quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Projeto Lançante: conheça Agenor Sarraf, o dono do “Chapéu Viajante”.



Agenor Sarraf Pacheco é historiador marajoara, nascido no município de Melgaço. Notável estudioso da origem das atuais questões sociais do Marajó, Sarraf é Doutor em História Social pela PUC-SP´, no qual atua como Professor Adjunto da Universidade Federal do Pará. 

Com projetos voltados para memórias, identidades, saberes, religiosidades letradas e de matrizes orais afroindígenas da Amazônia Marajoara, é um dos grandes defensores de uma nova mentalidade amazônida “decolonial”, ou seja, um movimento de crítica e rompimento com ordens coloniais, de concepções eurocêntricas e discursos de modernidade que excluem grupos sociais indígenas e africanos na América.

Abaixo, apresenta-se parte de seu artigo Cosmologias Afroindígenas na Amazônia Marajoara, em que analisa o valor do negro e do índio na formação humana do Marajó:

“... Apesar de exercícios excludentes frente a práticas de negros e antigos escravos, que passaram a habitar o Marajó das Florestas e se mesclar com nações Nheengaíba, Mamaianá, Chapouna, expressões de culturas afroindígenas enraizaram identidades e se expressam, ainda hoje, de variadas formas. É possível considerar que os “Marajós” estão enroscados com viveres e saberes africanos e ameríndios em seu jeito de comunicar, dançar, cultuar santos ou entidades do rio e da floresta, acreditar em narrativas fantásticas, realizar festejos juninos, pressentir a vida e a morte.

Em Melgaço, no tempo das diásporas nordestinas para os seringais do Marajó das Florestas, duas manifestações artísticas passaram a fazer parte do cotidiano de vida dos moradores da vila. Tratam-se do cordão do Japiim e do Boi Estrela, preparados para apresentações no período junino, em espetáculos de teatro popular de rua. Esses dois folguedos podem ser lidos como marcas das cosmologias afroindígenas nas formas de representar a vida social, seus conflitos, contradições, derrotas e vitorias...”.



Agenor Sarraf, o Dono do Chapéu Viajante e Pensante!



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O Projeto Lançante é a iniciativa do Blog Meio Ambiente, Açaí e Farinha de divulgação de ilustres pensadores do Marajó e jovens que começam na arte da escrita.

Leia, escreva, cresça e apareça!

Vamos Lançante, escorrei mundo afora!

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Da Vontade de Transformar, Marajó: O Caso da Malária de Anajás

Enilda Lobato[1]
Carlos Augusto Ramos[2]

Belém, 04 de fevereiro de 2016.

