quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Sobre os Repasses Federais ao Marajó no Fatídico 2016


Belém, 07 de janeiro de 2017.

Carlos Augusto Ramos[1]

Revisão: Flávio Bentes[2]

Caríssim@s,

         Algumas pessoas analisam a causa do grande sinistro que aconteceu em 2016 como alienação. Outros como desinformação. Até diriam muitos que uma massa foi verdadeiramente omissa e manobrada. Não poucos observam uma grande culpa da sociedade brasileira.

De tudo isso, só sei que até que a Senhora História prove o contrário: sofremos um Golpe de Estado.

Ficamos pasmos. Protestamos. Ressacamos. Arrisco dizer que passaram de mil o número de pessoas que apanharam da polícia estatal porque protestavam contra aquele absurdo. Boçais pousaram de heróis.

Enquanto isso, na lida nossa cotidiana, como fomos afetados por esta grande crise institucional e de rumo da nação brasileira? Buscar respostas é certamente escrever uma Tese de Doutorado, cuja abordagem abriga aspectos de educação, emprego, renda, psicologia, democratização dos meios de comunicação, machismo, geopolítica, colonialismo histórico e especulação financeira à serviço da morte. Por isso, seria muita pretensão de minha parte seguir alguns desses temas e relacioná-lo ao Golpe de 2016 sem fazer um estudo tão profundo à altura da complexidade exigida. Por enquanto, continuo a digerir os acontecimentos, no exercício difícil de separar o joio do trigo e avaliar quais os impactos de tudo isso no dia a dia do Amazônida, particularmente no caso do Marajó, minha região de nascimento[3].

No final de 2016, comecei a levantar indicadores socioeconômicos e ambientais de Portel, no objetivo de entregar à Secretaria Municipal de Meio Ambiente esta breve pesquisa, e assim o fiz. No item sobre os repasses federais para Portel[4], acabei me empolgando e repeti a checagem para os 16 municípios marajoaras, de 2010 a 2016. Ao cruzar esta informação com a estimativa populacional anual do IBGE[5], foi calculado o valor anual investido pela União em cada habitante marajoara, um índice que aguça a curiosidade sobre os últimos 6 anos de aporte governamental no Marajó.

Abaixo apresento o resumo deste estudo:




     O valor repassado pela União em Saúde, Educação, Fundo de Participação dos Municípios (FPM), assistência social, transporte, etc., por habitante marajoara cresceu de R$874,55 em 2010 para R$1.541,74 em 2016, num desempenho crescente que foi paralisado no ano passado confuso que tivemos. Mensalmente isto significa R$72,88/habitante em 2010 e R$128,48/habitante em 2016. Estas são as variações de investimento do Governo Federal junto à população marajoara.

     Apesar dos valores não suficientes para ofertar condições básicas de cidadania, o simples conhecimento disto é desde já uma boa provocação para que busquemos saber qual o valor justo que poderia ser investido em cada brasileiro[6]. 3 mil reais por ano/habitante? 5 mil reais? Uma coisa é certa: recursos não faltam. A Dívida Pública Brasileira[7], a ajuda financeira à Teles[8], as generosas isenções governamentais às empresas privadas[9], o perdão da trilionária dívida do agronegócio[10], do baixo retorno governamental que nossos impostos pagam[11], mesmo o uso da floresta que detemos sem benefício da população[12], são provas cabais que justificam a coletividade brigar por educação e saúde gratuitos.

     São todos municípios marajoaras com séries dificuldades estruturais e de promoção de bem-estar social, frutos do esquecimento do Estado e da depredação da natureza para o enriquecimento de pouquíssimos[13]. Enfrentam muitas vezes a pobreza com ferramentas dos anos 1980, não democratizados como assim deveria, com algumas sociedades locais que primam pelas oligarquias locais e machismo[14]. Localidades que detiveram (ou detém) tristes troféus na última década, tentando livrar-se de suas mazelas. Assim foi o campeão brasileiro de malária (hoje controlado), o município de Anajás[15]. O pior Produto Interno Bruto (PIB) per capita do país, Curralinho[16]. O menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Brasil atualmente, Melgaço[17]. Três casos em que vale a pena analisar o investimento federal/habitante de 2010 a 2016.











