segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Recomendações da FAO Sobre o Uso Florestal Sustentável Para Segurança Alimentar e Nutrição

Bacurizeiro em Ponta de Pedras. 2017. Foto: Carlos Ramos.


Caríssim@s,
Apresento para conhecimento a Introdução do Relatório da 44ª Sessão da Comissão Internacional Sobre Segurança Alimentar, ocorrida em Roma, de 9 a 13 de outubro de 2017.
 
Sessão "Fazendo a Diferença na Segurança Alimentar e Nutrição"
 
 
RECOMENDAÇÕES SOBRE O USO FLORESTAL SUSTENTÁVEL PARA SEGURANÇA ALIMENTAR E NUTRIÇÃO
 
Introdução:
 
“1 - Florestas e árvores, na sua diversidade de ecossistemas, percepções e usos humanos, contribuem direta e indiretamente para a segurança alimentar e nutrição (Food Security and Nutrition - FSN) de várias formas e em diferentes níveis.
 
Estas contribuições variam de acordo com os tipos de florestas e a forma como são geridas. Alimentos florestais contribuem para a qualidade e diversidade da dieta e servem como redes de segurança em períodos de escassez de alimentos para aqueles diretamente dependem das florestas para seus meios de subsistência. Elas também desempenham papel importante para a população em tempos de crise.
 
Os alimentos selvagens das florestas fornecem alimentos nutritivos e diversos para milhões de mulheres, homens e crianças do meio rural. Além disso, combustíveis que vem de árvores são fonte primária de energia para cozinhar e esterilizar água para uma em cada três famílias em todo o mundo. As florestas geram renda para as populações locais e prestam serviços essenciais para o ecossistema que por sua são essenciais para a agricultura sustentável, regulando os recursos hídricos, estabilizando e mantendo a fertilidade do solo, agindo na regulação do clima e sendo habitat para polinizadores e predadores de pragas agrícolas...”.
 
 
O relatório completo se encontra em inglês e pode ser baixado na página da internet http://www.fao.org/fileadmin/user_upload/bodies/CFS_44/MU742_4/MU742_Rev1__CFS_2017_44_4_en.pdf

 


domingo, 12 de novembro de 2017

Para os meninos e meninas que se engatam nos barcos - outubro de 2007


Para lembrar porque devemos lutar por direitos...


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Para os meninos e meninas que se engatam nos barcos

Outubro de 2007


Meu Pai do Céu
Protegei pra engatar
O meu gancho no barco
Que lá vem a passar

Eu preparo a corda
A canoa aprumar
E eu miro certeiro
O pneu acertar

Meu Pai do Céu
Consegui engatar
Me agüenta irmãozinho
Que só falta amarrar

E eu pulo no barco
O palmito mostrar
É um conto cumpadre
Pra poder me ajudar

Cresço em fel
A tardinha chegou
Com o vento bem frio
E a noite um horror

E na volta pra casa
A tormenta pegou
E se o casco se vira
Irmãozinho quedou

Cresço em fel
O meu medo passou
Os meu doze inteiro
Mais vale um avô

Pois tem homem medroso
No escuro cegou
Que se liga no luxo
E os outros esnobou

Tiro o chapéu
Pra quem vem me ajudar
Que me tira da lida
Desse duro penar

Que me bota na escola
E que vem me ensinar
Be com a be-a-bá
O que é manejar

Tiro o chapéu
Pra quem vem gargalhar
Duma prosa animada
Uma festa dançar

E esquece a má vida
O exemplo apontar
Pro irmãozinho que tenho
O caminho guiar

A vida é mel
Brincadeira eu sou
Me divirto remando
Maresia pulou

Se errei no navio
E a canoa afundou
O balanço da bicha
Dou um tchás e voltou

A vida é mel
E o sol me queimou
Camarão que levei
Minha fome catou

O que vendo não rende
Minha mãe me avisou
Ela sonha de um dia
De me ver um dotô

Meu Pai do Céu
Vou me aventurar
Nesses rios do Senhô
O Riozão enfrentar

Pois eu sei que seu Porto
É um bom de abraçar
É a melhor esperança
Nesse mundo que há

Enquanto os homens
Não aprendem a brincar
Ser criança de engate
E um sonho atracar

Açaí uns paneiro
Umas vagens de ingá
É limão é banana
Compre taperebá...

