terça-feira, 19 de abril de 2016

Crônicas do Corte: Sobre os 10 anos da Lei de Gestão das Florestas Públicas


      






  Belém, 19 de abril de 2016.



Uma coincidência só existe se houver dois fenômenos relevantes para ironizarem-se entre si. Hoje é dia do Índio, dia dos maiores mantenedores da Floresta Amazônica e que muito nos ensinam sobre a arte de conviver com a natureza. Também hoje participei do seminário sobre os 10 anos da Lei de Gestão de Florestas Públicas, segundo a Lei Nº 11.284, de 2 de março de 2006. Como o formato do evento em que participei não tinha o tempo em suficiência para aprofundar a troca de ideias entre os participantes (o que eu particularmente não aprecio), decidi fazer um texto para colocar um pouco do que penso. Então, genuinamente de bate-pronto, peço desde já desculpas pelos equívocos, porém, a data é importante demais para não fazer uma reflexão. Fui testemunha do debate sobre as primeiras concessões florestais no Estado do Pará, quando atuei na diretoria de Gestão de Florestas Públicas do então recente IDEFLOR (em 2009-2010).

Interessante lembrar do intenso debate que tive sobre a verdadeira gestão florestal em áreas públicas, do navio de exportação à canoa (ou rabeta, sendo mais moderno) do ribeiro. Remete-se sempre ou reduz-se comumente a Lei 11.284 como a de Concessões Florestais para a Exploração Florestal Madeireira Empresarial. Nunca entendi isso. Talvez tenha sido o principal motivo de algumas reclamações mais ríspidas da AIMEX sobre minha breve passagem do IDEFLOR, sim, porque me orgulho e coloco no currículo o fato de ter sido pauta de uma de suas reuniões. Reconhecia e reconheço o título deste seminário como a da construção do igual, a colocação de um mesmo peso da Concessão Florestal para Fins Madeireiros e da Concessão de Direito Real de Uso das Comunidades locais. E como sou um péssimo técnico especificamente operacional da extração da madeira (um dos piores que conheço), quando trabalhei no IDEFLOR lancei o olhar para o artigo 6° da referida lei, de ordenamento territorial*, de outorga florestal na sua concepção. A equipe daquela diretoria muito se esforçou para a segurança de todos, para a paz, para que todos de maneira justa pudessem ter acesso aos bens e serviços da floresta. 

A extração irregular de madeira, a falta de regularização fundiária e os conflitos agrários decorrentes a estes dois primeiros fatores davam ar de pensamento que ali sim ocorria privatização da floresta: o grileiro/ madeireiro chegava, dizia que a terra era dele, expulsava a família, empobrecia o local, sem o Estado e Município nada arrecadar. Sei disso, pois sou de Portel, testemunha ocular e matemática do quanto gerações podem ser roubadas quando não há controle florestal. A presença do Governo resumida em Plano Anual de Outorga** Florestal (PAOF) daria pela primeira vez a possibilidade da Estatização e observância enquanto sociedade deste importante patrimônio brasileiro que é a floresta, agora consagrado também no Código Florestal de 2012. Queria, contudo, concentrar-me no artigo sexto da lei, mas é quase impossível diante de tanto assunto e raciocínios.

Lembrança tenho das discussões sobre o PAOF em áreas públicas não arrecadadas. Recordo das críticas que recebemos de profissionais da área federal. “Fazer em Glebas?”. Insistência. Fazer em Glebas sim. Ordenar territórios até então esquecidos nos seus conflitos e ameaças. Criar decretos de reserva, como resposta à insegurança no Mamuru-Arapiuns, no Oeste Paraense, onde criou-se mais tarde assentamentos agroextrativistas. Ir para o debate na Gleba Bacajaí, onde boa parte hoje é Terra Indígena. Discutir a Gleba Joana Peres 2, em Portel, onde hoje prevalece a destinação prévia, o que já dá segurança às cercas de 1.500 famílias locais graças ao Decreto 579 do Governo do Estado do Pará, de 30 de outubro de 2012***, articulado a nível governamental sobretudo pelo IDEFLOR, que deu origem à criação de mais 4 Glebas****. Vitórias neste bom combate que é garantir o uso tradicional dos moradores locais. Não houve Concessão Florestal Madeireira, mas houve Outorga Florestal para as famílias. O enfrentamento agora é diminuir a extração ilegal na região, e neste momento, a gestão do patrimônio público precisa ser mais efetivo para coibir tais crimes. Se monitorar via satélite o corte seletivo de árvores na mata já é tecnologicamente possível, é hora dos governos agirem.