     Se consideramos a PEC 55 que congela os gastos públicos do Governo Federal por 20 anos, famigerada forma de garantir o pagamento de credores nacionais e internacionais, preocupa a situação destes municípios quanto à reprodução social de uma geração inteira vindoura. O crescimento ano a ano dos repasses federais em Melgaço, por exemplo, era ao menos um sinal de vontade na superação de suas problemáticas. O Bolsa-Família, programa reconhecido mundialmente como um instrumento eficaz de combate à fome e apontada por maniqueístas como uma política para “tornar as pessoas preguiçosas”, traz a necessidade sim de aperfeiçoamento, mas de maneira alguma justifica-se a sua satanização face ao número de pessoas que retirou da extrema pobreza[18]. O Núcleo de Extensão em Desenvolvimento Territorial do CODETEM[19], coletou impressões dos marajoaras a respeito do programa:


“...antes assim, eu não sabia o que era comer um feijão, comer um arroz, um macarrão, uma comida temperada com uma cebola, um óleo, agora, assim, já consigo comprar”.
Opinião de uma agricultora familiar de Melgaço sobre o Bolsa-Família.


“...pra roupa, pra remédio, pro alimento, pra tudo eu tiro desse dinheiro, pra me manter, eu e meus filhos...
Relato de uma trabalhadora rural de Portel sobre o uso do dinheiro do Bolsa-Família. 

    
     (Diante das duas opiniões acima, antes da crítica automática dos incautos, convém exercitar o princípio da Alteridade...).

Uma possível diminuição dos recursos federais direcionados aos municípios marajoaras para atendimento das necessidades básicas da cidadania não é o único desafio para sua população. A capacidade própria municipal de investir no local está também em jogo. Além da arrecadação própria, da qual a sociedade não possui dados, mas é imperativo ter futuramente tais informações além da câmara de vereadores, existe para a gestão direta das prefeituras o chamado Fundo de Participação dos Municípios (FPM). De acordo com o Tribunal de Contas da União, o FPM constitui constituem uma das modalidades de transferência de recursos financeiros da União para os municípios, prevista no art. 159 da Constituição Federal[20]. Uma outra fonte, tomada da Secretaria Estadual de Fazenda de Minas Gerais explica melhor: é uma transferência constitucional composto de 22,5% da arrecadação do Imposto de Renda (IR) e do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI). “A distribuição dos recursos aos Municípios é feita de acordo com o número de habitantes, onde são fixadas faixas populacionais, cabendo a cada uma delas um coeficiente individual”, registra esta secretaria[21].

Estudiosos do assunto dizem que o FPM é altamente importante para o orçamento de qualquer município brasileiro. Trata-se de uma fonte de recursos que dela dependem a manutenção eficiente das atividades da administração local, gastos com infraestrutura, gastos com dívidas e amortizações, habitação, saneamento, urbanismo e meio ambiente[22]. Apesar da predominância de recursos para a saúde e educação serem provenientes da esfera federal diretamente através de fundos próprios como o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação -FUNDEB, uma parte do FPM é também investidos nestas áreas (saúde e educação). De maneira geral, é o FPM o orçamento de maior valor cuja tomada de decisão é de domínio das prefeituras.

Tal repasse no Marajó tem o histórico de 2010 a 2016 segundo o gráfico a seguir:





Em 2010, o valor médio do FPM no Marajó foi de R$336,33/ habitante, passando para R$429,23/hab em 2016. Isto significa que foram repassados no ano passado R$35,00 por mês em FPM em benefício de cada marajoara. Ressaltemos, portanto: são repassados mensalmente R$35,00/habitante para investimentos em infraestrutura, administração, meio ambiente, habitação, urbanismo e saneamento. Em 2016, por exemplo, Melgaço recebera 10,5 milhões de reais de FPM, média de 875 mil reais mensais para a aplicação no município gestado diretamente pela prefeitura.

E aí quando se enche a folha de pagamento muitas vezes por “questões políticas”... quando a gestão de um município ultrapassa a Lei de Responsabilidade Fiscal... dá vontade de simular um sambinha estilo Demônios da Garoa,

♫Quando eu enchi a folha de pagamento/ o meu município não teve mais sustento/ pió de tudo de tanto “agregado”/ arrebentou minha rede não “guentou” os pendurado...♪


O resultado da falta de planejamento foi um final de 2016 passado com salários atrasados, com limpeza pública, postos de saúde e escolas precariadas, com dívidas com a União, com problemas na entrega da merenda escolar. Não se previa a queda de repasse aos municípios, caindo entre 2015 e 2016 na casa de até 8 milhões de reais em alguns casos. Poucas são as exceções de gestão responsável a partir de uma folha funcional equilibrada com que o município tem recebido. Talvez os números crescentes de repasse federal de 2010 a 2015 acabaram por anestesiar os gestores deste imperativo que é o zelo com as contas públicas.

No ano do Golpe 16.

No ano da falácia. Da PEC 55.

