quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Amazonizar o mundo, para salvá-lo - Alain Muñoz/ ECOcom

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Foto: Karina Miotto
Um pequeno colégio amazônico enfrenta as mudanças climáticas com melhores resultados que programas governamentais e Nações Unidas. Ele faz parte de um conjunto de ações que também reúne produção orgânica autossuficiente, uma clínica e um hotel na Amazônia Equatoriana. Todos com eletricidade própria e internet.

O colégio Yachana está localizado em plena Amazônia do Equador, na frente do Rio Napo, a sete horas de ônibus desde Quito e a mais 15 minutos de lancha. Chega até as famílias dos estudantes, o que corresponde a 45 comunidades. Recebe aproximadamente 80 novos alunos por ano, que trocam seus lares pela escola – é lá que moram durante 21 dias do mês.

Sala de aula é aberta e fica no jardim. Foto: Karina Miotto
As aulas são inovadoras: totalmente abertas, a Amazônia circundante é a verdadeira grande sala de aula. Lá também tem um sítio com plantação de alimentos orgânicos, resultado do esforço dos próprios alunos. O que produzem lhes serve de alimento e também é direcionado à alimentação de três mil hóspedes anuais que se hospedam no hotel que leva o mesmo nome do colégio: Yachana Lodge . “Cultivamos café, cacau etc para comer melhor. Não utilizamos produtos químicos”, conta a aluna Mariana Conforme.

Dormitório dos estudantes dentro da área do colégio.Foto: Karina Miotto
O colégio é autossuficiente em energia, com um sistema híbrido. É um dos poucos lugares remotos da Amazônia equatoriana com eletricidade e internet permanentes. Painéis solares provêm 2.000 watts e, quando está nublado ou chovendo, uma usina hidrelétrica gera outros 1.000 watts. A usina é parte de um sistema que canaliza água de chuva acumulada. Ao descer ela gera eletricidade e também alimenta piscinas para criação de peixes. Em breve terão mais energia com biodigestores com uso de gases dos banheiros do Yachana Lodge.

Los finqueros

A cada ano os “finqueros” do colégio, como são conhecidos pequenos proprietários de terra na Amazônia equatoriana, recebem U$ 80 por hectare de floresta para mantê-la em pé, quase três vezes mais do que um programa de governo similar. Para isso, não terão que apresentar títulos legais do terreno, coisa que a metade da população não tem. Mais que títulos, ali, o que vale é a posse reconhecida pela comunidade e pelos vizinhos. Os U$ 80 por hectare também são mais do que ganhariam desmatando. O modelo é uma alternativa para beneficiar pessoas da região.

Este modelo tem sido testado com sete “finqueros” que somam mais de 100 hectares dentro da área do Yachana. O projeto não seria possível sem este colégio, cofundador da fundação Kaya, que o promoverá nos Estados Unidos e Europa. Kaya identificará doadores estrangeiros que poderão doar de U$ 60 e U$ 140. A cada U$ 500, um hectare de floresta poderá ser mantido em pé por cinco anos - U$ 400 irão aos “finqueros” e U$ 100 dólares para monitoramento e educação. Os estudantes farão monitoramento da floresta por meio de GPS e de um Sistema de Informação Geográfica (SIG) desenvolvido pela Universidade de Standford.

Prêmios 

O Yachana Lodge, que tem entre seus funcionários diversos alunos do colégio Yachana, levou o prêmio de melhor exemplo de geoturismo da National Geographic, além do Ecoturismo Award, da Associação Internacional de Profissionais de Turismo. Também foi finalista do Turismo do Futuro. O Yachana gerou oportunidades que os estudantes e suas famílias não tinham antes.

A Universidade da Terra, da Costa Rica, destinou ao colégio técnico Yachana 20% de suas bolsas disponíveis para o Equador. “São uns dos melhores estudantes do país”, disse o representante dessa universidade. Não à toa, agências de turismo e hotéis do Equador pedem estudantes do Yachana como estagiários. “São muito trabalhadores e amáveis”, afirmam. Expressivos, seguros e muito orgulhosos de ser o que são, mostram e explicam aos visitantes o que é o colégio, como é a selva. Muitos, em inglês fluente, enquanto outros ainda estudam um segundo idioma, entre eles o português.

“Amazonização” do mundo

Desde o mirante do Yachana Lodge podemos ver o rio Napo à distância. À noite, guias locais - alguns já passaram pelo colégio - propõem desligar as lanternas e ficar em silêncio por 15 minutos. Sob as estrelas e o som da selva, os limites do “eu” se diluem e parece que a gente se funde com a natureza. Com essa inspiração, surgem novas compreensões.

Estes povos amazônicos vivem sem depredar porque compreendem seu ecossistema e respeitam tanto sua dinâmica como seus ciclos naturais. Percebem e alimentam esta relação de interdependência com a floresta, valor enraizado que multiplica bons resultados quando se combinam conhecimentos e tecnologias ancestrais e atuais, como ocorre no Yachana.

A economia e a política não-amazônicas estão acabando com a Amazônia. Em vez de “internacionalizar” a Amazônia para salvá-la, como já propuseram a Cristovão Buarque, deveríamos “amazonizar” o mundo para salvá-lo, como propunha Chico Mendes.

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