Pantoja Ramos

Publicado no site Recanto das Letras




sexta-feira, 10 de novembro de 2017

PEAEX Acangatá, Portel

Comunidade Menino Deus Lega, rio Acangatá, em comemoração à criação do PEAEX. Portel-Pa. Foto: Robson Machado.


Caríssim@s,

Hoje (10/11/2017) foi assinado pelo Governo do Estado do Pará o Decreto que cria o Projeto Estadual de Assentamento Agroextrativista Acangatá. Destinada para uso comunitário desde 2012, através do decreto 579, esta é primeira das 5 glebas estaduais de Portel que avança na regularização fundiária, na modalidade fundiária de PEAEX.




Maria Santana, presidente da Associação dos Moradores da Gleba Acangatá, na cerimônia de assinatura do decreto estadual criando o PEAEX. Ao lado, Cláudio Brito, representante do também criado PEAEX Cataiandeua, de Abaetetuba.




O decreto beneficia 485 famílias agroextrativistas num território coletivo de 62 mil hectares. Detalhe: o PEAEX já nasce com Plano de Uso dos Recursos Naturais construído e aprovado pelas comunidades locais em 2013.



Parabéns às famílias e instituições que lutaram por esta conquista!



segunda-feira, 6 de novembro de 2017

14 Reflexões Para uma Nova Filosofia de Manejo Florestal Comunitário e Familiar no Pará

Reunião na Mata do Rio Jaburu, em Gurupá, sobre o Uso Florestal da Andiroba. Foto: FASE. 2003.




14 Reflexões Para uma Nova Filosofia de Manejo Florestal Comunitário e Familiar no Pará[1]

Belém, 13 de setembro de 2017.


Caríssimas e Caríssimos,

Na tentativa de contribuir com a Política de Manejo Florestal Comunitário e Familiar do Estado do Pará, lanço a seguir algumas reflexões naquilo que entendo ser fundamental de ser considerado neste novo marco legal. Tais indicações surgiram a partir dos textos e experiências de campo que me vem à mente nestes últimos 20 anos.


1ª Reflexão – é preciso reconhecer que a floresta é algo múltiplo em seus usos e significados, no equilíbrio real do que é ambiental, social e econômico segundo o que preconiza o manejo florestal;

2ª Reflexão – Não devemos falar somente da terra que sustenta uma Floresta como a Amazônica, porém devemos nos dirigir aos territórios envolvidos e seus moradores, distintos, complexos a desafiar positivamente a ciência para nos evoluir;

3ª Reflexão – As Mulheres a Floresta possuem forte interação e é preciso que as políticas voltadas para o manejo florestal reflitam isso;

4ª Reflexão - O ordenamento territorial prévio à aprovação de planos de manejo florestal deverá ocorrer de maneira a respeitar o que consagra o Estatuto da Terra e a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho;

5ª Reflexão – é preciso exercitar novas terminologias em substituição aos termos produtos madeireiros ou não madeireiros, que remontam à ideia se uma árvore deve ou não cair; dada a sua importância para a vida, precisamos olhar os produtos florestais como Bens e Serviços da Floresta (BSFs);

6ª Reflexão – é necessário ter o entendimento que o manejo de açaizais nativos, de cipós, de cascas, de óleos ou de sementes florestais tem o mesmo ou quem sabe maior valor ao uso madeireiro da floresta; sair do puro extrativismo para o manejo florestal comunitário e familiar destes produtos é alavancar a Amazônia para um novo patamar civilizatório, de Bem-Viver e cidadão;