Em ano em que se despejou 152 milhões de reais em publicidade federal, 107% a mais do que em 2015, direto para bolsos do grupo Globo, Revista Veja, Revista Caras (o quê?? Revista Caras? Tenha “Dória”...), Revista Época, propaganda em redes sociais, etc[23]. Lembro que em 2015 gastaram-se 226 milhões de reais em saneamento básico no país. A propaganda estatal de 2016 foi 67% deste carente investimento na população brasileira (uma pena não termos ainda o Orçamento Geral da União executado por área temática referente ao ano passado para termos mais comparativos). No ano do Golpe, o que se gastou em autoelogios publicitários do Governo foi igual à soma dos recursos direcionados a Curralinho, Anajás e Melgaço.

No ano do Golpe 2016.

E em 2017? O que faremos?

Reagir, estudar, denunciar, defender os territórios, até entrar com ações judiciais coletivas. Isso mesmo, Melgaço, Curralinho e Anajás justificam ação judicial contra a PEC 55. Posso estar enganado, mas não acomodado. Se o STF não entender, seguimos para a Organização dos Estados Americanos, que abriu um valioso precedente ao condenar o Brasil[24] por não atuar fortemente para coibir a prática animalesca do trabalho escravo. O que não podemos fazer é continuarmos pasmos e parados.

2017 é um ano de reação. Aliás, serão anos de luta local. Nosso combustível (esse os EUA não roubam) obviamente é a Esperança, doce senhora que fortalece a peleja histórica dos indignados contra os indignos.


Façamos as contas.
 


    
    







