Breves, 24 de fevereiro de 2015.
terça-feira, 19 de maio de 2026
No tempo em que se escreviam cartas de amor no Marajó
sexta-feira, 15 de maio de 2026
Mais natureza e menos tecnologia é o que a Amazônia precisa
Por Manoel Tourinho e Roberta Coutinho.
15 de maio de 2026.
Um livro polêmico, mas um bom livro. Está no mercado. O livro se chama: “Amazônia. Ocupação, problemas socioambientais e desenvolvimento sustentável”. Editado pela Editora Vozes, em 2025. A “Vozes” merece respeito, e o autor idem. Francisco Benedito da Costa Barbosa, Barbosinha, como é chamado por seus colegas, inclusive por Tourinho, seu colega de turma. Barbosinha é Agrônomo, formado por aqui mesmo. Conhece o que escreve e defende o que escreveu. Pois bem, a obra tem 690 páginas, que acomodam 15 capítulos encapsulados em três partes. Uma extensa bibliografia de apoio, que dá ao autor a capacidade de cotejar números e interpretações que vão desde a economia da Hevea ao extrativismo madeireiro, atividade com impacto ambiental encoberto (sic), atrelada à pecuária ultraextensiva. Aborda as ações ambientalistas, como o zoneamento ecológico e econômico da BR-163, e faz loas à chegada da produção agropecuária e florestal sustentável, baseada nas ciências agrárias e suas diferenciações disciplinares.
Alfredo Homma, um notável da EMBRAPA – Amazônia Oriental, refere-se ao livro como uma “minienciclopédia sobre 15 temas sensíveis sobre a Amazônia, atualmente com desinformação e preconceitos, e sem antíteses”. A bem da observação muito pertinente do agrônomo cientista da EMBRAPA, é urgente convocar um livre debate sobre as antíteses. Mas um debate que permita aos tesistas não serem desconsiderados porque trazem teses que desagradam um dos lados, ou que deixe o tesista falar e depois simplesmente se fazer de rogado diante das suas observações e propostas. Essa postura ficou muito visível e acentuada nos debates encetados na COP-30, quando rentistas e invasores da natureza amazônica se enfiaram em “bunkers” de proteção às ideias contrárias vindas dos movimentos sociais das minorias, como, por exemplo, a tese das tecnologias pesadas e inadequadas à natureza amazônica.
Um capítulo relevante nesse tipo de debate é o capítulo 9, que tem como título: “A crescente perda do capital natural”. Essa parte do livro tem a ver com a natureza amazônica e tecnologias. Daí o título desse artigo: “Mais Natureza e menos Tecnologia”, porque são as tecnologias brindadas nos sistemas de produção dos novos “modus economicus”, as responsáveis pelo desastroso manejo da natureza amazônica, conforme a leitura permite avaliar e verificar a inexistência de uma ética – ou éticas - orientadora de relações amorosas entre o homem, a natureza e o amor divino. Na nossa região, as paixões governam as ações, tanto aquelas vindas da economia privada quanto aquelas vindas do setor público governamental, conduzindo a erros grosseiros que agridem a natureza.
No que tange essa chamada, dois comentários são pertinentes, ambos abordados no livro de Francisco Barbosa, acima mencionado: o primeiro diz respeito ao zoneamento ecológico-econômico da BR-163. O governo propõe um ordenamento do território sob influência do eixo rodoviário. O setor privado, movido por suas paixões e sem nenhuma ética com a natureza, muda aquilo que foi planejado. A própria EMBRAPA foi muito envolvida com a proposta. A UFRA criou um campus em Santarém, iniciando as suas atividades de extensão, pesquisa e ensino com a engenharia florestal, com o propósito de trazer alternativa à expansão da soja que descia do Planalto Matogrossense em direção às terras baixas da Amazônia, às margens do rio Amazonas. Então, em seu livro, o autor Barbosa assim se expressa sobre o assunto: “Observa-se que as tentativas com o Plano de Desenvolvimento Regional Sustentável para a área de influência da Rodovia BR-163 (DES-BR 163), o Zoneamento Ecológico-Econômico da BR-163 e a extensa legislação ambiental não conseguiram, até o presente, seu objetivo maior que é a preservação e a produção sustentável nessa área e, ampliando-se o foco, pode-se dizer que muito menos tem sido conseguido em toda a Amazônia Legal”, como vem acontecendo com o uso da terra na região da rodovia Transamazônica (BR-230), cuja concepção simbolizou a conquista da Amazônia pelo poder militar. Dos 4.260 Km dessa rodovia, apenas um trecho foi colonizado, de Altamira à Itaituba, ou seja, 12% deram certo em virtude dos solos de alta fertilidade, da opção pelo cultivo do cacau e da condução sociotécnica pela CEPLAC, possibilitando um manejo imitativo da natureza, sem significativas alterações nas relações sistêmicas e próprias ao uso da terra na Amazônia.
