segunda-feira, 29 de agosto de 2011


Abelhas na caixa. Crédito: Instituto Peabiru
Continuando nossa saga pela culinária Amazônia, encontramos a pílula da felicidade: a castanha-da-Amazônia (do Pará). Isto mesmo, pílula da felicidade, do bom humor, da inteligência, combate o estresse, a depressão e o envelhecimento porque a quantidade de selênio na castanha (2.500 vezes qualquer outra noz) é tão grande que bastam duas unidades para suprir, de forma natural, as necessidades diárias deste micro-elemento. Infelizmente, os grandes castanhais de Marabá e municípios do Sul do Pará foram substituídos por pastos pra boi e no Acre e Mato Grosso os castanhais estão no mesmo caminho. A castanheira é a Estátua da Liberdade da Amazônia, a rainha da floresta, cada árvore é um monumento, um templo sagrado, uma explosão de vida. Domina o dossel da mata, chegando à surpreendente altura de 55 m. Ainda que existam plantios, 99% da produção provém da coleta nas matas. Seu principal consumo é da amêndoa in natura. E tem mais, ajuda a manter mais de trinta mil castanheiros e seringueiros em suas reservas extrativistas!

Os chocolatáveis 

Estes dois primos, cacau (Theobroma cacao) e cupuaçu (Theobroma grandiflora) têm história curiosa. Do cacau aproveitamos a amêndoa para fazer o chocolate, e em boa parte das áreas de produção se desperdiça a polpa que, a meu ver, é a melhor polpa pra sucos que existe. No mundo são milhões de pessoas que vivem do cultivo do cacau. O Brasil, como sempre, ficou pra trás, especialmente na Amazônia. Pouca gente sabe que sua origem está na Amazônia, onde o cacau-de-várzea apresenta sabor inigualável. O cupuaçu, ou cupu para os íntimos, tem um cheiro que rescende longe (experimente levá-lo em sua mala!). Sua polpa, altamente valorizada, tem produção insuficiente para tantos doces, bombons, sucos e sorvetes. De sua semente (amêndoa) faz-se o cupulate, com sabor bastante semelhante ao chocolate, mas ninguém explora. É um pouco ridículo, jogamos fora a amêndoa do cupu. Ah, tem também outras espécies de cacau, como o cupuí, uma com belíssimo buquê de flores, e um formato pequeno.

Frutas regionais

O pesquisador do Museu Goeldi, Paulo Cavalcanti, recentemente falecido, classificou mais de trezentas frutas da região. Recentemente, o fotógrafo Silvestre Silva publicou pela Metalivros o belíssimo Frutas da Amazônia, que apresenta uma centena de frutas da região. O que quero chamar a atenção é pras frutas suqueiras, aquelas boas de suco, e boas de vitamina, como o camu-camu (36 vezes mais vitamina C que a laranja), o taperebá (cajá para o Nordeste ou no Acre) e o Bacuri, esta maravilha perfumosa. São frutas presentes nas polpas para sorvetes e sucos, na doçaria, nas geleias, que pouco venceram as barreiras regionais pelo desconhecimento do consumidor fora da região e falta de estimulo para suas diversas cadeias de valor. Estas frutas tem tudo pra conquistar o mundo como foi com o açaí, basta incentivar o consumidor a conhecê-las.

Temperos loucos

Loucos, porque reverte-se seu uso conhecido, como cosmético, como banho-de-cheiro, pra uso alimentar. É como fez Fábio Sicilia, um dos grandes chefs de Belém, da Famiglia Cecília, que inventou um prato, um pesto (originalmente mangericão, pinhão (europeu), azeite e sal), à base de mulata, diga-se, da erva bem conhecida no banho-de-cheiro, catinga-de-mulata (Tanacetum vulgare). E tem gente transformando priprioca, uma raizinha danada de cheirosa que a Natura emprega em perfumaria, em tempero. E esta lista vai longe, com a vinagreira, muito usada no Maranhão.

Há casos inversos, como o do jambu, em que o alimento virou cosmético bom pra combater o envelhecimento. Apesar de ser do caribe, o jambu mergulhou no carimbó. Do encontro com o tucupi fez-se o tacacá, que causa uma pororoca de sabores e deixaria Proust inebriado, ou melhor, adormecido, isto porque a folhinha, crua ou levemente aferventada se presta a adormecer umas glândulas salivares. Há ainda as pimentas; a pimenta-de-cheiro, aquela amarelinha, que deixa gosto bom e sem arder tanto. A novidade é o trabalho com as pimentas secas que os índios do Alto Rio Negro lançarão no mercado...

Adoçante Premium, mel de abelhas nativas

As abelhas sem ferrão, as melíponas, estão por aí, no Brasil todo, nas zonas tropicais do planeta, desvalorizadas, acuadas pelo fogo, modificações nas paisagens e nossa ignorância. Mas são elas, lembram-nos os mestres da ciência, como Warwick Kerr, que garantem a polinização das plantas, de nossos alimentos. Einsten dizia que desaparecidas as abelhas, a Humanidade não duraria cinco anos. Na Amazônia são duzentas espécies, pra algumas delas Fernando Oliveira, do Iraquara, inventou uma caixinha pra que possam se reproduzir e produzir mel. O Instituto Peabiru trabalha com pelo menos quatro espécies apoiando os quilombolas e índios no Amapá e pequenos agricultores no Pará para lançar o produto no mercado.

As abelhinhas não picam, o que permite instalar as colméias ao lado das casas, e elas agradecem, polinizando o pomar, que fica forrado de frutas. É uma ótima oportunidade para gerar renda e apoiar a organização de grupos de mulheres que passam a administrar seu negócio. Além disto, lembram-nos a todo momento que não é bom queimar, desmatar, jogar lixo, deixar o esgoto a céu aberto etc, o que pode ser transformado em dinheiro pelo mecanismo de fixação de carbono (REDD). Alguém aí quer financiar um estudo sobre o tema? E principalmente: trata-se de um mel delicioso que nos protege contra muitas doenças, com propriedades organolépticas atraentes - cheiro, coloração, beleza da história, porque não existe nada com propriedades tão anti-sépticas como o mel das melíponas, o néctar da Amazônia.

A conversa está boa, mas eu vou comer a minha porção de Amazônia de hoje. De café da manhã duas castanhas, suco batido com farinha-de-mesocarpo-de-babaçú e adoçado com néctar (mel de abelhas nativas). Nas refeições o arroz com jambu e castanha, a farinha de mandioca acompanhada de suco de apricot (da Amazônia) e, como sobremesa (pode ser prato principal), açaí com farinha de tapioca (ou farinha d’água mesmo). E você, vai comer a Amazônia hoje?




João Meirelles Filho, mora em Belém, Pará, dirige o Instituto Peabiru e é autor de livros sobre a região - Livro de Ouro da Amazônia (Ediouro, 2003) e Grandes Expedições à Amazônia Brasileira (Metalivros, 2009), e está aprendendo a devorar a Amazônia.


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