Uma pena que a destinação prevista nestes 10 anos em seu todo não é uma realidade como deveria ser. Tenho acompanhado o processo de Concessão Florestal Madeireira na Floresta Nacional (Flona) de Caxiuanã. Ali vivem pessoas que moram a mais de 50 anos, misturadas a outras centenárias, interligadas certamente (sem eu não saber o quanto) à povos indígenas marajoaras, ali vai um novelo a perder no tempo. Quando as lideranças das comunidades de Caxiuanã perguntaram oficialmente ao SFB o que era a Concessão Florestal, uma pronta resposta foi dada de Brasília, não de explicação, mas sim que não viriam. Fiquei encucado com este posicionamento, o que me levou a outro questionamento: como os ribeiros locais não possuíam até hoje um documento que reconheça sua regularização fundiária (apesar dos anos vividos na Flona), isto é, uma concessão de direito real de uso, como imediatamente contratos empresariais seriam assinados para a extração de madeira? É justo? E se for uma lacuna recorrente nas outorgas de outras Florestas Nacionais e Estaduais? E se outras localidades não receberam palestras direcionadas a elas sobre a Lei de Gestão de Florestas Públicas, o que esclareceriam seus direitos e ganhos socioeconômicos? Espero que seja apenas um longo lapso e uma longa falha de comunicação que coincidentemente bateu no pior IDH do Brasil, o município de Melgaço.

Planos Anuais de Outorga Florestal não deveriam terminar com a destinação e início da operação madeireira. A gestão compartilhada é necessária na área licitada e nas áreas comunitárias destinadas de maneira contínua. Prefeituras, comunidades, empresas, Estado, União precisam proteger a forma correta de se fazer manejo florestal, pois cada desvio de conduta significa a evasão de milhões de reais de arrecadação. E entendo ser ainda tal comunicação e interação o desafio dos próximos anos na execução da Lei 11.284. Inclusive agir harmonicamente com o Código Florestal, que estabelece o Cadastro Ambiental Rural (CAR) Declaratório em área públicas, dispositivo que sem o devido cuidado, como no caso paraense, abre a porta perigosa da grilagem institucionalizada. Para o uso florestal de posses mansas e pacíficas, o CAR precisa acompanhar este sentimento, manso e pacífico. Se existe um Cadastro Nacional de Florestas Públicas, um Cadastro Estadual de Florestas Públicas, a ferramenta CAR precisa dialogar mais. 

Desejaria registrar uma quantidade muito maior de provocações de reflexões sobre a utilização dos recursos florestais em áreas públicas, porém, é assunto de verdadeira tese. Assim, simplesmente, adiciono a aqui a intenção em contribuir com o tema sempre, juntamente com outros colegas, que miram a terminologia de bens e serviços da floresta em substituição aos conceitos de “madeireiros” e “não madeireiros”, que reduzem à floresta ao estado de queda. Um dia penso que não existirão mais editais licitatórios de concessão florestal empresarial madeireira que pouco discutem a situação socioeconômica dos municípios amazônicos.  Sou otimista na criação dos Conselhos Municipais de Floresta, auxiliando no monitorando da mesma, na arrecadação alcançada, nas políticas públicas consequentes.


Neste Dia do Índio, precisamos aprender cada vez mais a sermos mantenedores da floresta enquanto patrimônio, enquanto dádiva. Para os parentes, ela é um bem de todos, onde todos são parte dela também. Igual. Justo. Pacífico. Para nós técnicos cartesianos, devemos imaginar um Descartes um pouco mais sensível.




