vencida pela curiosidade, deixa o estranho homem entrar no seu lar. Depositou a primeira maleta na mesa da sala de jantar. Pediu para que ela abrisse. A mulher de cabelos ruivos abriu. Que surpreendente! Notas a perder de vista estavam ali, certamente 1 milhão de dólares. Ele fechou a maleta e disse:
“A maleta com 1 milhão de reais pode ser sua. Só tem uma condição...”.
“Roubar?? Traficar?? Sei não...”.
O homem misterioso abriu a segunda maleta. Tinha simplesmente uma pequena plataforma, com uma elevação que claramente mostrava ser um botão de cor vermelha e um dizer “Aperte aqui”. Apenas isso.
“Mas é um botão!”.
“Sim... é um botão... e basta você apertar para ganhar 1 milhão de dólares, porém...”.
“Porém??”.
“Se apertares o botão, uma pessoa no mundo que você não conhece morrerá no mesmo instante”.
A mulher ficou boquiaberta.
O enigmático ser pegou a maleta com dinheiro e partiu, não sem antes avisar: “daqui a 3 dias eu voltarei para pegar a maleta com o botão vermelho. Decida”.
Foram dias de profunda agonia para aquela mulher. De princípio não levara a sério. Contou ao marido que sem pestanejar opinou:
“Pessoas morrem todos os dias. Aperta ué?”.
“Não, não. Não farei isso. Nem por todo o dinheiro do mundo”.
As horas se passaram e o marido que antes falava de maneira galhofada, começou a pressionar a esposa, tentá-la mesmo, esgueirando argumentos que iriam das contas da casa, da hipoteca, da faculdade dos filhos. Cenas que me pareciam uma nova versão da entrega da maçã, não por Eva, porém por Adão, pois ali a disputa era pela árvore do conhecimento sobre a vida das pessoas.
Pressão dele.
Pressão dela mesma.
A frase que martelava, sibilava: “todos os dias morrem pessoas mesmo...”.
A mulher de cabelos ruivos abriu a maleta. Suava. Tremia. “Mas o dinheiro... O dinheiro iria resolver tudo... As contas... Roupas... Uma casa nova... Um carro... não! Dois carros!”.
Apertou o botão.
Segundos depois, ouviu-se um barulho à porta.
Toc-toc-toc.
Era o sombrio homem alto, magro, de paletó.
“Olá, senhora. Vim trazer seu dinheiro”.
Entrou pela casa, foi à sala de jantar, trocou a maleta do botão vermelho por aquela milionária.
A mulher ficou eufórica, o marido ficou eufórico e quando o estranho já seguia seu caminho, a mulher de cabelos ruivos perguntou:
“E agora? Para onde vais?”.
“Sigo para mais uma casa, para mais uma proposta”.
“É na casa de algum vizinho aqui?”.
“Não. É UMA PESSOA QUE VOCÊ NÃO CONHECE...”.
O episódio de ALÉM DA IMAGINAÇÃO termina com o olhar espantado da mulher de cabelos ruivos.
E sobre a quarentena que vivemos?
“A pandemia democratizou poder de matar” - Achille Mbembe/ Filósofo camaronês.
Pessoas que conhecemos e pessoas que não conhecemos...
É um tipo de Botão Vermelho...
Pantoja Ramos.
sexta-feira, 29 de maio de 2020
Um Trovador da Floresta
"O que o mestre Rubão fazia? Tenho a impressão que já o
vi". Disse uma amiga.
Direi algo me vem à mente, de primeira, um pedacinho só,
pois sua biografia será longa. É histórica.
Rubens Gomes ou Rubão foi um músico que se encantou com o
canto da floresta e disso fez uma das suas bandeiras que era promover o manejo
florestal mais legítimo que existe: o das comunidades tradicionais.
Rubão foi um músico que viu que a arte de produzir melodias
começa ali no violão, no cavaquinho de madeira e deste baile convidou a
juventude para produzir com as próprias mãos de Luthier os sons da cidadania,
cujos acordes seguiram para marchetaria, para a informática, para a educação,
para noções de inclusão das pessoas. Que virou orquestra no pobre bairro do
Zumbi, em Manaus, que abraçou a todos nesta sinfonia que só os atentos ao tempo
percebem.