[1] Engenheiro Florestal, Consultor Socioambiental, natural de Portel.
[2] Pedagogo do município de Breves, educador da Escola da Formação da CONTAG  - ENFOC – no Marajó.
[3] Apesar de registro de nascimento em Belém, nasci na cidade de Portel e fui criado dos 6 aos 16 anos em Monte Dourado, Almeirim-Pa.
[4] Verificável no Portal da Transparência através da página http://www.portaldatransparencia.gov.br/
[6] Como comparativo, temos a Argentina, país vizinho que gastou em 2011 (últimos anos dados disponíveis segundo estudo do Movimento Direitos Humanos - http://www.humanosdireitos.org/noticias/denuncias/619-ONU--quanto-se-gasta-com-saude-no-mundo-por-habitante-e-por-PIB.htm) R$1.738,00/ habitante apenas com a área da saúde. No mesmo ano, o Marajó recebeu R$1.175,00/hab somando-se todas as áreas (saúde, educação, assistência social, etc).
[7] Maria Lúcia Fattoreli e sua equipe de auditores formaram o Movimento Auditoria Cidadã e denunciam o deliberado empobrecimento do país incentivado pelo próprio Banco Central em favorecimento dos Bancos Privados - http://www.auditoriacidada.org.br/blog/meta_slider/somos-todos-auditores-resposta-a-laura-de-carvalho-nao-publicada-na-integra-pela-folha-de-s-paulo/
[8] O Bom Jornalismo hoje é guerrilha: denuncia abusos como o caso da tentativa de ajuda de mais de 100 bilhões de reais às Teles como a OI, dinheiro que deveria ser direcionado ao combate dos problemas sociais do Brasil -  http://jornalggn.com.br/noticia/temer-pode-dar-as-teles-r-105-bilhoes-que-deveriam-retornar-aos-cofres-publicos . para se ter uma ideia da franca distorção de prioridades, em 2015, os gastos com saneamento básico no Brasil foram de 226 milhões de reais (0,01% do orçamento geral de 2,268 trilhões de reais), sequer 1 bilhão de reais para tratar de um assunto tão sério. Não é só injusto, é criminoso.
[9] O Governo do Estado do Pará, por exemplo, é bastante “gentil” com várias empresas destas bandas. Segundo o Jornalista Lúcio Flávio Pinto, a Cerpasa – grande indústria do ramo de bebidas – deixou de pagar 1,4 bilhão de reais em imposto ao Estado nos últimos 5 anos, o equivalente à 30% do seu faturamento bruto - https://lucioflaviopinto.wordpress.com/2016/02/17/cerpa-deve-r-14-bilhao/ .
[11] O Biólogo Rodrigo Freire, com quem troco muitas ideais a respeito da conjuntura nacional, provocou-me a comparar quanto cada brasileiro paga de imposto por ano. Vi que os estudos do IPEA de 2014 apontavam que 41,3% do que recebi no ano é usado para pagar impostos (http://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2014/05/21/brasileiro-trabalha-151-dias-para-pagar-imposto-que-come-414-do-salario.htm). Então, se o cidadão que ganhou naquele ano 1 salário mínimo por mês (R$724,00), levantou no ano R$8.688,00. Destes, R$3.588,14 reais retornaram aos cofres públicos. Significa dizer que o pobre Marajoara mais deu ao Governo federal (R$3.588,14) do que recebeu (R$1.653,19)!
[12] Para exemplificar, no ano de 2015 saiu do município de Portel o volume de madeira em tora de 980 mil metros cúbicos, com uma receita estimada de 191 milhões de reais (IBGE - http://cidades.ibge.gov.br/v3/cidades/municipio/1505809 ). Dadas as condições sociais das comunidades e do meio urbano de Portel, entende-se que muito pouco tem deixado a indústria madeireira no município para o seu real desenvolvimento. Só com a arrecadação com o Imposto Sobre Serviços (ISS) deste montante movimentado, que varia entre 1 a 5% do valor da nota fiscal, poder-se-ia gerar em 2015 de R$1.911.000,00 a R$9.555.000,00 aos cofres públicos portelenses!
[13] A Era da Indústria Predatória no Marajó, entre os anos 1970 e 2006, marcou a altíssima extração de palmito e madeira nessa mesorregião, empobrecimento a floresta e as pessoas em muitas localidades marajoaras - http://www.recantodasletras.com.br/e-livros/4760368
[14] Nas eleições municipais de 2016, apenas 15,5% do cargo de vereadores são ocupadas por mulheres, diminuindo em relação a 2012 (17,8%), o que configura grave desequilíbrio de gênero. O pior é que a população decidiu piorar tal relação. Ver em http://meioambienteacaiefarinha.blogspot.com.br/2016/10/o-marajo-e-eleicao-de-vereadoras-2016.html
[15] Em 2006, a malária de Anajás recebia contornos nacionais de calamidade segundo o Jornal Estado de São Paulo  - http://brasil.estadao.com.br/noticias/geral,malaria-provoca-estado-de-calamidade-publica-em-anajas-pa,20060406p26454. De 2013 para cá, graças à luta de lideranças comunitárias, religiosas e gestores públicos, os casos da doença reduziram sensivelmente - http://meioambienteacaiefarinha.blogspot.com.br/2016/02/da-vontade-de-transformar-marajo-o-caso.html.
[16] Nos anos de 2013 e 2015, Curralinho figurou como o menor PIB do país  - http://g1.globo.com/pa/para/noticia/2013/12/curralinho-pa-tem-menor-pib-capita-pela-segunda-vez-seguida.html)
[18] A própria ONU assim reconhece  - https://nacoesunidas.org/pnud-erradicacao-da-pobreza-garante-desenvolvimento-e-inclusao-social-no-brasil/ . O Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas – IPEA, por sua vez, reconheceu em 2013 que cada R$1,00 investido no pobre pelo Bolsa-Família,  acrescentaria R$1,78 ao PIB Brasileiro -  http://www.valor.com.br/brasil/3305466/ipea-cada-r-1-gasto-com-bolsa-familia-adiciona-r-178-ao-pib .
[19] Núcleo de Pesquisas do Colegiado de Desenvolvimento Territorial do Marajó (NEDET), publicou valioso estudo sobre a aplicação do Bolsa-Família no Marajó - http://meioambienteacaiefarinha.blogspot.com.br/2016/06/a-influencia-do-programa-bolsa-familia.html .
[22] Ver estudos do jovem economista Clebson Santos para o municípios de Barreiras, no Estado da Bahia  - https://repositorio.ufba.br/ri/bitstream/ri/9773/1/CLEDSON%20BATISTA%20DOS%20SANTOS.pdf
[23] O Blog O Cafezinho é outro centro de jornalistas livres que guerrilham pela informação correta à população, sobretudo quanto ao Golpe de Estado que ocorreu  - http://www.revistaforum.com.br/2017/01/02/miguel-do-rosario-propaganda-federal-cresceu-107-em-dezembro/.
[24] O Jornalista Leonardo Sakamoto acompanha firmemente a luta contra o trabalho escravo no país. Publicou matéria em que “o Estado brasileiro foi considerado responsável pela violação ao direito de não ser submetido à escravidão e ao tráfico de pessoas por conta de 85 trabalhadores resgatados da fazenda Brasil Verde, no Pará, no ano 2000...”, sendo condenado pela Organização dos Estados Americanos - http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2016/12/15/brasil-e-condenado-no-ambito-da-oea-em-caso-de-trabalho-escravo/ .

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Marajó: Censo Escolar 2016 da Educação Infantil

Caríssimos,

Envio este pequeno estudo marajoara baseado no Censo Escolar 2016. Sigamos no acompanhamento da educação infantil, carinho que temos pelos pequeninos.