(*) Art. 6o Antes da realização das concessões florestais, as florestas públicas ocupadas ou utilizadas por comunidades locais serão identificadas para a destinação, pelos órgãos competentes, por meio de: I - criação de reservas extrativistas e reservas de desenvolvimento sustentável, observados os requisitos previstos da Lei no 9.985, de 18 de julho de 2000; II - concessão de uso, por meio de projetos de assentamento florestal, de desenvolvimento sustentável, agroextrativistas ou outros similares, nos termos do art. 189 da Constituição Federal e das diretrizes do Programa Nacional de Reforma Agrária;    III - outras formas previstas em lei.

(**) Outorga significa consentir, dar, atribuir, transmitir, conceder, autorizar.

(***) Art. 2º As florestas existentes no território nacional e as demais formas de vegetação nativa, reconhecidas de utilidade às terras que revestem, são bens de interesse comum a todos os habitantes do País, exercendo-se os direitos de propriedade com as limitações que a legislação em geral e especialmente esta Lei estabelecem.

(****)Alto Camarapi, Acuti-pereira, Acangatá e Jacaré-puru.

Lamberto, o Traumatizado: No dia do Índio, Apologia à Abel

Quando Lamberto, o Traumatizado, passeava com sua netinha Maria Aneci na pracinha naquele 19 de abril, aproveitou e resolveu cantar uma musiquinha indígena que um velho amigo seu, Justo Colares, lhe havia ensinado:

Umuarama, umuarama, umuarama,
aruê, aruá, chunguê, chungá...

Umuarama, umuarama, umuarama,
aruê, aruá, chunguê, chungá...


Um policial chegou próximo a ele, e coercitivamente, exigiu que o acompanhasse até a delegacia. "Mas o que fiz??", reclamou Lamberto.

"Apologia à Abel"*.

"Apologia a quem???".

Foram os três caminhando, quando pessoas  se aproximaram e lhe dirigiram posturas de ódio, pareciam que o xingavam, mas as palavras em seu conteúdo não tinham cunho de tanto.

"FORA PATAXÓ!!". "PATAXÓ". "FORA XAVANTE!!". "TUPI!!". "YANOMAMI!!". "BUUUU!!". "BUUUU MAPUÁ". "SAI FORA PARACANÃ!!".

Estavam enfurecidas. Um homem lhe jogou um ovo no rosto, que espirrou gosmento também no rosto de Maria Aneci, que gritava desesperadamente em sua inocência e susto. 

Na delegacia, o policial contou ao delegado a situação. 

"Por sua criança, e por não conheceres a nova lei, te libero desta vez, mas não faças mais isto!". Disse a autoridade ali sem mais detalhes. 

Lamberto saiu do local sem ainda nada entender.

Já na proteção do lar, seu filho Simone e sua filha Shana perguntam o que houve, com a mãe instantaneamente tentando acalmar a pequena que ainda soluçava. 

Lamberto observa a televisão ligada no Vale a Pena Ver de Novo, no qual reprisava pela sétima vez O Rei do Gado.

Desligou a televisão. Pensou.

De frente à netinha já menos chorosa, porém, com lágrimas marcadas na face rosada, Lamberto começou a pisar firme, sorridente, cantando e dançando para alegrar a menina: 

Umuarama, umuarama, umuarama,
aruê, aruá, chunguê, chungá...

Umuarama, umuarama, umuarama,
aruê, aruá, chunguê, chungá...

Pisa Ligeiro, Pisa Ligeiro...


Maria Aneci sorriu e até bateu palminha.








Sem Traumas.



(*) para entender, ler http://www.recantodasletras.com.br/cronicas/5225528 


sexta-feira, 8 de abril de 2016

Lamberto, o Traumatizado: Lei de Moro

Lamberto, o Traumatizado, passeava pela praça quando um pombo lhe pairou pela cabeça. Botou o boné para evitar uma cagada na moleira. De tanto olhar pra cima, pisou na caca do cachorro. "Peste!". Pensou na Lei de Murphy, "quando é pra dar errado, vai dar errado...".