Após a intencional e maléfica desidratação da CEPLAC na região e a privatização completa dos destinos da cacauicultura, acentuam-se três fenômenos de ampla reverberação tecnológica: a “chacarização”, o remembramento das parcelas originais de 100 ha e a eliminação do manejo sombreado do cacau, com ampla exposição da planta ao sol, acentuando-se a dependência de ‘pacotes tecnológicos’ densos em capital, inclusive irrigação. Tais eventos, num futuro à vista, protocolam insucessos da colonização, além de ativar conflitos pela posse da terra. Anterior à abertura da rodovia Belém-Brasília, em 1959, a Amazônia tinha 87% dos seus ecossistemas inalterados, e as atividades de uso da terra ocupavam apenas 1,8% do território amazônico, segundo Barbosa.
Não se trata de usar tais números e comentários com o propósito de defender a Amazônia como santuário intocável. Não, não é isso. Mas usar tecnologias inadequadas é uma questão de má fé. Isso vem acontecendo com a justificativa das necessidades de atender aos mercados, os quais vivem de costas para a natureza, para a cultura local. Essas tecnologias são responsáveis pela perda das capacidades substantivas da natureza amazônica, levando-a às fronteiras do “ponto de não retorno” das essencialidades qualitativas e quantitativas. Até mesmo ecossistemas com história biogeoquímica de retorno estão ameaçados. Refiro-me às várzeas, cuja dinâmica pedológica e florestal se vê ameaçada pela composição físico-química dos seus sedimentos, formadores dos solos de várzea. As más tecnologias aplicadas nas terras altas para a produção agropecuária são indutoras da perda do capital natural: as taxas de erosão e deposição na bacia dos rios amazônicos são bem próximas, e na medida em que os atuais padrões de uso da terra forem permanecendo, ocorrerá a correspondente alteração do material depositado. Nesse sentido, infelizmente, a perda do capital natural será cada vez mais crescente e volumosa.
Manoel Tourinho é agrônomo, professor aposentado da Universidade Federal Rural da Amazônia – Belém/PA, ex-militante da CEPLAC/ Bahia.
Roberta Coutinho é agrônoma, mestre em Solos da Amazônia e pesquisadora do GPGESA da UFRA, Belém.
domingo, 10 de maio de 2026
Crônica para lembrar de bons homens
Era uma segunda-feira de maio. Ajeitei-me para seguir para a universidade. Nesse dia eu participaria do sorteio do tema da prova didática em um concurso para professor substituto, cuja aula do tema sorteado seria ministrada no dia seguinte. Pedi o serviço de carro por aplicativo. Deivid o motorista do carro chamado. Viagem normal até chegar próximo ao Parque do Utinga. Nosso carro bateu na traseira de um outro veículo. Um susto com a freada brusca. O que estava engarrafado, ficou pior com nosso acidente. A condutora do outro carro saiu para ver o pequeno estrago. Não sou muito entendedor de automóveis, mas tive a impressão de pouco impacto no veículo. Deivid também saiu pra dialogar. Fiquei observando a conversa deles no meio da pista. Ela estava nervosa perto de um homem desconhecido, que envolvia uma batida de carros, com um monte de gente buzinando e num tempo em que pipocavam nas redes sociais as monstruosidades masculinas em várias regiões do país, não que não houvesse antes, mas as telas explodiam de casos. Ela segurando o celular com as mãos trêmulas. Deivid foi solícito:
- Estou sem
razão dona, o que for para ser pago, vou pagar. Não se preocupe.
- Estou
falando com meu namorado, pois ele entende de carro melhor que eu. O prejuízo é
de 500 reais.
- Tranquilo.
Me diga qual o seu pix?
Transação
feita. Ela seguiu. Nós seguimos.
Deivid
comentou comigo:
- Ela tava
muito nervosa. Acho que ela pensava que eu iria tratar mal, gritar, intimidar.
Sou desse tipo de homem não. Sei que tem muito cara escroto por aí... Mas seu Carlos, que
horas o senhor tem que chegar?
- Antes das 8
horas.
- Rapá, bora
então.
Chegamos na universidade. Adentrei a sala onde se realizaria o sorteio às 7h59min. Uma moça chegou 8h02min e
não conseguiu participar. Foi por pouco. O tema sorteado para a prova didática
foi Governança e Manejo dos Recursos Naturais.
Passei o dia
fazendo plano de aula. Pedi para minha filha imprimir. Preparei a aula de
noite após a dormida do meu filho. Terminei de preparar minha aula por volta de
meia-noite. Botei o despertador para tocar às 5h30min.