Na liberdade que tomei, comparei com os dados de 2014, no destaque positivo de Soure, Melgaço, Breves e Curralinho aumentando o número de matrículas tanto na creche quanto na pré-escola. 

Por outro lado, preocupa o número zero de matrículas em alguns municípios. Há de se avaliar os motivos que levam a não inscrição na creche, que rebate na formação da criança, que rebate no dia a dia dos pais.

"Se planejamentos para um ano, plantamos arroz. 
Se planejamos para dez anos, plantamos árvores. 
Se planejamos para 100 anos, preparamos pessoas".
Antigo provérbio chinês.



Para vossa análise.


Um forte abraço.



(*) fonte dos dados:  http://pesquisa.in.gov.br/imprensa/jsp/visualiza/index.jsp?data=29/09/2016&jornal=1&pagina=21&totalArquivos=768
(**) dados sistematizados por Carlos Augusto Ramos - 10 de janeiro de 2015
(***) dados sistematizados por Carlos Augusto Ramos - 26 de dezembro de 2016


TOTAL GERAL DE ALUNOS MATRICULADOS
NO MARAJÓ NA EDUCAÇÃO INFANTIL
(CRECHE E PRÉ-ESCOLA) EM 2014        21.096



TOTAL GERAL DE ALUNOS MATRICULADOS
NO MARAJÓ NA EDUCAÇÃO INFANTIL 
(CRECHE E PRÉ-ESCOLA) EM 2016 21.956










terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Lamberto, o Traumatizado: O Pastor



Lamberto que era um traumatizado
Na sua rotina de mal encorpado
Saiu de manhã pra correr por aí

"Corro, respiro, ofego, percebo"
Ali no lixão um verdadeiro sebo
Euclides, Machado, Barsa, Guarani

"Quanta barbárie da involução
Joga no lixo a educação!!
Quem se alimenta agora do ser?"

Pega a Senhora do Seu Alencar
Mesmo na mão com exercício a suar
Meio esquisito o atleta a correr

Repara um cabra lhe acompanhar
Olhos vidrados no seu carregar
Logo vem outro fazer companhia

Junta-se à eles um outro senhor
E uma senhora cantando um louvor
E nesta soma dezenas haviam

Agora Lamberto assustado esperto
Dá um Sprint ninguém mais tá perto
Ora que raios! Estão na sua cola

Corre Alencar e a sua Senhora
Lamberto bufa e cansa uma hora
Chegam os malucos não foram embora

"Deus Meu!
O que afinal desejam de mim??
Sai pra lá que eu luto tachi
Tão tachi eu sou pra ferrar!"

"Senhor!
Que milagres tu fazes então??
Com a Bíblia correndo na mão!!
És profeta pra o céu louvar!

Lamberto estava tão bem rodeado
Pensou que estava agora lascado
Ergue seu livro para a turma ver

"A capa que é dura do livro que tenho
E na sua borda a moldura desenho
É literato, de um escritor a valer!!"

"Infiel!!"
Gritou a senhora ominosa
"Brincando com a fé fervorosa
Não tens medo de não se salvar!!"

"Mas dona?
Só fiquei com um livro a correr
Confusão nunca iria querer
É pecado a mente alimentar??"

Foram embora lhe excomungando
Lamberto um minuto era quase santo
Foi pra sua casa coçando a cabeça

Meses depois vindo de sua peleja
Observa no bairro uma nova Igreja
Grande estrutura e gente à beça

Que isso meu Pai Que que isso Jesus?
"A MALHAÇÃO DA DIVINA LUZ"
Numa placa do mais puro Neón!

Homens mulheres com a Bíblia na mão
Léguas esteiras e musculação
A estupidez confundir todo eón

Desce do ônibus meu caro Lamberto
Acha na rua rasgado livreto
Desconfiado e meio encolhido

"Os Miseráveis versão reduzida"
Na sua blusa a obra escondida
Lamberto agora é subversivo

"Eu quero Vitor Hugo a sua palavra!
João Cabral Severino qual lavra?
Cavucar pra salvar minha alma!

Lerei Riobaldo e Diadorim
da Clarice Lispector assim

respeitar a si mesmo... sem trauma".






segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

À Bauman




Morreu Bauman.
Zigmunt Bauman.
Aquele que não liquefez o mundo, mas o acusou de líquido.
Uma Modernidade Líquida.
Pecamos, Bauman. Não separamos mais o sagrado tempo pessoal para nós mesmos, entregamo-lo aos lobos.
Tornou-se fácil termos amigos. Mas a conquista, que era boa, ficou fútil e supérflua.
Fomos avisados pela sua sólida passagem por esta Terra.
Não foste nota de rodapé. Seremos?
De minha parte, teimo na poesia deixar as estruturas sempre sólidas.
Pouco te conheci, muito aprendi.