Pediu pra um senhor de uma mercearia um pouco de água para lavar a sola do sapato fedorento. O homem deu uma garrafinha de água, "R$2,00 tá?". "Cara, você vai me cobrar?". Saiu mais puto ainda, pensando que muita gente quer levar vantagem na desgraça alheia, "Lei de Gerson", protestou calado.

Passou na frente de uma padaria, onde as pessoas comiam pão e tomavam café sem tirar o olho das notícias sobre a investigação da Lava-Jato. Depois de ver a reportagem chapa-branca da Globo sobre as conduções coercitivas sem mandato prévio, em subtons e imagens que transformavam o juiz responsável (??) em herói, matutou: "Hum, tira as coisas da própria cabeça, parece que quer uma Constituição só pra ele...".

"Lei de Moro".

Lamberto pisou novamente onde não devia.

Deu cocô.
 







Sem Traumas. 



terça-feira, 29 de março de 2016

UM PSEUDO-JOGRAL, MAS UMA SINCERA REFLEXÃO: POR UMA EDUCAÇÃO CONTEXTUALIZADA, SUSTENTÁVEL, PÚBLICA, GRATUITA E DE QUALIDADE





João Paulo Carvalho
(Mestre em Agricultura Familiar e Desenvolvimento Sustentável)


Carlos Augusto Ramos
(Engenheiro Florestal, consultor socioambiental) 




João Paulo Carvalho provoca:
“Em toda a América Latina, os Movimentos Sociais refletem em suas práticas ações de caráter educativo que tem servido de exemplo para a sociedade em geral, assim como formas de gerenciamento nas instituições públicas, em especial no Brasil, onde as políticas públicas voltadas ao âmbito rural estão sendo promovidas através de espaços decisórios que envolvem a sociedade civil organizada, destacando-as como protagonistas nestes processos, seja através de Conselhos ou Colegiados, e demais formas de decisão.”.


Carlos Augusto Ramos comenta:
“A democracia brasileira avançou muito ao convidar a população para fazer parte dos Conselhos. Assim, educação, saúde, segurança pública, ordenamento territorial não são mais objetos de poucas cabeças pensantes e executoras, mas são olhares de diversas maneiras, multidisciplinares e populares para avaliar e indicar a forma mais benéfica para o alcance dos resultados de uma política pública para o meio rural”. 


João Paulo Carvalho:
“Os Movimentos Sociais são fontes de inovação e matriz geradora de saberes que se revelam através do que se conhece como educação não-formal, pois não estão centralmente alicerçadas em critérios científicos. Na verdade, produzem seus conhecimentos com base em suas experiências cotidianas de luta, seja pela manutenção alimentar, como na luta política por conquistas de direitos civis (por exemplo, o direito a uma escola pública, gratuita e de qualidade), que há muito tem sido negada pelo próprio Estado, como também – e não dissociável desse - por forças políticas que são historicamente contrárias a tais conquistas”.


Carlos Augusto comenta:
“O questionamento, o posicionamento e a mobilização passaram a ser ferramentas científicas do movimento social, talvez um contraponto sistemático de boa parte do que é ofertado pelo Estado. Interessante notar o esforço para estreitar de ideias e entendimento comum entre o movimento social e as políticas federais de educação nos últimos 5 anos. Por outro lado, muito aumentou a distância sobre o que é educação inclusiva e transformadora quando o diálogo é feito com a esfera governamental estadual, que boa parte das vezes interfere no método municipal de ensino”.

J.P.C:
“Na atualidade do Território do Marajó se presencia o fortalecimento de um articulado movimento social que se constitui pela prática social de luta por direitos civis e políticas públicas. Desde o processo histórico de luta por ruptura com as históricas oligarquias do Marajó - por meio da criação de sindicatos rurais, na década de 1970 - passando pela luta por ordenamento territorial, na década de 2000, o Colegiado de Desenvolvimento Territorial do Marajó, o CODETEM, é um grande espaço de decisão e intervenção política no Marajó. Por meio de sua prática política tem formado homens e mulheres que intervém diretamente em seus municípios de origem, e isto tem sido um exemplar processo de educação não-formal”.