7ª Reflexão – Não se deve permitir a aprovação de planos de manejo florestais madeireiros em áreas comunitárias que tenham como método de extração a Unidade de Produção Anual Única (UPA Única) ou de poucas UPAS, impedidoras da geração prontamente posterior em usufruir os recursos florestais antes disponíveis; o ciclo de corte precisa estar exigido nos planos de manejo madeireiros;

8ª Reflexão – É necessário que instrumentos como Planos de Uso Comunitário dos Recursos Naturais e Protocolos Comunitários estejam entre as condicionantes para emissão da Autorização Prévia à Análise Técnica (Apat) de Plano de Manejo Florestal Sustentável (PMFS); são ferramentas de comprovação de organização social para proteger a natureza e os direitos dos povos da floresta;

9ª Reflexão – No caso do manejo florestal comunitário e familiar madeireiro terceirizar suas atividades operacionais, a comunidade deve ser a protagonista das decisões, responsável direta por sua gestão e acompanhamento das atividades; recomenda-se que haja um tempo de incubação (2 anos minimamente) para a formação das famílias em noções básicas sobre o processo de manejo florestal madeireiro, suas responsabilidades e a diferença de escala entre o volume trabalhado por uma empresa madeireira e a escala de bem-viver que a comunidade deseja ou convive; que haja contrato firmado entre as partes com acompanhamento do ministério público e defensoria pública;

10ª Reflexão – é mister que os municípios estejam participando dos processos de elaboração e monitoramento das diversas formas de manejo da floresta e agrofloresta;

11ª Reflexão – para cada ecossistema uma forma de manejo florestal que comprove a sua sustentabilidade ambiental, sejam florestas de terra-firme, sejam florestas de várzea; apesar da base científica de manejo florestal que detemos, esta ainda possui como preponderância o pensamento do sul do país, EUA e Europa, não correspondentes à intrincada realidade da Floresta Amazônica e da tecnologia tradicional de seus Povos;

12ª Reflexão – é moralmente necessário que as casas das famílias onde se pratica o manejo florestal comunitário madeireiro sejam dignas para comportar seus moradores; que haja programas de aquisição de madeira manejada para destinação às famílias com comprovada necessidade de moradia; uma mãe que habita no interior de Estado tão rico de florestas nunca deveria morar numa casa que não protegesse seus filhos.

13ª Reflexão – A educação florestal precisa ser incentivada a partir de centros de treinamento em manejo florestal ou no apoio às comunidades tradicionais que funciona como verdadeiras “escolas da floresta”; a educação florestal não pode ficar restrita somente nas universidades e institutos federais: precisa chegar à escola fundamental e média, não com peso técnico, mas sobretudo para ofertar o conceito de que a floresta é um bem comum aos brasileiros, consagrado no artigo 2° do Código Florestal Brasileiro;

14ª Reflexão - Toda política objetiva cuidar com zelo daquilo que é bem de todos, conceito valioso segundo Mahatma Gandhi. O Manejo Florestal Comunitário e Familiar precisa de uma Política e de homens e mulheres que a construam!


Estas foram as minhas contribuições.                                                                         

Cordialmente nesta “Florasofia”,

Carlos Augusto Ramos[2].







[1] Texto enviado como contribuição à Oficina de Construção da Política de Manejo Florestal Comunitário e Familiar no Estado do Pará, dias 14 e 15 de setembro de 2017, na sede do Batalhão de Política Ambiental, Parque do Utinga, Belém-Pa.
[2] Engenheiro Florestal, Consultor Socioambiental.



sábado, 4 de novembro de 2017

AÇÃO ENTRE AMIGOS DO RUBÃO!


Foto: OELA.