Vá em paz, mestre.




Líquido

Gurupá, Rio Amazonas, 6 de novembro de 2015


Transbordou meu peito em Ais!
Não me venha com papo líquido
Descarte no ralo o sonho
Liquefez o respeito a quem te quis
Que filosofia é esta?
Assim tão passageira
O amor não te foi sólido?
Meu travesseiro encharcou

Não tão líquido
O primeiro estágio é a negação
Ah disgrama!
O segundo estágio é a ira então
Foi tão rápido
O terceiro estágio negociação
Foi tão líquido
O quarto estágio é a depressão

De uma tristeza que inundou o lar
Não havia esteios que suportassem
Tal enxurrada
Foi me a vida arrastada a esmo
Mas é assim mesmo
No banho-maria que foste
Pouco efeito fizeste
Saudade tive do que não houve

Não não pode!
O primeiro estágio é a negação
Cobardia!!
O segundo estágio é a ira então
Voltas um dia?
O terceiro estágio negociação
Eita nós
O quarto estágio é a depressão

Fui um lago
O quarto estágio é a depressão
São canais
O quinto estágio é a aceitação
Sou um rio
Sugiro estágio a percepção
Afluente é o mundo
O novo passo é a redenção


Pantoja Ramos


O Açaí é antes de tudo...


sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

1944-1954: Dez Anos na Guatemala


Para entendermos o que se passa no Brasil nos últimos anos, convêm olhar o que acontecera em outros países. Tragédia e Farsa fazem parte do método dos poderosos para subjugar a população.

Vejamos o caso da Guatemala, entre os anos de 1944 e 1954.

Algo semelhante para nós?


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1944-1954 - Dez anos na Guatemala (*)

  
“Enquanto eu for presidente, não outorgarei liberdade de imprensa nem de associação, porque o povo da Guatemala não está preparado para a democracia e necessita de um pulso forte”.

Esta declaração foi feita pelo ditador guatemalteco Jorge Ubico, cinco dias antes de sua queda, em 1944. A ditadura do general Ubico dominou a Guatemala durante 13 anos (1931-1944), encerrando o chamado ciclo de governos liberais, que abriram o país ao capital estrangeiro e estiveram no poder, com breves interrupções, desde 1871.

O governo Ubico é derrubado por uma frente formada por comerciantes, outros setores da pequena burguesia, profissionais liberais e estudantes. Os trabalhadores participam do movimento, mas sua representação política é fraca, pois até então nunca puderam se organizar de modo expressivo.
                                        

Com a queda do ditador, assume um triunvirato e, em seguida, o general Ponce, que se compromete a convocar eleições. Iniciam-se assim os chamados Cem Dias de Organização. Às pressas, as correntes políticas representativas das diversas classes vão criando seus partidos, e os trabalhadores, fundando seus sindicatos. Os exilados regressam, a vida política se intensifica e os comunistas (ainda que não reconhecidos legalmente) passam a ser tolerados.

Em poucos meses, Ponce tenta um golpe que fracassa: as classes que esperavam as eleições se insurgem. É a Revolução de Outubro. Durante a Insurreição, são armados os estudantes, os comerciantes e os trabalhadores, que instituem um novo triunvirato: JacoboÁrbenz Guzmán (capitão do Exército), Jorge Toriello (comerciante) e Francisco Javier Arana (comandante da Divisão de Tanques e responsável pela cisão do Exército durante o levante).

São marcadas eleições gerais e surge como presidente Juan José ArévaloBermejo, um professor universitário de 40 anos, parte dos quais viveu exilado. Sua base social era fundamentalmente a pequena burguesia, profissionais liberais e outros setores médios urbanos. À sua orientação filosófica, dava o nome de Socialismo Espiritual. Durante seu governo é convocada uma Constituinte que, tendo como base a Constituição dos EUA, a Constituição Revolucionária Mexicana de 1917 e a Constituição Soviética, elabora a Constituição Guatemalteca de 1945.