Caríssimos,
     Os Territórios da Cidadania foram reconhecidos pelo Governo Federal, a partir de Decreto Presidencial em 25 de fevereiro de 2008.  No Estado do Pará são 8 territórios nesta categorização. Dentro do programa,  muito orgulha ter sido contemplado o Marajó também como uma região distinta no Brasil. Já éramos diferenciados como marajoaras, dos campos, dos furos ou das matas de terra firme. Quem sabe a metafísica explicaria o motivo desta própria identificação, no carrear genético das lembranças dos primeiros viventes destas bandas, onde nem sequer Portugal era Portugal, onde nem sequer Espanha era Espanha. O autoreconhecimento nos acompanha bem antes, num jeito inteligente que até hoje perdura de que ser Marajoara é pensar três vezes ao mesmo tempo: de como está a lua, se está chovendo muito ou não; e se está enchendo ou está vazando.
Se somos muito bem natureza, estamos ainda nos construindo em nossos direitos universais. O Colegiado de Desenvolvimento Territorial do Marajó – CODETEM - é um dos principais observatórios da sociedade quanto ao acesso da população regional às políticas públicas. É o espaço de cobrança de direitos. É o espaço de propostas. No hábito nosso de reclamar, reivindicar, há momento também de reflexão sobre o resultado dos esforços e não somente das problemáticas. O Marajó não é um problema, é uma solução. Para demonstrar isso, descreveremos aqui como é importante mobilizar, juntar as mãos entorno de um objetivo, governo e sociedade civil, lideranças de todas as bandeiras. Nosso exemplar caso é o combate à malária.
Anajás é emblemático do tema. Da memória dos anajaenses, sabia-se que havia poucos casos de malária nos anos 1980, restritos nos relatos de moradores da região dos rios Cururu e Jurará, no município vizinho, Chaves. Acredita-se que a doença ali se proliferava por causa de uma série de ações danosas ao meio ambiente, como o intenso uso de timbó, que matava os peixes, que por sua vez não comiam as larvas dos carapanãs; uma maior concentração de água parada ao longo do Cururu; e o corte desenfreado de palmito, cuja operação das palmiteiras deixavam milhares de estipes cortadas de um jeito a acumular água nas touceiras de açaí, verdadeiros “copos” que ofereciam as condições ideais para reprodução das larvas de Anopheles[3]. Esta forma de exploração de palmito foi amplamente executada em Anajás.
Somando-se o corte de palmito, a extração de madeira (sobretudo de virola), as condições indignas de trabalho no meio rural, o desconhecimento sobre a malária e o esquecimento governamental em suas três esferas por muitos anos, houve a fórmula perfeita para uma tragédia humana.
O ano de 1999 foi caótico.
Neste fatídico ano, nas lembranças de um dos autores deste texto, Enilda Lobato, 8 entre 10 pessoas de Anajás detinham o Plasmodium, muitas mortes ocorreram, de todas as faixas etárias, calamidade exposta na infância e adolescência vitimadas pela enfermidade. Para Enilda, o falecimento de sua amiga Sandra, grávida aos 14 anos, marcou-a profundamente. Por ser implacável a malária, por ali estar uma criança a gerar outra criança. E as duas se foram. Situação cruel daqueles tempos.
E foram dez de anos de sofrimento da população de Anajás sem uma resposta efetiva para aquela mazela. Diversas vozes clamavam por mudanças, uma delas de destaque, a de Dom Luiz Azcona, Bispo do Marajó. Não somente reclamava o combate à maleita, mas que fossem melhoradas toda a condição vivida pelas famílias marajoaras. Isolados. Negligenciados em pleno Plano Marajó intencionado pelo Governo Federal.
Dom Luiz é um lutador admirável que a História lembrará e que foi o decisivo provocador para outros vestirem também a camisa. Os senhores Amaury, Abraão, Manelitinho, os agentes de saúde de Anajás, do Estado e da União, as comunidades, os sindicatos de trabalhadores e trabalhadoras rurais, as ONGs (onde o diagnóstico socioeconômico do Instituto Peabiru foi bastante útil para divulgar o flagelo), a AMAM, a prefeitura municipal, o CODETEM (nos encontros regionais para cobrar ações efetivas dos governos), foram todos guerreiros e guerreiras a serviço da sociedade e que merecem ser homenageados por seus esforços e pelos resultados alcançados. Mobilização, Compromisso, Sentimento e Ciência foram os substantivos que aqui podemos dizer como aqueles que marcaram este processo de enfrentamento da epidemia.
Abaixo mostra-se os números de casos de malária desde 2009 para avaliação dos leitores:




























Um mosquiteiro especial.
Um exame em tempo ágil.
O cuidado aos enfermos.
Autoridades sensibilizadas.
Famílias sensibilizadas (apesar de muitas magoadas).
Dedicação de quem estava na frente de batalha.
Em 2010 foram 51 mil casos detectados no Marajó. O ano de 2015 fechou com 4.032 casos em toda a mesorregião.
A atenção ao Marajó.
A atenção ao Marajó, enfatiza-se. Talvez é aquilo que precisamos, pois do ponto de vista da capacidade, damos resposta. “Quem Odera” que pudéssemos responder na mesma intensidade nas outras dificuldades nossas, como aquelas relacionadas à educação, à luta pela terra, à valorização da mulher, à busca de uma matriz energética mais condizente com nossa ligação com a natureza. Num mundo onde governos federais e estaduais cada vez mais dependentes das empresas e bancos (para saber mais, estudar a Dívida Interna Brasileira) e que não conseguem responder aos anseios da população como deveria, é no local e regional que a decisão exata precisa ser tomada, a atitude tem que brotar. Ocorreu isso no combate à malária em Anajás. Arriscamos dizer que houve uma ocasião de união, de foco, de entendimento comum para a mudança.
Contudo, como toda doença crônica, é necessário não baixar a guarda, pois se a intenção nossa enquanto marajoaras é zerar o número de casos até tornar-se apenas uma lembrança ruim daqui a algumas décadas, o aumento de 2015 em relação a 2014 mostra que o trabalho não para. Que a sociedade deve permanecer alerta.
Dizem que a História é feita pelos vencedores, taí, nesta guerra por enquanto vencemos. Alguém aí fora se interessaria em continuar esta singela prosa?
Que o batalhar de tanto heróis não seja em vão.
E não será.