Amigos, nosso amigo querido Rubens Gomes, como chamamos carinhosamente de Rubão, está em tratamento da Enfisema e da FPI( Fibrose Pulmonar Idiopática) e ele precisa do nosso gesto solidário para conseguir o único remédio que é necessário ao tratamento a doença que é o PIRFENIDONA 267mg, produzido no Brasil exclusivamente pelo Laboratório Roche, com o nome comercial de “Esbriet”, ao custo mínimo de R$ 9.650,00 para apenas um mês. https://consultaremedios.com.br/pirfenidona/bula/para-que-serve)

Está em tramitação junto à Defensoria Pública, um processo para garantir o fornecimento gratuito da medicação, mas como a vida não pode esperar, pedimos a solidariedade de amigos para custeá-lo por pelo menos 3 meses; tempo mínimo para encaminhamento das providências necessárias à inclusão do Rubão na Lista de Espera para Transplantes de Pulmão.

Como você pode ajudar?

1.Doando o medicamento e fazendo-o chegar até Manaus-AM: você pode conhecer alguém que fez uso do medicamento e hoje não mais necessita dele, por exemplo.

2.Efetuando o depósito de qualquer valor na conta corrente abaixo, com a indicação “RUBÃO”. Esta conta é de titularidade do pai da Jéssica Freitas, esposa do Rubão.

LUZINAR PAULA DA CRUZ
CPF. 388.721.292-49
BANCO ITAÚ
AG. 4216
CONTA CORRENTE. 08761 1

Pedimos que ao fazer o depósito em conta corrente, encaminhar o comprovante ou mensagem para o whatsapp da Jéssica (92) 9433-4596 para facilitar o controle e administração dos recursos.

Você também pode ajudar, apoiando a interlocução junto aos seguintes hospitais de referência para que seja feita a consulta avaliadora para inclusão do Rubão na Lista Nacional de Transplantes:

•Santa Casa de Misericórdia - Porto Alegre-RS
•Hospital de Clinicas de Porto Alegre-RS
•Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da USP (Incor) – São Paulo-SP
•Hospital de Messejana Dr. Carlos Alberto Studart  Gomes – Fortaleza-CE

Contamos com o seu apoio e carinho!


AÇÃO ENTRE AMIGOS DO RUBÃO!




Rubens Gomes é o fundador de uma das melhores iniciativas amazônicas de cuidados com as crianças carentes: a Oficina Escola de Lutheria da Amazônia – OELA. 

A OELA é uma entidade de direito privado sem fins lucrativos (ONG), que desenvolve ações de educação para sociedades sustentáveis, pautada na pedagogia paulofreiniana, de cunho participativo, de educação popular cidadã e socioambiental. 

Nascida em 20 de março de 1998 pelo seu fundador, Rubens Gomes, no bairro Zumbi dos Palmares, em Manaus, o primeiro projeto da OELA foi a lutheria, produção de instrumentos musicais de cordas dedilhadas e caixa de ressonância, com uso de madeiras amazônicas manejadas e certificadas, conseguinte abrangeu os cursos de informática básica e avançada, desenho artístico, inglês, assistente administrativo, contabilidade básica, empreendedorismo, reforço escolar, alfabetização de adultos, preparação para o mercado de varejo, bem como os projetos de apoio sócio - pedagógicos, oficinas de educação ambiental, atendimento psicossocial (segurança e acolhida, segurança de convívio familiar e comunitário, desenvolvimento da autonomia: trabalho e geração de renda, monitoramento e avaliação do serviço).

Hoje mais de dois mil alunos passam anualmente pela OELA, os quais estão matriculados no ensino regular da rede pública do ensino fundamental e médio; vale ressaltar que os cursos ofertados na associação são atividades complementares a estas crianças e adolescentes. Com a frequência desses jovens nas atividades, eles desenvolvem e aprimoram suas qualidades intelectuais, como raciocínio lógico, habilidades nas operações matemáticas, gosto pela pesquisa, bem como valores fundamentais de solidariedade e respeito com os seus colegas e o meio ambiente. 


Força Mano Velho!!

Conheça a OELA em http://www.oela.org.br/quemsomos





domingo, 29 de outubro de 2017

Crônicas do Corte: É Necessária Uma Nova Certificação Florestal Para a Amazônia

Sementes de Andiroba, Rio Jaburu, Gurupá-Pa. Foto: FASE.