O novo presidente encontra a Guatemala dominada por companhias estrangeiras, particularmente estadunidenses. Só a American FruitCompany dominava uma extensa propriedade que se estendia do Atlântico ao Pacífico, onde atuava quase como um governo paralelo: mais de 40 mil guatemaltecos dependiam direta ou indiretamente dessa empresa. Além disso¬, La Frutera, como era chamada, era a acionista majoritária da International Railways of Central America, tinha o monopólio da navegação (nas duas costas), possuía e administrava as instalações portuárias e, através de uma subsidiária, fiscalizava as comunicações telegráficas do país.
                                     

Frente a esse quadro, longe de combater os comunistas, Arévalo procura se aproximar deles. Em sua opinião, “enquanto o imperialismo da União Soviética era uma ameaça potencial, a ameaça do norte-americano era imediata e palpável”.

Durante seu governo, os sindicatos de trabalhadores são fortalecidos e, paulatinamente, vão se transformando na principal base do poder.

No pleito presidencial de 1950, Arévalo e as forças que o apoiavam elegem seu sucessor, JacoboÁrbenz. Este, segundo os estudiosos, foi o governo de maior base popular que a Guatemala conhecera desde a conquista espanhola do século 16.

Os sindicatos urbanos e rurais aprofundaram sua organização, estruturando-se horizontalmente em duas grandes centrais: a Confederação Geral dos Trabalhadores da Guatemala e a Confederação Geral Camponesa.

Os comunistas continuaram a atuar intensamente e muitos deles chegaram a assessorar Árbenz que, como Arévalo, nunca foi comunista. A aliança de ambos com os comunistas, no entanto, pode ser facilmente entendida: o desenvolvimento do capitalismo guatemalteco exigia a resistência a sérios interesses estrangeiros, como, por exemplo, a United Fruit. Para isto, os representantes dos capitais nacionais (ou dos programas políticos que pretendiam apenas seu desenvol¬vimento) deveriam, desde logo, se aliar e buscar o apoio das organizações (profissionais, sindicais, partidárias e outras) que tinham como base os trabalhadores. Além disto, em consequência do papel desempenhado pelo Exército Vermelho e das resistên¬cias comunistas e socialistas na Europa, durante a Segunda Guerra, na derrota do nazi-fascismo, grande parcela da intelectuali¬dade e dos técnicos guatemaltecos se inclinava para a esquerda. Isto explica, em grande parte, que os elementos mais capacitados para assessorar os dois governos fossem recrutados entre comunistas ou, pelo menos, entre seus simpatizantes. Chamamos a atenção, porém, que a eleição de Árbenz coincide com o início da Guerra Fria.

O fato é que as centrais de trabalhadores do campo e da cidade crescem e um sentimento anti-imperialista e nacionalista toma conta do país. Tanto aos que tinham como perspectiva apenas o desenvolvimento de um capitalismo guatemal¬teco, quanto aos que (para além deste horizonte) pretendiam uma revolução socialista/comunista, colocava-se a necessidade de uma reforma agrária. Esta era a palavra de ordem.

Era também a primeira vez que, desde a chegada dos espanhóis, os índios (descendentes dos maia-quiché e que representavam quase 60% da população, contra 10% de brancos e 30% de ladinos – os mestiços) – eram chamados a participar enquanto sujeitos do processo político. A palavra de ordem que os sensibilizava era a propriedade da terra: os índios viviam encurralados nas montanhas, em terras exíguas e pobres. Os brancos (nativos e estrangeiros) ocupavam as planícies, férteis e vastas.


Em 1954, com a reforma agrária em curso, o país está tensionado e dividido. De um lado, as forças que compunham o Governo e internamente hegemônicas: nacionalistas, socialistas e comunistas, organizações de trabalhadores da cidade e do campo (entre estes, a população indígena) e o Exército. Do outro, enfraquecidos, os latifundiários, os comerciantes, amplos setores da pequena burguesia urbana, a Igreja Católica e todos os que mantinham seus interesses políticos/econômicos vinculados a empresas estrangeiras, especialmente à United Fruit.

Incapazes de agir contando apenas com as forças internas, os opositores e a Frutera passam a apostar numa intervenção externa.




Desde meados de 1953, o governo do presidente IkeEisenhower (EUA), através de seu secretário de Estado, Foster Dulles, intensifica a campanha internacional que já desenvolvia contra a Guatemala. A conspiração se articulava fundamentalmente em três frentes: ações diplomáticas, ações de propaganda e organização de uma força militar externa, composta de mercenários recrutados entre o lumpemproletariado¬ e delinquentes dos países da região.