[1] Assistente Social, natural de Anajás.
[2] Engenheiro Florestal, Consultor Socioambiental, natural de Portel.
[3] Sandro Pinheiro, técnico da Emater que atuou vários anos em Curralinho, mostrou a Carlos Ramos fotos de milhares destas touceiras decepadas a acumular carapanãs.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

1ª CONFERÊNCIA TERRITORIAL DE ASSISTÊNCIA TÉCNICA E EXTENSÃO RURAL DO MARAJÓ: Propostas Aprovadas para as Conferências Estadual e Nacional



Nos dias 17 e 18 de dezembro de 2015, no Auditório do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (NAEA) - Universidade Federal do Pará (UFPa), em Belém, representantes de 14 municípios do Marajó* discutiram e aprovaram propostas para a melhoria da assistência técnica rural na região marajoara, no propósito de defendê-las nas conferências estadual e nacional que ocorrerão em 2016.

O Colegiado de Desenvolvimento Territorial do Marajó organizou o debate, avaliando a ATER executada nos últimos anos. A contribuição das associações comunitárias, cooperativas, STTRs, ONGs, Prefeituras e dos Governos Federal** e Estadual*** foi de fundamentação importância para análise dos avanços e desafios no setor. 



Proposições aprovadas pela Plenária para encaminhamento à Conferência Estadual:

Eixo I – Sistema Nacional de Ater: Fortalecimento Institucional, Estruturação, Gestão, Financiamento e Participação Social.

  1. Apoiar e Financiar Instituições para o Monitoramento e Acompanhamento da ATER, a partir dos Colegiados;
  2. Avaliar a Capacidade Técnica Institucional Existente no Meio Rural;
  3. Criar Câmara Temática de ATER dos Colegiados de Desenvolvimento Rural;
  4. Elaboração do Plano de Extensão Rural em Consonância com Outros Órgãos Afins;
  5. Formação de Fundos de ATER (nacional e estadual – entes federados);
  6. Fortalecimento de Articulação com Sindicatos e Produtores Rurais de Acordo com a Comunidade Local;
  7. Redimensionar o Tempo de Execução das Prestadoras de ATER;
  8. Criar uma Certificação de Qualidade Técnica dos Serviços Realizados pelas ATERs;
  9. Criar novos Critérios de Seleção e Fiscalização para as Prestadoras de Serviço de ATER;
  10. Ampliar as Chamadas Públicas de Assistência Técnica para as Mulheres;
  11. As Empresas de ATER Devem Possuir em seu Quadro Técnico 50% de Mulheres e Jovens;
  12. Abrir uma Linha de Financiamento para as Universidades Públicas e Institutos Federais e Estaduais que Envolvam os Jovens em Programas de Extensão Rural, em Nível de Assessoria Técnica Rural.


Eixo II – Ater e Políticas Públicas para a Agricultura Familiar

  1. Reestruturação das bases legais para financiamento da agricultura familiar;
  2. Assegurar o Fator Amazônico como Elemento Determinante à Política de ATER.
  3. Criar mecanismos de controle social da aplicação dos financiamentos e da assistência técnica prestada;
  4. Garantir a Celebração de Termos de Cooperação Técnica para execução e monitoramento da ATER pelos municípios;
  5. Fortalecimento, Efetivação e Criação dos Conselhos Municipais de Desenvolvimento Rural;
  6. Garantia de Infraestrutura, logística e gestão para a implementação da política de ATER (exemplo: transporte fluvial e internet);
  7. Garantir a certificação dos alunos oriundos das Escolas Família Agrícola e Casas Família Rural como técnicos para suporte à ATER;
  8. Formação e Capacitação dos agentes de ATER em bases antropológicas, metodologias participativas e práticas inovadoras para mulheres e jovens;
  9. Rediscutir a política de Emissão de DAPs;
  10. Integração, Fortalecimento e Estruturação das entidades para emitir e gerenciar as DAPs;
  11. Promover o ordenamento fundiário para facilitar a ATER e os financiamentos.