Escola Manoel da Veracruz, Curralinho (Foto). C.R


C.A.R:
“De fato, quanto mais organizado o território, mais condições têm de propor e interferir positivamente no alcance de benefícios à população. Vejamos o caso do Marajó, internamente: a parte ocidental da mesorregião, mais organizada e combativa obteve melhores resultados em regularização fundiária quando comparado com a outra porção do território, cuja insegurança da terra é ainda muito presente no cotidiano dos trabalhadores e trabalhadoras rurais. O mapeamento participativo para o ordenamento territorial incentivado por diversas instituições não governamentais como associações, institutos e STTRs foi decisivo como instrumento de educação não formal para o aprendizado sobre a problemática fundiária e que resultou na clareza das propostas dos processos coletivos de ordenamento fundiário, hoje representadas pelas reservas extrativistas, projetos de assentamentos agroextrativistas e territórios quilombolas. Não se trabalha isso na educação formal universitária de engenheiros agrônomos e engenheiros florestais, porém, quando aplicado de forma sensata, os resultados aparecem”. 


J.P.C:
“Forjado também na luta por educação, o CODETEM tem reivindicado diante dos governos e demais instituições de ensino a contextualização de ações públicas. Em 2012, na cidade de Portel, se organizou um amplo debate sobre educação no Marajó, momento no qual novamente se caracterizou a difícil situação desse espaço amazônico. Neste contexto, foram elaboradas várias pautas reivindicativas junto aos órgãos competentes, na tentativa de dialogar com os mesmos e, assim, apresentar o anseio desse Movimento à sociedade em geral. Um olhar marajoara sobre a educação conduziu os debates nesse encontro”.


C.A.R:
“O Encontro do Olhar Marajoara sobre a Educação foi importante para discutir as estruturas educacionais atuais em que vive o marajoara. Na liderança do Colegiado de Desenvolvimento Territorial do Marajó, várias lideranças expuseram suas opiniões a respeito, num clamor de reconhecimento da cultura regional como base para a educação dos estudantes”.



J.P.C:
Além da contextualização do processo educacional - a qual entendemos que se dá através de uma pedagogia que considere a nossa realidade social, econômica e ambiental, e que pode acontecer também por meio da Pedagogia da Alternância, por se tratar de um projeto que objetiva aproximar os jovens do seu convívio familiar e diversidade cultural local - consideramos imprescindível uma abordagem sustentável neste formato de educação que defendemos. Os malefícios do modelo de desenvolvimento simplista e meramente econômico adotado em nossa sociedade tem sido prejudicial ao ambiente e à humanidade. Esse crescimento econômico não é compatível com o bem viver e com o ritmo natural do meio ambiente. Este estilo de desenvolvimento é desastroso, pois assassina, corrompe, aniquila tudo o que o homem e o ambiente construíram ao longo de processos históricos”.


C.A.R:
“Palavras certas de João Paulo ao referir-se ao aniquilamento. Aniquilamento de toda uma cultura milenar em nome da condução mercantil, estranha e excludente por sua natureza especulativa. A partir do Olhar Marajoara sobre a Educação de 2012, tornou-se necessário para os marajoaras organizar ainda mais os debates sobre o método de ensino-aprendizagem, agora com perfil mais construtivista, mais participativo.  Lutar para que as únicas experiências de Casas Familiar Rural (Gurupá e Breves) se mantivessem, ao mesmo tempo que se valorizasse e aprimorasse o programa Saberes da Terra (Portel e São Sebastião da Boa Vista) como uma resistência, um propagador de alternativas de pensamento a formar cidadãos críticos, senhores e senhoras de sua realidade”.

Casa Familiar Rural de Gurupá. Foto: Carlos Ramos



J.P.C:
“Este modelo devastador tem sido caro ao Marajó. O negativo impacto que as empresas madeireiras e palmiteiras ocasionaram – e ainda persistem – é latente nos índices de desenvolvimento social do Marajó. Vasta riqueza social, ambiental, cultural, política e econômica está sendo tragada, deixando o rastro de pobreza para as famílias locais que labutam nessas atividades, enquanto que o empresariado comemora os altos faturamentos. E o que mais nos entristece é que a Ciência e a Tecnologia estão a serviço desse dito desenvolvimento”.