Em 30 de dezembro daquele ano (1953), o presidente Jacobo Árbenz divulga um comunicado oficial, com centenas de cópias de trechos de documentos apreendidos pelas autoridades guatemaltecas, que implicavam três ditadores latino-americanos – Anastasio Somoza (Nicarágua), Rafael Trujillo (República Dominicana) e Perez Jimenez (Venezuela) – na preparação de um golpe contra seu governo. O comunicado denuncia compra de aviões, armas e munições (inclusive bombas de napalm) pelos generais guatemaltecos Miguel Idigeras Fuentes e Carlos Castillo Armas (ambos exilados em Honduras), através de uma empresa da família Somoza. O comunicado encerra descrevendo resumidamente um plano de invasão: 

“Desembarque nas costas do Pacífico com tropas trazidas de portos nicaraguenses (...); apoio aéreo mediante bombardeio das povoações e aterrisagem em aeroportos particulares do Pacífico: posse dos pontos-chave (...); ataques simultâneos pela fronteira de Honduras (...), onde estão comprometidas todas as autoridades militares dessas populações”. Exatamente¬ este plano foi posto em prática, seis meses depois, sem qualquer alteração ou pejo, pela United Fruit, pelo secretário de Estado Foster Dulles, pela elite econômica e de direita guatemaltecas, respaldados por um exército de mercenários.


Entre outras ações, para a formação de uma força militar sob a direção de Castillo Armas, foram afixados, nas capitais do Caribe, cartazes para o recrutamento de mercenários, prometendo um bom pagamento e acenando com o butim.

Em Honduras, o aliciamento de todo tipo de marginais era feito de modo tão desabrido, que provocou a reação dos estudantes. Resultado: o governo hondurenho determinou a ocupação militar da universidade. Prisões em massa. 

Em Bogotá, agentes da Frutera estabeleceram um escritório no centro da cidade, para atendimento de todos os que quisessem fazer fortuna rápida na invasão da Guatemala. 

Na Nicarágua, o ditador Anastasio Somoza simulou um atentado contra si próprio, atribuído – de forma orquestrada – pelo seu Governo e pelo Departamento de Estado de Washington, ao Governo Árbenz.




Mas, se esta era a parte visível da operação, restava ainda uma série de tarefas de preparação da infraestrutura bélica articuladas diretamente por militares de Washington. Na base estadunidense no Panamá, concentraram-se as providências¬ para os ataques aéreos: pilotos e outros especialistas das forças armadas estadunidenses, aviões, armamentos, munições e outros equipamentos de guerra. Alguns destes, a serem usados na data escolhida para a invasão. Outros deveriam chegar às mãos dos articuladores do golpe em território guatemalteco com alguma antecedência.
                  

Dentre as iniciativas diplomáticas, certamente a de maior expressão foi a 10a Conferência Interamericana de Consulta, reunida em 3 de março de 1954, em Caracas, e destinada a “estudar a penetração do comunismo na América Latina”, manipulada por Foster Dulles, tendo como grande aliado (ao lado dos Somoza, Trujillo, Jimenez e outros do mesmo naipe) o chanceler brasileiro Vicente Rao. O documento final, que contou em sua aprovação com apenas duas abstenções (México e Costa Rica) e o voto contrário da Guatemala, isolava o governo Árbenz.

Os meios de comunicação latino-americanos, as agências noticiosas e as grandes mídias ocidentais transformaram-se em caixas de ressonância da política, versões e calúnias de Washington contra a Guatemala, e do “perigo comunista que rondava a América Latina”. No Brasil, os principais guardiões da Pax Americana foram os jornais O Globo, O Estado de S. Paulo, os Diários Associados e a Tribuna da Imprensa. Entre as mais virulentas personalidades públicas brasileiras que abraçaram a campanha, estava, como era de se esperar, o jornalista e deputado Carlos Lacerda. 

Por fim, às 18h30 de 18 de junho de 1954, a rádio Voz da Guatemala transmite para todo o mundo o comunicado de Guillermo Garrido Toriello, chanceler da Guatemala: “Neste momento, meu país foi invadido”.
Iniciava-se uma grande chacina.

Com a queda de Árbenz, assume o governo Carlos Enrique Diez, imediatamente substituído pelo general Castillo Armas que, três anos mais tarde, seria assassinado por uma das sentinelas do seu palácio.


Bibliografia
CARPEAUX, Otto Maria. O romance como poema e a ditadura como realidade. Introdução in O Senhor Presidente, Miguel ÁngelAsturias, 7a. edição. São Paulo. Brasiliense. 1974. FILHO, O. C. Louzada. A parábola do grande e do pequeno. Prefácio in Week-End na Guatemala, Miguel ÁngelAsturias. São Paulo. Brasiliense. 1968. 


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(*) NOTA DO AUTOR
Este texto foi publicado originalmente com este mesmo título, como Apêndice, na edição da Expressão Popular (2002) do livro “Week-end na Guatemala”, do escritor guatemalteco Miguel Ángel Asturias.