Belém, 29 de outubro de 2017.


Carlos Augusto Ramos[1]



Em setembro de 2015, escrevi sobre a certificação florestal[2], voltando-me para a certificação FSC (que significa em inglês Forest Stewardship Council e em português Conselho de Manejo Florestal), cuja sede internacional localiza-se em Bonn, na Alemanha[3]. Sua correspondente no Brasil (FSC Brasil) tem como missão “difundir e facilitar o bom manejo das florestas brasileiras conforme Princípios e Critérios que conciliam as salvaguardas ecológicas com os benefícios sociais e a viabilidade econômica”[4].

Nos dois últimos anos, venho pensando sobre a estrutura de garantia dos mercados em obter produtos florestais advindos do atendimento dos princípios e critérios apontados pelo FSC, a maior certificadora no mundo deste gênero. Cruzei pensamento com a capacidade de resposta aos questionamentos de comunidades da floresta amazônica sobre esta certificação dada às empresas que atuam adjacentemente. Raciocinando também sobre a preponderância[5] (esta é melhor palavra pelo seu significado) da extração de madeira, dos atores envolvidos em suas câmaras (econômica, ambiental e social) e dos plantios de eucaliptos, recomendo um caminho que leve a uma nova certificação florestal.

Mas calma. Permitam-me explicar que não trago considerações oito ou oitenta sobre o tema.

Para o GreenPeace (entidade conhecida pela sua forte pegada ambientalista), o FSC é o principal padrão de certificação responsável de florestas, atuando em 80 países, em 5 continentes. Informa esta organização que até 2013, 7% das áreas florestais do mundo - cerca de 180 milhões de hectares (aproximadamente o mesmo tamanho da Indonésia) – eram certificadas pelo FSC[6]. Os pequenos produtores e comunidades gerenciavam naquele momento 24% de todos os certificados de manejo florestal do FSC.

No Pará, a Associação Comunitária de Desenvolvimento Sustentável do Rio Arimum (ASCDESRA) e a Cooperativa Mista Agroextrativista Nossa Senhora do Perpétuo Socorro (COOMNSPRA), rio Arimum, em Porto de Moz, são iniciativas comunitárias que mostram ao público através da certificação FSC que é competente para realizar o manejo comunitário madeireiro de suas florestas. O aperfeiçoamento da logística de manejo florestal é um dos principais resultados que o processo de certificação promovera nesta comunidade, com ressonância em toda a Reserva Extrativista Verde-Para-Sempre. Tecnicamente, o manejo florestal da comunidade de Arimum é exemplo a ser seguido, inclusive pelas inúmeras empresas paraenses que possuem planos de manejo florestais madeireiros aprovados legalmente, mas imorais quanto ao impacto que causam.

A certificação FSC tem suas qualidades e ajudou muitos países a disciplinar o uso de suas florestas e promover o reflorestamento como no caso da Índia[7]. Então por que outros sistemas de certificação florestal são necessários se este megaconsórcio funciona há décadas? É simples: Por ser mega e preponderante (lá vai eu encasquetar com esta palavra novamente).

Estabelecido há quase 20 anos, o FSC é amplamente reconhecido como o padrão de certificação global mais alto para o manejo florestal. Contudo, como este vem crescendo rapidamente, cresce também as falhas de interpretação dos padrões que exige, o que resulta em um número crescente de certificados sendo concedidos a operações controversas de manejo florestal. Um alerta desta problemática é o que ocorreu na Floresta Nacional de Saracá-Taquera, no rio Trombetas, Oeste do Pará, onde Ministério Público Federal no Pará (MPF/PA) ajuizou ação civil pública contra empresas madeireiras e instituição certificadora, acusadas de não cumprir as regras do selo FSC conforme previsão[8].