C.A.R:
“Modelo que deu caução à Era da Indústria Predatória no Marajó (1950-2006), tentativa pretensiosa minha de explicar o período entre o fim da Era da Borracha e o Sistema Contemporâneo, que inicia com a publicação em massa das reservas extrativistas e assentamento agroextrativistas na região em 2006. Tal período talvez seja a de maior empobrecimento das comunidades e municípios marajoaras em nome de poucas pessoas, empresariado do setor madeireiro e de palmito que transferiram o capital acumulado vindos dos estoques naturais para as capitais como Belém e Macapá, deixando para o Marajó enormes dificuldades de recuperação e uma dependência econômica dos empregos vinculados às prefeituras. Para Portel e Melgaço, a Era da Indústria Predatória se esticou até 2013, quando da investida maior do IBAMA nestes municípios”.


J.P.C:
Por isso, reivindicamos que a produção de conhecimento esteja a serviço de um real desenvolvimento sustentável das famílias marajoaras. Reivindicamos também uma pedagogia educacional que esteja pautada na sustentabilidade dessas famílias, realçando a cultura e o conhecimento gerados localmente, e que se preocupe com o futuro dessa sociedade e cuide da saúde do planeta. Para nós, isso é uma educação sustentável”.


C.A.R:
“Uma ciência à serviço da sociedade marajoara. Uma educação não mercantil e pautada no desenvolvimento local”.

J.P.C:
“Em nosso entendimento, uma educação sustentável pode acontecer por meio de uma instituição pública, gratuita e de qualidade. Pública, porque acreditamos que todos os jovens marajoaras devem ter acesso à educação, e isso é possível através do financiamento do Estado brasileiro. Gratuita, pois através do financiamento do Estado, nossos jovens não precisarão pagar altas mensalidades em instituições privadas de ensino para obter um certificado de ensino superior – a privatização do ensino está cada vez mais forte no Brasil. De qualidade, porque o Marajó precisa de excelentes profissionais em diversas áreas para podermos dar um salto na qualidade de vida local. Compreendemos que jovens marajoaras bem qualificados profissionalmente são excelentes promotores de desenvolvimento.      
        
C.A.R:
“É dever do Estado Brasileiro dar celeridade ao processo de transformação educacional que seja orientado no modo de vida regional, previsto na Constituição Brasileira. Bem verdade que existem diretrizes na política federal neste sentido, entretanto, é sofrível a presença do Governo do Estado do Pará nesta estratégia. Ao contrário, o enfraquecimento do ensino médio no Marajó em conteúdos, desvalorização dos professores e professoras e abandono físico das escolas são bastante visíveis atualmente, o que reforça a sensação de que os ideólogos que ocupam o mandato executivo estadual estão alinhados em privatizar a educação e aumentar propositalmente as desigualdades regionais. Paradoxalmente do ponto de vista humano, aumentam o aparelhamento das polícias e instrumentos repressores, além de emparceiram-se com uma mídia alienante, excludente e incentivadora da hostilidade gratuita ao jovem infrator, sem debater as origens de sua condição de vida”.


J.P.C:
“Não apenas sonhamos. Mas temos como possível que uma instituição federal de ensino no Marajó pode favorecer a concretização das pautas que estamos demandando. A criação de cursos que dialoguem com nossa realidade – e mais ainda, que formem os filhos de famílias rurais marajoaras, contempla boa parte de nossos anseios. Dessa forma, defendemos uma instituição de ensino para o Marajó que esteja comprometida com a realidade social que enfrentamos, comprometida com os movimentos sociais locais e com a sustentabilidade que o Marajó precisa. Por isso, entendemos que nos últimos anos, o IFPA, em seu campus de Castanhal e recentemente de Breves, tem dado respostas substanciais para a formação de profissionais com perfis agroecológicos coerentes com a sustentabilidade marajoara”.