Rubão foi um mestre incansável para que a floresta se
mantivesse em pé, usando fala mansa e segura como método. Que a muitos encantou
com sua trova.
Um trovador da natureza. É isso amiga, Rubão foi um trovador
da natureza. Que fixou em mim a lembrança da confraternização de um encontro em
Gurupá com toda sua leveza e talento. Nunca vi alguém bailar no meio da
multidão e cantar ao mesmo tempo. Certa hora eu nem já o via tão misturado que
ficou com o povo dançante de sua seresta.
Agora, amorosamente, está misturado em nós.
Como uma canção.
domingo, 24 de maio de 2020
Crônicas do Corte: Tatu Vasco de Caminha
Belém, 24 de maio de 2020.
Nessa quarentena já muito me brigaram para arrumar algo pra fazer e não ficar tão ligado nas redes sociais.
Então deixa ver...
Lavei o banheiro. Podei o pezinho de maracujá. Ajeitei a telha. Colhi as duas batatinhas, as últimas do pequeno pé de ariá do quintal.
Sentei na cadeira. Passei a vista na tela do computador.
Entristeci. Como não ficar nestes tempos? Pela janela percebi: lá vem a chuva! Está na hora certa dela. Algo me observava. Virei a vista para a estante, vi o tatu de madeira.
O tatu de madeira. Produzido na Oficinas Caboclas de Gurupá, uma versão mais simples das famosas Oficinas Caboclas de Santarém, da Flona Tapajós, do mestre Antônio José.
Procurei a foto desse encontro no meu banco de dados. Imagens da ONG FASE. Dezembro de 2004. Comunidade do Carrazedo, comunidades quilombolas gurupaenses. Olha lá o Seu Mocinho! Olha só a galera! Pedaços de madeira caída na roça que apodreceriam na certa, mas que viraram arte. Uma mesa. Um remo. Um banco. Um tatu.
Um tatu?
"Eu achei melhor fazer um tatu, seu moço".
Achei graça. Todos acharam graça. Cabeça, pés e rabo de macacaúba. Pés de maçaranduba. De tanto rir do bicho misturado na terra e na grama, resolvi comprar do menino criador (tomara que ele leia este texto).
Nunca concordei quando engenheiros florestais falavam em Manejo de Madeira Morta. Soava estranho. Já Manejo de Pau Caído ninguém levava a sério. Manejo de Madeira Caída? Não tenho certeza. Só sei que o Reaproveitamento de Madeira de Áreas de Roçado me presenteou com um ser inanimado que me faz recordar da vida estampada no rosto de cada dos participantes daquela oficina a despontar arte das mãos marceneiras, sem eletricidade, no calo obtido do esforço. Do ensinar que deveríamos aproveitar o máximo que nos chega da natureza, sem desperdício, pois tudo é vivo quando se vê com atenção.
Agora está a cá comigo, enquanto digito, o dito tatu olhando pelo meu ombro esta crônica. Dei-lhe o nome de Tatu Vasco de Caminha, o literário cintado das terras segredadas aos homens não sapiens.
"Agora que já me apresentaste, Pantoja, levanta da cadeira e vai fazer exercícios! Escuta seu daimon!".
"Tá bom, tá bom, eu vou".
Ele sabe quando estou enrolando.
Pantoja Ramos.
sábado, 16 de maio de 2020
Assim Falou Zarazilda para Hannah: A Banalidade do Mal Paraense
Cara Dona Hannah (é assim que se escreve?),
Hoje li em uma dessas revistas na
internet que um dominador de tudo, um ditador, é mais cruel que um dono de escravo ou um
tirano e que tal dominador destrói mais que a miséria ou um grileiro desmatador[1].
Que um controle total das pessoas coloca no matapi os homens. Diminui eles a
tal ponto que nem parecem mais pensar ou querer pensar.
Lendo isso, percebi que era um
pensamento seu e resolvi escrever. Isso, sobre a Banalidade do Mal. Quando o
Mal fica assim, assim, espalhado. Quando o sentimento sobre o Mal é tipo nem-fede-nem-cheira. Que quando
isso se prega nas pessoas, elas nem ligam mais se alguém está morrendo, se está sofrendo e até
participam desta matança, sem mais matutar sobre essas coisas que fazem.
Umas visagens vivas, ruins, ruins,
da maldade.
Aí eu pensei no Seu Marciano.