Acordei,
fiz o café, adiantei algumas coisas para a ida de Neri e Vicente para a terapia,
tudo ajeitado, tudo certo. Pedi o serviço de carro por aplicativo novamente para
a universidade. Eram 6h25min. O prazo máximo para estar na sala de realização
das apresentações para os participantes da seleção era 7h30min.
Deu 6h30min. Nenhum
carro aceitou corrida. 6h35min, 6h40min. Comecei a ficar preocupado. Às 6h45min
um carro aceitou. José era o motorista. Digitei nas mensagens.
“Bom dia. Não
desista de mim rsrsrs”.
Saímos às
6h50min.
- Mestre,
temos que tentar a rota mais rápida possível.
- Pode deixar,
seu Carlos.
E logo nos deparamos com um engarrafamento digno de assim ser chamado. Nem saída para um lado,
nem para outro. Uma terça-feira. Tudo parado. Seu José fez as contas, me deu esperança, traça um
plano aqui, outro acolá e em certo momento concluímos que o melhor era achar
uma moto por aplicativo. Ficamos na espreita.
- Você tá
fazendo corrida? – Seu José perguntou ao motoqueiro que passava com um capacete preso ao braço.
- Tô não, tô
indo buscar minha mãe.
E fomos
procurando, procurando, até que eu decidi:
- Seu José,
olha, eu vou descer pra procurar uma moto. Tá tudo bem, tá? É que eu preciso
tentar outro meio.
- Tranquilo,
seu Carlos, entendo sim. Pode ir... Mas estamos na pista do meio. Deixa eu só ver se tá limpo para o senhor
abrir a porta... vai.
Segui na busca por alguma moto, já naquele sentimento de um time que precisa fazer um gol aos 48 minutos do segundo tempo e que a tática já foi pro espaço. Olhei para o relógio. 7h15min. Estou no cruzamento da Avenida Júlio César com a Almirante Barroso. Concluí que não chegaria a tempo. Só se voasse (cadê o skate voador que nos prometeram nos anos 1980??). Pronto. O jogo acabou, fiquei por uns minutos andando sem pensar pela calçada, sem saber pra onde iria. Voltei pra casa.
Chateado. Mordido.
Me xingando. Mea culpa, mea culpa. Um dia todo remoendo, querendo dormir e só
dormir pra passar a raiva. Mas não passava. Veio a tristeza. Veio a conclusão: o
único culpado por perder a prova fui eu. Essa mania que tenho de tentar
controlar o tempo. Mas quem controla? Sempre raspando, sempre nas últimas, pra
pegar avião, pra pegar barco, para chegar nos compromissos familiares, nas
agendas profissionais. Não era assim, fui ficando assim. Mas até barco já
voltou pra me buscar, aí não fui punido. Deveria. Agora não teve jeito. Aceita e evolua,
Carlos! Eu já disse que fiquei muito triste com o ocorrido? Já né?
Na sexta-feira
da mesma semana, fui ao Incra. Fui de ônibus. Caminhando em uma rua em que não
costumo seguir, indo para um órgão que não costumo estar, num horário fora de
minha rotina, em uma cidade de milhões de habitantes como Belém, ao passar por
uma borracharia, uma voz me chamou.
- O senhor
conseguiu chegar a tempo? Carlos, né?
- ??
- Lembra de
mim?
- Simmm. Da corrida na terça... Ahhhh, Seu... – maldita memória que tenho para nome de pessoas.
- José.
- Seu José! –
E lhe dei um abraço.
- O senhor chegou a tempo pro concurso?
- Não cheguei, Seu José. Não cheguei.
- Poxa. Sinto
muito. Cara, eu fiquei com a consciência muito pesada. Fiquei pensando “cara,
ele precisava chegar”. Fiquei pensando nisso.
- Ô, Seu José.
A culpa foi minha. Só minha.
E José começou a lagrimar. Sentiu que eu tinha perdido algo muito importante. Se colocou no meu lugar. Eu fiquei sem jeito, mas admirado de uma pessoa que só me viu uma vez na vida ter tido empatia pelo que perdi. Não sabia nem o que fazer... Ele lagrimando... rude, mas sentimental e o mais importante: humano. Pensei em soltar uma frase dessas pomposas em cerimônias de premiação: “por sua empatia para comigo, eu te lembrarei nesse momento solene que és um homem trabalhador, digno, pessoa de boas atitudes que a Humanidade precisa e deveras confiável”. Mas só pensei, porque a única coisa que pude fazer foi colocar a mão no seu ombro e dizer:
- Mano, tu és um
bom homem.
José soltou um sorriso. Ergueu a
cabeça. Nos despedimos e seguimos em nossas pelejas e aprendizados.
E assim a semana
terminou... em paz.
Pantoja Ramos.


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