Casos existem em Almeirim[9] e no Espírito Santo[10] que eu testemunhei onde a certificação florestal FSC não dialogou em qualidade com o contexto local e não teve os devidos cuidados no quesito respeito a povos e comunidades tradicionais. Também há situações em que empresas madeireiras certificadas em determinadas áreas são bastante questionadas pela população rural em outros rincões. São reclamações de relacionamento com o morador tradicional da floresta e até mesmo de operações de manejo transgredidas com tal gravidade que deveriam ter tratamento sumário de cancelamento do selo verde[11].

Como toda monocultura é uma afronta à natureza, seja de planta, seja de gente[12], eis que o FSC está a passos largos (a não ser que façam uma profunda reflexão) na homogeneização de ditames que não são da realidade apropriada dos meios de vida locais. Por tal, surge a necessidade de construir formas mais regionalizadas e de uso múltiplo da floresta que digam como deve ser o manejo florestal, seja comunitário, seja empresarial. Seria tolice pensar em eliminação do FSC, mas é preciso opções para competir, orientar, ser alternativa, o que forçaria o FSC a também a se aperfeiçoar. Como não levar em conta que o açaí, maior representante comercial no Brasil entre os produtos de origem vegetal[13], precisaria de uma avaliação de qualidade e princípios feitos principalmente pelo território que o produz? Uma vez que os marajoaras disseram NÃO à pecuária como principal atividade tradicional de sua região e SIM às suas formas tradicionais de uso da floresta (onde o açaí tem destaque)[14], tenho a intuição que é possível uma certificação participativa, territorial e de caráter mais holístico, como já ocorre em outros lugares do país[15].

Dos estudos que faço, aprendo todos os dias que se por um lado, outras certificações de origem como a orgânica afunilam de tal forma seus reconhecimentos a ponto de encarecer e até mesmo elitizar quem é certificável, por outro observo que há um movimento de valorização daquilo que é regional e histórico como no exemplo dos Engenhos de Farinha de Mandioca de Santa Catarina[16], uma maneira também de “autocertificação”. Além disso, no enriquecimento do debate, outras certificações internacionais parecem entender que existem princípios universais a serem seguidos pelo mercado, com peso significativo ao respeito aos povos e comunidades tradicionais. A SA8000 segue este norte, tratando-se de “...norma voluntária que se baseia em Convenções da OIT - Organização Internacional do Trabalho, na Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da Criança, e na Declaração Universal dos Direitos Humanos[17]”. Cabe também um destaque para a International Analog Forestry Network, na tradução algo como Rede Internacional de Silvicultura Analógica, de sede na Costa Rica, que visa restaurar a produtividade de terras degradadas e construir novas fontes de renda e alimentos para as populações locais. A IAFN também colabora com agricultores familiares e comunidades para manter e restaurar suas florestas e melhorar sua renda e subsistência, inclusive com certificação de produtos[18].

As referências mencionadas anteriormente são apenas uma mostra das oportunidades existentes para motivar construções sobretudo amazônidas de certificações territoriais, na prerrogativa de dizer aos mercados nacionais e internacionais sobre nossas capacidades de proteger nossos recursos naturais e conhecimento tradicional. Com a aprovação da Lei 13.123, de 20 de maio de 2015, que fragiliza o debate sobre a proteção do patrimônio genético e conhecimento tradicional associado, é tempo de movimentar e articular para a defesa de territórios amazônicos.

Mais do que consumidores, precisamos de parceiros conscientes do que se compra e do que se vende, na relação justa das coisas e consequências. Diariamente vigilantes.

Antes do que altas certificações externas, precisamos que o local e as instituições envolvidas entendam os produtos florestais como bens e serviços da vida e que não se apresse o fechamento de negócios sem uma devida e consistente discussão.

Mais do que consultores de alto gabarito, precisamos de lideranças comunitárias e técnicos articuladores fazendo este trabalho de esclarecimento à sociedade e evoluindo a ciência florestal.

É necessário ofertar procedência dos frutos de açaí, do óleo de andiroba, da madeira manejada, do pescado, etc., a partir da voz local. Até então eu, ignorante que sempre sou, apontava o decreto fundiário e o GPS como ferramentas de segurança da terra. Hoje vejo que um paneiro de açaí que alimenta uma família, uma tapioca feita para uma criança merendar na escola e uma tábua de pracuúba que empareda uma casa também são instrumentos de defesa de territórios.