Eixo III – Formação e Construção de Conhecimentos na Ater

  1. Política específica de Educação para as famílias de comunidades tradicionais por meio de cursos sobre agricultura familiar, agroecologia, tecnologias de informação, gestão financeira familiar e economia solidária com foco na sustentabilidade;
  2. Valorizar e divulgar a pesquisa e o desenvolvimento sobre atividades produtivas desenvolvidas por mulheres rurais;
  3. Políticas específicas que contribuam com a permanência de jovens rurais em suas comunidades, e para que possam desenvolver seus próprios conhecimentos. E fortalecer escolas com metodologia da pedagogia da alternância;
  4. Fortalecer a identidade local através de atividades culturais, com espaços de troca de conhecimentos gerados localmente;
  5. Aplicar e garantir o acesso de tecnologias sobre o uso da água e energia alternativa;
  6. Propor política a nível educacional direcionada aos territórios rurais visando a aproximação do Ministério da Educação (MEC) com as instituições de ATER;
  7. Divulgar melhor os programas de desenvolvimento sustentável para a juventude rural.



Para acesso ao relatório da conferência do Marajó sobre ATER, contactar o CODETEM através do e-mail codetem.marajo@yahoo.com.br .




(*) Afuá, Anajás, Bagre, Breves, Cachoeira do Ararí, Chaves, Curralinho, Gurupá, Melgaço, Muaná, Portel, Ponta de Pedras, Soure e São Sebastião da Boa Vista. Além destes também se registrou a presença de pessoas dos municípios de Belém e Marabá.

(**) IFPA, UFPA, INCRA e MDA

(***) EMATER, SAGRI

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Projeto Lançante: conheça José Varella, curioso de quem inventou o mundo



José Varella Pereira é escritor e historiador marajoara, nascido em Ponta de Pedras. Oficial de Chancelaria aposentado pelo Itamaraty, o que lhe proporcionou notável conhecimento histórico sobre o Marajó e sua população, é um ótimo analista dos caminhos e contradições governamentais para desenvolver o Marajó. Luta para manter viva a memória do tio, Dalcídio Jurandir, consagrado romancista amazônico, porém, pouco valorizado nos currículos escolares.

Aos setenta anos, mantem firme a ideia de defender a "Criaturada Grande" (índios, quilombolas e cabocos). Ama o Marajó, a Amazônia: "Viva o Brasil, o maior país amazônico do mundo!".



Para conhecê-lo mais, pesquisar no Blog http://gentemarajoara.blogspot.com.br/


Abaixo, apresenta-se parte de seu ensaio sobre a Pax de Mapuá, evento escanteado das páginas escolares que marca o acordo de paz entre as sete caciques Nheengaíbas das ilhas do Marajó com a delegação de paz em nome da coroa de Portugal, negociada pelo Padre Antônio Vieira em 1665. 


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AOS 400 ANOS DE BELÉM DO PARÁ, 
LEMBRAI-VOS DE MAPUÁ.

 Segundo o historiador José Honório Rodrigues, em "Teoria da História do Brasil", a História não é para os mortos. Quantas vezes, no passado, já foi dito que o relato do chamado "payaçu dos índios" é um caso inverossímil e que o tal acordo de paz entre caciques do Marajó e portugueses do Pará não tem interesse acadêmico?

No entanto, a historiografia das gerações passadas ou as esperanças do porvir, só tem significado no presente. A geografia esconde as consequências históricas.  Se a academia ainda não despertou para o fato, pior para os acadêmicos do período colonial. Para os excluídos da História só o futuro interessa. Para isto a leitura a respeito de que somos, de verdade, donde vieram nossos antepassados e aonde podem ir nossos filhos e netos; é de todo nosso interesse. 