Colação de grau dos concluintes do curso de Licenciatura em Pedagogia 2010 e 2011 no IFPA de Breves.  Fonte: http://breves.ifpa.edu.br/component/content/article?id=121 



C.A.R:
“Se não é o IFPA em seus campi de Castanhal (programa Proeja onde vários estudantes do Marajó fazem o curso de técnico em agropecuária) e Breves, o ensino ofertado para a juventude no Marajó fecharia a segunda década do século XXI com saldo bastante negativo. Por isso é preciso enfrentar o modelo estadual de sucateamento do ensino médio. Por isso é preciso sensibilizar as prefeituras em manter os bons índices quando constatados e aperfeiçoar o que precisa melhor, tudo para gerar boas notas de IDEB. Mais do que isso, dar condições ao ser humano que estudou possa interpretar o mundo em que vive, suas contradições e belezas”.

Oficina de plano de uso dos recursos naturais em Portel. Foto: STTR de Portel.




J.P.C & C.A.R:
“É moralmente necessário investir no Marajó em educação contextualizada, sustentável, pública, gratuita e de qualidade! ”.



Lamberto, o Traumatizado: Cor da Camisa

Lamberto, o Traumatizado, assistiu atônito a notícia de pessoas intimidando uma mulher e seu bebê por este estar vestindo uma roupinha vermelha. Lembrou dos tempos de estudantes, quando ali no começo da abertura democrática (com velhos coronéis na continuidade do comando) foi chamado de comunista por usar camisa de tal cor, hostilizado por três senhores bem vestidos que saiam de um clube. Eram tempos malucos.

Saiu para espairecer, aproveitou e foi à feira, trajando sua camisa da seleção brasileira, da copa de 1962, sem o brasão da CBF. Na rua, chamaram-no de coxinha. Voltou pra casa encucado.

No outro dia, saiu com uma camisa cor laranja, gostava dela por lembrar a boa e velha seleção holandesa. Um homem resmungou ao seu lado: "Nem vermelho, nem amarelo, eu te vomito seu cabra que fica em cima do muro...". Que coisa. Lamberto voltou pro seu lar ainda mais pensativo.

Conforme as coisas no Brasil iam se acirrando, foi piorando a intolerância, a irracionalidade nas ruas.

Outro dia saiu com uma camisa branca. "Opa, é dos nossos!", escutou de um grupo de jovens carecas com alvos trajes e botas militares que cruzaram por seu caminho.

Trocou por uma camisa colorida, na tentativa de não mostrar preferência. O mesmo grupo de jovens que retornavam o olharam com desdém e até rosnaram. "Bicha!".

Sem muita opção e desgostoso, saiu com uma camisa preta, aquilo que significaria a ausência de cor. Universitários, que estavam dentro de uma BMW, jogaram nele uma bola de papel. "Seu Cotista!!".

"Chega!", disse Lamberto. Cortou uns sacos plásticos transparentes, pediu pra sua filha Shana (outra traumatizada) costurar as partes para entrar braços e cabeça, enfim uma camiseta. Queria mostrar ao mundo sua raiva, sua opinião, seu ódio de ser um homem sem camisa, desfilar sua vestimenta, hostilizar os de camisa verde, vermelha, laranja, preta, branca, colorida. Cheio de raiva, bate a porta, pronto pra guerra. "Seu bando de idiotas, o certo sou eu!!". Quando dobrou a esquina, deparou-se com uma jovem mãe trazendo ao colo um bebê, duas sacolas de compras e uma sombrinha, num suor que demonstrava o sacrifício daquela jornada em pleno sol da tarde.

Lamberto se ofereceu para prestar-lhe ajuda, carregou as compras e o bebê sorridente até a casa da jovem senhora, que levara a sombrinha para proteger a criança. Na porta de sua casa, a mulher agradeceu e não pode evitar a curiosidade sobre a camisa de seu próximo. "Obrigado, moço, Deus lhe pague, mas olha, que camisa é esta?"

Lamberto respirou fundo e disse-lhe:

"É uma cor de camisa para que enxerguem o meu coração e minha alma...".




Sem traumas.