É mister enriquecer o manejo florestal através de múltiplas formas de uso e de agentes verificadores também diversos, democratizando os meios de comunicação para que as informações cheguem ao maior número de pessoas sobre as ações praticadas.  

Tenho certeza que todos ganharão, até mesmo o FSC, com as lições e aprendizados que irão surgir.


Então, trabalhemos para isso. Abicorados.



 


[1] Engenheiro Florestal, Consultor Socioambiental; e-mail: pantojaramos@gmail.com
[5] No dicionário http://michaelis.uol.com.br/moderno-portugues/busca/portugues-brasileiro/preponderancia/ - Estado ou condição de preponderante; hegemonia, predomínio, supremacia.
[9] Ver o ótimo texto de Rogério Almeida em https://apublica.org/2015/02/empate-no-jari/
[14] Numa grande mobilização no Marajó, entidades ligadas à Igreja e Sindicato dos Trabalhadores Rurais articularam um abaixo-assinado contra o Projeto de Lei 107, que estabelecia a pecuária como principal atividade tradicional no Marajó. Foram 6 mil assinaturas de punho. A PL foi arquivada.
[15] Um exemplo é a Rede EcoVida de Agroecologia, no Rio Grande do Sul, onde os agricultores em vez de dependerem de grandes auditorias, conseguem seus selos de alimento orgânico fiscalizando uns aos outros. É um processo baseado em confiança, sem hierarquias — e potencialmente econômico. Enquanto a certificação por auditoria chega a R$ 3 mil anuais por agricultor, a participativa fica na média de R$ 80 - http://www.organicsnet.com.br/2012/06/rede-ecovida-e-a-certificacao-participativa/ .

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Projeto Lançante: Marinete Boulhosa, Lente, Etnografia e Veredas Marajoaras



Marinete Silva Boulhosa é bacharel em turismo e mestre em antropologia e professora do Instituto Federal do Pará - IFPA, Campus Belém. Atua na área de turismo, planejamento, organização e execução de eventos. Nascida em Cacheira do Arari, desde 1997 desenvolve pesquisas na área do turismo, educação ambiental, ecoturismo, turismo rural, cultura imaterial, identidade e antropologia cultural, tendo o Marajó como local de investigação.



Tem na fotografia documental um de seus principais recursos de coleta, testemunha ilustrativa e explicação textual, e considera a fotografia importante recurso, capaz de contribuir para ensinar, explicar e reapresentar uma cena ou um evento. Em sua pesquisa de mestrado, produziu mais de três mil fotos sobre o vaqueiro e dos campos do Marajó.

Sua principal obra, Entre a Sela e o Santo, é um livro elaborado a partir de um intenso trabalho etnográfico sobre a vida e a lida do vaqueiro marajoara, construída entre os cenários dos vastos campos naturais da Ilha do Marajó, dos espaços das fazendas da grande ilha, da dinâmica de trabalho no interior das mesmas e do maior evento religioso da Ilha, a Festividade de São Sebastião de Cachoeira do Arari. 




Abaixo, trecho desta obra:

"... Com a liberdade permitida na abordagem antropológica, esse livro é escrito na primeira pessoa, que para além de revelar meu imbricamento com a obra, manifesta também a relação umbilical que possuo com a terra Marajó...".



Marinete Boulhosa, conte mais pra gente sobre o Marajó com suas lentes e alma!


Para contatos e colaboração com a publicação Entre a Sela e o Santo
entrar em contato no e-mail: neteboulhosa@gmail.com .


















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O Projeto Lançante é uma iniciativa do Blog Meio Ambiente, Açaí e Farinha de divulgação de ilustres pensadores do Marajó e jovens que começam na arte da escrita.

Leia, escreva, cresça e apareça!


Vamos Lançante, inundai mundo afora!