Pobre Marciano.
Marciano era um faz-tudo. Era bom
na carpintaria, bom como pedreiro, bom como encanador. E mais do que isso, Dona
Hannah, Marciano, que era um vizinho meu, era um bom sujeito. Uma pessoa de
coração grande, calmo, calmo. Não mexia com ninguém. Sempre
falava como que estivesse cantando um trecho de Martinho da Vila. É devagar, é
devagar, é devagar, devagarinho...
Voltando ao que li da senhora, Dona Hannah, percebi
que as pessoas podem se tornar maléficas por um conjunto de situações que as
fazem parecer que anestesias foram aplicadas nelas, na principal artéria da alma. É esquisito, pois
ao mesmo tempo elas mesmas a modo que se negam a ser boas, até de certa forma sabendo o que está sucedendo. Fico confusa.
Por que uns meninos e umas
meninas que são informados às vezes agem com maldade? Olha que chegam neles as
notícias, vá la, mesmo que não como deveria ser, pois zap-zap não é escola e
sim uma ferramenta que nasceu pra gente fofocar. Mas é tempo em que quase ninguém
pode dizer que é desinformado e ainda assim, brincam com a doença que tá por aí
a tirar o ar das pessoas até matar num repente.
Aí que penso que o Marciano
poderia estar vivo. Ele tomava todos os cuidados. Era álcool-gel em tudo, na porta, nos móveis, andava de máscara dentro de casa até, sabia? Ficava no quarto dele se resguardando. Mas os netos,
ahh, os netos passavam com aquele amontoado de meninos e meninas pro quintal pra fazer farra. Isso mesmo, farra! A casa era um entra e sai danado e o coitado do
Marciano a reclamar, mas não tinha força pra enxotar toda aquela algazarra a beber e babar pela casa toda.
Mas esses meninos e essas meninas
sabiam... Tamanho mais de 20 anos e por cima faziam era xingar o velho que reclamava do
barulho e do furdunço. Não era desinformação. Não. Não era. Tá tudo aí nos
celulares falando. Gritando até.
Não. Era... como dizem... um
posicionamento! Sim, cadê a solidariedade? Saber que o Marciano era um idoso?
Cadê? Será que tanta violência passada na televisão, será que tanta opressão das
autoridades, será que tanta falta de pensar ou ter escolha de um futuro fez
destes netos anestesiados a tal ponto que nem se importavam que seu avô poderia
morrer?
Olha Hannah, eu vejo aqueles
malucos lá em São Paulo fazendo carreata em favor da morte e do doido maior. Ali
não tem espaço pra Jesus no coração, não. É maldade. Só que eu também tô falando
que esse sentimento do Mal Banal pode ter pego entre o pessoal mais pobre, por
que não? É mau pastor falando todo dia de um jeito de querer que o outro se
lasque. É gente pobre mas metida a rica que se pudesse pisava na cabeça do
irmão ferrado que nem ele. É feirante dando cotoco pra jornalista como se dissesse
“vou furar a quarentena, sim e daí??”.
“E Daí?”, disse também o doido maior.
É mostra que a maldade se
espalhou, Dona Hannah.
Agora é hora dos indecisos se
juntarem aos bons pra lutar, não é sempre desse jeito que tudo acaba? Porque de
outra forma, vai ser um massacre.
O mal banalizado em nós que o
Corona só arredou a cortina.
Agora os netos estão lá chorando
a morte do Marciano, sem velório, tudo rápido, tudo acabado... Que o Universo receba
este compadre. Que sua energia, agora estelar, se alimente do Amor e da Memória
daqueles que lhe tinham um bem querer.
É, Dona Hannah, a briga no final é
esta. Valeu a pena a nossa vida? A de Marciano valeu. Os netos? Ihh, vão correr
a vida toda atrás do prejuízo por esse remorso.
Pode até ser que algum deles nem tenha.
Quando dele se apoderou o Mal Banalizado e
não enfrentado.
O Cão existe, mas o Amor é maior.
Agradecida pela atenção,
Zarazilda, Bombozeira do
Paar-Ver-O-Peso.
Estudante de geografia.
[1] Ler
a matéria de Odílio Aguiar, Violência e Banalidade do Mal - https://revistacult.uol.com.br/home/violencia-e-banalidade-do-mal/
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