sábado, 21 de março de 2026

Esperançar é ter fé e não deixar a liça


 

Início este texto respondendo a uma pergunta que me fazem com frequência: por que militante da CEPLAC?  Respondo: - porque nessa Organização me fiz adepto do pensamento social contrário ao conservadorismo assentado na classe capitalista agrária-rural e no rentismo exagerado da economia cacaueira, condições caminhantes na contramão de uma vida digna para todos; persisto nesse pensamento, sem perspectiva de mudar de lado.

Aproprio-me do verbo Esperançar, que é movimentar-se, é sair do lugar, é exercitar um ativismo social e político buscando minimizar as contradições que permeiam a vida cristã, advindas do sistema capitalista de produção que, ao lado do reconhecido bem-estar, não abre mão em favorecer todo tipo de sortilégio de mal estar social e político, como guerras territoriais, tragédias ambientais, violência urbana e rural desmedidas, desigualdades do poder econômico e financeiro, a homogeneidade político-partidária impregnada de ismos (neonazismo, fascismo, militarismo), dentre outros, com seus males.

Embora não tenham o mesmo sentido, esperançar e esperança andam juntas; são irmãs siamesas. Nas tragédias diluvianas do mundo do ‘dinheiro pelo dinheiro’ a exaltação financeira da vida brada mais alto que a própria vida. As tragédias advindas, quando temperadas com Fé, é o que resta ao cristão desejoso da paz e da distribuição da riqueza e do bem estar.

O Papa Francisco I enfatizou a importância da esperança como uma virtude teologal fundamental. E várias cartas encíclicas da igreja católica abordaram a questão. Paulo VI, quando escreveu a sua carta “Populorum Progressio (Progresso dos Povos), nos fez refletir, à luz da esperança, sobre as nossas aspirações como seres humanos, sobre os desequilíbrios crescentes impulsionados pelos autos mecanismos de exclusão, arrastando o mundo para muito mais agravos do que atenuação das disparidades sociais.

Assim, esperançar é “cultivar a esperança como prática ativa e transformadora, não apenas aguardar passivamente por mudanças”. Paulo Freire, notável educador brasileiro, mundialmente reconhecido e agraciado, um cristão de nomeado olhar humano, nos ensina sobre essas expressões gêmeas: é preciso ter esperança, ele diz, “mas ter esperança do verbo esperançar, porque tem gente que tem esperança do verbo esperar. E esperança do verbo esperar não é esperançar, é espera”.

Esperançar é se levantar, é não desistir! É juntar-se com outros para fazer de outro modo. Esperançar é coletivizar-se para encontrar a unidade desejada da Laudato Sí, de Francisco.  Nessa Carta, Francisco lança um convite para um debate que nos una em torno das políticas nacionais, que favoreçam transparência nos processos decisórios; um debate que junte a filosofia, a religião e a ciência, mas sem as espetacularidades da última ou os dogmas religiosos. Conversas dialógicas mobilizando a filosofia que nos retire das cavernas onde ainda vivemos, com os mitos que nos enganam. Conversas que retornem às éticas dos filósofos construtores do pensamento moderno, a exemplo de Baruch Spinoza, cujas ideias mostram a realidade do Deus sive Natura (Deus isto é Natureza), e coloca o Homo sapiens como parte da natureza, arrepiando o clero e a ciência mecanicista das domesticações fordistas, dos pacotes tecnológicos, e das hibridações.

Nenhum ecossistema mundial precisa tanto dessa reflexão como a Amazônia continental e planetária, como uma manifestação dessa substancia única e infinita contida na expressão Spinozina. A Amazônia é um mundo multiétnico, multicultural e multirreligioso, visível nas práticas religiosas e sociais, sem as afetações do mercado financeiro e político.  A COP 30 recém realizada no Brasil, não conseguiu dar conta de todos os temas propostos e mesmo necessários para discussão ou encaminhamentos de soluções; mas todos os que conseguiram dialogar com as minorias excluídas do processo do desenvolvimento daquele território, e até mesmo da organização do Evento, alcançaram algum sucesso

Atitudes nessa direção imprimem sentido ao Esperançar, desde que se esteja na liça com olhos para ver e ouvidos para ouvir.

Sou grato à Raimunda D’Alencar, Professora da UESC-Ilhéus, pela assistência ao texto.



Manoel M. Tourinho (86a). Agrônomo e Sociólogo. Professor Aposentado da UFRA, Belém do Pará e ex-Militante da CEPLAC, na Bahia.