A Criaturada grande de Dalcídio Jurandir (comunidades tradicionais ribeirinhas), em especial a associação de usuários da Reserva Extrativista Florestal de Mapuá, têm direito de saber o que rolou por ali há mais de três séculos e meio. 

Porque sem Gurupá, em 1623, Mapuá, Aricará (Melgaço) e Aracaru (Portel), em 1659, certamente não poderia acontecer a adesão do Pará em Muaná, em 28 de Maio de 1823. A peça de teatro estampada tem, evidentemente, intenção se superestimar o papel dos padres e impressionar a corte. Mas, o fato é que o Pará dependente de índios para tudo, no século XVII, não havia como evitar a expansão das Guianas holandesa, inglesa ou francesa, caso não tivessem recebido a adesão dos chamados rebeldes "nheengaíbas" (nuaruaques) e seus parentes além Cabo do Norte (Amapá). Como Vieira frisou, na carta abaixo, enviada à regente de Portugal, Dona Luisa de Gusmão; viúva de Dom João IV, durante a menoridade de Dom Afonso VI, espécie de prestação de contas e preparação para regressar definitivamente a Europa.

É das atuais consequências da Lei de abolição dos cativeiros, de 1655, e da pax dos Nheengaíbas, fraudada pelos colonos do Pará para doação da ilha dos "Nheengaíbas" ou "Aruans" como capitania hereditária da Ilha Grande de Joanes (1665); que os marajoaras de hoje, com o mísero IDH dos municípios, devem se interessar a fim de saber mais sobre a invenção da Amazônia Brasileira no passado, a partir do Maranhão (1615). 

Cujo empoderamento em curso por descendentes daqueles índios bravios e seus camaradas desertores degredados e negros escravos, todos eles refugiados em mocambos (quilombos) pelos centros da ilha; é garantia efetiva da soberania do Brasil democrático na região.

http://gentemarajoara.blogspot.com.br/2013/08/por-que-o-brasil-precisa-saber-da-pax.html


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sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Projeto Lançante: conheça Juraci Siqueira, o Boto.



Juraci Siqueira, o Boto, é poeta nascido no Cajary, em Afuá. Licenciado pleno em Filosofia pela Universidade Federal do Pará , atua em entidades litero-culturais como professor de filosofia, oficineiro de literatura, performista e contador de histórias. Possui mais de 80 títulos individuais publicados entre folhetos de cordel, livros de poesias, contos, crônicas, literatura infantil, histórias humorísticas e versos "picantes" como ele mesmo diz, além de poemas musicados por compositores locais. 

Juraci Siqueira colabora com jornais, revistas e boletins culturais de Belém e de outras localidades além de contar com mais de 200 premiações literárias em vários gêneros, em âmbito nacional e local.

Abaixo, texto deste importante poeta de nossa terra em homenagem à Cabanagem.


Voo Entre Armas I (Juraci Siqueira)

Era sete de janeiro.
De quando em vez um banzeiro
rebentava na muralha
antecipando a batalha
contra o Forte do Castello
primeiro e mortal duelo
na Belém recém-nascida
precocemente envolvida
em sua casta inocência
nos lençóis da violência.
Era janeiro. Chovia.
Céu escuro, manhã fria
com feição de luto e medo.
vez por outra do arvoredo
um agourento chincoã
engravidava a manhã
com seu canto mandingueiro.
Era sete de janeiro...
Do Piri as verdes margens
escondiam nas ramagens
guerreiros Tupinambá,
angelins do Grão Pará
pintados de amor e guerra,
de revolta e bem querer
para lutar pela terra
ou sobre a terra morrer.
Belém nem tinha três anos
e já registrava os danos
de um batismo a ferro e fogo
no brutal e eterno jogo
entre opressor e oprimido
entre mocinho e bandido
entre balas carniceiras
e taquaras justiceiras,
bordunas de redenção
contra espadas de opressão!
Tomba o grande Guaymiaba,
cacique Tupinambá
e longa noite desaba
sobre Belém do Pará.
Cai por terra Guaymiaba
mas a luta não acaba
naquele triste janeiro.
Em cada peito guerreiro
as sementes da igualdade,
da justiça e liberdade
germinam feito capim
à espera de um dia, além,
que a rosa rubra do povo
desabrochasse de novo
nos canteiros de Belém.
***
Voo Entre Armas II
Manhã sem luz, sem cor, sem poesia...
De quando em vez do matagal se ouvia
o agourento cantar de um chincoã.
Era o sétimo dia de janeiro.
Na muralha o marulho do banzeiro
embalava Belém que ainda dormia.
A história se repete. Nada é novo.
Mesmo palco de luta, mesmo povo
mesmos tiranos, mesmos ideais.
E Guymiaba após duzentos anos
renasce e luta ao lado dos cabanos
fundido ao lema vencer ou vencer!
A luta é desigual: artilharias
contra espingardas, ódio e tirania
contra o ideal e a fome de justiça!
A história desta vez não se repete:
Belém, cansada, nesse dia sete,
adormece nos braços do seu povo.
___________________________________
(Do livro Uirá-Pirá, a saga do peixe-pássaro )


Para conhecer mais sobre este literário marajoara, visite o Blog http://blogdobotojuraci.blogspot.com.br/ 



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quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Angela Amankwa Kaxuyana: Mortes Por Falta de Assistência à Saúde dos Povos do Tumucumaque

Prezados amigos, parceiros e parentes, venho compartilhar aqui a indignação e repudio dos povos indígenas karib do Parque do Tumucumaque e TI Kaxuyana-Tunayana através de suas associações APITIKATXI e AIKATUK  sobre a lamentável morte do jovem indígena Helder Kaxuyana Tiriyo, da Missao Tiriyo no ultimo dia 03.01.16, segundo os caciques por causa da omissão de socorro e falta de assistência a saúde indígena prestada pela nebulosa Secretaria Especial de Saúde Indígena – SESAI Distrito Sanitário – DSEI Amapá e Norte do Para. 
Talvez esta noticia será vista como mais uma estatística de morte de indígenas por falta de assistência adequada e  descaso dessa secretaria que tanto recebe recurso para esse fim, recurso que diga-se de passagem somam milhões, mas que estas cifras nunca fora transformada em atendimento de qualidade e diferenciada a estes povos que tanto sofrem por falta de seriedade na prestação de serviço a saúde indígena.
Quero aqui transmitir que nos povos indígenas da região não suportamos mais o tanto descaso do Estado Brasileiro para com nosso povo, não aguentamos mais o abandono, como se fossemos meros objetos deste território nacional, não aguentamos mais ser mortos por tanta violência moral, física e psicológica, não aguentamos mais ver 90% do nossos jovens viciados em álcool, ver nossas meninas de 13 e 14 anos sendo aliciados pelos aqueles  que deveriam proteger a tal soberania nacional, estamos cansados de ver profissionais de saúde da SESAI chamar nossos parentes de índios fedorentos, estamos cansados de ver índios morrendo de coma alcoólica, estamos cansados de ver jovens se suicidando porque estarem drogados, estamos cansados de ver mulheres gravidas morrendo de parto por falta de profissionais minimamente humanitários, estamos cansados de ouvir que os governos não chegam ate o Tumucumaque por que e longe, estamos cansados de sermos jogados como se fossemos simples adereços para responsabilidade de outro estado como o governo do Para faz, estamos cansados de ouvir que não tem voo de emergência por que atingiu limite de voo para buscar pacientes, estamos cansados de comer quando doentes peixe estragados na CASAI, estamos cansados de ver nossas mulheres se prostituindo em troca de 1 kg de arroz, estamos simplesmente  cansados de ver a morte dos nossos jovens literalmente........ de tudo isso e muito mais estamos cansados.
 E desta vez não vamos ficar calados balançando a cabeça e receber tapinhas no ombro e dizer que está kure, porque não esta kure desde dia em que transformou-se as vidas dos nossos povos naquela missão trinômio que serviu só para ganhos dos outros, missão para quem e de quem mesmo? Porque a missão de salvar as vidas ou simplesmente mantê-las de forma digna não existe, essa missão há décadas só usufrui dos recursos dos nossos territórios e de nossas imagens como sempre fez. Quero aqui compartilhar a indignação não somente da família do Helder que morre com pouco mais de 20 anos, que morre horas depois de ser impedido pelos profissionais da SESAI de embarcar para CASAI de Macapá em busca de atendimento com justificativas de que estava bem, essa indignação e somatória de todos os descasos de décadas enfrentada pelos povos da missão Tiriyos e demais aldeias do entorno.
Neste caso do jovem Helder, os familiares, os caciques e a comunidade exige a responsabilização de quem tem obrigação de socorrer e atender a saúde dos povos indígenas e não o fez , responsabilizar aqueles que deslocam-se as aldeias com missão de atender as necessidades da saúde dos povos indígenas e fazem o contrario,  exigimos uma investigação minuciosa do fato por partes do MPF de Santarém e Macapá, para que outros jovens, crianças, mulheres não continuem morrendo simplesmente por falta de compromisso, seriedade e atendimento pela SESAI, como foi o caso do Helder.
Nos lideranças Indígenas NAO vamos nos calar novamente diante de tanta perda, perdas que nunca serão reparados por nenhuma ação, porem NÃO queremos mais  profissionais que  brincam com a vida das pessoas. Talvez a perda de um filho de pouco mais de 20 anos possa ser mais simples aos karaiwa, para nos Kaxuyana e uma perda dessa para o resto das nossas vidas, choraremos durante anos, décadas ou ate mesmo o resto das vida dessa geração...estaremos de luto para sempre.
Não ficaremos quietos, iremos exigimos resposta, explicações contundentes e responsabilização dos envolvidos no caso.
Missão Tiriyo conclama pela ajuda, ajuda para não perder mais jovens para o alcoolismo instalado, pelo abandono, ausência das instituições como FUNAI, governo do Para, SESAI, Prefeituras, e demais instituições que lá estão instalados.
Convidamos aos amigos, parceiros, advogados para auxiliarem aos povos indígenas para levar essa investigação adiante, solicitamos apoio na produção de texto de documentos  e orientação para demais providencias na sede da APITIKATXI em Macapá, assim como com deslocamento de 2 lideranças para reunião urgente de lideranças na sede da associação em Macapá.
Contamos com apoio e solidariedade ao caso Missao Tiriyos, aos que conhecem sabem que aquele povo (O MEU POVO) sempre sofreu e sofre por tudo aquilo que citei acima, eu particularmente não descansarei, esgotarei todas as minhas fontes de energia e vontade de ajudar o meu povo, não somente porque 3 membros da minha família perderam a vida em função dessa falta, mas por todos os povos que ali vivem bravamente a cada dia, por tudo que minha mãe, minhas irmãs e eu sofremos naquela aldeia. Por todos os meus parentes sangue do meu sangue, pois realmente sempre senti indignação por tudo aquilo na dita Missão, mais ainda agora pela perda do meu irmão.

Conto com vocês, dentro da possibilidade de cada um, seja para redigir documento, seja para traduzir algo, seja para dar suporte jurídico enfim, não deixemos Povos da Missão Tiriyos morrer, principalmente pela doença cruel o alcoolismo.


Angela Amankwa Kaxuyana

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Para os piedosos de si mesmo, a Peconha



Almeirim, 20 de julho de 2014.



Mais moeda me pede
Centavo que és
Como posso te deixar ir
Sem ao menos te dizer

Eu te dou, mas oferto peconha
Pouco tenho, mas faço a peconha
Quer açaí então pega a peconha
Quando desceres terá mais vergonha

Pára de ser vítima
Indigente que és
Enquanto eu tô na lida
Ficas nessa besta queixa

Faz o seguinte, pega o matapi
Vê se te mexe, vai com o matapi
Camarões pulam de seu matapi
Até os pequenos lutam no fim

Não deixe que traíra vença tão fácil assim
Conheci porcos que varavam roçados na cara de macaco

Vai trampar, é suor de farinha
Deixa a frescura, suor de farinha
Pra resultado, suor de farinha
Te sai amoado da vida mesquinha

Caiu uma manga no jirau da tua cozinha
Pra plantar o abacaxi tem que ter a parte da mucura

Tá com pressa? Óleo de andiroba
Teu remédio é a pura andiroba
Paciência, óleo de andiroba
Que escorre só quando escolhe a hora
Pantoja Ramos
http://www.recantodasletras.com.br/poesias/4889075